23/09/2017

A Chave


A chave, ela existe mas para quê?






A CHAVE

E de repente
o resumo de tudo é uma chave.
A chave de uma porta que não abre
para o interior desabitado
no solo que inexiste,
mas a chave existe.
Aperto-a duramente
para ela sentir que estou sentindo
sua força de chave.
O ferro emerge de fazenda submersa.
Que valem escrituras de transferência de domínio
se tenho nas mãos a chave-fazenda
com todos os seus bois e os seus cavalos
e suas éguas e aguadas e abantesmas?
Se tenho nas mãos barbudos proprietários oitocentistas
de que ninguém fala mais, e se falasse
era para dizer: os Antigos?
(Sorrio pensando: somos os Modernos
provisórios, a-históricos…)
Os Antigos passeiam nos meus dedos.
Eles são os meus dedos substitutos
Ou os verdadeiros?
Posso sentir o cheiro do suor dos guarda-mores,
o perfume- Paris das fazendeiras no domingo de missa.
Posso, não. Devo.
Sou devedor do meu passado,
cobrado pela chave.
Que sentido tem a água represada
no espaço onde as estacas do curral
concentram o aboio do crepúsculo?
Onde a casa vige?
Quem dissolve o existido, eternamente
existindo na chave?
O menor grão de café
derrama nesta chave o cafezal.
A porta principal, esta é que abre
sem fechadura e gesto.
Abre para o imenso.
Vai-me empurrando e revelando
o que não sei de mim e está nos Outros.
O serralheiro não sabia
o ato de criação como é potente
e na coisa criada se prolonga,
ressoante.
Escuto a voz da chave, canavial,
uva espremida, berne de bezerro,
esperança de chuva, flor de milho,
o grilo, o sapo, a madrugada, a carta,
a mudez desatada na linguagem
que só a terra fala ao fino ouvido.
E aperto, aperto-a, e de apertá-la,
ela se entranha em mim. Corre nas veias.
É dentro em nós que as coisas são,
ferro em brasa – o ferro de uma chave.



Carlos Drummond de Andrade, O Corpo. ( Itabira, 1902 – Rio de Janeiro, 1987)

   A ópera Diva Dance contou com música da ópera de Gaetano Donizetti Lucia di Lammermoor: "Il dolce suono (1ª parte) e a parte dois intitulou-se The Diva Dance.

16/09/2017

In Memoriam João MS!

LIBERDADE

(...)
Sou livre, sou livre...
Sinto-me limitado e impotente.
Não durmo nem sonho.
Queria ser livre para amar 
loucamente.
Aqui, sinto-me asfixiar,
estou incapaz, estou louco
Queria gritar até se ouvir
A minha voz nos céus: sou livre! Estou louco.

João Mattos e Silva, Sem Contorno. Lisboa: Edições Excelsior, 1968, p. 51.


Júlio Pomar para o levar na sua viagem, João.


Ao fim da tarde - a pergunta

Ao fim da tarde, já com a luz do candeeiro


A PERGUNTA

«Ora diz-me», assim falou um dia
A um poeta alguém duro, insensível,
«Se tivesses de optar entre ver morta —
Tua mulher, a quem tanto querias —
E a perda total, irreversível,
De teus versos todos, dela em troca —
Qual das perdas tu mais sentirias?»

O poeta olhou surpreso, em dor
E desgostoso, o interlocutor,
Cuja pergunta sem cabimento
Quebrou seu íntimo recolhimento,
Sem responder; sorriu o outro então
Como se fora seu mais velho irmão:
A percepção do sentido atento
Ao súbito, intenso conhecimento
Da nova consciência que o apanhara,
Foi mais amargo do que imaginara.
Mais, do que um sorriso, violento.


Alexander Search, Lisboa: Assírio & Alvim, edição e tradução de Luisa Freire, 1999


Agradeço ao João Menéres que me enviou por e-mail a Carmen (no gelo). Nunca tinha visto e adorei.

11/09/2017

Regresso à infância

Imagem relacionada
Ilustrações de José A. Cambraia, 2ª edição do livro em Portugal, 1971


As leituras de férias já voaram. Agora, talvez, porque regressar ao trabalho custa; pensamos sempre, não podemos ficar mais um bocadinho?...
Então decidi re-re-reler um livro de infância. Um livro da grande Senhora Enid Blyton, "Uma Casa da Árvore Oca". 
Escusado será dizer que o gosto com que o leio é o mesmo de outrora.
Não é um livro para a menina ou para o menino, é um livro para jovens, com a idade escolar da 4ª classe, no passado, do 2º ciclo, no presente. Ele desperta a curiosidade, a interpretação, a moral, a justiça, o afecto, a camaradagem e as vicissitudes do ambiente social que nem sempre é o mais favorável. 
Já aqui foi focado quando a Cláudia Ribeiro, da Lumière, mo arranjou.

Blyton era genial!

Todavia, também o trouxe a pensar num amigo que hoje faz anos, que leu alguns títulos que eu li porque todos os pais ou amigos ofereciam os livros da Colecção Azul, ou os livros da Enid Blyton...

Parabéns, João Mattos e Silva!
Tenha um dia feliz.

Fazer anos é também fazer uma viagem à infância.

Nunca tive uma casa na árvore, o mais semelhante, foi ter um navio realizado com cadeiras e um sofá, na casa da avó. Acreditem que as viagens eram fantásticas.




09/09/2017

Outra face do Brasil


Cada vez mais  eu escrevo 
com menos palavras. Meu livro
melhor acontecerá quando
eu de todo não escrever.

Clarice Lispector in

Exposição: Clarice Lispector, Na Hora da Estrela, Fundação Calouste Gulbenkian, 2009




05/09/2017

Classe Latina

Dr. Atl. (Gerardo Murillo), Dama com Vulcões, 1944

Resultado de imagem para dr atl

http://www.artnet.com/artists/dr-atl-gerardo-murillo/past-auction-results/5

"A Cruz Vermelha mexicana enviou uma equipa de voluntários para Dallas, no Texas, com o objetivo de ajudar os norte-americanos a fazer face à devastação provocada pelo furacão Harvey. Uma oferta prontamente aceite pelo governador do Texas, Greg Abbott..." 
Euronews

Não sou boa a fixar ditados populares, mas lá que o México deu uma "bofetada com luva de pelica" ao Senhor Trump, deu.

Não há dúvida que os latinos hão-de sobreviver a todas as intempéries.

Podemos (latinos) não ser ricos mas somos umas ricas pessoas.


Intermezzo composto pelo mexicano Manuel María Ponce Cuéllar 

03/09/2017

Centauro atormentado por uma Ménade

Centauro atormentado por uma Ménade, 1770-1778
pintura de óleo em seda, Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, Madrid



A maldade feminina ou a ferida protectora?
O amor ou o ódio?
O que transmite esta pintura?


02/09/2017

Desastre nas coisas mais simples



Nunca são as coisas mais simples
que aparecem quando as esperamos.
...O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos,
não se encontra no curso previsível da vida.
Porém, se nos distraímos do calendário,
ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras.
Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar;
ou a mão que se demora no teu ombro,
forçando uma aproximação
dos lábios.


Nuno Júdice, As Coisas Mais Simples, Lisboa: D. Quixote, 2006.


23/08/2017

Sabedoria em memória de A. H. Oliveira Marques

Em memória do professor Oliveira Marques que nasceu em 1933, a 23 de Agosto, reflecti sobre estes dois textos um de Platão e outro do historiador. 
Tudo se pode interligar quando queremos ver.


Sócrates sentou-se e respondeu:
-Seria bom, Agatão, que a sabedoria fosse uma coisa que se pudesse transmitir, de um homem que a possui, a um homem que não a possui, mediante um simples contacto mútuo, tal como a água que passa para um copo vazio através de um simples fio de lã.


Platão, O Banquete ou do Amor, Coimbra: Atlântida Editora, sd, p. 44.



A. H. Oliveira Marques, "História genealógica do homem comum: micro-história ou macro-história?", Revista da Faculdade de Letras História,Porto, Série, III, vol. 4, 2003, pp. 173-186.



22/08/2017

Ginjinha!

O pecado da gula - o que resta da ginjinha, mas acreditem despareceu tudo.


O local do crime


Uma das entradas no Castelo de Ourém


O meu portal


Grafismos no portal aberto para o infinito.


A hora da partida... (?)


                              

É mais fácil com uma mão
dez estrelas agarrar
fazer o sol esticar
reduzir o mundo a grude
mas ginja com tal virtude
é difícil encontrar.

[Versos a decorar as paredes da Ginjinha do Rossio]
Gabriela Carvalho, A Baixa de Lisboa, Lisboa: Inapa, 2005

Solista -Mari Silje Samuelsen

19/08/2017

Viagem pelo nosso país


Como um dente-de-leão, o nosso país verdejante fenece frágil aos fogos de Verão.
É uma maldade da mão do homem que se espalha naturalmente pela força da Natureza.
Os homens choram pela vida e pelos bens.
Perdemos oxigénio, perdemos o verde que aquece a alma e o olhar, é como com o dente-de-leão a beleza desaparece com o sopro.
Gosto tanto do Verão e do tempo quente que é uma pena associar-se a este flagelo, ... o azar para muitos e as vantagens para alguns.



Recentemente homenageou-se o rei do Rock. Não é a minha música mas está de acordo com o tema .
que escolhi.

 

18/08/2017

Para a Isabel

Parabéns Isabel.
Um dia muito feliz!

Joaquín Sorolla -Corriendo por la playa, 1908. 
Museo de Bellas Artes de Asturias, Oviedo, España.

Corriendo por la playa. Valencia

http://www.museobbaa.com/obra/corriendo-por-la-playa-valencia/


Correria,
risos,
salpicos,
o sol e o mar, 
a vida e a alegria
são 
a escrita na areia,
numa tarde de Agosto
nos idos de sessenta.

ana

11/08/2017

Leituras de Verão - "O Que Falta ao Mundo para Ser Quadro"

O Que Falta ao Mundo para Ser Quadro é um livro de Rosa Alice Branco, um livro de 1993, com alguns anos, mas não ultrapassado. 

O livro foca a percepção, o olhar sobre a Arte e a linguagem da arte ao longo de algumas correntes artísticas. 
Uma das passagens do livro revela que Kandinsky desenvolveu na sua obra, Do Espiritual na Arte (1912),  "a ideia de que a obra de arte deve ser profética, na medida em que sendo filha do seu tempo deve realizar-se para a frente, por antecipação e para cima, em viagem, tentando alcançar o vértice do triângulo espiritual."

Gostei especialmente deste excerto, o tempo, esse grande peso que é para o homem, o tempo que produz os seus efeitos, o tempo que mostrei numa postagem sobre a Figueira da Foz. Ele sempre ele a marcar o ritmo.

Também o livro tem o seu tempo, foi produzido segundo as ideias em voga e a ciência do momento, mas ele é intemporal.
O livro é um estudo filosófico sobre a percepção, a ilusão e o objecto da arte.

Achei deliciosa a capa, ou seja a escolha ter recaído sobre um quadro de Magritte, A Condição Humana, (1933). 
Arranjei o livro na Livraria Lumière.

08/08/2017

Cat's Day

No dia Mundial do Gato e porque sou fã de gatos a minha escolha recai num desenho de Joaquín Sorolla, um pintor que visitei nestas férias. Curiosamente, na sua casa, em Madrid, não vi nenhuma pintura com gatos.

Joaquín Sorolla, Apontamentos sobre gatos retirado do site:
Apuntes de gatos y figura - Dibujo - http://europeana.eu/portal/record/2022


O estúdio de Joaquín Sorolla

Artefactos do pintor



MAGNIFICAT

Quando é que passará esta noite interna, o universo,
E eu, a minha alma, terei o meu dia?
Quando é que despertarei de estar acordado?
Não sei. O sol brilha alto,
Impossível de fitar.
As estrelas pestanejam frio,
Impossíveis de contar.
O coração pulsa alheio,
Impossível de escutar.
Quando é que passará este drama sem teatro,
Ou este teatro sem drama,
E recolherei a casa?
Onde? Como? Quando?
Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?
É esse! É esse!
Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;
E então será dia.
Sorri, dormindo, minha alma!
Sorri, minha alma, será dia!


7-11-1933


Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 298. [Arquivo Pessoa]

Betty Buckley

05/08/2017

Barco(s)

Barco em terra

Barcos

Um por um para o mar passam os barcos
Passam em frente de promontórios e terraços
Cortando as águas lisas como um chão


E todos os deuses são de novo nomeados
Para além das ruínas dos seus templos


In «Mar», antologia com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (com “Nota” de Maria Andresen de Sousa Tavares e “Posfácio” – reedição da primeira recensão feita ao primeiro livro de Sofia, «Poesia», publicado em 1944 – da autoria de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).

Poema retirado daqui


Anderson & Roe's "A Rain of Tears" for two pianos, based on Antonio Vivaldi's "Sento in seno ch'in pioggia di lagrime" ("I feel within a rain of tears")

04/08/2017

O tempo e os homens

O tempo, os homens e o mar...
O mar é sempre o mesmo, 
                                    o da nossa "infância",
livre das mudanças e dos tempos,
bate nas rochas, traz a sua espuma e o seu cheiro a maresia.

Passado, Grande Hotel da Figueira, arquitecto Inácio Peres Fernandes (inaugurado em 1953)

Passado, João de Barros, poeta, nasceu na Figueira da Foz

Presente, Eurostars Hotels, inaugurado em 2014, (passado?)
 arquitectos António Monteiro,  Pedro Santos

Presente


22/07/2017

"estúpido do jardim"





CASCATA

A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são!
Que eu seja volvido criança e o fique sempre, sem que me importem os valores que os homens dão às coisas nem as relações que os homens estabelecem entre elas. Eu, quando era pequeno, punha muitas vezes os soldados de chumbo de pernas para o ar... E há argumento algum, com jeitos lógicos para convencer, que me prove que os soldados reais não devem andar de cabeça para baixo?
A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro vale mais? — A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos amores?
Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdade das coisas, que nós vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nos embrumamos de ideias nossas no mais directo olhá-las!
Será Deus uma criança muito grande? O universo inteiro não parece uma brincadeira, uma partida de criança travessa? Tão irreal, tão (...), tão (...)
Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar e vede como ao vê-la distante de mim de repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a verdade?) E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de angústia...
Acordo para saber que existo...
Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas cascatas, cortiçada abaixo, lá ao fundo estúpido do jardim.

s.d

Bernardo Soares, Livro do Desassossego.  (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982, Vol.II. p. 441.


15/07/2017

A luz - "em sonho"

O que se procura é a luz!

Sagrada Família, Barcelona



A inacção consola de tudo.    [Será?]


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

s.d.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I,(Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. p.221.


11/07/2017

A Rose, is a Rose...

Egon Schiele, Mãe e filho,1914; 
Viena, Áustria - coleção privada
https://biblioklept.org/2015/05/10/mother-and-child-egon-schiele/



Mãe, diz-me, sabes onde estás agora?
-Senhor, habito a espessa cordilheira,
já ninguém me vê nos olhos da concha,
entre corpos... obscuros e... efémeros,
ou entre colmeias brancas e tardias
o silêncio, eterna...mente o puro silêncio,
o vácuo da minha alma enxerga-se
entre corpos... raízes... ninguém me vê,
o silêncio... nos olhos... habi...to a neve
onde edifico o meu... rosto... senhor...!

João Rasteiro, A Rose, is a Rose is a Rose et coetera.  Edições Sem Nome, 2017, p.44.

Este livro de poesia de João Rasteiro é a história, em poema, de sua mãe quando adoeceu com alzheimer.
O título foi inspirado num poema de Herberto Helder.

Obrigada, João Rasteiro.


08/07/2017

Encalhado no jardim


Encalhado no jardim



O músico é o ordenador do caos dos seus sentimentos e emoções.
Fernando Lopes-Graça

Maria do Carmo Vieira, A Arte, Mestra da Vida, reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura. Quimera, 2009p. 73


05/07/2017

Símbolos

Pelourinho de Ourém, século XV, símbolo do poder local



Símbolos,

Sobre o quadrado
 e o fuste octogonal
ergue-se a majestática
coroa aberta com remate em pinha .

Folhas de acanto,
flor de Lis,
adornam a paisagem,
cenário de vales e planaltos,
montanhas verdejantes:
símbolo de esperança.

Esperança num futuro melhor
brindado num copo de vidro.
Dioniso adormeceu,
em seu lugar acordou Apolo.

ana


Uma canção que pensava não conhecer... mas conheço.:))

03/07/2017

A Arte Mestra da Vida

Deixamos a nossa arte escrita para guia da experiêcia dos 
vindouros, e encaminhamento plausível
das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida.

Fernando Pessoa*

Sabemos por experiência, que toda a prendizagem requer a harmonia entre passado, presente e futuro, implicando uma estreita relação entre ensinar e aprender. (...) O pintor francês Jea-François Millet, por exemplo, abordou essa relação, de forma expressivamente maternal, acentuando o papel feminino no gesto poético de ensinar - Lição de Tricotar - que não precisa de agradecimento, tão naturalmente é pertença da humanidade.

Maria do Carmo Vieira, A Arte, Mestra da Vida, reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura. Quimera, 2009, p.30.  * p. 29

Jean-François Millet, Lição de Tricotar,  c.1854,
Museum of Fine Arts, Boston


Imagem retirada  do site do museu:
http://www.mfa.org/collections/object/knitting-lesson-31290


30/06/2017

"O processo eterno e constante"



- É a vida que importa, nada senão a vida: o processo da descoberta - o processo eterno e constante (...), e não a própria descoberta.

Virginia Woolf, Noite e Dia ( 1919). Lisboa: Relógio d'Água, 2012 p.121.

Agradeço à Isabel que me ofereceu este livro.


A minha homenagem a Victor Hugo com a projecção do excerto do filme: Os Miseráveis, dirigido por Tom Hooper.

23/06/2017

Corta-papéis

Um dos poucos corta-papéis que faz parte da minha colecção. Adquiri-o numa feira de velharias. Gosto particularmente dele por ser uma flor e ter um movimento súbtil. Julgo que será Arte Nova. 
Já foi usado para cortar folhas de livros e algumas cartas, na era dos ebooks e da informação global que, apesar disso, não dispensam o papel e o correio.
Do quotidiano e da Arte eis o 
                                                     Corta-papéis



"TODA A ARTE É DIZER QUALQUER COISA"

Outra nota ao acaso

Toda a Arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. Quando se diz «poema sinfónico» fala-se exactamente, e não de um modo translato e fácil. O caso parece menos simples para as artes visuais, mas, se nos prepararmos com a consideração de que linhas, planos, volumes, cores, justaposições e contraposições são fenómenos verbais dados sem palavras, ou antes por hieróglifos espirituais, compreenderemos como compreender as artes visiais, compreenderemos como compreender as artes visuais, e, ainda que as não cheguemos a compreender ainda, teremos, ao menos, já em nosso poder o livro que contém a cifra e a alma que pode conter a decifração. Tanto basta até chegar o resto.
Álvaro de Campos, Sobre a Arte 

1936
Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980, p. 279.
(1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Jul. 1936)


17/06/2017

Reflectir

Museo Nacional de Ciencia y Tecnología, Coruña


A língua portuguesa é rica e dolorosa quando quer. Detesto vulgaridades.
Gaja, é calão ou é vulgar?



13/06/2017

a Senhora Duquesa de Brabante

Um dia feliz é aquele em que nas memórias do mar se descobrem poemas como este de Gomes Leal: Senhora de Brabante.
Gratíssima a quem me falou nele.



Agradeço a todos a visita. Em breve regressarei. :)) 

A Senhora de Brabante

Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua mão macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a Senhora Duquesa de Brabante.

Numa cadeira de espaldar dourado,
Escuta os galanteios dos barões.
— É noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os corações.

Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
à moda goda: — aos toques dos clarins!

Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Dizem as lendas que Satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à Senhora Duquesa de Brabante.

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais louro do que o sol, marmóreo, e lindo,
tirar de uma viola estranhas mágoas,
pelas noites que os cravos vêm abrindo...

Dizem mais que na seda das varetas
do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
— e os seus olhos mais fundos que as raízes!

Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela o seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente dama de Brabante,
tem um filho horroroso... e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante.

É um filho horroroso e jamais visto! —
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto,
— pêlos de fera, e uivos de animal!

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
aborto e horror da brava Natureza...
— Em vão tentam barões, com mil discursos,
desenrugar a fronte da Duquesa.

Sempre a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Ora o monstro morreu. — Pelas arcadas
do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem-se vilões trigueiros das charruas.
Riem-se os padres junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.

Riem-se aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
— Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...

Só, sobre o esquife do disforme morto,
chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
— Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

Só ela chora pelo morto!... A mágoa
lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...


António Duarte Gomes Leal, in Antologia Poética, retirado do Citador


10/06/2017

notivagos - os anjos também choram

Notivagos


Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):

os anjos também choram

os anjos também choram
mesmo nas manhãs mais sublimes
quando o sol acorda lento e devagar
as lágrimas dos anjos
são risos e asas e brandura
homens a digladiar-se 
festas e risos falsos 
quando os anjos adormecem
são felizes e riem
porque sonham com o Éden
onde moram para sempre
e deixam de ser anjos
a afugentar monstros e lobisomens
numa corrida desesperada
de asas incansáveis
mas se já não há deuses
que importa o choro dos anjos
a derramar-se para cá das nuvens
e a fazer infelizes os homens
que sentem as suas lágrimas

Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.

 

02/06/2017

Jardim privado sem "neblina"

Olhar proibido para o jardim privado.

A neblina

Realmente, não é sábio
Aquele que não conhece a escuridão,
Que inevitavelmente e em silêncio
Nos separa dos outros.

É estranho andar na neblina!
A vida é solidão.
Nenhum de nós conhece os outros,
Todos estamos sozinhos.

Herman Hesse "A neblina" in A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grün [monge beneditino] (Prefácio de Mons. Vitor Feytor Pinto). Prior Velho, Edições Paulinas, 2011 (3ª edição), p. 46.




19/05/2017

Silêncio - Um olhar sobre a montanha

Ao fundo a montanha.

Silêncio

Folhas de acanto, banco de namorados, nostalgia soalheira...
canto primeiro donde reconheceu a cegueira  
dando lugar ao arrependimento.

Pedra  simbólica, conta a história
pelas mãos da arquitecta,
incauta pensadora.

Vertigens, desequilíbrios, 
um gosto atractivo pelo abismo.
Mergulho simbólico no vazio
à procura de uma resposta: silêncio secular.

ana



17/05/2017

Yesterday

was black day...



Uivemos, disse o cão.
Livro das Vozes

José Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez. Lisboa: Caminho, 2004, s/nº p



15/05/2017

A arte e a fé

O Papa Francisco trouxe dois novos Santos a Portugal e focou a essência do espírito peregrino.
Com a vinda do Santo Padre também, a cidade se vestiu de objectos simbólicos: o coração gigante e o terço gigante que irradia luz.


Escultura de Fernando Crespo- Coração Francisco, 2017
12mX12m

Suspensão, Terço de Joana Vasconcelos, 2017

Se de alguma forma se sente a paz, também, se pode sentir uma grande inquietude.



linda...

12/05/2017

Maria

Maria é a mãe que, com paciência e ternura, nos leva a Deus, para que Ele desate os nós da nossa alma.
O lugar de Maria na Igreja segundo o Papa Francisco.

É em Maria que a «profecia», no sentido cristão do termo, se define melhor, a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua capacidade de perceção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo, assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o princípio mariano que incarna o caráter profético da Igreja.

Cardeal Joseph Ratzinger, «O Problema da Profecia Cristã», em entrevista de Niels Christian Hvidt, 30Giorni, janeiro de 1999.


Arquivo