Primavera que Maio viu passar Num bosque de bailados e segredos, Embalando no anseio dos teus dedos Aquela misteriosa maravilha Que à transparência das paisagens brilha.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia, Lisboa: Círculo de Poesia Moraes Editores, 1975,
Para atravessar contigo o deserto do mundo Para enfrentarmos juntos o terror da morte Para ver a verdade para perder o medo Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo Minha rápida noite meu silêncio Minha pérola redonda e seu oriente Meu espelho minha vida minha imagem E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro Sem os espelhos vi que estava nua E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto' (citador)
Deriva Vi as águas os cabos vi as ilhas E o longo baloiçar dos coqueirais Vi lagunas azuis como safiras Rápidas aves furtivos animais Vi prodígios espantos maravilhas Vi homens nus bailando nos areais E ouvi o fundo som das suas falas Que nenhum de nós entendeu mais Vi ferros e vi setas e vi lanças Oiro também à flôr das ondas finas E o diverso fulgor de outros metais Vi pérolas e conchas e corais Desertos fontes trémulas campinas Vi o rosto de Eurydice das neblinas Vi o frescor das coisas naturais Só do Preste João não vi sinais
As ordens que levava não cumpri E assim contando tudo quanto vi Não sei se tudo errei ou descobri
Sophia de Mello Breyner Andresen, DOZE POEMAS uma edição da Divani & Divani, sd
[É uma caixinha muito bonita que comprei na Livraria Lumière quando visitei a Cláudia].
Um por um para o mar passam os barcos Passam em frente de promontórios e terraços Cortando as águas lisas como um chão
E todos os deuses são de novo nomeados Para além das ruínas dos seus templos
In «Mar», antologia com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (com “Nota” de Maria Andresen de Sousa Tavares e “Posfácio” – reedição da primeira recensão feita ao primeiro livro de Sofia, «Poesia», publicado em 1944 – da autoria de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).
Anderson & Roe's "A Rain of Tears" for two pianos, based on Antonio Vivaldi's "Sento in seno ch'in pioggia di lagrime" ("I feel within a rain of tears")
Recordações: há um ou outro vestígio do mar que guardamos mesmo no local que nos parece improvável.
Este búzio não o encontrei eu própria numa praia Mas na mediterrânica noite azul e preta Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais Rente aos mastros baloiçantes dos navios E comigo trouxe ressoar dos temporais
Porém nele não oiço Nem o marulho de Cós nem o de Egina Mas sim o cântico da longa vasta praia Atlântica e sagrada Onde para sempre a minha alma foi criada
Sophia de Mello Breyner, O Búzio de Cós e Outros Poemas, Editorial Caminho, 1999.
Diálogo, leia-se verso do lado esquerdo, da Sophia, seguido do verso do lado direito. A Sophia que me perdoe.
AS FONTES
Um dia quebrarei todas as pontes e chegarei às águas límpidas Que ligam o meu ser, vivo e total, do amor depurado, À agitação do mundo do irreal, fresco E calma subirei até às fontes. tornadas realidade.
Irei até às fontes onde mora a saudade A plenitude, o límpido esplendor encontrarei o amor Que me foi prometido em cada hora, e momento, E na face incompleta do amor. marcadoem cada hora.
Irei beber a luz e o amanhecer, que apanharei Irei beber a voz dessa promessa que guardarei na memória Que às vezes como um voo me atravessa, e me apunhala E nela cumprirei todo o meu ser natureza íntima.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poesia I. (Arquivo Casa Fernando Pessoa)
Passo muito depressa no país de Caeiro Pelas rectas da estrada como se voasse Mas cada coisa surge nomeada Clara e nítida Como se a mão do instante a recortasse
Prefácio dos Contos Exemplares, de Sophia um texto maravilhoso de D. António Ferreira Gomes, intitulado: Pórtico.
"Que o grande pecado da cultura moderna - pecado, em verdade, não original mas herdado de toda a cultura anterior, sobretudo da cultura medieval decadente - o grande pecado cultural tem sido «usar o santo nome de Deus em vão»
(assim dizia a Cartilha, mais infelizmente esquecida ou não advertida neste ponto do que em tantos outros). Deus, fundamento de toda a Lógica ou de todo o Método para um Descartes, Deus, fundamento de toda a Ética para um Spinoza, Deus, fundamento de toda a Retórica para os pregadores e literatos barrocos, Deus fundamento de toda a política para um Cromwell, o primeiro dos ditadores modernos, isto é, de Estado totalitário (por Deus ou Contra Deus:«tanto monta, monta tanto!»), Deus enfim fundamento de tudo quanto o homem se lembra de construir a seu bel-prazer. E para mais, um deus claro e distinto, um deus mais evidente do que este pau ou esta pedra, um deus unívoco com as nossas ideias racionais e racionalistas - Verum sive intelectus, Deus sive natura, para Spinoza e para os spinozistas, que todos somos um pouco (mesmo os tomistas, quando dormitam) para quem «o primeiro artigo de fé é um racionalismo que postula inteligibilidade de Deus e das coisas» (J. Lacroix).
E por acréscimo um deus sem Mistério nem mistérios, um deus mais claro e visível do que o sol meridiano - como se o sol ao meio-dia nos fosse visível!... Hoje, talvez em linguagem mais culta, saborosa e rápida: Deus valor supremo e fonte de todos os valores! Esse novo equívoco que já Nietzsche denunciava e do qual diz Heidegger com toda a razão: « O último golpe contra Deus e contra o mundo suprassensível consiste em que Deus, o existente de todo o existente, seja rebaixado à condição de valor supremo. Não porque se tenha Deus por incognoscível, não porque se demonstre que a existência de Deus é indemonstrável, se assesta o golpe mais duro em Deus, mas sim por elevar meramente a valor supremo o Deus tido por real. E, com efeito, esse golpe não vem dos profanos que não creem em Deus, mas dos crentes e dos seus teólogos»...
Usar o santo nome de Deus em vão e caminhar-sem-Deus na vida tranquilamente não parece ser facto de hoje; ao menos não terá hoje boa imprensa... existencialista. Sobretudo na Filosofia e na Poesia, que tantas vezes se disputam, ou entre si comutam o terreno ontológico, uma como análise, outra como criação. É bem certo que há, nesses domínios, quem continue a malbaratar o nome de Deus, apondo essa etiqueta, como os primeiros cristãos exprobravam ao paganismo, a tudo quanto se lhes antolhe, menos ao único Deus vivo e verdadeiro; não é hoje porém fenómeno próprio dos mais nem dos melhores. Sobretudo não dos mais autenticamente religiosos. Não andaria muito longe de certa verdade Fernando Pessoa quando notava que, entre nós, os poetas religiosos não eram católicos e os poetas católicos não eram religiosos."
D. António Ferreira Gomes, Pórtico in "Contos Exemplares" de Sophia de Mello Breiner Andresen. Porto: Porto Editora, 2013 (36ª ed), p. 13 a 15 (1ª edição em 1962)
Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas.
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida.
-É - disse o homem -, mas não encontrámos ainda a estrada.
A mulher, porém, entornou a cabeça para trás e respirou profundamente o cheiro das árvores e da terra. Estendeu a mão no ar e na ponta dos seus dedos poisou uma borboleta.
-Ah- disse ela - mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e belo. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar, em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas, como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz poisa leve nos nossos rostos, como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.
Sophia de Mello Breyner Andresen, Contos Exemplares. ( Ilustrações de João Catarino) Porto: Porto Editora, 2013, (36ª edição). p. 97.
Um conto angustiante e triste mas também muito belo da Sophia
Maria Barroso, fotografia de Rui Gaudêncio, no Público
Homenagem a Maria Barroso - ver a partir do minuto 28.
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen na voz de Maria Barroso
Carta aos amigos mortos Eis que morrestes – agora já não bate O vosso coração cujo bater Dava ritmo e esperança ao meu viver Agora estais perdidos para mim – O olhar não atravessa esta distância – Nem irei procurar-vos pois não sou Orpheu tendo escolhido para mim Estar presente aqui onde estou viva. Eu vos desejo a paz nesse caminho Fora do mundo que respiro e vejo. Porém aqui eu escolhi viver Nada me resta senão olhar de frente Neste país de dor e incerteza. Aqui eu escolhi permanecer Onde a visão é dura e mais difícil Aqui me resta apenas fazer frente Ao rosto sujo de ódio e de injustiça A lucidez me serve para ver A cidade a cair muro por muro E as faces a morrerem uma a uma E a morte que me corta ela me ensina Que o sinal do homem não é uma coluna. E eu vos peço por este amor cortado Que vos lembreis de mim lá onde o amor Já não pode morrer nem ser quebrado. Que o vosso coração que já não bate O tempo denso de sangue e de saudade Mas vive a perfeição da claridade Se compadeça de mim e de meu pranto Se compadeça de mim e do meu canto.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto [Cortesia do Google]
A sepal, petal, and a thorn Sépala, pétala, espinho. Upon a common summer's morn – Na vulgar manhã de Verão – A flash of Dew – A Bee or two – Brilho de orvalho – uma abelha ou duas – A Breeze – a caper in the trees – Brisa saltando nas árvores – And I'm a Rose! – E sou uma Rosa!
Emily Dickinson (1830-1886)
(Tradução de) Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson. Lisboa: Guimarães/Babel, 2010*
Para Emily
Para Sophia
Para Cecília
Sophia de Mello Breyner Andresen- retirado da BNP
Para todas as amigas que por aqui passam: não é uma rosa mas é rosa.
*Nenhuma poesia do tempo se parecia com a sua, tão insólita, tão abrupta, tão tensa e tão concisa. […] a "liberdade" de Emily Dickinson é extremamente complexa, só entendível em pessoalíssimos termos. Mas, na história da poesia norte-americana, em que as figuras dolorosas ou tragicamente isoladas são tantas, ela avulta esplêndida, igualmente distante dos "profissionais" da poesia ou dos fabricantes dela para consumo doméstico ou público.
Jorge de Sena introdução na antologia: 80 poemas de Emily Dickinson.
Paris Opera Ballet, Agnès Letestu e Stéphane Bullion, Coreografia - John Neumeier
O livro de Sophia de Mello Breyner Andresen (textos inéditos) e do neto Pedro Sousa Tavares (que os apresenta): Os Ciganos é lindíssimo pois faz a ponte entre os gadjó e os ciganos ou povo Rom.
Escolhi o trecho que em seguida apresento para dedicar às minhas amigas da Cozinha dos Vurdóns que têm desempenhado um papel muito importante na conquista dos direitos do povo Rom.
O rapaz começou a afastar a caruma do chão, até deixar descoberto um retângulo de terra limpa. Depois pegou num galho seco e escreveu quatro letras: G,E,L,A.
- O que é isso? - perguntou a rapariga. - Isto é o teu nome. Se me estás a ensinar o que sabes creio que também posso fazer o mesmo.Contarás tu as histórias do teu povo.
Sophia de Mello Breyner Andresen e Pedro Sousa Tavares. Os Ciganos, Porto: Porto Editora, p. 54. (Ilustrações de Danuta Wojciechowska)
A ilustradora Danuta Wojciechowska foi distinguida com menções especiais do «Prémio Nacional de Ilustração:
pelas ilustrações do livro “Fala-Bicho”, de Violeta Figueiredo, Editorial Caminho;
pelas ilustrações do livro “O Limpa-Palavras e outros poemas”, de Álvaro Magalhães, ASA; pelas ilustrações do livro “O Gato e o Escuro”, de Mia Couto, Editorial Caminho;
pelas ilustrações do livro “Mouschi o Gato de Anne Frank” de José Jorge Letria, ASA.
Em 2002 foi seleccionada pela THE WHITE RAVENS – A Selection of International Children´s and Youth Literature, com o livro “O Gato e o Escuro”, de Mia Couto, Editorial Caminho. For Young People. Em 2003 foi seleccionada para a Exposição Internacional de Ilustradores da Feira do Livro Infantil de Bolonha.
Foi seleccionada como candidata nacional ao prémio Hans Christian Andersen 2004, atribuído pelo IBBY – International Board oF Books. »