19/05/2017

Silêncio - Um olhar sobre a montanha

Ao fundo a montanha.

Silêncio

Folhas de acanto, banco de namorados, nostalgia soalheira...
canto primeiro donde reconheceu a cegueira  
dando lugar ao arrependimento.

Pedra  simbólica, conta a história
pelas mãos da arquitecta,
incauta pensadora.

Vertigens, desequilíbrios, 
um gosto atractivo pelo abismo.
Mergulho simbólico no vazio
à procura de uma resposta: silêncio secular.

ana



17/05/2017

Yesterday

was black day...



Uivemos, disse o cão.
Livro das Vozes

José Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez. Lisboa: Caminho, 2004, s/nº p



15/05/2017

A arte e a fé

O Papa Francisco trouxe dois novos Santos a Portugal e focou a essência do espírito peregrino.
Com a vinda do Santo Padre também, a cidade se vestiu de objectos simbólicos: o coração gigante e o terço gigante que irradia luz.


Escultura de Fernando Crespo- Coração Francisco, 2017
12mX12m

Suspensão, Terço de Joana Vasconcelos, 2017

Se de alguma forma se sente a paz, também, se pode sentir uma grande inquietude.



linda...

12/05/2017

Maria

Maria é a mãe que, com paciência e ternura, nos leva a Deus, para que Ele desate os nós da nossa alma.
O lugar de Maria na Igreja segundo o Papa Francisco.

É em Maria que a «profecia», no sentido cristão do termo, se define melhor, a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua capacidade de perceção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo, assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o princípio mariano que incarna o caráter profético da Igreja.

Cardeal Joseph Ratzinger, «O Problema da Profecia Cristã», em entrevista de Niels Christian Hvidt, 30Giorni, janeiro de 1999.


09/05/2017

"Sobre o Caminho"

A chegar ao destino?


Sobre o Caminho

Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, Véspera da Água. Lisboa: Assírio e Alvim, 2014 (2ª edição)


06/05/2017

Bizarro mas com harmonia

Como é possível tirar harmonia deste instrumento bizarro?



A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

s.d.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Vol II."Fase confessional", segundo António Quadros (org.) Mem Martins: Europa-América, 1986.



03/05/2017

Para a Graça

Parabéns Graça!
Um dia muito feliz.

Uma rosa com graça para a Graça que vive a vida e a escrita com paixão.:))




SOS Azulejo

Detalhe do painel de azulejos da Igreja de Nossa Senhora do Olival, Lisboa,
Lua
SOS Azulejo é um projecto levado a cabo pelo Museu da Polícia Judiciária para promover a valorização do património azulejar português junto aos jovens, propondo às escolas a participação com trabalhos pedagógicos.

Dói a alma ver azulejos centenários, e não só, delapidados, roubados, deixando uma ausência e um vazio no espaço e na história que está a narrar.

ACÇÃO ESCOLA SOS AZULEJO 2017 realiza-se hoje, dia 3 de Maio, a nível nacional.

OBJETIVOS DA ACÇÃO: Chamada de atenção e sensibilização para:
 - A importância e carácter únicos do património azulejar português, a que importa dar continuidade; 
- O actual problema da sua grave delapidação por furto, incúria e vandalismo;
- A necessidade da sua valorização, protecção e fruição por todos os portugueses. 
[Retirado do site do MPJ]

O Museu da Polícia Judiciária conta com várias parcerias salienta-se a do Museu do Azulejo.


27/04/2017

Abril de Sim Abril de Não

A arte e as Humanidades, a palavra e a imagem, hão-de sempre prevalecer.

Abril de Sim Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.


Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote

21/04/2017

Toucado

Toucado cuidadosamente trabalhado,
florescência branca,
                        perfume feminino,
vaidade natural...
                                         Beleza!

Goa

15/04/2017

"formoso dia"

Porque os importunamos?


Os coelhos estão escondidos nas tocas. Os ovos da Páscoa ainda não chegaram por isso é com este olhar de peixe que desejo a todos uma
Páscoa Feliz!



Amanheceu o sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão: e que é o que achou no mundo o mesmo sol, ou quando nasceu no Oriente, ou quando se foi pôr no Ocaso? Quando nasceu achou a terra orvalhada das lágrimas da Madalena, como se ela fora a aurora daquele dia: Mulier, quid ploras?


Trecho do Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, na Igreja Matriz da Cidade de Belém, do Grão-Pará, 1656, de Padre António Vieira. (cap.I).


13/04/2017

"Suavium"*= Beijo

A Primavera no seu esplendor ,
com ela chegou também o dia do Beijo.

No universo da música ficam duas propostas, Besame mucho, uma recordação de infância, e Kiss me, uma canção do século XXI.

O poema que escolhi para homenagear o dia é de António Aleixo. 

*Suavium (ler)


O Beijo Mata o Desejo

MOTE

«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.»

GLOSAS
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo.

Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar.

E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo.
Roubando um, mil te daria; 
 


O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!


António Aleixo, in
"Este Livro que Vos Deixo..."

Gustav Klimt, O beijo, 1907-1908,
Österreichische Galerie Belvedere, Áustria

Com a gentileza do Youtube

11/04/2017

In Memoriam

Maria Helena da Rocha Pereira, 2001
Fotografia de Paulo Ricca, Jornal Público

Há muito se formou entre os mortais
       esta sentença vetusta: a humana  felicidade,
       quando sobe a grande altura,
não morre sem filhos.


Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, Volume I. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (5ª edição), 1979, p. 352.


01/04/2017

Um smile para...

... todos e em especial para o amigo Henrique que regressou de Goa.:))


De um livro que comecei a ler e que agradeço a MR. Retive logo da página inicial, da introdução, estes axiomas:

É nos cérebros que se dão os primeiros duelos. No de cada um, primeiro; depois nas divergências deste e daquele; e, por fim, no terreiro público.

Introdução de Raúl Rêgo à obra Os Burros, de José Agostinho de Macedo, editado pelo Circulo dos Leitores em 1993, p. 7.

(Para o Henrique que trava um duelo).


30/03/2017

25/03/2017

Amanhecer



Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.


William Shakespeare

Porque me recordaram esta ópera Rock ...

22/03/2017

O pagador de promessas

No dia 21 de Março celebrou-se o dia da poesia. O esquecimento é imperdoável. Porém, nunca é tarde para lembrar a poesia. Hoje, chegou até mim uma frase que achei poética, ouvi que havia quem vivesse de pagar promessas dos outros e, por isso, se chama o pagador de promessas, achei tão poético.

O Pagador de Promessas

O pagador de promessas 
é um homem estranho,
cumpre o que o devedor não pode cumprir.
Paga  o choro interior, a dívida espiritual,
o pacto do homem religioso.
O pagador de promessas
vive para anular a inquietude dos outros.

ana
Agradeço a quem me falou nesta personagem.


O AUTOR AOS SEUS VERSOS

Vós, que de meus extremos sois a história,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co pronto auxílio de fiel memória:

Da inveja conseguindo alta vitória
Ide, meus versos, em Amor fiados,
Que dele só dependem vossos fados,
Que nele só demando a minha glória:

Não vos importe o público juízo;
Da voz, que pelo mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.

Voai aos olhos, cuja luz me inflama;
Tereis de Anarda aprovador sorriso,
Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.

Bocage ( retirado do banco de dados da Casa Fernando Pessoa)


18/03/2017

Numa pequena janela

Numa pequena janela
está uma gata à espreita do sol.

A casa não se mede pelo tamanho
mas sim pela alegria que cabe lá dentro.



16/03/2017

O riso do Astro-Rei

« (…) O riso é o final do racional; o pranto é o uso da razão (…) 
Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso:
 chorar com lágrimas é sinal de dor moderada, 
chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; 
e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva...»

O Pranto e o Riso ou as Lágrimas de Heráclito
Discurso integral do Padre António Vieira, 
em Roma no ano de 1674, a convite da Rainha Cristina da Suécia

Paulo Neves da Silva, Citações e Pensamentos de Padre António Vieira, Alfragide: Casa das Letras, 2010, p. 30.

O riso do Astro-Rei

Nasce a levante o Astro-Rei,
não há ruído senão o som da Natureza,
como o marulhar do mar que não está presente.

Contraste de cores, preto, amarelo - ocre,
paleta quase fauve com traço naturalista 
desenha-se no horizonte visível.

O livro aberto, as páginas escolhidas,
as letras sublinhadas resultam da leitura obrigatória,
esquecimento do sonho risível,
do diálogo entre o choro e o riso.

O choro dos tolos é fácil de brotar,
o riso dos fracos fortalece o pensamento,
constrói uma torre de Babel...
Chorar com riso é sinal que se vive sem viver.



11/03/2017

Diálogo


Para além da curva da estrada                                                                    No caminho

Para além da curva da estrada                                                       Encontramos sempre uma barreira
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                    vislumbro uma torre contra a utopia,
E talvez apenas a continuação da estrada.                                   Na continuação do caminho.
Não sei nem pergunto.                                                                   Nele me embrenho.
Enquanto vou na estrada antes da curva                                      enquanto caminho, só olho em frente
Só olho para a estrada antes da curva,                                         para as árvores e o céu,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                 Porque não adivinho o que há para lá
De nada me serviria estar olhando para outro lado                      do caminho e que não vejo.
E para aquilo que não vejo.                                                            Procuro não sentir mas sinto,
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                            O passado/presente e não o futuro
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                  Clepsidra tangível;
Se há alguém para além da curva da estrada,                                             não encontro quem caminhe
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.      Para lá da montanha,
Essa é que é a estrada para eles.                                                                  o caminho para o cume
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.               Chegarei lá?
Por ora só sabemos que lá não estamos.                                          Só sei e sinto o peso de estar aqui,
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                  nesta encruzilhada do caminho onde
Há a estrada sem curva nenhuma.                                      as pedras magoam e o caminho desaparece.

Alberto Caeiro, s.d.                                                                                           11-03-17 ana


Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.


08/03/2017

Retrato...

No dia da Mulher :



Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'


05/03/2017

Janelas

Gosto de janelas e das paisagens que se vêem através das janelas. Daí trazer estas duas telas.

Janelas de Karen Hollingsworth
 Acerca da pintora siga-se este link



Para mim, estas janelas representam o quotidiano tranquilo, aquele que ninguém pode estragar. O silêncio, o livro aberto largado, os livros em cima da mesa, o gato, tudo é perfeito para que se retome o momento.

Pintura fotográfica? Talvez, mas é pintura.

No livro que comecei a ler sobre Amadeo de Souza-Cardozo de Mário Cláudio, intítulado Amadeo encontrei este trecho que inicia o livro:

A Casa é uma teoria volumétrica por entre a vegetação, maior do que todo o Mundo, impossível de arrumar. Por torres e telhados se levanta, paredes de cal alternando com panos de muralha...

Mário Cláudio, Amadeo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1984, p. 7.

O registo fez-me lembrar este jogo volumétrico cortado pelas janelas, também elas com volumetria própria...

É incrível mas regressamos sempre a Casa, a casa que nos formou, a casa que nos criou.

À minha avó que hoje faria anos e com a qual vivi uns tempos.

...uma canção que me cantava

04/03/2017

Memories

Recordações: há um ou outro vestígio do mar que guardamos mesmo no local que nos parece improvável.



Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe ressoar dos temporais


Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre a minha alma foi criada


Sophia de Mello Breyner, O Búzio de Cós e Outros Poemas, Editorial Caminho, 1999.

 

02/03/2017

todo o universo



O mar tem tanto de belo como de cáustico:
atrai, encanta-nos, ofusca-nos.
No entanto, o seu sal pode queimar os incautos
sonhadores, crianças gigantes despojadas de sentido…
fazem do micro mundo um exagero perdendo a razão de ser.
Os que sentem e amam são tolos não sabem a proporção das escalas.
macro?...
micro?...
todo o universo se reduz a sentir alegria ou dor, grande ou pequena
do tamanho de um grão de areia ou de uma montanha vulcânica.
Proporções?
O que é isso quando se fala de amor?
O poeta diria que tudo é ridículo.


25/02/2017

"A cada qual..."


A cada qual dá Deus o frio conforme anda vestido.

Carlos Pittella e Jerónimo Pizarro, "Como coleccionar Provérbios" in Como Fernando Pessoa pode mudar sua vida, primeiras lições.  Lisboa: Tnta da China, 2017, p.61.



19/02/2017

padrão/paradigma

padrão = modelo, paradigma.                                      Mário Cesariny, Naniôra, Uma e Duas, 1960, Centro Aarte Moderna Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian


O paradigma humano é dos mais difíceis de entender. Porém, há um conjunto de sinais que se repete, que se constrói, que vêm a delinear e a desenhar um rosto.
Nem sempre queremos ver o rosto que sai do papel, embora, o tenhamos presente, não o queremos ver. Os olhos traem a nossa mente.
Do esboço, no entanto, sai um rosto real que nos observa, que nos trai, que nos interpela de diferentes maneiras, que nos distrai, que nos confunde e que no final fica só.
Há o fio umbilical ligado a si próprio, tal narciso, nem da posição fetal se recorda. 
Há um princípio e um fim mas a realidade fica à margem deste ciclo e acaba... mal.

ana


16/02/2017

"Basium, osculum e suavium"


“Beije-me ele com os beijos da sua boca: Porque teu amor é melhor do que o vinho”
 Cântico dos Cânticos, Bíblia

Há muito, muito tempo, beijar era um acto que se dividia em várias dimensões. Tudo podemos sistematizar e organizar julgando que assim criamos conhecimento. Os romanos tinham 3 tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas em amigos íntimos; e o suavium, que era o beijo dos amantes.
No beijo ao anel dos bispos ainda temos uma herança do mundo romano. Contudo, é o suavium que aqui nos interessa, a mesma raiz linguística que nos remete para o belo texto religioso musicado para coros por muitos dos mais magistrais mestres em composição.
Ao contrário da mundivivência latina, hierarquizada e quase por castas, o beijo nos lábios, na boca, remete-nos para o campo da partilha, e não da hierarquia. No beijo todos são iguais. No beijar, as duas bocas são a imagem da igualdade na dádiva.
E o que são dois amantes? Recordo um amigo que há uns meses dizia numa conferencia que a base da palavra francesa para conhecimento era exactamente a ideia de «nascer com...». "Connaître" = "con"+"naître". No fundo, só conhecemos aqueles com quem nos damos de tal forma que tornamos a nascer. Se o êxtase sexual pode ser solitário, o beijo dificilmente é masturbatório. Há sempre um outro no beijar. É sempre com...
Há beijos que ficam na memória. A intensidade, a doçura, tudo neles nos deixa recordações inesquecíveis. Os lábios, a pele, os jeitos de entrega e de partilha. Sim, recordo a imagem do texto gnóstico em que o beijo de Jesus a Maria Madalena era... de amante ou de transmissão de sabedoria?...
Mais que igualdade, o beijo é, de facto, conhecimento – e agora não o cartesiano, não hierarquisador, mas interior, do ser irrepetível que cada um expressa no beijo. É do campo da Verdade, o in vino veritas, ou inebriamento desse mesmo néctar como o Cântico dos Cânticos nos indica.
O beijo possibilita, numa catadupa de sentimentos, aceso ao íntimo, ao recôndito e tantas vezes escondido ou esquecido. O beijo marca. Um beijo deixa marca como a que ficara no ombro – “toquei-te no ombro e a marca ficou lá”, dizia Sérgio Godinho; se esse toque tivesse sido um beijo, desejo eu, Estrela!
No limite, na troca de um beijo intenso, nas humidades e fluídos variados, há um renascer com a parceira, há um baptismo vivido, uma imersão, na intensidade do Eu e do Tu que se misturam.
Sim, o Beijo é um conhecimento que é entrega, porque partilha. É o «Com» que dá sentido. Um sentido recíproco que torna todos os momentos verdadeiramente únicos, irrepetíveis e de constante re-nascimento.
Renascer, crescer, viver. Tudo se conjuga com beijar.»
Paulo Mendes Pinto, In Visão

14/02/2017

naïve

Qual deles escolher?

naïve  - having or showing unaffected simplicity of nature or absence of artificiality;
- unsophisticated;
- ingenuous.

Elena A. Volkova, Young Girl from Sibera. Daqui



12/02/2017

Em torno do beijo

Francesco Hayez, O beijo, 1859, Pinacoteca de Brera, Milão

Detalhe retirado do Guia da Pinacoteca de Brera

Wikipédia

O beijo uma tela de Hayez, romântica no cenário, na emoção e no brilho azul celeste do vestido.
A luz emana da mulher; a sombra da figura masculina projecta-se no enlace fulgoroso, na pujança varonil; a fragilidade e a doçura feminina exaltam a entrega. Modelos intemporais.

O que estou a ouvir:

10/02/2017

Janela aberta

Em especial para a minha amiga Alexandra, a quem 
deixo os meus parabéns com um "Magritte" real e com 
o desejo de um dia perfeito!

Janela aberta

O que posso desejar?
Que seja Feliz!

04/02/2017

Cansaço

Um simples banco vermelho de jardim vazio...


Devido a algum cansaço agradeço a todos a presença amiga.
Logo que possa reapareço.



02/02/2017

Narciso


Narciso


Narciso
amarelo
que redundância...
pequeno
na mão
grande 
aos olhos.
Belo na imagem
terrível no ser,
mas tão necessário por vezes,
mesmo que entristeça
o seu autismo.

Força de vencer.


29/01/2017

O tempo...


Tenho uma lista enorme de livros e agradecimentos a fazer a quem mos ofereceu, porém, comecei a ler um que me emprestaram, cujo tema é pertinente nos tempos que correm. O tempo, sempre ele, em espiral, construindo a História mas nunca acaba com os mistérios.

O tempo, diz-se, são os da comunicação e do conhecimento mas no íntimo de cada um dos presentes, atravessa a suspeita dolorosa de estarem cada vez mais próximos da solidão e do desconhecimento de si e dos outros. Sobretudo, dos outros, para quem é mais fácil olhar do que virar os olhos para dentro. 

Ana Zanatti, E onde é que está o amor?, Lisboa: Guerra e Paz, Editores, SA., p.10


28/01/2017

No reino dos gatos

No reino dos gatos os cães ladram fino...


Gata

É de veludo 
roça-se em mim,
chora comigo.
Ri-se de mim
num ron ron 
sem fim...

Chama-se Rita
mas não tem saia...
dança comigo,
troça de mim,
depois adormece
na almofada de cetim.

ana

23/01/2017

In Memoriam - A H. Oliveira Marques

Os homens vivem através dos seus livros e das memórias que deixaram. 
O historiador A. H. Oliveira Marques é uma figura incontornável 
do conhecimento da História em Portugal.

Aqui fica um trecho de um tempo e uma época da História de Portugal.



A H. Oliveira Marques,"Da Monarquia para a república", in História de Portugal (Org. José Tengarrinha). S. Paulo: Editora da Universidade do Sagrado Coração, pp.283-296.

21/01/2017

Névoa



Quando há harmonia o caos instala-se como se a névoa não fosse passar.


16/01/2017

Um minuto...




Não há hipócrita que saiba resistir ao exame de uma longa, de uma paciente observação, e o trabalho dissimulado de um ano perde-se na distracção de um minuto.

Paolo Mantegazza


15/01/2017

Do apolíneo ao dionísiaco

Do apolíneo ao dionísiaco

Salvator Rosa, La menzogna (1635-1673), 

Galleria Palatina di Palazzo Pitti a Firenze
daqui
Imagem relacionada
Apolo nasce virtuoso,
cumpre o destino luminoso.
Dionísio canta pela noite
a sombra e os gracejos do prazer.

Apolo transporta as pautas musicais,
o espanto perante a melodia.
Dionísio traz consigo as uvas e o mel,
a bebida do esquecimento.

Apolo beija as flores da manhã,
escuda com a luz a fragilidade humana.
Dionísio traz a máscara do teatro,
num esgar mostra a verdade e a mentira.

A máscara de Apolo é dourada,
a de Dionísio é negra, da cor do carvão.
Botticelli pintou Apolo
e Caravaggio pintou Dionísio.

Ergo o espelho do chão e vejo
Apolo transformar-se em Dionísio
e Dionísio transformar-se em Apolo.
Apolo e Dionísio são uma e a mesma pessoa.

ana

12/01/2017

Há livros que são bálsamo!

Sabe, é curioso, eu tenho cores de Verão e cores de Inverno. Quando está calor gosto de pintar em azul, em verde, em branco. O branco, aliás, posso usá-lo durante todo o ano. E quando está frio gosto do vermelho.

Vieira da Silva in, O Fulgor da Luz, Conversas com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. 
Um livro de Anne Philipe traduzido por Luiza Neto Jorge e editado pela Rolim, Lisboa, sd, p. 14.


Está um frio que faz doer a alma e este livro foi um bálsamo que amenizou a dor.

Obrigada.




Ouvi hoje no rádio do carro a voltar para casa. Um dos meus álbuns preferidos dos Pink Floyd


09/01/2017

Um destino, a História, 2 marcos e mundos diferentes

Talvez seja polémica a minha homenagem por juntar dois rostos tão antagónicos. Contudo, o primeiro a quem presto aqui homenagem existiu e construiu-se  a combater o segundo.
Dois homens que marcaram quatro décadas, influenciaram meio século e estiveram em actividade política exactamente 42 anos: contando ao primeiro (de forma livre) a partir de 1974 a 2017 e ao segundo a partir de 1926 (ministro das Finanças) a 1968. Dois rostos incontornáveis na História de Portugal.


                      Retrato presidencial de Mário Soares,
                         Júlio Pomar, 1992    (Wikipédia)                                     António de Oliveira Salazar
                                                                                                                         (Wikipédia)
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Felizmente, vivi mais tempo em democracia do que em ditadura. Contudo, lembro-me destes dois mundos, do que se estudava na escola, das mentalidades e da ruptura que constituiu viver num e noutro.
Cabe-me agradecer ao Dr. Mário Soares ter tido a coragem que teve, ter optado por construir a sua vida como a construiu e ter feito de Portugal uma democracia.


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