Mostrar mensagens com a etiqueta Philippe Jaroussky. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Philippe Jaroussky. Mostrar todas as mensagens

11/01/2020

Al ...

Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948. Notabilizou-se como poeta, pintor, editor e animador cultural português. Morreu em 1997.

Al Berto, dois auto-retratos, Centro de Arte de Sines


HOJE É DIA DE COISAS SIMPLES

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje




06/04/2019

Rio conspurcado



Tudo é encontrar qualquer coisa.

Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde; só se encontra qualquer coisa. Há no fundo deste poço, como na fábula, a Verdade.

Sentir é buscar.
s.d.

 Fernando Pessoa, Textos Filosóficos . Vol. I.. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993), p 228.


16/03/2019

Transparência



Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Retirado daqui: https://www.escritas.org/pt/t/1650/plano

 

05/01/2019

Saudades...

Saudades dos passeios pelos canais..., Amesterdão





...e as algas como molhados cabelos empastando o rosto morto das águas.
Um som suave de rio largo, uma indecisa frescura aquática, uma saudade audível, oculta, um amarelo morto de movimento.

Leves, leves as sombras calmas.

A noite era cheia daquelas pequenas nuvens muito brancas, que se destacam umas das outras. Vista através de uma ou outra delas, a Lua tinha em seu torno um halo azul, castanho e amarelo, com uns tons supostos de verde-vivo. Entre as árvores o céu era dum azul-negro profundíssimo, longínquo, irrevogável. As estrelas viam-se ora através das nuvens, ora, muito longe, mas entre elas. Uma saudade de coisas idas, de grandes passados da alma, talvez porque em reencarnações antigas, olhos nossos, no corpo físico, houvesse visto, este luar sobre florestas longínquas, quando selvática ainda, a alma infanta talvez pressentia, por uma memória em Deus ao contrário, no futuro das suas reencarnações, esta lua retrospectiva. E assim essas duas luas davam mãos de sombra por sobre a minha cabeça abatida.
s.d.



Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I, (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990, p. 82.



11/08/2018

Moldura de Verão, Leituras de Verão III - John Dunning

Uma grade pouco fechada em frente ao rio



«Naqueles primeiros anos do Internet, colei um epigrama na minha secretária: Um  livro é um espelho. Se um burro se mira, não é um apóstolo que se reflecte. A frase foi escrita há dois séculos por um espirituoso alemão chamado Lichtenberg, mas suponho que se aplica muito bem, hoje em dia. ao ecrã de um computador.» [Cliff Janeway, livreiro]

John Dunning, A Promessa do Livreiro. (Tradução: Fernanda Semedo). Lisboa. Editorial Estampa,2007, p.61

John Dunning foi vencedor do prémio  Nero Wolfe para literatura policial. Estou a gostar bastante deste detetive livreiro que procura livros raros de Richard Burton.

02/03/2018

Leite com café

Uma cozinha nostálgica mas com luz




Leite com café

Sou garoto curioso,
e pra bem me instruir,
o que me é misterioso,
tento logo descobrir.

Sem certeza ou sem fé,
indago desde pequeno:
se a vaca bebesse café,
o leite seria moreno?

Maria da Graça Almeida daqui


07/10/2017

Montanha Má[G]ica

Regresso à Montanha Magica.

G de garfo


«dilema da alma humana»a (...) Uma alma sem corpo é tão desumana e atroz como um corpo sem alma. O primeiro é, aliás uma rara excepção, e o segundo é regra. Regra geral é o corpo que tem supremacia, açambarca toda a vida, toda a importância, e emancipa-se da maneira mais repugnante.

Thomas Mann, A Montanha Mágica, ( Tradução de Herbert Caro). Lisboa: Livros do Brasil, s.d. p.106.




16/09/2017

In Memoriam João MS!

LIBERDADE

(...)
Sou livre, sou livre...
Sinto-me limitado e impotente.
Não durmo nem sonho.
Queria ser livre para amar 
loucamente.
Aqui, sinto-me asfixiar,
estou incapaz, estou louco
Queria gritar até se ouvir
A minha voz nos céus: sou livre! Estou louco.

João Mattos e Silva, Sem Contorno. Lisboa: Edições Excelsior, 1968, p. 51.


Júlio Pomar para o levar na sua viagem, João.


03/09/2017

Centauro atormentado por uma Ménade

Centauro atormentado por uma Ménade, 1770-1778
pintura de óleo em seda, Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, Madrid



A maldade feminina ou a ferida protectora?
O amor ou o ódio?
O que transmite esta pintura?


15/07/2017

A luz - "em sonho"

O que se procura é a luz!

Sagrada Família, Barcelona



A inacção consola de tudo.    [Será?]


A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo.
Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.

s.d.


Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I,(Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. p.221.


15/01/2017

Do apolíneo ao dionísiaco

Do apolíneo ao dionísiaco

Salvator Rosa, La menzogna (1635-1673), 

Galleria Palatina di Palazzo Pitti a Firenze
daqui
Imagem relacionada
Apolo nasce virtuoso,
cumpre o destino luminoso.
Dionísio canta pela noite
a sombra e os gracejos do prazer.

Apolo transporta as pautas musicais,
o espanto perante a melodia.
Dionísio traz consigo as uvas e o mel,
a bebida do esquecimento.

Apolo beija as flores da manhã,
escuda com a luz a fragilidade humana.
Dionísio traz a máscara do teatro,
num esgar mostra a verdade e a mentira.

A máscara de Apolo é dourada,
a de Dionísio é negra, da cor do carvão.
Botticelli pintou Apolo
e Caravaggio pintou Dionísio.

Ergo o espelho do chão e vejo
Apolo transformar-se em Dionísio
e Dionísio transformar-se em Apolo.
Apolo e Dionísio são uma e a mesma pessoa.

ana

17/02/2016

Ser diferente

Mascarão, caixotão de tecto, Museu de Aveiro, (Museu de Santa Joana)


A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos. 

Agostinho da Silva, in Diário de Alcestes (citador)


01/12/2015

É possível que todos os livros sejam inúteis...


Leituras e livros  em homenagem ao poeta maior:

80 Anos da morte de Fernando Pessoa, dia  30 de Novembro de 2015

A escultura “Hommage a Pessoa”, de Jean-Michel Folon, foi inaugurada no 120º aniversário de nascimento do poeta, Largo Teatro S. Carlos


É possível que todos os livros sejam inúteis, se lemos para nos esquecermos de nós, para debelarmos a ferida de existir. Se formos previdentes, os livros também nunca nos magoam. Salvem-se de ler Kafka de madrugada, ou Virgínia Woolf se estiverem internados com uma prancreatite. As pesssoas, sim, essas magoam-nos: são uma dádiva mas também agravam a nossa ferida, escarafuncham nela e fazem-na sangrar.


[sublinhado por mim].

João Tordo, O Paraíso Segundo Lars D. Lisboa: Companhia das Letras, 2015, p. 15


Comecei a ler o Paraíso Segundo Lars D. de João Tordo sem ler duas obras que a antecedem: Biografia involuntária dos amantes e Luto de Elias Gro
Talvez fosse importante ter lido os outros livros mas estou a ter um imenso prazer e deleite na leitura deste Paraíso. 
Como primeiro livro que leio não sinto a falta dos outros. A narrativa prende, as palavras tocam-me profundamente porque são cheias de conteúdo. As ideias não são novas mas estão escritas pela primeira vez como súmula categórica.

João Tordo é filho do cantor Fernando Tordo, é licenciado em Filosofia e estudou escrita criativa em Londres e Nova Iorque. Venceu o Prémio Literário José Saramago (2008) com a obra: "Três Vidas".

Vou ler mais livros deste escritor pois estou a gostar da amostra. 





1º de Dezembro - outrora era feriado em nome dos 40 conjurados que restauraram a independência nos idos de 1640.
Recorde-se assim, a data mesmo sem festa. 

10/06/2015

Uma flor para Camões e outra...

               BOM FERIADO!
Não tenho feriado, estou a trabalhar e por aqui não é Dia de Portugal. Por isso gozem por mim.:))

 XIII
Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores,

Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.                
                                                 
Diana tomou logo ũa rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e formosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual de aquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura, e mais formosa.

Sorrindo-se o menino lhes tornava:
Todas formosas são; mas eu queria

Viola antes que lírio, nem que rosa.                                      

Luís Vaz de Camões, cortesia do Google, [Camões lírico]


e outra para quem fala de flores

Detalhe da Primavera de Botticelli, Galeria Uffizi, Florença


Primavera, by Sandro Filipepi Known as Botticelli, 1478 about, 15th Century, thick tempera on panel, cm 203 x 314 . : Arte
«O que é que faz das plantas um ritual for all seasons? O que é que as torna tão presentes, e, por isso mesmo, tão indiferentemente transparentes às circunstâncias da vida humana? Porque é que às plantas emprestamos as qualidades da urbanidade, da serenidade e do conforto? É porque são silenciosas, pura e simplesmente mudas e inócuas? Ou porque, precisamente pelo seu silêncio, nos murmuram constantemente as letras do seu segredo, essa sua intransponível proximidade com o animal, sedutora distância que alimenta as nossas fantasias? O que me interessa nas plantas não é a sua vida, mas a sua imagem no coração dos homens e as razões por que as tornámos comparsas privilegiados do nosso destino.»


António Mega Ferreira, Hotel Locarno. Lisboa: Sextante, 2015, pp. 122-123.






18/04/2015

No Dia Internacional dos Museus e Monumentos...

No Dia Internacional dos Museus e Monumentos um memorando: 
Museu do Holocausto distinguiu padre português. 

O padre Carreira salvou refugiados judeus em Roma durante a Segunda Guerra Mundial. A distinção do Museu do Holocausto, sediado em Jerusalém, foi entregue à família, numa cerimónia que teve lugar esta quarta-feira, na Sinagoga de Lisboa.
Sic Notícias

Pelas vítimas do Holocausto: malmequeres.  Melhor será  dizer bem-me-quer




Na Sinanoga de Lisboa: em memória do padre Joaquim Carreira, ver o link:

http://sicnoticias.sapo.pt/pais/2015-04-16-Museu-do-Holocausto-distingue-padre-portugues



23/03/2015

"Credo"

Credo                                                                               René Magritte, Sunlight, 1943-47
                                                                                         https://www.pinterest.com/pin/66568900715438180/


atribuído a Yossel Rakover

Creio no sol, mesmo quando não o vejo
Creio no amor, mesmo quando não o abraço
Creio em Deus, mesmo quando Deus se cala

José Tolentino Mendonça, Estação Central. Lisboa: Assírio & Alvim, (2ª edição) 2015, p. 28.






12/02/2015

Poème pour un enfant lointain

Para as crianças da Ucrânia


Poème pour un enfant lointain

Tu peux jouer au caillou :
Il suffit de ne pas bouger,
Très longtemps, très longtemps.

Tu peux jouer à l’hirondelle,
Il suffit d’ouvrir les bras
Et de sauter très haut, très haut.

Tu peux jouer à l’étoile :
Il suffit de fermer l’œil,
Puis de le rouvrir,
Beaucoup de fois, beaucoup de fois.

Tu peux jouer à la rivière :
Il suffit de pleurer,
Pas très fort, pas très fort.

Tu peux jouer à l’arbre :
Il suffit de porter quelques fleurs,
Qui sentent bon, qui sentent bon.

Alain Bosquet

Anatole Bisk, também conhecido por Alain Bosquet , nasceu em  Odessa  (Ucrânia ), a 28 de Março de 1919 e morreu em Paris a 8 de Março de 1998. Viveu em Bruxelas e obteve a cidadania francesa em 1980 (Wikipedia)


21/12/2014

CANTO DO HUMANO - Fiama e Montaigne

Nesta quadra que vivemos talvez possamos ser mais humanos.

Fiama Hasse Pais Brandão, fotografia do blogue Assírio e Alvim.                Michel Montaigne, cortesia do Google
   

CANTO DO HUMANO                     

O que me deu Montaigne? Deu-me o livro                                     Biblioteca de Montaigne (1571)
em que diz que nada me é estranho,                              Nas vigas do tecto estão máximas em grego    
quando o território seu de cada dia                      
era toda a geografia percorrida.
Em Paris nada lhe é estranho,
presumivelmente os gatos vesgos,
o lixo citadino  as valas expostas
para os moribundos das variadas pestes.
Todo o divino lhe tinha sido dado
a pouco e pouco pelas gerações
de antecessores filósofos, e Montaigne
sobraçando os livros contemplou o Nada
que não lhe era estranho. Pelos olhos
todo o devir visível lhe apareceu
talvez ainda tão carnalmente
como o meu olhar que me esvazia.

Antes de Montaigne os olhos viam
a cena do mundo como alheia
e a tudo e todos o grande Cordeiro
sustinha na sua compaixão.
Talvez o mito da cidade caótica
com os vapores de vício e luxúria
seja a última alucinação romântica
do imaginário público. Canto
os novos mensageiros herméticos
que nos unem pelo pensamento.
Aceito esta cidade humana
excessivamente trémula e imprecisa
que se espelha no Rio, que nunca pára
desde que lhe chamaram Tejo os poetas
loquazes que no-lo imaginaram.
Porém canto a doença que é a face                                    
completa da saúde e canto
a morte de Montaigne, à qual não foi alheio,
como ele decerto soube de antemão,
e a nossa que não é já necessária.
Que a morte novamente, as dores, fadigas
nos pertençam com os seus opostos,
como nos pertence o espaço interestelar
que nos estava simultâneo e aberto
sem que Montaigne ainda o soubesse.

31/12/93

Fiama Hasse Pais Brandão, Cantos do Canto. Lisboa: Relógio d'Água, 1995, p. 22-23.                                            Foto Wikipedia

Obrigada Cláudia por me ter arranjado o livro.




17/12/2014

Família em visita à biblioteca

Uma família em visita à Biblioteca Pública de Salamanca


Em sintonia com o escritor Artur da Távola a biblioteca é um jardim de livros.

Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternura e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.

Trecho de Artur da Távola (Paulo Alberto M. Monteiro de Barros), do texto: "Ter ou não ter namorado, eis a questão" in  Amor a sim mesmo  (coletânea das crônicas de Távola). Editora: Círculo do Livro, 1984.

01/10/2014

Quero...

Clarice Lispector, A Hora da Estrela, exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, 2013


Outono no Parque


No dia da música  Santa Cecilia suona la spinetta, c.1620 (da autoria de Orazio Gentileschi ou da sua filha Artemisia Gentileschi ?),


Arquivo