Do novo livro da minha amiga Graça, uma escolha para o Dia de Portugal (de Camões e das Comunidades Portuguesas):
os anjos também choram os anjos também choram mesmo nas manhãs mais sublimes quando o sol acorda lento e devagar as lágrimas dos anjos são risos e asas e brandura homens a digladiar-se festas e risos falsos quando os anjos adormecem são felizes e riem porque sonham com o Éden onde moram para sempre e deixam de ser anjos a afugentar monstros e lobisomens numa corrida desesperada de asas incansáveis mas se já não há deuses que importa o choro dos anjos a derramar-se para cá das nuvens e a fazer infelizes os homens que sentem as suas lágrimas
Graça Alves, Da Timidez dos Homens, Coimbra: Palimage, 2017, p.42.
BOM FERIADO! Não tenho feriado, estou a trabalhar e por aqui não é Dia de Portugal. Por isso gozem por mim.:))
XIII Num jardim adornado de verdura, Que esmaltavam por cima várias flores, Entrou um dia a deusa dos amores, Com a deusa da caça e da espessura. Diana tomou logo ũa rosa pura, Vénus um roxo lírio, dos melhores; Mas excediam muito às outras flores As violas na graça e formosura.
Perguntam a Cupido, que ali estava, Qual de aquelas três flores tomaria Por mais suave e pura, e mais formosa.
Sorrindo-se o menino lhes tornava: Todas formosas são; mas eu queria
Viola antes que lírio, nem que rosa.
Luís Vaz de Camões, cortesia do Google, [Camões lírico]
e outra para quem fala de flores
Detalhe da Primavera de Botticelli, Galeria Uffizi, Florença
«O que é que faz das plantas um ritual for all seasons? O que é que as torna tão presentes, e, por isso mesmo, tão indiferentemente transparentes às circunstâncias da vida humana? Porque é que às plantas emprestamos as qualidades da urbanidade, da serenidade e do conforto? É porque são silenciosas, pura e simplesmente mudas e inócuas? Ou porque, precisamente pelo seu silêncio, nos murmuram constantemente as letras do seu segredo, essa sua intransponível proximidade com o animal, sedutora distância que alimenta as nossas fantasias? O que me interessa nas plantas não é a sua vida, mas a sua imagem no coração dos homens e as razões por que as tornámos comparsas privilegiados do nosso destino.»
António Mega Ferreira, Hotel Locarno. Lisboa: Sextante, 2015, pp. 122-123.
Rimas Várias de Luís de Camões, (comentadas por Manuel de Faria e Sousa) Edição comemorativa, Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1972, pag. 1.
«Camões» de Leitão de Barros estreou a 23 de Setembro de 1946, no cinema S. Luís. Argumento: A tempestuosa existência errante de Luís Vaz de Camões, desde os tempos irreverentes com estudante em Coimbra, aos amores contrariados, como guerreiro da "má fortuna", até ao declínio inglório, acompanhando a decadência do fausto renascentista e da pátria imperial. Intérpretes: António Vilar - Camões; José Amaro - D. Manuel de Portugal; Igrejas Caeiro - André Falcão de Resende; Paiva Raposo - Pero de Andrade Caminha; Idalina Guimarães - Inês; Leonor Maia - Leonor; Vasco Santana - Mal Cozinhado; Eunice Muñoz - Beatriz da Silva; José Victor - Frei Bartolomeu Ferreira; Carmen Dolores - Catarina de Ataíde / Natércia; João Villaret - D. João III; Julieta Castelo - Infanta D. Maria; Assis Pacheco - D. João da Silva - O Regedor de Justiça e ainda: António Silva; Costinha; Manuel Lereno; Dina Salazar, António Góis, Josefina Silva; Regina Montenegro.
Em diálogo com a Isabel do blogue Palavras Daqui e Dali cheguei a Pollock.
Jackson Pollock, Homem nu,
c. 1938-41
No deserto político em que vivemos, escolhi o Homem nu por causa da fragilidade da exposição e do despojo material, ... quiçá à procura do homem espiritual. (10 de Junho, Dia de Portugal... )
Rêve
A la tombée du jour, je me rends à son appartement où pourtant je sais qu'elle n'est pas.
Le pigeon est plumé, vidé...cuit!
Le petit chat en or a perdu ses yeux verts.
Le pommier d'amour de ma mère meurt.
L'oiseaux triste a usé sa voix sa vie.
Maurice Roche, «Action writing», in Jackson Pollock, Paris. Centre Georges Pompidu, 1982, p. 152. As imagens são retiradas do Catálogo sobre uma exposição do pintor no Centre Georges Pompidu, Paris.
Capa do catálogo: Jackson Pollock, Centre Georges Pompidou
Pollock morreu aos 44 anos num acidente de automóvel.
Action painting foi como se chamou esta fase da sua pintura e a que o tornou mais célebre.
Saliento esta pintura Pássaro (c. 1938-41)
Bordado de Castelo Branco, o primeiro que tenho.
Obrigada Isabel. A partilha levou-me a revisitar Pollock. :)
Vídeo enviado para o youtube por ajaflair em 16/02/2010. Lamentavelmente não me recordo de quem é a música que o acompanha e foi uma das razões que me levou a escolhê-lo.