Se tu és a égua de âmbar eu sou o caminho de sangue Se tu és o primeiro nevão eu sou quem acende a fogueira da madrugada Se tu és a torre da noite eu sou o cravo ardendo em tua fronte Se tu és a maré matutina eu sou o grito do primeiro pássaro Se tu és a cesta de laranjas eu sou o punhal de sol Se tu és o altar de pedra eu sou a mão sacrílega Se tu és a terra deitada eu sou a cana verde Se tu és o salto do vento eu sou o fogo oculto Se tu és a boca da água eu sou a boca do musgo Se tu és o bosque das nuvens eu sou o machado que as corta Se tu és a cidade profunda eu sou a chuva da consagração Se tu és a montanha amarela eu sou os braços vermelhos do líquen Se tu és o sol que se levanta eu sou o caminho de sangue
Octavio Paz, in "Salamandra" Tradução de Luis Pignatelli,
Considero a eternidade celeste como um estado de abstração. Parece-me que se a compreendemos é através da teoria, não dos sentidos. A linguagem teúrgica pretende explicar-nos o que é, o que vale, e ficamos na mesma. Quer dizer, o nosso senso do relativo não pode abarcá-la. No fundo, repugna-nos. Que fechemos os olhos do entendimento... Pois fechemo-los, e vêem-se as almas a flutuar na eternidade como o verbo sobre o caos antes de ter sido criado o mundo. Quer dizer que não se vê nada. Nem sombras... nem sombras de penas ao vento, sequer. Mas eu quero aceitar a ideia de eternidade como sendo o oceano ilimitado em que passam à deriva, ou mesmo seguindo seus cursos, astros, asteróides, seres e coisas, a ciscalhada toda da criação.
Aquilino Ribeiro, Dom Frei Bertolameu. As três desgraças teologais. Amadora: Bertrand, 1959, p. 168-69
Faz-se luz pelo processo de eliminação de sombras Ora as sombras existem as sombras têm exaustiva vida própria não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela intensamente amantes loucamente amadas e espalham pelo chão braços de luz cinzenta que se introduzem pelo bico nos olhos do homem
Por outro lado a sombra dita a luz não ilumina realmente os objectos os objectos vivem às escuras numa perpétua aurora surrealista com a qual não podemos contactar senão como amantes de olhos fechados e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny, in "Pena Capital" (in Citador)
Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular. (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973). p. 81.
Faz as malas para Parte Nenhuma! Embarca para a universalidade negativa de tudo Com um grande embandeiramento de navios fingidos Dos navios pequenos, multicolores, da infância! Faz as malas para o Grande Abandono! E não esqueças, entre as escovas e a tesoura, A distância polícroma do que se não pode obter.
Faz as malas definitivamente! Quem és tu aqui, onde existes gregário e inútil — E quanto mais útil mais inútil — E quanto mais verdadeiro mais falso — Quem és tu aqui? quem és tu aqui? quem és tu aqui? Embarca, sem malas mesmo, para ti mesmo diverso! Que te é a terra habitada senão o que não é contigo?
2-5-1933
Álvaro de Campos - Livro de Versos. (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993. p.221.
A todos agradeço a presença e peço desculpa por não ter respondido cabalmente aos comentários.
A vida obriga-nos, por vezes, a maiores silêncios.
Azulejo da Estação dos Caminhos de Ferro da Cúria, Será o sol ou outra estrela?
Para mim é o sol, o astro maior que nos ilumina!
Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança
Manhã dos outros! Ó sol que dás confiança
Só a quem já confia!
É só à dormente, e não à morta, esperança
Que acorda o teu dia.
A quem sonha de dia e sonha de noite, sabendo
Todo o sonho vão,
Mas sonha sempre, só para sentir-se vivendo
E a ter coração.
A esses raias sem o dia que trazes, ou somente
Como alguém que vem
Pela rua, invisível ao nosso olhar consciente,
Por não ser-nos ninguém.
s. d.
Poesias. Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995), p.101.
Gostei deste filme de Julie Gautier
Credits :
Choreographer : Ophélie Longuet
Music : « Rain in your black eyes », Ezio Bosso. (P) Sony Music Entertainment.
Cinematographer : Jacques Ballard
Editor : Jérôme Lozano
Colorist : Arthur Paux @ Spark Seeker
Compositing : Gregory Lafranchi @GoneFX
Sound mix : Nassim El Mounabbih @Dinosaures
Production : Spark Seeker/Les Films Engloutis
Associated Producers : Y-40 The Deep Joy/RVZ
Camera Assistant : Arthur Lauthers
Electrician Romain Mostri
Safety Freedivers : Anne Maury - Fouad Zarrou
Making off : Jimmy Golaz
Camera Rental (Red VistaVision 8K) RVZ
Light&Electric Rental : TSF Cannes
Árvore, cujo pomo, belo e brando Árvore, cujo pomo, belo e brando, natureza de leite e sangue pinta, onde a pureza, de vergonha tinta, está virgíneas faces imitando; nunca da ira e do vento, que arrancando os troncos vão, o teu injúria sinta; nem por malícia de ar te seja extinta a cor, que está teu fruito debuxando. Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo a meu contentamento, e favoreces com teu suave cheiro minha glória, se não te celebrar como mereces, cantando-te, sequer farei contigo doce, nos casos tristes, a memória.
Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde; só se encontra qualquer coisa. Há no fundo deste poço, como na fábula, a Verdade.
Sentir é buscar.
s.d.
Fernando Pessoa, Textos Filosóficos . Vol. I.. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993), p 228.
Sob a luz do poente, Panteão, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha
A um Poeta
Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino, escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego, Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! Mas que na forma de disfarce o emprego Do esforço; e a trama viva se construa De tal modo, que a imagem fique nua, Rica mas sóbria, como um templo grego. Não se mostre na fábrica o suplício Do mestre. E, natural, o efeito agrade, Sem lembrar os andaimes do edifício: Porque a Beleza, gêmea da Verdade, Arte pura, inimiga do artifício, É a força e a graça na simplicidade.
Olavo Bilac, in "Poesias" (poema retirado do Citador)
David Fray, Jacques Rouvier, Emmanuel Christien & Audrey Vigoureux, pianos String ensemble of the Orchestre National du Capitole de Toulouse
A nossa ânsia de verdade é grande, e por certo o que quiséramos fora, não esta doutrina do Limiar, senão a casa e o lar que há nele.
De aí a arte, feita para entretimento dos outros e nossa ocupação, dos que somos ocupáveis desse modo. Negada a verdade, não temos com que entreter-nos senão a mentira. Com ela nos entretenhamos, dando-a porém como tal, que não como verdade; se uma hipótese metafísica nos ocorre, façamos com ela, não a mentira de um sistema (onde possa ser verdade) mas a verdade de um poema ou de uma novela - verdade em saber que é mentira, e assim não mentir. (...) e assim construí para mim esta regra de vida.
Procurei a verdade ardentemente, ora com uma atenção (…)
s.d.
Fernando Pessoa
Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa. Lisboa: Estampa, 1990, p.90.