Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta.
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma!
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.
- Outra que não Ella chamára tambem por Elle.
Almada Negreiros, in "Frisos" - Revista Orpheu nº1
[Voltar a ler Almada faz-nos esquecer as coisas tristes como a perda de Lobo Antunes.]
Hoje ao clicar no botão do rádio surgiu esta bela canção. Já não a ouvia há muito tempo. Por vezes esquecemos-nos do que é nosso.
Sabem quantas pessoas tem havido desde o princípio do mundo
até hoje? Duas.
Desde o princípio do mundo até hoje não houve
mais do que duas pessoas: uma chama-se a humanidade e a outra
o indivíduo.
Uma é toda a gente e a outra, uma pessoa só.
Duas?
Duas.
A mímica é uma arte só de gestos, e estes querem copiar os
próprios gestos da vida.
Entre o que a mímica desencantou na vida e veio depois imitar
publicamente à luz artificial está o enigma do Pierrot, personagem
cuja história é igual ao figurino.
O Pierrot, todo branco, de roupas largas e quase sem feitio de
vestirem um corpo humano, uma blusa pouco mais ou menos,
umas calças pouco mais ou menos, e as mangas muito compridas
não sabem o tamanho dos braços e passam para além das mãos, as
quais não necessitam para nada de estar livres, porque o não são.
Pois se não podem agarrar o que desejam!
Tudo é branco, o fato como a própria cara, e a não ser o negro da
calote e dos enormes botões fingidos que não servem para abotoar
coisa alguma, nenhuma cor da realidade se digna a convencer-nos
de que há efectivamente uma vida ali naquele retalho branco.
E Arlequim? Com o seu maillot esticado por cima da pele,
mostrando o feitio do corpo, a inquietação dos nervos, a
impaciência dos músculos e o frenesim animal.
O chapéu é de feltro negro mas posto com intenção.
Anda sempre com uma espécie de bengala que é ao mesmo tempo
o seu amigo inseparável e a sua varinha de condão, e serve
também para experimentar a valentia de todas as coisas, isto é, se
vão abaixo logo à primeira ou se é necessário puxar-lhe ainda
com mais ganas.
É difícil que Arlequim já alguma vez tenha passado despercebido
em qualquer parte.
O seu maillot é feito de trinta e sete mil pedaços de trinta e sete
mil cores e que são precisamente as trinta e sete mil histórias de
Arlequim, as quais todas juntas não chegam para fazer uma só.
Pierrot anda sempre metido consigo e não é fácil saber quando
está acordado ou a dormir.
Pelo contrário, Arlequim não pára nem um momento, não pode
estar quieto, e sem dúvida porque não anda satisfeito. Está sempre
a magicar ideias e sempre com experimentações, e não são ideias
o que falta ao Arlequim.
Pierrot é a contemplação do próprio Desejo o qual se desenvolve,
se purifica e torna-se Perfeição. É o ideal tornado Perfeição no
próprio Desejo.
Arlequim é a passagem autêntica do corpo por esta vida.
Almada Negreiros, O Pierrot e o Arlequim. in Obra Completa, vol. VII, p. 51.
Será que Almada se importaria desta associação? Tiger Lillies/ Arlequim
O Carnaval deste ano teve para mim o encontro com estas flores magníficas a que popularmente se chamam mimosas.
Mimosas da Serra da Lousã, as primeiras que vi este ano,
James Ensor, O desepero de Pierrot, também conhecido como Pierrot Ciumento, c.1910
Kroller Muller Museum
Ciumes
Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle passam sêde, não n'o acordem ao beber.
Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo.
De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes.
De repente viu-se cego - os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas...
- Sabes? Uma andorinha...
E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos.
Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!
O comentário de Manuel Poppe, do blogue Sobre o Risco, levou-me a procurar na Biblioteca: Nome de Guerra, um livro que havia lido há uns anos. Sim, na minha biblioteca pessoal não o tenho e é imperdoável.
O seu empenho era misturar-se com a multidão, fazer parte da humanidade. E era o que não sabia fazer. Não bastavam os pensamentos, faltava-lhe a aplicação. Tudo se passava exclusivamente na imaginação. De repente, o Antunes viu diante de si uma cara horrível, espectral, parada, que não tirava os olhos de cima dele. Era a sua própria cara que estava no espelho. Ele e a sua imagem eram como duas esculturas de pedra voltadas uma para a outra.
José de Almada Negreiros, Nome de Guerra, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 44 (2ª Edição)
Adão e Eva, duas personagens que me encantam pela carga simbólica que encerram.
Almada terá bebido a sua inspiração na Vénus de Botticelli?
Sandro Botticelli, detalhe do Nascimento da Vénus, 1482
Galleria degli Uffizi, Florença
«E assim foi que Deus fez o homem e a mulher semelhantes um ao outro, mas de caracteres opostos, antagónicos; de naturezas independentíssimas cada um deles, acérrimos disputadores da igualdade no par, inimigos do sexo alheio mas irresistivelmente atraídos um pelo outro, inseparáveis de verdade, e condenados para sempre à fatalidade da sua única unidade comum. Por outras palavras, fez Deus do homem e da mulher dois animais selvagens que não podem ser domados isoladamente. Fez o isolamento ainda pior -do que era, tornou a solidão ainda mais amarga do que devia ser e indicou a direcção única da colaboração entre ambos: 1+1=1. Mas por causa das dúvidas, e não estando completamente seguro dos resultados por causa deles, não fossem eles estragar-lhe a sua obra, (Deus sabe muito bem e que faz), arranjou as coisas de tal maneira que a Humanidade se multiplicasse e continuasse pelos séculos ainda mesmo naqueles casos em que não fosse possível o entendimento entre a mulher e o homem. Isto é, a direcção única haveria de ser eternamente a mesma, ainda que em toda a História da Humanidade não se fizessem senão disparates. Tudo o que se está contando passou-se nos primeiros dias do mundo à sombra de uma árvore. E daqui vem porem agora todas as culpas à árvore. Chamam-lhe a árvore do bem e do mal. Pois sim, agora chamem-lhe nomes! É desta maldita mania que temos de pôr sempre a culpa aos outros. E quando, como nesse dia não há mais ninguém a quem se possa pôr as culpas, pomo-Ias ao que está mais à mão, – à árvore!
Mas a verdade do que se passou é a seguinte:
O par... Ah! agora me lembro de como se chamavam os dois: Adão e Eva!»
*Conferência realizada em Lisboa no Teatro Nacional de Almeida Garrett, a convite de Amélia Rey-Colaço, repetida em Coimbra no Salão Nobre da Associação Académica, a convite da revista «Presença» e editada pelas Oficinas Gráficas UP de Lisboa Julho de 1932.
Joan Miró nasceu a 20 de Abril de 1893 em Barcelona! Sou admiradora deste surrealista. O ponto fulcral da sua obra é que toca na criança que temos escondida dentro de nós. Ao pintor associo sempre um texto de Almada Negreiros que sinto profundamente. O azul do Miró é para mim a excelsa cor porque é a minha preferida.
Parabéns Miró!
Miró, Blue Star, 1927
Colecção particular
Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém. Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu. Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais. Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor! As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor! Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!
Almada Negreiros, A INVENÇÃO DO DIA CLARO, LIRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, LISBOA, P. 95
Joan Miró, Ceci est la couleur de mes rêves, 1925,
Tenho uma paixão pela escrita de Almada Negreiros, por chá e pela cultura oriental.
O texto foi retirado da Revista Orpheu, nº1.
x
Jean Metzinger, nasceu em Nantes, França, Hora do Chá (Mulher com chávena de chá),
A Taça de Chá
O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas. Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:
-Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella. Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim. A estampa do pires é igual.
Almada Negreiros, in "Frisos", Revista Orpheu nº1, Lisboa: Edições Ática, 1971, p.82
Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!
E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!
Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade:
Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas!Mestre! A boneca tinha os dedos finos...
O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas. Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella. Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim. A estampa do pires é igual.
Almada Negreiros, in 'Frisos ", Revista Orpheu nº1, Ano I - 1915.