Pequenas histórias e retratos do país sob o olhar literário de Luís de Camões. A viajem começa na companhia do Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira que relaciona a obra poética de Camões com o Norte de Portugal.
Assim, encontramos a alma portuguesa: ligada à terra, marcada pela história e inspirada pelo desejo de ir sempre mais longe.
Para mim a literatura de viagens reaviva as memórias, reacende o gosto pelo país e o encontro, neste caso, com a poesia camoniana.
Olha estoutra bandeira, e vê pintado
O grão progenitor dos Reis primeiros.
Nós Húngaro o fazemos, porém nado
Crem ser em Lotaríngia os estrangeiros.
Depois de ter, os Mouros, superado
Galegos e Leoneses, cavaleiros,
À CasaSanta passao o santo Henrique,
Por que o tronco dos Reis se santifique.
(in Lusíadas, Canto VIII, estância9)
Viajar com... Luís de Camões, os caminhos da Literatura., Guimarães, Opera Omnia, p.29.
Árvore, cujo pomo, belo e brando Árvore, cujo pomo, belo e brando, natureza de leite e sangue pinta, onde a pureza, de vergonha tinta, está virgíneas faces imitando; nunca da ira e do vento, que arrancando os troncos vão, o teu injúria sinta; nem por malícia de ar te seja extinta a cor, que está teu fruito debuxando. Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo a meu contentamento, e favoreces com teu suave cheiro minha glória, se não te celebrar como mereces, cantando-te, sequer farei contigo doce, nos casos tristes, a memória.
Que vençais no Oriente tantos Reis, Que de novo nos deis da Índia o Estado, Que escureçais a fama que hão ganhado Aqueles que a ganharam de infiéis; Que vencidas tenhais da morte as leis, E que vencêsseis tudo, enfim, armado, Mais é vencer na Pátria, desarmado, Os monstros e as Quimeras que venceis. Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo, E por armas fazer que sem segundo No mundo o vosso nome ouvido seja; O que vos dá mais fama inda no mundo, É vencerdes, Senhor, no Reino amigo, Tantas ingratidões, tão grande inveja.
BOM FERIADO! Não tenho feriado, estou a trabalhar e por aqui não é Dia de Portugal. Por isso gozem por mim.:))
XIII Num jardim adornado de verdura, Que esmaltavam por cima várias flores, Entrou um dia a deusa dos amores, Com a deusa da caça e da espessura. Diana tomou logo ũa rosa pura, Vénus um roxo lírio, dos melhores; Mas excediam muito às outras flores As violas na graça e formosura.
Perguntam a Cupido, que ali estava, Qual de aquelas três flores tomaria Por mais suave e pura, e mais formosa.
Sorrindo-se o menino lhes tornava: Todas formosas são; mas eu queria
Viola antes que lírio, nem que rosa.
Luís Vaz de Camões, cortesia do Google, [Camões lírico]
e outra para quem fala de flores
Detalhe da Primavera de Botticelli, Galeria Uffizi, Florença
«O que é que faz das plantas um ritual for all seasons? O que é que as torna tão presentes, e, por isso mesmo, tão indiferentemente transparentes às circunstâncias da vida humana? Porque é que às plantas emprestamos as qualidades da urbanidade, da serenidade e do conforto? É porque são silenciosas, pura e simplesmente mudas e inócuas? Ou porque, precisamente pelo seu silêncio, nos murmuram constantemente as letras do seu segredo, essa sua intransponível proximidade com o animal, sedutora distância que alimenta as nossas fantasias? O que me interessa nas plantas não é a sua vida, mas a sua imagem no coração dos homens e as razões por que as tornámos comparsas privilegiados do nosso destino.»
António Mega Ferreira, Hotel Locarno. Lisboa: Sextante, 2015, pp. 122-123.
Em louvor do robot Philae: Debaxo deste grande Firmamento, Vês o céu de Saturno, Deus antigo; Júpiter logo faz o movimento, E Marte abaxo, bélico inimigo; O claro Olho do céu, no quarto assento, E Vénus, que os amores traz consigo; Mercúrio, de eloquência soberana; Com três rostos, debaxo vai Diana. Os Lusíadas, Canto X, 89
Rimas Várias de Luís de Camões, (comentadas por Manuel de Faria e Sousa) Edição comemorativa, Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1972, pag. 1.
«Camões» de Leitão de Barros estreou a 23 de Setembro de 1946, no cinema S. Luís. Argumento: A tempestuosa existência errante de Luís Vaz de Camões, desde os tempos irreverentes com estudante em Coimbra, aos amores contrariados, como guerreiro da "má fortuna", até ao declínio inglório, acompanhando a decadência do fausto renascentista e da pátria imperial. Intérpretes: António Vilar - Camões; José Amaro - D. Manuel de Portugal; Igrejas Caeiro - André Falcão de Resende; Paiva Raposo - Pero de Andrade Caminha; Idalina Guimarães - Inês; Leonor Maia - Leonor; Vasco Santana - Mal Cozinhado; Eunice Muñoz - Beatriz da Silva; José Victor - Frei Bartolomeu Ferreira; Carmen Dolores - Catarina de Ataíde / Natércia; João Villaret - D. João III; Julieta Castelo - Infanta D. Maria; Assis Pacheco - D. João da Silva - O Regedor de Justiça e ainda: António Silva; Costinha; Manuel Lereno; Dina Salazar, António Góis, Josefina Silva; Regina Montenegro.
Recebi este Natal uma edição dos Lusíadas, da Lello, que me fez feliz. Escolhi duas estrofes.
Formato 10 x 13 cm
Gian Lorenzo Bernini, Apolo e Dafne, Galleria Borghese,
Roma (Wikipédia)
1
Agora tu, Calíope, me ensina O que contou ao Rei o ilustre Gama: Inspira imortal canto e voz divina Neste peito mortal, que tanto te ama. Assim o claro inventor da Medicina, De quem Orfeu pariste, ó linda Dama, Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe, Te negue o amor devido, como soe. 2 Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo, Como merece a gente Lusitana; Que veja e saiba o mundo que do Tejo O licor de Aganipe corre e mana. Deixa as flores de Pindo, que já vejo Banhar-me Apolo na água soberana; Senão direi que tens algum receio, Que se escureça o teu querido Orfeio.
Luís Vaz de Camões, Lusíadas. Porto: Lello Editores, Canto III, Estrofe 1 e 2. 1980, (p.81).
E porque Camões dedicou os Lusíadas a D. Sebastião
Estavas, linda Inês, posta em sossego. De teus anos colhendo doce fruito, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus fermosos olhos nunca enxuito, Aos montes insinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.
Luís Vaz de Camões, Lusíadas, Canto III, 118-137.
Raízes centenárias entre a luz e a sombra num dia de sol intenso.
Livros miniatura:
Jesus Cristo:
«Filho de Deus.»
O casamento,
«Os afectos podem , às vezes, somar-se. Subtrair-se nunca.» Pitágoras
para o pai,
«Não há maior alegria para um filho que a glória de seu pai e para um pai que os feitos de seu filho.» Atribuído a Sófocles
profetas menores é um belo livro de uma colecção sobre figuras bíblicas, apresentado por Manuel Poppe e com ilustrações de Luís Miguel Castro.
Nessa terra, Israel, sem nada senão a Promessa, espaço mínimo crestado pelo sol, lugar que o sonho e a esperança dos homens fizeram e fazem vibrar - com Deus ou o silêncio -, emblematicamente ali, teria de se viver a aventura da Sua busca, o combate decisivo e sempre repetido:«ficou sozinho e um homem lutou com ele até de madrugada» (Génesis, XXXII, 25)
Manuel Poppe (p. 11) A palavra hebraica aliab tem, pelo menos, quatro significados: imigração para a terra de Israel; peregrinação a Jerusalém; a honra de ser chamado, na sinagoga, à leitura do Pentateuco e a assunção miraculosa, que a Bíblia refere a propósito de Henoc (Génesis, V, 23, 24) e de Elias Segundo Livro dos Reis, II, 11) e na qual a tradição rabinica abraça Moisés e Baruc. Um carro de fogo recolhe Elias e eleva-o ao céu e é esse turbilhão que o Profeta ascende, sobe a Deus, tal qual subimos a Jerusalém.
Em Salmos CXXXVII,5,6, «Junto aos rios da Babilónia, Canto do Exilado, o poeta:
Se me esquecer de ti, Jerusalém, fique inutilizada a minha direita! Se me esquecer de ti, Jerusalém se tu não fores a minha suprema alegria, que a minha língua se cole ao meu palato.»
profetas menores Apresentação de Manuel Poppe, Lisboa: Três Sinais Editores, 2001, p. 6
Do elenco desta publicação fazem parte os seguintes textos e autores:
Génesis: um código ético e moral da vida, Joshua Ruah; São João: o evangelho místico, João Bénard da Costa. Eclesiastes: da vida e da morte, Jorge Sampaio; Job: o jogo da fé, Manoel de Oliveira; Samuel e a voz dos profetas, Vasco Graça Moura; Ester: uma história estéril, Clara Ferreira Alves; Profetas menores: a viagem com Deus, Manuel Poppe; Lamentações: Senhor, terá acabado a história?, José Pacheco Pereira; Cântico dos cânticos: um tijolo quente na cama, Agustina Bessa-Luis; Isaías, Adriano Moreira; Salmos: o canto de Deus, Eduardo Lourenço; Coríntios: o desafio de Deus, Maria José Nogueira Pinto; São Mateus: a doutrina de Jesus, Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.
Magritte, Les Reveries du Promeneur Solitaire, c.1926
Três arquétipos certos ou errados, não importa!
Ao longo dos tempos falar de mulheres era um tema recorrente na literatura, na arte e no cinema. O oposto é menos conseguido. Sem qualquer tipo de feminismo porque sou alérgica a essas manifestações, voilà:
- O predador. O homem predador gosta de ter sob a sua alçada a presa. Quanto mais ela é fugaz mais interesse desperta. Não aceita um não e é um sedutor. Seduz com malabarismos cavalheirescos. Os jogos são uma constante.
- O sonhador/sedutor. O homem sonhador/sedutor vagueia entre o sonho e a poesia e seduz a sua ninfa. Mas uma ninfa não chega. O amor é arrebatador nasce e morre num espaço de tempo. A paixão serve de pena que corre sobre o papel.
- O sonhador fiel. O homem sonhador fiel ama com paixão sobre as nuvens e segue a luz das estrelas. Sonha e faz sonhar. É um cavaleiro, um príncipe fiel à sua dama, ao seu amor, coisa rara!
Uma provocação para os visitantes masculinos. Digam de sua justiça sobre os três paradigmas! :)
“Ó que famintos beijos na floresta, E que mimoso choro que soava! Que afagos tão suaves, que ira honesta, Que em risinhos alegres se tornava! O que mais passam na manhã, e na sesta, Que Vénus com prazeres inflamava, Melhor é experimentá-lo que julgá-lo, Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”
Luís Vaz de Camões, "A Ilha dos Amores. Canto IX, estrofe 83 " in Lusíadas
Bom dia de Portugal ... escolhi uma écloga de Camões para homenagear o poeta, todos os heróis e não heróis deste pequeno país grande sonho português.
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xHieronymus Bosch, O Campo Tem Olhos, A Floresta Tem Orelhas
Pena e bistre, 20,2 x 12,7 cm, Staatliche Museen Preubischer Kulturbesitz, Kupferstichkabinett, Berlim
Ecloga V Pastor Solo
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Já sobre hum seco ramo estava posto o moucho com funesto, & triste canto: Ao som delle o Pastor ergueo o rosto, E vio a terra envolta em negro manto. Quebrando entam o fio de seu gosto, E o fio nam quebrando de seu pranto, Por nam se descuidar de seu cuidado, Levou para os curraes o manso gado.
Rimas Várias de Camões, (comentadas por Manuel Faria de Sousa), Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, [Edição Comemorativa], 1972, p. 277.