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20/04/2016

Viagens à Ficção...

Gosto da escrita de António Mega-Ferreira. Decidi depois da Viagem a Itália, no século XVIII, realizada por Goethe, fazer uma viagem de cariz literária ao novo mundo, pois só me traria novas ideias. A leitura foca vários vencedores do prémio Nobel, todavia, há um, que há muitos anos me acompanha e que destaco de todos os outros porque é uma paixão maior: Jorge Luís Borges.
Sorri ao ver a capa do livro e a sugestão que ela provoca. 

(...) vi a relíquia cruel do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação do meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph e no Aleph a terra, vi o meu rosto e as minhas vísceras, vi o teu rosto e senti vertigem e chorei, porque os meus olhos tinham visto esse objeto secreto e conjetural cujo nome os homens usurpam, mas que nenum homem olhou: o inconcebível universo.

J. L.Borges,  Aleph*

*António Mega Ferreira, Viagens Hispano-Americanas. Lisboa: Arranha Céus, 2015, p. 142-143.





03/12/2015

"como câmara de eco"

Talbot Hughes, ECHO, 1900, daqui


Ninguém espera de nós a solução de um problema, o consolo de um bom conselho, a conclusão feita da experiência. Todos nos querem usar como câmara de eco da sua completa solidão e ouvi-los é apenas estar ali como uma espécie de espelho que lhes devolve o movimento dos lábios, mas não o som que eles emitem.A vida é um filme mudo, às vezes a cores, mas mudo, irremediavelmente mudo.

António Mega Ferreira, A Blusa Romena. Lisboa: Sextante, 2008, p 212.

 

11/11/2015

Castanhas trazem - a saudade

Castanhas em dia de S. Martinho. Tenho algumas saudades do magusto que se fazia quando andávamos na escola. A risada, a correria, a inconsciência e, talvez, também, a preocupação em não falhar ou a consciência da responsabilidade, mas acima de tudo, a brincadeira. As caras sujas de cinza, a bata suja, o ralhete da mãe, o cheiro a caruma, as castanhas boas e quentinhas, a festa da escola, sim porque era dia de festa na escola.


José Ferraz de Almeida Júnior, detalhe, Saudade, 1899
Pinacoteca do Estado de São Paulo
(Wikimédia)

Nunca fora capaz de lhe ensinar o significado da palavra saudade e, mesmo que o tivesse feito, isso de pouco lhe valia: a saudade não tinha sido inventada para falar de uma presença que nos recorda a ausência de um sentimento, mas para designar o lamento por uma perda que nenhum dos nossos sentidos pode, ainda que parcialmente, reconstruir.

António Mega Ferreira, A Blusa Romena. Lisboa: Sextante, 2008, p. 206.



31/10/2015

Leituras

Henri Matisse, Detalhe,  A  Blusa Romena, 1940             


A tela de Matisse aqui representada foi a mentora do livro de António Mega Ferreira e um detalhe dela
faz parte da capa do mesmo.
Musee National d'Arte Moderne, Centro Georges Pompidou,  Paris
(http://www.artchive.com/artchive/M/matisse/matisse_rumanian_blouse.jpg.html)

A blusa romena é uma explosão de cor na forma ampla, generosa, excessiva, de um corpo de mulher, cujo rosto se rasga, parecia-me então, num sorriso luminoso. ( p.42)
***
A História, assim mesmo: só os humanos a escrevem com letra grande, porque a investem de uma carga intemporal e metafísica que que ela não tem, pura e simplesmente porque não existe enquanto tal. Que outro vazio se esconde por detrás desta desmedida ambição de fazer História através da pequena história de acidentes e casualidades que é o destino de cada um?


António Mega Ferreira, A Blusa Romena. Lisboa: Sextante, 2008, p.45-46.



10/06/2015

Uma flor para Camões e outra...

               BOM FERIADO!
Não tenho feriado, estou a trabalhar e por aqui não é Dia de Portugal. Por isso gozem por mim.:))

 XIII
Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores,

Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.                
                                                 
Diana tomou logo ũa rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e formosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual de aquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura, e mais formosa.

Sorrindo-se o menino lhes tornava:
Todas formosas são; mas eu queria

Viola antes que lírio, nem que rosa.                                      

Luís Vaz de Camões, cortesia do Google, [Camões lírico]


e outra para quem fala de flores

Detalhe da Primavera de Botticelli, Galeria Uffizi, Florença


Primavera, by Sandro Filipepi Known as Botticelli, 1478 about, 15th Century, thick tempera on panel, cm 203 x 314 . : Arte
«O que é que faz das plantas um ritual for all seasons? O que é que as torna tão presentes, e, por isso mesmo, tão indiferentemente transparentes às circunstâncias da vida humana? Porque é que às plantas emprestamos as qualidades da urbanidade, da serenidade e do conforto? É porque são silenciosas, pura e simplesmente mudas e inócuas? Ou porque, precisamente pelo seu silêncio, nos murmuram constantemente as letras do seu segredo, essa sua intransponível proximidade com o animal, sedutora distância que alimenta as nossas fantasias? O que me interessa nas plantas não é a sua vida, mas a sua imagem no coração dos homens e as razões por que as tornámos comparsas privilegiados do nosso destino.»


António Mega Ferreira, Hotel Locarno. Lisboa: Sextante, 2015, pp. 122-123.






04/06/2015

"inteligência estética"

Fotografia tirada a uma reprodução (anos 90) dos “Cerceaux” disc - Rotoreliefs" de Marcel Duchamp (1935) da Fundação Eugénio Granell, Centro Galego de Arte Contemporânea de Santiago de Compostela.


Com alívio, abordou o último tópico da conferência: o que restava hoje da poesia e do jornalismo. como instituições fundadoras da inteligência estética e da consciência cívica do homem ocidental? A primeira exilara-se do sentimento, o segundo abdicara da objetividade. Reparem, disse, e sentiu que, pela primeira vez, se dirigira à assistência, reparem como a poesia contemporânea, poesia das coisas e dos atos humanos, pouco a pouco se foi perdendo da tradicional declinação dos sentimentos, o amor, a paixão, o ciúme, a inveja, a vaidade; e como, quase insensivelmente, continuando a invocar os estados de espírito ou comoções humanas, o seu olhar se virou para o exterior, como se o pensamento e as emoções fossem cada vez mais dependentes de um mundo que se tornou demasiado ocupado pelas coisas concretas, materiais e sensíveis. Ninguém, estava certo, tinha até então reparado nisso, e, parecia-lhe, nem um só dos assistentes estava disposto a começar a concentrar-se nessa sugerida rotação do eixo de trabalho poético na tradição ocidental. Ora, o jornalismo, continuou, seguiu um percurso inverso. O seu tradicional compromisso com a verdade implicava uma espécie de religião dos factos, cujo relato, em nada, ou muito pouco, dependia da especulação sobre os sentimentos humanos. Um crime passional interessava ao jornalismo pelas circunstâncias, procedimentos e averiguações que desencadeava, não pela intensidade, modulações e emoções que o motivara.

António Mega Ferreira, Hotel Locarno. Lisboa: Sextante, 2015, p. 38


13/03/2015

Lento sorriso

Que a alma, feliz com o presente, odeie preocupar-se 
com o que é futuro, e que tempere o que é amargo
com um lento sorriso; nada existe que tenha
apenas um lado feliz.

Horácio, Odes, Livro II, XVI, 25-28, tradução de Pedro Braga Falcão in António Mega Ferreira,
 "Cartas de Casanova, Lisboa 1757". Porto: Sextante, 2013, p. 200.

A capa do livro de António Mega Ferreira tem a imagem da fabulosa tela de Fragonard abaixo representada. Casa muito bem com o tema do livro. 

Rien ne porra faire que je ne me sois amusé,
Giacomo Casanova

Jean-Honoré Fragonard, Les hasards heureux de l'escarpolette, c. 1767,
 The Wallace Collection, daqui


Jean-Honoré Fragonard, The Swing, c. 1767, oil on canvas.  The Wallace Collection, London

Nota do Autor
«As seis cartas de Giacomo Girolano Casanova (1725-1798) que aqui se dão devem ter sido encontradas entre os papéis deixados pelo escritor em Dux, onde se acolhera nos últimos anos de vida na condição de bibliotecário do conde Waldstein. (...)
Não se sabe se os destinatários tomaram conhecimento de alguma ou algumas destas cartas; se as cartas chegaram a ser expedidas; nem sequer se Casanova alguma vez esteve em Lisboa, pelo que pode nem as ter escrito. É esse o princípio da fição.»

***
As cartas - Carta Primeira ao Senhor de Bernis, ministro de Luís XV. Carta Segunda a Francesco Casanova, pintor de batalhas; Carta Terceira à freira M.M., religiosa no convento de Santa Maria degli Angeli, em Murano; Carta Quarta a Matteo Bragadin, senador da República de Veneza; Carta Quinta à condessa Coronini, dama da corte do Eleitoe da Baviera; Carta Sexta ao senhor Bernis, ministro de Luís XV.


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