Talvez porque estou assoberbada de trabalho e confinada a este isolamento obrigatório, não tenho muitas palavras para lhe dizer, a não ser que nunca me vou esquecer dos olhos de alguns miúdos interessados na sua história de vida. E que vida!
Il a mis le café Dans la tasse Il a mis le lait Dans la tasse de café Il a mis le sucre Dans le café au lait Avec le petit cuiller Il a tourné Il a bu le café au lait Et il a resposé la tasse Sans me parler Il a alumé Une cigarrette Il a fait des ronds Avec la fumée Il a mis des cendres Dans le cendrier Sans me parler Sans me regarder Il s'est levé Il a mis Son chapeau sur la tête Il a mis Son manteau de pluie Parce qu'il pleuvait Il est parti Sous la pluie Sans une parole Sans me regarder E moi j'ai pris Ma tête dans ma main E j'ai pleuré.
Jacques Prévert ( https://trapichedosoutros.blogspot.com/2012/07/dejeuner-du-matin-cafe-da-manha-de.html)
Sea Sorrow, 2017, documentário dirigido por Vanessa Redgrave, foca a crise actual dos migrantes e faz um paralelismo com a angustiante vida dos que migraram por causa dos horrores da guerra ao longo dos tempos. Mais, enuncia os Direitos do Homem, algo que no século XXI ainda não se conseguiu atingir.
Um documentário que vi recentemente na íntegra e que aconselho a verem.
A Paixão de Van Gogh resume-se à beleza da tela animada e a uma história através de uma paleta virtual.
1. “Vincent,” painted by Anna Kluza. Robert Gulaczyk as Vincent van Gogh, inspired by van Gogh's self portrait. Photo courtesy of Good Deed Entertainment and BreakThru Films.
2. “What Dr. Gachet? No, I Wouldn’t Have Said That,” painted by Christos Marmeris.The second of five Adeline Ravoux (Eleanor Tomlinson) close-ups at the window. Here she is commenting on the supposed friendship between Dr. Gachet and van Gogh. Photo courtesy of Good Deed Entertainment and BreakThru Films.
3. “Chaponval,” painted by Anna Wydrych Design painting combining van Gogh’s paintings “Houses at Auvers” and “Thatched Cottages at Cordeville.” Photo courtesy of Good Deed Entertainment and BreakThru Films.
4. “Dr. Gachet,” painted by Piotr Dominiak.
5. “How I Remember Him,” painted by Marlena Jopyk-Misiak.
In this “Noir Vincent” shot, Armand Roulin (Douglas Booth) enters “Bedroom in Arles” and is confronted by the spectacle of Vincent covered in blood on the "night of the ear."
Photo courtesy of Good Deed Entertainment and BreakThru Films.
6. “Marguerite Gachet,” painted by Bartosz Armusiewicz
Saoirse Ronan as Marguerite Gachet, the mecurial doctor's daughter. Inspired by van Gogh's “Marguerite Gachet at the Piano.” Photo courtesy of Good Deed Entertainment and BreakThru Films.
Recordações: há um ou outro vestígio do mar que guardamos mesmo no local que nos parece improvável.
Este búzio não o encontrei eu própria numa praia Mas na mediterrânica noite azul e preta Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais Rente aos mastros baloiçantes dos navios E comigo trouxe ressoar dos temporais
Porém nele não oiço Nem o marulho de Cós nem o de Egina Mas sim o cântico da longa vasta praia Atlântica e sagrada Onde para sempre a minha alma foi criada
Sophia de Mello Breyner, O Búzio de Cós e Outros Poemas, Editorial Caminho, 1999.
Num passeio à livraria de Miguel de Carvalho, com a Graça, conversou-se, viram-se livros e arte. Após essa viagem o Miguel Carvalho presenteou-nos com uma pequena brochura escrita por si, um pequeno ensaio sobre o livro-objecto.
O conceito estético da realização da brochura é bastante original e interessante. A capa é feita de radiografias por isso cada livrinho é um exemplar, per si, personalizado. A mim calhou-me uma coluna vertebral. Tal simbologia assoberbou por completo o meu sentido estético e literário.
A escrita de Miguel Carvalho não é fácil, ou não houvera escolhido Cesariny, mas é escorreita, e de lógica em lógica leva-nos ao propósito a que se propôs, o lugar do livro-objecto da poesia nos nossos dias.
A capa do meu livrinho
Começa com uma citação de Cesariny, na Pena Capital (1957)
«... o livro-objecto não se situa do lado do criador, nem do lado do observador/leitor (muito menos do lado dos marchands). Situa-se a meu entender, do lado da poesia adimensional, no espaço e no tempo de um verbo, entre a sua nascença e a sua ruína, como uma manifestação da resposta à questão cujo eco é o vazio que não o suporta. E a sua ocultação pela sociedade tem como equivalente o silêncio e o desprezo nos quais se encontram mergulhados toda a produção poética autêntica. [...]
Estes objectos poéticos reduzem-se à linguagem que lhes confere o poder que têm de nos impregnar com paisagens interiores e todo o seu interesse reside também e ainda mais além. São objectos inclassificáveis, que não "falam" uma linguagem universal mas comunicam duma forma particular que nada tem a ver com as esculturas e as assemblages tradicionais, suscitando "exaltações recíprocas" duma mise en scéne própria invasora do observador. No domínio do visível, o prazer do olhar, não obedece ao mesmo imperativo que no domínio do legível. A estética não está nos livros-objectos na ordem do logos, isto é, a título de exemplo; a sensação que nos é proporcionada pela contemplação de um quadro ou escultura, não é provocada pelo respeito duma regra semelhante àquela que rege um escrito. Mas a fusão dos dois sustenta-se de "beleza convulsiva" que tais objectos encerram...»
Para mim esta análise interessa-me como visão da arte: a palavra ou a imagem, qual delas tem mais força?
Vi um filme interessante que intersecciona as duas perspectivas.
Não há dúvida que na arte da escrita e, em particular da poesia, o aspecto psicológico é muito importante, isto é, o estado de alma, a abertura para, conta muito para a absorção da poesia. O mundo actual é o mundo da imagem, esta mais facilmente conquista o observador.
Não obstante, a palavra e a imagem cruzarem-se em planos e regras diferentes, elas têm a mesma finalidade: apaixonar e embelezar a vida.
Agradeço ao Miguel o livrinho e à Graça e ao Miguel a companhia matinal.
Words and Pictures, foca a questão abordada de uma forma mais leve; é um filme realizado por Fred Schepisi com a participação de Clive Owen e Juliette Binoche
(Por vezes não há fronteiras entre o mar e o céu a não ser uma linha ténue no horizonte. )
Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou.
Clarice Lispector, A Hora da Estrela. Lisboa: Relógio de Água, 2002, p. 13.
Diogo Muñoz, patente na Exposição Factotum que decorreu de 7 de Junho a 14 de Setembro de 2014 na Fundação Dom Luís, Centro Cultural de Cascais.
Diogo Muñoz, Audrey Hepburn, sd
«Já afirmado a nível internacional, Diogo Muñoz pode ser definido como um artista completo, capaz de dominar a pintura em todas as suas formas e géneros. Grande retratista e pintor hiper-realista ocasional, a arte de Diogo é ainda, e sobretudo, génio criativo.
Falar da sua obra é falar de um mundo à parte, de um universo quase literário, feito de protagonistas e figurantes, de cor, imagens e símbolos, que remetem tanto à realidade histórica como ao imaginário colectivo, tanto à memória como à criatividade pura do artista. Aquela de Diogo Muñoz é uma pintura culta, refinada e extremamente atenta a todos os detalhes. A sua maturidade artística é facilmente reconhecível quer no seu virtuosismo pictórico que consente que jogue com ilusões hiper-realistas dignas de um mestre tardo-barroco -seja na fantasia inventiva, através da qual dá sinal de uma liberdade intelectual e expressiva, que torna a sua arte única e fortemente reconhecível.
Na sua produção mais recente Diogo desenvolveu um percurso de procura, que o levou a atingir um repertório de temáticas e imagens que remetem à cultura Pop assim como a ícones da história da arte. É aqui que, no espaço da tela, se sucedem cenários e personagens que trasladados da realidade histórica entram no presente da tela, no presente do pintor. Mestres do passado como Velasquez e Picasso dialogam com os ícones pop do nosso tempo, aqueles da BD e das revistas ilustradas, criando um vórtice temporal no qual a cultura alta se mescla com aquela das massas, da televisão, do espectáculo, gerando um "pastiche" de anacronismos imagéticos.»
Florença, Setembro de 2012
Giada Rodani, curadora e crítica de arte. [Retirado de um panfleto da exposição].
Audrey foi sempre um ícone para mim, quer no que diz respeito à elegância quer como ser humano, este último reforçado com o desempenho de embaixadora (*) da Unicef.
Depois de ter visto o filme de Gilles Bourdos: "Renoir" sobre Pierre Auguste Renoir tive vontade de conhecer a casa onde ele viveu os últimos anos de vida. Foi, pois, com emoção que visitei a propriedade, tentando imaginar quanto possível a vivência de um dos mentores do impressionismo.
Na subida... ao encontro de Renoir
- Casa - Museu Pierre Auguste Renoir, Cagnes - Sur- Mer ou Domaine des Collettes
A flora é luxuriante. O azul do mar no horizonte enche os olhos e apazigua a alma. A paisagem humana é diferente da do início do século XX, tal como, provavelmente, parte de algumas plantas mas dá para nos encontrarmos com o ambiente em que o pintor viveu e com as cores que conviveu. Encontramos as oliveiras centenárias e os caminhos sinuosos.
Mais próximo da casa de Renoir, ela recebe-nos de portas e janelas abertas
Renoir, Coco lising, 1905; Cópia de Albert André, La petite fille au cerceau de P.A. Renoir
Casa-museu Renoir, Caignes Sur Mer
A sala de jantar e a sala de estar. Não sei se estaria assim quando Renoir a habitava mas tem muitas fotografias que testemunham o seu quotidiano.
O mar, as cores, os cheiros eram provavelmente ingredientes para os temas escolhidos.
A cozinha
O atelier foi a sala que mais me emocionou.
Perspectiva do quarto de Renoir
A cadeira onde era transportado para o atelier do jardim
Pierre-Auguste Renoir. Natureza Morta. (sd)
O atelier no jardim
Escultura de Renoir representando Aline, sua mulher.
Maria Barroso, fotografia de Rui Gaudêncio, no Público
Homenagem a Maria Barroso - ver a partir do minuto 28.
Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen na voz de Maria Barroso
Carta aos amigos mortos Eis que morrestes – agora já não bate O vosso coração cujo bater Dava ritmo e esperança ao meu viver Agora estais perdidos para mim – O olhar não atravessa esta distância – Nem irei procurar-vos pois não sou Orpheu tendo escolhido para mim Estar presente aqui onde estou viva. Eu vos desejo a paz nesse caminho Fora do mundo que respiro e vejo. Porém aqui eu escolhi viver Nada me resta senão olhar de frente Neste país de dor e incerteza. Aqui eu escolhi permanecer Onde a visão é dura e mais difícil Aqui me resta apenas fazer frente Ao rosto sujo de ódio e de injustiça A lucidez me serve para ver A cidade a cair muro por muro E as faces a morrerem uma a uma E a morte que me corta ela me ensina Que o sinal do homem não é uma coluna. E eu vos peço por este amor cortado Que vos lembreis de mim lá onde o amor Já não pode morrer nem ser quebrado. Que o vosso coração que já não bate O tempo denso de sangue e de saudade Mas vive a perfeição da claridade Se compadeça de mim e de meu pranto Se compadeça de mim e do meu canto.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto [Cortesia do Google]
Words and Pictures, Por Falar de Amor,é um filme de Fred Schepisi, interpretado por Juliette Binoche e Clive Owen.
Um filme não é apenas um filme. W and P relata um romance/drama/comédia que nos oferece muito mais que uma história de amor, ele retrata: a arte e o seu sentido.
Aliás reparem no título original do filme.
Juliette Binoche pintou as telas que surgem no filme, é amante de arte e teve lições de pintura na sua juventude. A inspiração para as telas vêm da artista Fabienne Verdier, à direita.
A actriz revelou o seu profissionalismo e a sua sensibilidade. Parabéns Juliette Binoche.