22/07/2017

"estúpido do jardim"





CASCATA

A criança sabe que a boneca não é real, e trata-a como real até chorá-la e se desgostar quando se parte. A arte da criança é a de irrealizar. Bendita essa idade errada da vida, quando se nega a vida por não haver sexo, quando se nega a realidade por brincar, tomando por reais a coisas que o não são!
Que eu seja volvido criança e o fique sempre, sem que me importem os valores que os homens dão às coisas nem as relações que os homens estabelecem entre elas. Eu, quando era pequeno, punha muitas vezes os soldados de chumbo de pernas para o ar... E há argumento algum, com jeitos lógicos para convencer, que me prove que os soldados reais não devem andar de cabeça para baixo?
A criança não dá mais valor ao ouro do que ao vidro. E na verdade, o ouro vale mais? — A criança acha obscuramente absurdos as paixões, as raivas, os receios que vê esculpidos em gestos adultos. E não são na verdade absurdos e vãos todos os nossos receios, e todos os nossos ódios, e todos os nossos amores?
Ó divina e absurda intuição infantil! Visão verdade das coisas, que nós vestimos de convenções no mais nu vê-las, que nos embrumamos de ideias nossas no mais directo olhá-las!
Será Deus uma criança muito grande? O universo inteiro não parece uma brincadeira, uma partida de criança travessa? Tão irreal, tão (...), tão (...)
Lancei-vos, rindo, esta ideia ao ar e vede como ao vê-la distante de mim de repente vejo o que de horrorosa ela é (Quem sabe se ela não contém a verdade?) E ela cai e quebra-se-me aos pés, em pó de horror e estilhaços de angústia...
Acordo para saber que existo...
Um grande tédio incerto gorgoleja erradamente fresco ao ouvido, pelas cascatas, cortiçada abaixo, lá ao fundo estúpido do jardim.

s.d

Bernardo Soares, Livro do Desassossego.  (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982, Vol.II. p. 441.


15/07/2017

A luz - "em sonho"

O que se procura é a luz!

Sagrada Família, Barcelona



A inacção consola de tudo.    [Será?]


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

s.d.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I,(Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. p.221.


11/07/2017

A Rose, is a Rose...

Egon Schiele, Mãe e filho,1914; 
Viena, Áustria - coleção privada
https://biblioklept.org/2015/05/10/mother-and-child-egon-schiele/



Mãe, diz-me, sabes onde estás agora?
-Senhor, habito a espessa cordilheira,
já ninguém me vê nos olhos da concha,
entre corpos... obscuros e... efémeros,
ou entre colmeias brancas e tardias
o silêncio, eterna...mente o puro silêncio,
o vácuo da minha alma enxerga-se
entre corpos... raízes... ninguém me vê,
o silêncio... nos olhos... habi...to a neve
onde edifico o meu... rosto... senhor...!

João Rasteiro, A Rose, is a Rose is a Rose et coetera.  Edições Sem Nome, 2017, p.44.

Este livro de poesia de João Rasteiro é a história, em poema, de sua mãe quando adoeceu com alzheimer.
O título foi inspirado num poema de Herberto Helder.

Obrigada, João Rasteiro.


08/07/2017

Encalhado no jardim


Encalhado no jardim



O músico é o ordenador do caos dos seus sentimentos e emoções.
Fernando Lopes-Graça

Maria do Carmo Vieira, A Arte, Mestra da Vida, reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura. Quimera, 2009p. 73


05/07/2017

Símbolos

Pelourinho de Ourém, século XV, símbolo do poder local



Símbolos,

Sobre o quadrado
 e o fuste octogonal
ergue-se a majestática
coroa aberta com remate em pinha .

Folhas de acanto,
flor de Lis,
adornam a paisagem,
cenário de vales e planaltos,
montanhas verdejantes:
símbolo de esperança.

Esperança num futuro melhor
brindado num copo de vidro.
Dioniso adormeceu,
em seu lugar acordou Apolo.

ana


Uma canção que pensava não conhecer... mas conheço.:))

03/07/2017

A Arte Mestra da Vida

Deixamos a nossa arte escrita para guia da experiêcia dos 
vindouros, e encaminhamento plausível
das suas emoções. É a arte, e não a história, que é a mestra da vida.

Fernando Pessoa*

Sabemos por experiência, que toda a prendizagem requer a harmonia entre passado, presente e futuro, implicando uma estreita relação entre ensinar e aprender. (...) O pintor francês Jea-François Millet, por exemplo, abordou essa relação, de forma expressivamente maternal, acentuando o papel feminino no gesto poético de ensinar - Lição de Tricotar - que não precisa de agradecimento, tão naturalmente é pertença da humanidade.

Maria do Carmo Vieira, A Arte, Mestra da Vida, reflexões sobre a escola e o gosto pela leitura. Quimera, 2009, p.30.  * p. 29

Jean-François Millet, Lição de Tricotar,  c.1854,
Museum of Fine Arts, Boston


Imagem retirada  do site do museu:
http://www.mfa.org/collections/object/knitting-lesson-31290


30/06/2017

"O processo eterno e constante"



- É a vida que importa, nada senão a vida: o processo da descoberta - o processo eterno e constante (...), e não a própria descoberta.

Virginia Woolf, Noite e Dia ( 1919). Lisboa: Relógio d'Água, 2012 p.121.

Agradeço à Isabel que me ofereceu este livro.


A minha homenagem a Victor Hugo com a projecção do excerto do filme: Os Miseráveis, dirigido por Tom Hooper.

23/06/2017

Corta-papéis

Um dos poucos corta-papéis que faz parte da minha colecção. Adquiri-o numa feira de velharias. Gosto particularmente dele por ser uma flor e ter um movimento súbtil. Julgo que será Arte Nova. 
Já foi usado para cortar folhas de livros e algumas cartas, na era dos ebooks e da informação global que, apesar disso, não dispensam o papel e o correio.
Do quotidiano e da Arte eis o 
                                                     Corta-papéis



"TODA A ARTE É DIZER QUALQUER COISA"

Outra nota ao acaso

Toda a Arte é uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa. Há duas formas de dizer - falar e estar calado. As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama. Quando se diz «poema sinfónico» fala-se exactamente, e não de um modo translato e fácil. O caso parece menos simples para as artes visuais, mas, se nos prepararmos com a consideração de que linhas, planos, volumes, cores, justaposições e contraposições são fenómenos verbais dados sem palavras, ou antes por hieróglifos espirituais, compreenderemos como compreender as artes visiais, compreenderemos como compreender as artes visuais, e, ainda que as não cheguemos a compreender ainda, teremos, ao menos, já em nosso poder o livro que contém a cifra e a alma que pode conter a decifração. Tanto basta até chegar o resto.
Álvaro de Campos, Sobre a Arte 

1936
Fernando Pessoa, Textos de Crítica e de Intervenção. Lisboa: Ática, 1980, p. 279.
(1ª publ. in “Presença”, nº 48. Coimbra: Jul. 1936)


17/06/2017

Reflectir

Museo Nacional de Ciencia y Tecnología, Coruña


A língua portuguesa é rica e dolorosa quando quer. Detesto vulgaridades.
Gaja, é calão ou é vulgar?



13/06/2017

a Senhora Duquesa de Brabante

Um dia feliz é aquele em que nas memórias do mar se descobrem poemas como este de Gomes Leal: Senhora de Brabante.
Gratíssima a quem me falou nele.



Agradeço a todos a visita. Em breve regressarei. :)) 

A Senhora de Brabante

Tem um leque de plumas gloriosas,
na sua mão macia e cintilante,
de anéis de pedras finas preciosas
a Senhora Duquesa de Brabante.

Numa cadeira de espaldar dourado,
Escuta os galanteios dos barões.
— É noite: e, sob o azul morno e calado,
concebem os jasmins e os corações.

Recorda o senhor Bispo acções passadas.
Falam damas de jóias e cetins.
Tratam barões de festas e caçadas
à moda goda: — aos toques dos clarins!

Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Dizem as lendas que Satã vestido
de uma armadura feita de um brilhante,
ousou falar do seu amor florido
à Senhora Duquesa de Brabante.

Dizem que o ouviram ao luar nas águas,
mais louro do que o sol, marmóreo, e lindo,
tirar de uma viola estranhas mágoas,
pelas noites que os cravos vêm abrindo...

Dizem mais que na seda das varetas
do seu leque ducal de mil matizes...
Satã cantara as suas tranças pretas,
— e os seus olhos mais fundos que as raízes!

Mas a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela o seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

O que é certo é que a pálida Senhora,
a transcendente dama de Brabante,
tem um filho horroroso... e de quem cora
o pai, no escuro, passeando errante.

É um filho horroroso e jamais visto! —
Raquítico, enfezado, excepcional,
todo disforme, excêntrico, malquisto,
— pêlos de fera, e uivos de animal!

Parece irmão dos cerdos ou dos ursos,
aborto e horror da brava Natureza...
— Em vão tentam barões, com mil discursos,
desenrugar a fronte da Duquesa.

Sempre a Duquesa é triste. — Oculta mágoa
vela seu rosto de um solene véu.
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...

Ora o monstro morreu. — Pelas arcadas
do palácio retinem festas, hinos.
Riem nobres, vilões, pelas estradas.
O próprio pai se ri, ouvindo os sinos...

Riem-se os monges pelo claustro antigo.
Riem-se vilões trigueiros das charruas.
Riem-se os padres junto ao seu jazigo.
Riem-se nobres e peões nas ruas.

Riem-se aias, barões, erguendo os braços.
Riem, nos pátios, os truões também.
Passeia o duque, rindo, nos terraços.
— Só chora o monstro, em alto choro, a mãe!...

Só, sobre o esquife do disforme morto,
chora, sem trégua, a mísera mulher.
Chama os nomes mais ternos ao aborto...
— Mesmo assim feio, a triste mãe o quer!

Só ela chora pelo morto!... A mágoa
lhe arranca gritos que a ninguém mais deu!
— Ao luar, sobre os tanques chora a água...
— Cantando, os rouxinóis lembram o céu...


António Duarte Gomes Leal, in Antologia Poética, retirado do Citador


10/06/2017

notivagos - os anjos também choram

Notivagos


Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):

os anjos também choram

os anjos também choram
mesmo nas manhãs mais sublimes
quando o sol acorda lento e devagar
as lágrimas dos anjos
são risos e asas e brandura
homens a digladiar-se 
festas e risos falsos 
quando os anjos adormecem
são felizes e riem
porque sonham com o Éden
onde moram para sempre
e deixam de ser anjos
a afugentar monstros e lobisomens
numa corrida desesperada
de asas incansáveis
mas se já não há deuses
que importa o choro dos anjos
a derramar-se para cá das nuvens
e a fazer infelizes os homens
que sentem as suas lágrimas

Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.

 

02/06/2017

Jardim privado sem "neblina"

Olhar proibido para o jardim privado.

A neblina

Realmente, não é sábio
Aquele que não conhece a escuridão,
Que inevitavelmente e em silêncio
Nos separa dos outros.

É estranho andar na neblina!
A vida é solidão.
Nenhum de nós conhece os outros,
Todos estamos sozinhos.

Herman Hesse "A neblina" in A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grün [monge beneditino] (Prefácio de Mons. Vitor Feytor Pinto). Prior Velho, Edições Paulinas, 2011 (3ª edição), p. 46.




19/05/2017

Silêncio - Um olhar sobre a montanha

Ao fundo a montanha.

Silêncio

Folhas de acanto, banco de namorados, nostalgia soalheira...
canto primeiro donde reconheceu a cegueira  
dando lugar ao arrependimento.

Pedra  simbólica, conta a história
pelas mãos da arquitecta,
incauta pensadora.

Vertigens, desequilíbrios, 
um gosto atractivo pelo abismo.
Mergulho simbólico no vazio
à procura de uma resposta: silêncio secular.

ana



17/05/2017

Yesterday

was black day...



Uivemos, disse o cão.
Livro das Vozes

José Saramago, Ensaio Sobre a Lucidez. Lisboa: Caminho, 2004, s/nº p



15/05/2017

A arte e a fé

O Papa Francisco trouxe dois novos Santos a Portugal e focou a essência do espírito peregrino.
Com a vinda do Santo Padre também, a cidade se vestiu de objectos simbólicos: o coração gigante e o terço gigante que irradia luz.


Escultura de Fernando Crespo- Coração Francisco, 2017
12mX12m

Suspensão, Terço de Joana Vasconcelos, 2017

Se de alguma forma se sente a paz, também, se pode sentir uma grande inquietude.



linda...

12/05/2017

Maria

Maria é a mãe que, com paciência e ternura, nos leva a Deus, para que Ele desate os nós da nossa alma.
O lugar de Maria na Igreja segundo o Papa Francisco.

É em Maria que a «profecia», no sentido cristão do termo, se define melhor, a saber, em razão da capacidade interior de escuta de Maria, da sua capacidade de perceção e da sua sensibilidade espirituais, que Lhe permitem captar o murmúrio inaudível do Espírito Santo, assimilando-o perfeitamente, fecundando-o, oferecendo-o ao mundo imediatamente depois de o ter fecundado. Por esta razão, pode dizer-se que, num certo sentido, mas sem se ser categórico: é o princípio mariano que incarna o caráter profético da Igreja.

Cardeal Joseph Ratzinger, «O Problema da Profecia Cristã», em entrevista de Niels Christian Hvidt, 30Giorni, janeiro de 1999.


09/05/2017

"Sobre o Caminho"

A chegar ao destino?


Sobre o Caminho

Nada
nem o branco fogo do trigo
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferença

Não colecciones dejectos o teu destino és tu
Despe-te
não há outro caminho


Eugénio de Andrade, Véspera da Água. Lisboa: Assírio e Alvim, 2014 (2ª edição)


06/05/2017

Bizarro mas com harmonia

Como é possível tirar harmonia deste instrumento bizarro?



A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos.

A arte livra-nos ilusoriamente da sordidez de sermos. Enquanto sentimos os males e as injúrias de Hamlet, príncipe da Dinamarca, não sentimos os nossos — vis porque são nossos e vis porque são vis.
O amor, o sono, as drogas e intoxicantes, são formas elementares da arte, ou, antes, de produzir o mesmo efeito que ela. Mas amor, sono, e drogas tem cada um a sua desilusão. O amor farta ou desilude. Do sono desperta-se, e, quando se dormiu, não se viveu. As drogas pagam-se com a ruína de aquele mesmo físico que serviram de estimular. Mas na arte não há desilusão porque a ilusão foi admitida desde o princípio. Da arte não há despertar, porque nela não dormimos, embora sonhássemos. Na arte não há tributo ou multa que paguemos por ter gozado dela.
O prazer que ela nos oferece, como em certo modo não é nosso, não temos nós que pagá-lo ou que arrepender-nos dele.
Por arte entende-se tudo que nos delicia sem que seja nosso — o rasto da passagem, o sorriso dado a outrem, o poente, o poema, o universo objectivo.
Possuir é perder. Sentir sem possuir é guardar, porque é extrair de uma coisa a sua essência.

s.d.

Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Vol II."Fase confessional", segundo António Quadros (org.) Mem Martins: Europa-América, 1986.



03/05/2017

Para a Graça

Parabéns Graça!
Um dia muito feliz.

Uma rosa com graça para a Graça que vive a vida e a escrita com paixão.:))




SOS Azulejo

Detalhe do painel de azulejos da Igreja de Nossa Senhora do Olival, Lisboa,
Lua
SOS Azulejo é um projecto levado a cabo pelo Museu da Polícia Judiciária para promover a valorização do património azulejar português junto aos jovens, propondo às escolas a participação com trabalhos pedagógicos.

Dói a alma ver azulejos centenários, e não só, delapidados, roubados, deixando uma ausência e um vazio no espaço e na história que está a narrar.

ACÇÃO ESCOLA SOS AZULEJO 2017 realiza-se hoje, dia 3 de Maio, a nível nacional.

OBJETIVOS DA ACÇÃO: Chamada de atenção e sensibilização para:
 - A importância e carácter únicos do património azulejar português, a que importa dar continuidade; 
- O actual problema da sua grave delapidação por furto, incúria e vandalismo;
- A necessidade da sua valorização, protecção e fruição por todos os portugueses. 
[Retirado do site do MPJ]

O Museu da Polícia Judiciária conta com várias parcerias salienta-se a do Museu do Azulejo.


27/04/2017

Abril de Sim Abril de Não

A arte e as Humanidades, a palavra e a imagem, hão-de sempre prevalecer.

Abril de Sim Abril de Não

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.

Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.

Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.

Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.


Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote

21/04/2017

Toucado

Toucado cuidadosamente trabalhado,
florescência branca,
                        perfume feminino,
vaidade natural...
                                         Beleza!

Goa

15/04/2017

"formoso dia"

Porque os importunamos?


Os coelhos estão escondidos nas tocas. Os ovos da Páscoa ainda não chegaram por isso é com este olhar de peixe que desejo a todos uma
Páscoa Feliz!



Amanheceu o sol neste formoso dia mais arraiado que nunca, acrescentando tantos raios a seus naturais resplendores, quantos tinha eclipsado e escondido no dia da Paixão: e que é o que achou no mundo o mesmo sol, ou quando nasceu no Oriente, ou quando se foi pôr no Ocaso? Quando nasceu achou a terra orvalhada das lágrimas da Madalena, como se ela fora a aurora daquele dia: Mulier, quid ploras?


Trecho do Sermão da Primeira Oitava da Páscoa, na Igreja Matriz da Cidade de Belém, do Grão-Pará, 1656, de Padre António Vieira. (cap.I).


13/04/2017

"Suavium"*= Beijo

A Primavera no seu esplendor ,
com ela chegou também o dia do Beijo.

No universo da música ficam duas propostas, Besame mucho, uma recordação de infância, e Kiss me, uma canção do século XXI.

O poema que escolhi para homenagear o dia é de António Aleixo. 

*Suavium (ler)


O Beijo Mata o Desejo

MOTE

«Não te beijo e tenho ensejo
Para um beijo te roubar;
O beijo mata o desejo
E eu quero-te desejar.»

GLOSAS
Porque te amo de verdade,
'stou louco por dar-te um beijo,
Mas contra a tua vontade
Não te beijo e tenho ensejo.

Sabendo que deves ter
Milhões deles p'ra me dar,
Teria que enlouquecer
Para um beijo te roubar.

E como em teus lábios puros,
Guardas tudo quanto almejo,
Doutros desejos futuros
O beijo mata o desejo.
Roubando um, mil te daria; 
 


O que não posso é jurar
Que não te aborreceria,
E eu quero-te desejar!


António Aleixo, in
"Este Livro que Vos Deixo..."

Gustav Klimt, O beijo, 1907-1908,
Österreichische Galerie Belvedere, Áustria

Com a gentileza do Youtube

11/04/2017

In Memoriam

Maria Helena da Rocha Pereira, 2001
Fotografia de Paulo Ricca, Jornal Público

Há muito se formou entre os mortais
       esta sentença vetusta: a humana  felicidade,
       quando sobe a grande altura,
não morre sem filhos.


Maria Helena da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica, Volume I. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (5ª edição), 1979, p. 352.


01/04/2017

Um smile para...

... todos e em especial para o amigo Henrique que regressou de Goa.:))


De um livro que comecei a ler e que agradeço a MR. Retive logo da página inicial, da introdução, estes axiomas:

É nos cérebros que se dão os primeiros duelos. No de cada um, primeiro; depois nas divergências deste e daquele; e, por fim, no terreiro público.

Introdução de Raúl Rêgo à obra Os Burros, de José Agostinho de Macedo, editado pelo Circulo dos Leitores em 1993, p. 7.

(Para o Henrique que trava um duelo).


30/03/2017

25/03/2017

Amanhecer



Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado.


William Shakespeare

Porque me recordaram esta ópera Rock ...

22/03/2017

O pagador de promessas

No dia 21 de Março celebrou-se o dia da poesia. O esquecimento é imperdoável. Porém, nunca é tarde para lembrar a poesia. Hoje, chegou até mim uma frase que achei poética, ouvi que havia quem vivesse de pagar promessas dos outros e, por isso, se chama o pagador de promessas, achei tão poético.

O Pagador de Promessas

O pagador de promessas 
é um homem estranho,
cumpre o que o devedor não pode cumprir.
Paga  o choro interior, a dívida espiritual,
o pacto do homem religioso.
O pagador de promessas
vive para anular a inquietude dos outros.

ana
Agradeço a quem me falou nesta personagem.


O AUTOR AOS SEUS VERSOS

Vós, que de meus extremos sois a história,
Versos, por negro zoilo em vão roubados,
Nascidos da Ternura, e restaurados
Co pronto auxílio de fiel memória:

Da inveja conseguindo alta vitória
Ide, meus versos, em Amor fiados,
Que dele só dependem vossos fados,
Que nele só demando a minha glória:

Não vos importe o público juízo;
Da voz, que pelo mundo se derrama,
Os vivas caprichosos não preciso.

Voai aos olhos, cuja luz me inflama;
Tereis de Anarda aprovador sorriso,
Um sorriso de Anarda é mais que a Fama.

Bocage ( retirado do banco de dados da Casa Fernando Pessoa)


18/03/2017

Numa pequena janela

Numa pequena janela
está uma gata à espreita do sol.

A casa não se mede pelo tamanho
mas sim pela alegria que cabe lá dentro.



16/03/2017

O riso do Astro-Rei

« (…) O riso é o final do racional; o pranto é o uso da razão (…) 
Há chorar com lágrimas, chorar sem lágrimas e chorar com riso:
 chorar com lágrimas é sinal de dor moderada, 
chorar sem lágrimas é sinal de maior dor; 
e chorar com riso é sinal de dor suma e excessiva...»

O Pranto e o Riso ou as Lágrimas de Heráclito
Discurso integral do Padre António Vieira, 
em Roma no ano de 1674, a convite da Rainha Cristina da Suécia

Paulo Neves da Silva, Citações e Pensamentos de Padre António Vieira, Alfragide: Casa das Letras, 2010, p. 30.

O riso do Astro-Rei

Nasce a levante o Astro-Rei,
não há ruído senão o som da Natureza,
como o marulhar do mar que não está presente.

Contraste de cores, preto, amarelo - ocre,
paleta quase fauve com traço naturalista 
desenha-se no horizonte visível.

O livro aberto, as páginas escolhidas,
as letras sublinhadas resultam da leitura obrigatória,
esquecimento do sonho risível,
do diálogo entre o choro e o riso.

O choro dos tolos é fácil de brotar,
o riso dos fracos fortalece o pensamento,
constrói uma torre de Babel...
Chorar com riso é sinal que se vive sem viver.



11/03/2017

Diálogo


Para além da curva da estrada                                                                    No caminho

Para além da curva da estrada                                                       Encontramos sempre uma barreira
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,                                    vislumbro uma torre contra a utopia,
E talvez apenas a continuação da estrada.                                   Na continuação do caminho.
Não sei nem pergunto.                                                                   Nele me embrenho.
Enquanto vou na estrada antes da curva                                      enquanto caminho, só olho em frente
Só olho para a estrada antes da curva,                                         para as árvores e o céu,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.                 Porque não adivinho o que há para lá
De nada me serviria estar olhando para outro lado                      do caminho e que não vejo.
E para aquilo que não vejo.                                                            Procuro não sentir mas sinto,
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.                            O passado/presente e não o futuro
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.                  Clepsidra tangível;
Se há alguém para além da curva da estrada,                                             não encontro quem caminhe
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.      Para lá da montanha,
Essa é que é a estrada para eles.                                                                  o caminho para o cume
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.               Chegarei lá?
Por ora só sabemos que lá não estamos.                                          Só sei e sinto o peso de estar aqui,
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva                  nesta encruzilhada do caminho onde
Há a estrada sem curva nenhuma.                                      as pedras magoam e o caminho desaparece.

Alberto Caeiro, s.d.                                                                                           11-03-17 ana


Alberto Caeiro, “Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 129.


08/03/2017

Retrato...

No dia da Mulher :



Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'


05/03/2017

Janelas

Gosto de janelas e das paisagens que se vêem através das janelas. Daí trazer estas duas telas.

Janelas de Karen Hollingsworth
 Acerca da pintora siga-se este link



Para mim, estas janelas representam o quotidiano tranquilo, aquele que ninguém pode estragar. O silêncio, o livro aberto largado, os livros em cima da mesa, o gato, tudo é perfeito para que se retome o momento.

Pintura fotográfica? Talvez, mas é pintura.

No livro que comecei a ler sobre Amadeo de Souza-Cardozo de Mário Cláudio, intítulado Amadeo encontrei este trecho que inicia o livro:

A Casa é uma teoria volumétrica por entre a vegetação, maior do que todo o Mundo, impossível de arrumar. Por torres e telhados se levanta, paredes de cal alternando com panos de muralha...

Mário Cláudio, Amadeo. Lisboa: Círculo de Leitores, 1984, p. 7.

O registo fez-me lembrar este jogo volumétrico cortado pelas janelas, também elas com volumetria própria...

É incrível mas regressamos sempre a Casa, a casa que nos formou, a casa que nos criou.

À minha avó que hoje faria anos e com a qual vivi uns tempos.

...uma canção que me cantava

04/03/2017

Memories

Recordações: há um ou outro vestígio do mar que guardamos mesmo no local que nos parece improvável.



Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe ressoar dos temporais


Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre a minha alma foi criada


Sophia de Mello Breyner, O Búzio de Cós e Outros Poemas, Editorial Caminho, 1999.

 

02/03/2017

todo o universo



O mar tem tanto de belo como de cáustico:
atrai, encanta-nos, ofusca-nos.
No entanto, o seu sal pode queimar os incautos
sonhadores, crianças gigantes despojadas de sentido…
fazem do micro mundo um exagero perdendo a razão de ser.
Os que sentem e amam são tolos não sabem a proporção das escalas.
macro?...
micro?...
todo o universo se reduz a sentir alegria ou dor, grande ou pequena
do tamanho de um grão de areia ou de uma montanha vulcânica.
Proporções?
O que é isso quando se fala de amor?
O poeta diria que tudo é ridículo.


25/02/2017

"A cada qual..."


A cada qual dá Deus o frio conforme anda vestido.

Carlos Pittella e Jerónimo Pizarro, "Como coleccionar Provérbios" in Como Fernando Pessoa pode mudar sua vida, primeiras lições.  Lisboa: Tnta da China, 2017, p.61.



19/02/2017

padrão/paradigma

padrão = modelo, paradigma.                                      Mário Cesariny, Naniôra, Uma e Duas, 1960, Centro Aarte Moderna Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian


O paradigma humano é dos mais difíceis de entender. Porém, há um conjunto de sinais que se repete, que se constrói, que vêm a delinear e a desenhar um rosto.
Nem sempre queremos ver o rosto que sai do papel, embora, o tenhamos presente, não o queremos ver. Os olhos traem a nossa mente.
Do esboço, no entanto, sai um rosto real que nos observa, que nos trai, que nos interpela de diferentes maneiras, que nos distrai, que nos confunde e que no final fica só.
Há o fio umbilical ligado a si próprio, tal narciso, nem da posição fetal se recorda. 
Há um princípio e um fim mas a realidade fica à margem deste ciclo e acaba... mal.

ana


16/02/2017

"Basium, osculum e suavium"


“Beije-me ele com os beijos da sua boca: Porque teu amor é melhor do que o vinho”
 Cântico dos Cânticos, Bíblia

Há muito, muito tempo, beijar era um acto que se dividia em várias dimensões. Tudo podemos sistematizar e organizar julgando que assim criamos conhecimento. Os romanos tinham 3 tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas em amigos íntimos; e o suavium, que era o beijo dos amantes.
No beijo ao anel dos bispos ainda temos uma herança do mundo romano. Contudo, é o suavium que aqui nos interessa, a mesma raiz linguística que nos remete para o belo texto religioso musicado para coros por muitos dos mais magistrais mestres em composição.
Ao contrário da mundivivência latina, hierarquizada e quase por castas, o beijo nos lábios, na boca, remete-nos para o campo da partilha, e não da hierarquia. No beijo todos são iguais. No beijar, as duas bocas são a imagem da igualdade na dádiva.
E o que são dois amantes? Recordo um amigo que há uns meses dizia numa conferencia que a base da palavra francesa para conhecimento era exactamente a ideia de «nascer com...». "Connaître" = "con"+"naître". No fundo, só conhecemos aqueles com quem nos damos de tal forma que tornamos a nascer. Se o êxtase sexual pode ser solitário, o beijo dificilmente é masturbatório. Há sempre um outro no beijar. É sempre com...
Há beijos que ficam na memória. A intensidade, a doçura, tudo neles nos deixa recordações inesquecíveis. Os lábios, a pele, os jeitos de entrega e de partilha. Sim, recordo a imagem do texto gnóstico em que o beijo de Jesus a Maria Madalena era... de amante ou de transmissão de sabedoria?...
Mais que igualdade, o beijo é, de facto, conhecimento – e agora não o cartesiano, não hierarquisador, mas interior, do ser irrepetível que cada um expressa no beijo. É do campo da Verdade, o in vino veritas, ou inebriamento desse mesmo néctar como o Cântico dos Cânticos nos indica.
O beijo possibilita, numa catadupa de sentimentos, aceso ao íntimo, ao recôndito e tantas vezes escondido ou esquecido. O beijo marca. Um beijo deixa marca como a que ficara no ombro – “toquei-te no ombro e a marca ficou lá”, dizia Sérgio Godinho; se esse toque tivesse sido um beijo, desejo eu, Estrela!
No limite, na troca de um beijo intenso, nas humidades e fluídos variados, há um renascer com a parceira, há um baptismo vivido, uma imersão, na intensidade do Eu e do Tu que se misturam.
Sim, o Beijo é um conhecimento que é entrega, porque partilha. É o «Com» que dá sentido. Um sentido recíproco que torna todos os momentos verdadeiramente únicos, irrepetíveis e de constante re-nascimento.
Renascer, crescer, viver. Tudo se conjuga com beijar.»
Paulo Mendes Pinto, In Visão

14/02/2017

naïve

Qual deles escolher?

naïve  - having or showing unaffected simplicity of nature or absence of artificiality;
- unsophisticated;
- ingenuous.

Elena A. Volkova, Young Girl from Sibera. Daqui



12/02/2017

Em torno do beijo

Francesco Hayez, O beijo, 1859, Pinacoteca de Brera, Milão

Detalhe retirado do Guia da Pinacoteca de Brera

Wikipédia

O beijo uma tela de Hayez, romântica no cenário, na emoção e no brilho azul celeste do vestido.
A luz emana da mulher; a sombra da figura masculina projecta-se no enlace fulgoroso, na pujança varonil; a fragilidade e a doçura feminina exaltam a entrega. Modelos intemporais.

O que estou a ouvir:

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