O trabalho, as viagens e a rotina levam ao esquecimento de mim.
Daí estar em falta com todos, daí estar ausente...
Até o livro que estou a reler se ressente. Um livro que li há muito tempo, e que na nova leitura está a despertar momentos diferentes. Um livro que fala de amor, da vida e da morte.
O título é a Montanha Mágica de Thomas Mann. Deixo um excerto para louvar a vida.
Oh, o amor nada é, se não é loucura, uma coisa insensata, proibida, uma aventura no mal. De outro modo seria banalidade agradável, que só prestaria para sobre ela se fazerem cançõezinhas pacíficas nas planícies.
Thomas Mann, Montanha Mágica ( Tradução de Herbert Caro).Lisboa: Edição Livros do Brasil, s.d., p. 358.
«dilema da alma humana»a (...) Uma alma sem corpo é tão desumana e atroz como um corpo sem alma. O primeiro é, aliás uma rara excepção, e o segundo é regra. Regra geral é o corpo que tem supremacia, açambarca toda a vida, toda a importância, e emancipa-se da maneira mais repugnante.
Thomas Mann, A Montanha Mágica, ( Tradução de Herbert Caro). Lisboa: Livros do Brasil, s.d. p.106.
Saving Mr Banks (de John Lee Hancock) ficou aquém das minhas expectativas. Emma Thompson é perfeita no papel de Pamela Travers. Liguei a película ao livro que ando a ler. Quem viu o filme ou quem for ver perceberá o porquê.
«Sabe, meu caro senhor, o que é a desilusão?» perguntou, num tom baixo e apressado, agarrando a bengala com ambas as mãos. «Não o mau êxito em pequenos assuntos insignificantes, mas a desilusão grande, geral, que engloba tudo, o que faz parte da vida? Não, claro, não sabe. Mas eu tenho sido acompanhado por ela desde a juventude; ela tornou-me solitário, infeliz, e, não o nego, um pouco excêntrico.»
Thomas Mann, "Desilusão" in Os Melhores contos de Thomas Mann. (Selecção de Manuel de Seabra, prefácio de Domingos Monteiro, desenhos de Júlio Gil). Lisboa: Arcádia, 1958, p. 117. [Um livro que me é caro]
Hélène Bouchet eThiago Bordin, a minha escolha para homenagear Gustav Mahler que nasceu a 7 de Julho, de 1860, em Kaliště (Praga) na República Checa.
Adagietto, um movimento, da Sinfonia nº 5, foi escrito por Gustav Mahler em 1901 e 1902. (Wikipedia)
Adagietto de Mahlerfoi utilizado no filme: Morte em Veneza de Visconti, baseado no livro de Thomas Mann com o mesmo título. Foi com este filme que conheci Mahler, daí o registo.
(Imagem cortesia do google)
A solidão produz a originalidade, a beleza ousada e singular, o poema. Mas também será a fonte de tudo quanto for errado, desproporcionado, absurdo, ilícito.
Ontem ao descer uma das escadas da cidade encontrei um barquinho de papel. apanhei-o, sorri, e guardei-o.
Um barquinho para nos levar a viajar. Sonhei com a ida a Veneza, agora um sonho adiado. Da Biblioteca Municipal havia trazido o livro de Steve Berry, A Traição Veneziana. O cenário veneziano entrara assim, nas minhas leituras.
À tarde, tinha em casa um presente que era a oferta de uma viagem a Veneza. A minha amiga Cláudia Ribeiro, da Livraria Lumière, enviou-me o roteiro de Veneza, ofereceu-me a viagem sonhada. Obrigada Cláudia por Veneza ter entrado em minha casa. Há quem diga que não há coincidências!
Jane Gatti deixou-me roubar este poema que casa muito bem com este presente, pois abriu a minha janela de par em par para ver a poesia de VENEZA.
Emergência
Quem faz um poema abre uma janela. Respira, tu que estás numa cela abafada, esse ar que entra por ela. Por isso é que os poemas têm ritmo - para que possas profundamente respirar. Quem faz um poema salva um afogado.
Acerca da beleza Oscar Wilde em O Retrato de Dorian Gray afirma: O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível...
Da beleza o que importa: é o que reflete o espelho? ou o que está do outro lado do espelho?
Montra junto ao Chiado
Thomas Mann vê deste modo a beleza:
A Beleza Maior é a que não se Vê - Hoje, durante o meu passeio matinal, vi uma linda mulher... Meu Deus, que linda que ela era! (...) - Sério, sr. Spinell? Descreva-ma então. - Não, não posso! Dar-lhe-ia uma imagem imperfeita dela. Ao passar, mal a vi; na verdade, não a vi. Apercebi-me, porém, da sua sombra esfumada, e isso bastou para me excitar a imaginação e guardar dela uma imagem de beleza. Meu Deus, que linda imagem! A mulher do sr. Klöterjahn sorriu. - É essa a sua maneira de olhar para as mulheres bonitas, senhor Spinell? - Sim, minha senhora, é; é muito melhor do que olhá-las fixamente na cara, com uma grosseira avidez da realidade, para no fim ficarmos com uma impressão falsa... Thomas Mann, in "Tristão" (retirado do citador)
Acerca da beleza, num post anterior, Gustav Aschenbach, personagem principal de "A Morte em Veneza" de Thomas Mann, afirmava: «- A criação da beleza e da pureza é um acto espiritual». Alfred, amigo e compositor de Gustav, retorquiu: «- Não, Gustav. Não! A beleza pertence aos sentidos».
No blogue Memórias e Imagens, Margarida Elias transcreveu a noção de beleza do arquitecto Raúl Lino, do qual retirei este pequeno trecho:
« (...) beleza é o próprio sol, e se o queremos fitar, temos de fazer uso de um vidro fumado para que não fiquemos cegos com o deslumbramento dos seus raios. (...) é apenas para nosso uso particular (...); pelo menos, quando nós conhecermos a fórmula absoluta que revela a nudez deslumbrante da ideia de beleza (...) nunca nós publicaríamos o seu retracto; pelo contrário, guardá-lo-íamos no mais recôndito escaninho da casa-forte das nossas emoções (...)». Raúl Lino (1933).
Os dois trechos entrelaçam-se numa noção dicotómica de beleza: a do campo das emoções, dos sentidos, e a intelectual do campo espiritual. Isto é, a particular e a universal; a primeira, pelo que depreendo, segundo Raúl Lino, deve estar resguardada no mais íntimo de nós. O arquitecto previne que o intelecto deve olhar a beleza controlando as emoções provavelmente, para na sua análise não se imiscuir o afecto. Poderá este conceito entrar em comunhão com a filosofia da sua arquitectura inconfundível, o espírito prático conservando a cultura de um povo. Obrigada Margarida por ter atendido ao meu pedido.
«Feche os olhos e veja com a alma, se gostar ... é belo. Ver as vezes atrapalha, as vezes define, como a beleza, ou cega ou desanuvia.» Cozinha dos Vurdóns O comentário da Cozinha dos Vurdóns comunga dos dois sentidos do conceito e alia-se com excelência ao acima transcrito.
Hoje aproveito para focar ainda a beleza da escrita em evocação a Hemingway que nasceu a 21 de Julho de 1899. Conviveu em Paris com pintores de vanguarda: Picasso, Miró, Masson e Gris, grupo que ficou conhecido pela "Geração Perdida". O escritor apreciava arte por isso na minha homenagem dedico-lhe um prémio que ganhei num desafio de Verão: O Ratinho e a pintura de MJ Falcão do blogue O Falcão de Jade. Agradeço os três prémios que ganhei e vou guardar na galeria das minhas fotografias.
MJ Falcão, Portalegre, uma cidade especial para mim
Pintura e fotografia de MJ Falcão
Advice to a son
Never trust a white man, Never kill a Jew, Never sign a contract, Never rent a pew. Don't enlist in armies; Nor marry many wives; Never write for magazines; Never scratch your hives. Always put paper on the seat Don't believe in wars, Keep yourself both clean and neat, Never marry whores. Never pay a blackmailer, Never go to law, Never trust a publisher, Or you'll sleep on straw. All your friends will leave you All your friends will die So lead a clean and wholesome life And join them in the sky.
(...) Aschenbach notou com espanto que o rapaz era de uma beleza perfeita. (...) a expressão de seriedade afável, digna de um deus, lembravam uma escultura grega do período áureo, sendo que à mais pura perfeição da forma aliava-se um encanto pessoal tão exclusivo que o observador acreditava jamais ter encontrado, quer na natureza, quer nas artes plásticas, algo que se aproximasse de um acabamento tão feliz. (...) Gustav Aschenbach: A criação da beleza e da pureza é um ato espiritual. Alfred*: Não, Gustav. Não! A beleza pertence aos sentidos. Somente aos sentidos! Gustav: Você não tem como alcançar o espírito... Você não tem como alcançar o espírito através dos sentidos. É somente através do absoluto controle dos sentidos que se pode,algum dia, alcançar sabedoria, verdade e dignidade humana.
Thomas Mann, A Morte em Veneza
Adaptado ao filme de Visconti, trecho retirado daqui.
Thomas Mann nasceu a 6 de Junho de 1875 em Lübeck. Entre os livros que escreveu escolho a Montanha Mágica para hoje o homenagear. Para além deste livro, houve outro que me tocou imensamente: A Morte em Veneza, um dos mais belos livros que li e que aqui trarei em altura oportuna.
O tédio foi o mote que me levou a registar este trecho. Tédio esmaga e mata.
Crê-se em geral que a novidade e o carácter interessante do seu conteúdo "fazem passar" o tempo, quer dizer, abreviam-no, ao passo que a monotonia e o vazio estorvam e retardam o seu curso. Mas não é absolutamente verdade. O vazio e a monotonia alargam por vezes o instante ou a hora e tornam-nos "aborrecidos"; porém, as grandes quantidades de tempo são por elas abreviadas e aceleradas, a ponto de se tornarem um quase nada. Um conteúdo rico e interessante é, pelo contrário, capaz de abreviar uma hora ou até mesmo o dia, mas, considerado sob o ponto de vista do conjunto, confere amplitude, peso e solidez ao curso do tempo, de tal maneira que os anos ricos em acontecimentos passam muito mais devagar do que aqueles outros, pobres, vazios, leves, que são varridos pelo vento e voam. Portanto, o que se chama de tédio é, na realidade, antes uma simulação mórbida da brevidade do tempo, provocada pela monotonia: grandes lapsos de tempo quando o seu curso é de uma ininterrupta monotonia chegam a reduzir-sea tal ponto, que assustam mortalmente o coração; quando um dia é como todos, todos são como um só; e numa uniformidade perfeita, a mais longa vida seria sentida como brevíssima e decorreria num abrir e fechar de olhos. O hábito é uma sonolência, ou, pelo menos, um enfraquecimento do senso do tempo, e o facto dos anos de infância serem vividos vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada vez mais depressa, esse facto também se baseia no hábito.
Thomas Mann, A Montanha Mágica, Lisboa: Livros do Brasil, p. 110-111. (Trad. Herbert Caro)
A beleza é a razão de viver. Ela aguça-nos o espírito, faz-nos esquecer a tristeza e eleva-nos até às nuvens! Assim, foi o que me aconteceu quando há uns anos li "A Morte em Veneza", vi o filme de Visconti e, quando no youtube, vi este bailado com o mesmo tema.
x
"Pois só a beleza, meu Fedro, e só ela, é digna de ser amada e visível ao mesmo tempo: ela é — nota bem! — a única forma do espiritual que recebemos através dos sentidos e que podemos suportar pelos sentidos. Ou então, o que seria de nós se, por outro lado, o divino, a razão, a virtude e a verdade se nos quisessem revelar através dos sentidos? Acaso não morreríamos e nos consumiríamos de amor, como outrora Sémele perante Zeus? Assim, a beleza é o caminho do homem sensível para o espírito — só o caminho, um meio apenas, pequeno Fedro..."
x
Thomas Mann - Morte em Veneza, Lisboa: Círculo dos Leitores, 1990, p.84
Jorge Donn performs Adagietto by Bejart in St.Petersburg, Russia; 5ª Sinfonia de Gustav Mahler (Adagietto).