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22/03/2026

Sol!

 Sol, finalmente, sol! 

František Dvořák   Lady With Book In Garden, 1892

Detalhe


Margaridas...F.Foz




Para comemorar o dia da poesia e da Primavera, com atraso. 

Quando o sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
Ao longo de huma praia deleitosa
Vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi os cabellos concertando;
Alli co'a mão na face, tão formosa;
Aqui fallando alegre, alli cuidosa;
Agora estando quêda, agora andando.

Aqui esteve sentada, alli me vio,
Erguendo aquelles olhos, tão isentos;
Commovida aqui hum pouco, alli segura.

Aqui se entristeceo, alli se rio:
E, em fim, nestes cansados pensamentos
Passo esta vida vãa, que sempre dura.

Obras completas de Luis de Camões (1843, v. II) 

25/02/2026

Viajar com...

Pequenas histórias e retratos do país sob o olhar literário de Luís de Camões. A viajem começa na companhia do Professor Doutor José Carlos Seabra Pereira que relaciona a obra poética de Camões com o Norte de Portugal.
Assim, encontramos a alma portuguesa: ligada à terra, marcada pela história e inspirada pelo desejo de ir sempre mais longe.



Para mim a literatura de viagens reaviva as memórias, reacende o gosto pelo país e o encontro, neste caso, com a poesia camoniana. 

Olha estoutra bandeira, e vê pintado
O grão progenitor dos Reis primeiros.
Nós Húngaro o fazemos, porém nado
Crem ser em Lotaríngia os estrangeiros.
Depois de ter, os Mouros, superado
Galegos e Leoneses, cavaleiros,
À CasaSanta passao o santo Henrique,
Por que o tronco dos Reis se santifique.

(in Lusíadas, Canto VIII, estância 9)

Viajar com... Luís de Camões, os caminhos da Literatura.Guimarães, Opera Omnia, p.29.

Erik Satie, Gymnopédie nº1



26/04/2019

Árvore, cujo pomo, belo e brando


Árvore, cujo pomo, belo e brando

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;

nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.

Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Luís Vaz de Camões


10/07/2016

Que Vençais... - Luís Vaz de Camões


Que Vençais no Oriente tantos Reis



Que vençais no Oriente tantos Reis,
Que de novo nos deis da Índia o Estado,
Que escureçais a fama que hão ganhado
Aqueles que a ganharam de infiéis;

Que vencidas tenhais da morte as leis,
E que vencêsseis tudo, enfim, armado,
Mais é vencer na Pátria, desarmado,
Os monstros e as Quimeras que venceis.

Sobre vencerdes, pois, tanto inimigo,
E por armas fazer que sem segundo
No mundo o vosso nome ouvido seja;

O que vos dá mais fama inda no mundo,
É vencerdes, Senhor, no Reino amigo,
Tantas ingratidões, tão grande inveja.

Luís Vaz de Camões, in "Sonetos"

10/06/2015

Uma flor para Camões e outra...

               BOM FERIADO!
Não tenho feriado, estou a trabalhar e por aqui não é Dia de Portugal. Por isso gozem por mim.:))

 XIII
Num jardim adornado de verdura,
Que esmaltavam por cima várias flores,

Entrou um dia a deusa dos amores,
Com a deusa da caça e da espessura.                
                                                 
Diana tomou logo ũa rosa pura,
Vénus um roxo lírio, dos melhores;
Mas excediam muito às outras flores
As violas na graça e formosura.

Perguntam a Cupido, que ali estava,
Qual de aquelas três flores tomaria
Por mais suave e pura, e mais formosa.

Sorrindo-se o menino lhes tornava:
Todas formosas são; mas eu queria

Viola antes que lírio, nem que rosa.                                      

Luís Vaz de Camões, cortesia do Google, [Camões lírico]


e outra para quem fala de flores

Detalhe da Primavera de Botticelli, Galeria Uffizi, Florença


Primavera, by Sandro Filipepi Known as Botticelli, 1478 about, 15th Century, thick tempera on panel, cm 203 x 314 . : Arte
«O que é que faz das plantas um ritual for all seasons? O que é que as torna tão presentes, e, por isso mesmo, tão indiferentemente transparentes às circunstâncias da vida humana? Porque é que às plantas emprestamos as qualidades da urbanidade, da serenidade e do conforto? É porque são silenciosas, pura e simplesmente mudas e inócuas? Ou porque, precisamente pelo seu silêncio, nos murmuram constantemente as letras do seu segredo, essa sua intransponível proximidade com o animal, sedutora distância que alimenta as nossas fantasias? O que me interessa nas plantas não é a sua vida, mas a sua imagem no coração dos homens e as razões por que as tornámos comparsas privilegiados do nosso destino.»


António Mega Ferreira, Hotel Locarno. Lisboa: Sextante, 2015, pp. 122-123.






13/11/2014

"Debaxo deste grande Firmamento"

Coimbra

Em louvor do robot Philae:

Debaxo deste grande Firmamento, 
Vês o céu de Saturno, Deus antigo; 
Júpiter logo faz o movimento, 
E Marte abaxo, bélico inimigo; 
O claro Olho do céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo; 
Mercúrio, de eloquência soberana; 
Com três rostos, debaxo vai Diana.

Os Lusíadas, Canto X, 89


Luis Vaz de Camões

10/06/2014

Rimas Várias [portuguesas]


Imagem retirada da Wikipédia

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum Juízo isento
Escurecendo o Engenho com o tormento,
Para que seus enganos não dissesse.

Ó vós, que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve Livro casos tão diversos;

Verdades puras são, e não defeitos.
Entendei que segundo o Amor tiverdes,
Tireis o entendimento de meus Versos.

[transcrição actualizada]

Rimas Várias de Luís de Camões, (comentadas por Manuel de Faria e Sousa) Edição comemorativa, Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1972, pag. 1.




«Camões» de Leitão de Barros estreou a 23 de Setembro de 1946, no cinema S. Luís.

Argumento: A tempestuosa existência errante de Luís Vaz de Camões, desde os tempos irreverentes com estudante em Coimbra, aos amores contrariados, como guerreiro da "má fortuna", até ao declínio inglório, acompanhando a decadência do fausto renascentista e da pátria imperial. Intérpretes: António Vilar - Camões; José Amaro - D. Manuel de Portugal; Igrejas Caeiro - André Falcão de Resende; Paiva Raposo - Pero de Andrade Caminha; Idalina Guimarães - Inês; Leonor Maia - Leonor; Vasco Santana - Mal Cozinhado; Eunice Muñoz - Beatriz da Silva; José Victor - Frei Bartolomeu Ferreira; Carmen Dolores - Catarina de Ataíde / Natércia; João Villaret - D. João III; Julieta Castelo - Infanta D. Maria; Assis Pacheco - D. João da Silva - O Regedor de Justiça e ainda: António Silva; Costinha; Manuel Lereno; Dina Salazar, António Góis, Josefina Silva; Regina Montenegro. 

09/01/2014

Livros, o deleite da alma - IV, Camões


Recebi este Natal uma edição dos Lusíadas, da Lello, que me fez feliz. Escolhi duas estrofes. 

Formato 10 x 13 cm
Os Lusíadas

Gian Lorenzo Bernini, Apolo e Dafne, Galleria Borghese,
Roma (Wikipédia)
                          1
Ficheiro:ApolloAndDaphne.JPGAgora tu, Calíope, me ensina
O que contou ao Rei o ilustre Gama:
Inspira imortal canto e voz divina
Neste peito mortal, que tanto te ama.
Assim o claro inventor da Medicina,
De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
Te negue o amor devido, como soe.
                       
                        2
Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
Como merece a gente Lusitana;
Que veja e saiba o mundo que do Tejo
O licor de Aganipe corre e mana.
Deixa as flores de Pindo, que já vejo
Banhar-me Apolo na água soberana;
Senão direi que tens algum receio,
Que se escureça o teu querido Orfeio.

Luís Vaz de Camões, Lusíadas. Porto: Lello Editores, Canto III, Estrofe 1 e 2. 1980, (p.81).


E porque Camões dedicou os Lusíadas a D. Sebastião

16/04/2012

Sobre os elementos...disse Camões

Debaixo do céu, Galleria Vittorio Emanuele II, Milão




XLIV

Pelos raros extremos que mostrou
Em sábia Palas, Vénus em formosa,
Diana em casta, Juno em animosa,
África, Europa e Ásia as adorou.

Aquele saber grande que juntou
Espírito e corpo em liga generosa,
Esta mundana máquina lustrosa
De só quatro elementos fabricou.

Mas fez maior milagre a natureza
Em vós, Senhoras, pondo em cada ũa
O que por todas quatro repartiu.

A vós seu resplendor deu Sol e Lũa:
A vós com viva luz, graça e pureza,
Ar, Fogo, Terra e Água vos serviu.
Luís Vaz de Camões, Sonetos

16/02/2012

Um passeio

Um passeio pelos caminhos de Pedro e Inês.

A Fonte dos Amores

Estavas, linda Inês, posta em sossego.
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito, Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.


Luís Vaz de Camões, Lusíadas, Canto III, 118-137.

Raízes centenárias entre a luz e a sombra num dia de sol intenso.

Livros miniatura:

Jesus Cristo:

«Filho de Deus.»

O casamento,

«Os afectos podem , às vezes, somar-se. Subtrair-se nunca.»
Pitágoras

para o pai,

«Não há maior alegria para um filho que a glória de seu pai e para um pai que os feitos de seu filho.»
Atribuído a Sófocles




08/10/2011

"profetas menores"

profetas menores é um belo livro de uma colecção sobre figuras bíblicas, apresentado por Manuel Poppe e com ilustrações de Luís Miguel Castro.



Nessa terra, Israel, sem nada senão a Promessa, espaço mínimo crestado pelo sol, lugar que o sonho e a esperança dos homens fizeram e fazem vibrar - com Deus ou o silêncio -, emblematicamente ali, teria de se viver a aventura da Sua busca, o combate decisivo e sempre repetido: «ficou sozinho e um homem lutou com ele até de madrugada» (Génesis, XXXII, 25)

Manuel Poppe (p. 11)
A palavra hebraica aliab tem, pelo menos, quatro significados: imigração para a terra de Israel; peregrinação a Jerusalém; a honra de ser chamado, na sinagoga, à leitura do Pentateuco e a assunção miraculosa, que a Bíblia refere a propósito de Henoc (Génesis, V, 23, 24) e de Elias Segundo Livro dos Reis, II, 11) e na qual a tradição rabinica abraça Moisés e Baruc.
Um carro de fogo recolhe Elias e eleva-o ao céu e é esse turbilhão que o Profeta ascende, sobe a Deus, tal qual subimos a Jerusalém.

Em Salmos CXXXVII,5,6,
«Junto aos rios da Babilónia, Canto do Exilado, o poeta:

Se me esquecer de ti, Jerusalém,
fique inutilizada a minha direita!
Se me esquecer de ti, Jerusalém
se tu não fores a minha suprema alegria,
que a minha língua se cole ao meu palato.»

profetas menores
Apresentação de Manuel Poppe, Lisboa: Três Sinais Editores, 2001, p. 6



Do elenco desta publicação fazem parte os seguintes textos e autores:


Génesis: um código ético e moral da vida, Joshua Ruah;
São João: o evangelho místico, João Bénard da Costa.
Eclesiastes: da vida e da morte, Jorge Sampaio;
Job: o jogo da fé, Manoel de Oliveira;
Samuel e a voz dos profetas, Vasco Graça Moura;
Ester: uma história estéril, Clara Ferreira Alves;
Profetas menores: a viagem com Deus, Manuel Poppe;
Lamentações: Senhor, terá acabado a história?, José Pacheco Pereira;
Cântico dos cânticos: um tijolo quente na cama, Agustina Bessa-Luis;
Isaías, Adriano Moreira;
Salmos: o canto de Deus, Eduardo Lourenço;
Coríntios: o desafio de Deus, Maria José Nogueira Pinto;
São Mateus: a doutrina de Jesus, Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.

26/06/2011

Três arquétipos na "Ilha dos Amores"

Magritte, Les Reveries du Promeneur Solitaire, c.1926
Três arquétipos certos ou errados, não importa!


Ao longo dos tempos falar de mulheres era um tema recorrente na literatura, na arte e no cinema. O oposto é menos conseguido. Sem qualquer tipo de feminismo porque sou alérgica a essas manifestações, voilà:


- O predador. O homem predador gosta de ter sob a sua alçada a presa. Quanto mais ela é fugaz mais interesse desperta. Não aceita um não e é um sedutor. Seduz com malabarismos cavalheirescos. Os jogos são uma constante.


- O sonhador/sedutor. O homem sonhador/sedutor vagueia entre o sonho e a poesia e seduz a sua ninfa. Mas uma ninfa não chega. O amor é arrebatador nasce e morre num espaço de tempo. A paixão serve de pena que corre sobre o papel.


- O sonhador fiel. O homem sonhador fiel ama com paixão sobre as nuvens e segue a luz das estrelas. Sonha e faz sonhar. É um cavaleiro, um príncipe fiel à sua dama, ao seu amor, coisa rara!


Uma provocação para os visitantes masculinos. Digam de sua justiça sobre os três paradigmas! :)

Ó que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã, e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo,
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.”


Luís Vaz de Camões, "A Ilha dos Amores. Canto IX, estrofe 83 " in Lusíadas

10/06/2011

ABC...

O retrato de Camões por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende.

[Este é considerado o mais autêntico retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida]



Porque sou portuguesa, amo o meu país, os nossos poetas, os nossos artistas, a Luís de Camões em jeito de homenagem.

ABC FEITO EM MOTES

A A A A

Ana quisestes que fosse
o vosso nome da pia,
para mor minha agonia.

Apeles, se fora vivo
e a ver-vos alcançara,
por vós retratos tirara.

Aquiles morreu no templo,
contemplando de giolhos;
eu, quando vejo esses olhos.

Artemisa sepultou
a seu irmão e marido;
vós a mim e a meu sentido.

B

Bem vejo que sois, Senhora,
extremo de fermosura,
para minha sepultura.

C C

Cleópatra se matou
vendo morto a seu amante;
e eu por vós, em ser constante.

Cassandra disse de Tróia
que havia ser destruída;
e eu por vós, d'alma e da vida.

N N

Dido morreu por Eneias,
e vós matais quem vos ama;
julgai se sois cruel dama!

Dianira, inocente,
da má morte causadora;
vós da minha sabedora.

E

Eurídice foi a causa
de Orfeu ir ao inferno;
vós de ser meu mal eterno.

FF

Fedra, só de puro amor,
morreu por seu enteado;
eu mouro de desamado.

Febo vai escurecendo
ante vossa claridade;
e eu sem ter liberdade.

G G

Galateia sois, Senhora,
da fermosura extremo;
e eu perdido Polifemo.

Genebra, que foi rainha,
se perdeu por Lançarote;
e vós por me dar a morte.

H H

Hércules, uma camisa
de chamas o consumiu;
minh' alma, dês que vos viu.

Hébis e Dido morreram
com o rigor da mudança;
eu, vendo vossa esquivança.

J J J J

Judite, que o duro Holofernes
degolou, se viva fora,
mate lhe déreis, Senhora.

Júlio César conquistou
o mundo com fortaleza;
vós a mim com gentileza.

Júlio César se livrou
dos inimigos com abrolhos;
eu não posso desses olhos.

Jazia-se o Minotauro
preso no seu labirinto;
mas eu mais preso me sinto.


L L

Leandro se afogou
e foi sua causa Hero;
e a mim, o que vos quero.

Leandro se afogou
no mar de sua bonança;
eu no de vossa esperança.

M M

Minerva dizem que foi,
e Palas, deusas da guerra:
e vós, Senhora, da terra.

Medeia foi mui cruel,
mas não chegou a metade
de vossa grão crueldade.

N N

Narciso o siso perdeu
em vendo a sua figura;
eu, por vossa fermosura.

Ninfas enganam mil Faunos
com seu ar e fermosura;
e a mim, vossa figura.

O O

Os olhos choram o dano
que em vos verem sentiram;
mas eu pago o que eles viram.

Orfeu com a doce harpa
venceu o reino de Plutão;
vós a mim, com perfeição.

P P

Páris a Helena roubou,
por quem Tróia foi perdida;
e vós a mim, alma e vida.

Pirro matou Policena,
perfeita em todos sinais;
e vós a mim me matais.

Q Q

Quanto mais desejo ver-vos,
menos vos vejo, Senhora:
não vos ver milhor me fora.

Querendo ver a Diana,
Actéon perdeu as vida,
que eu por vós trago perdida.

R R

Remédio nenhum não vejo
que remedeie meu mal;
nem crueza à vossa igual.

Roma o mundo sujeita
com armas, saber, temor;
vós a mim só por amor.

Sirena, na mor fortuna
com enganos vai cantando;
e vós, sempre a mim matando.

T T

Tisbe morreu por Piramo,
a ambos matou o Amor;
a mim vosso desfavor.

Tisbe pelo seu amante
morreu com amor sobejo;
mas eu mais morto me vejo.

V V

Vénus, que por mais fermosa
lhe deu Páris a maçã,
não foi quanto vós louçã.

Vénus levou a maçã
por vós não serdes, Senhora,
nacida naquela hora.

X X

Xpõ vos acabe em graça,
e vos faça piadosa
tanto, quanto sois fermosa.

Xantopeia tornou atrás
por Apónio a invocar;
e vós não, a meu chamar.

Luís Vaz de Camões, retirado do Banco de poesia da Casa Fernando Pessoa


Requiem por Camões

10/06/2010

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas!

Bom dia de Portugal ... escolhi uma écloga de Camões para homenagear o poeta, todos os heróis e não heróis deste pequeno país grande sonho português.
x
xHieronymus Bosch, O Campo Tem Olhos, A Floresta Tem Orelhas

Pena e bistre, 20,2 x 12,7 cm, Staatliche Museen Preubischer Kulturbesitz, Kupferstichkabinett, Berlim

Ecloga V

Pastor Solo

XXXX

Já sobre hum seco ramo estava posto
o moucho com funesto, & triste canto:
Ao som delle o Pastor ergueo o rosto,
E vio a terra envolta em negro manto.
Quebrando entam o fio de seu gosto,
E o fio nam quebrando de seu pranto,
Por nam se descuidar de seu cuidado,
Levou para os curraes o manso gado.

Rimas Várias de Camões, (comentadas por Manuel Faria de Sousa), Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, [Edição Comemorativa], 1972, p. 277.

14/02/2010

Eu cantarei de amor tão docemente

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões

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