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31/10/2016

"O Echo"

Ernesto Canto da Maya, Adão e Eva, 1929
Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
O Echo


Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?! 
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta. 
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras. 
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Foi-se triste para a tenda. 
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma! 
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe. 
- Outra que não Ella chamára tambem por Elle.


Almada Negreiros, in "Frisos" - Revista Orpheu nº1

[Voltar a ler Almada faz-nos esquecer as coisas tristes como a perda de Lobo Antunes.]


Hoje ao clicar no botão do rádio surgiu esta bela canção. Já não a ouvia há muito tempo. Por vezes esquecemos-nos do que é nosso.

14/05/2016

Quando se vê a dobrar...


Sabem quantas pessoas tem havido desde o princípio do mundo até hoje? Duas. 
Desde o princípio do mundo até hoje não houve mais do que duas pessoas: uma chama-se a humanidade e a outra o indivíduo. 
Uma é toda a gente e a outra, uma pessoa só. Duas? Duas.
A mímica é uma arte só de gestos, e estes querem copiar os próprios gestos da vida. Entre o que a mímica desencantou na vida e veio depois imitar publicamente à luz artificial está o enigma do Pierrot, personagem cuja história é igual ao figurino. 
O Pierrot, todo branco, de roupas largas e quase sem feitio de vestirem um corpo humano, uma blusa pouco mais ou menos, umas calças pouco mais ou menos, e as mangas muito compridas não sabem o tamanho dos braços e passam para além das mãos, as quais não necessitam para nada de estar livres, porque o não são. Pois se não podem agarrar o que desejam! Tudo é branco, o fato como a própria cara, e a não ser o negro da calote e dos enormes botões fingidos que não servem para abotoar coisa alguma, nenhuma cor da realidade se digna a convencer-nos de que há efectivamente uma vida ali naquele retalho branco. 
E Arlequim? Com o seu maillot esticado por cima da pele, mostrando o feitio do corpo, a inquietação dos nervos, a impaciência dos músculos e o frenesim animal. O chapéu é de feltro negro mas posto com intenção. Anda sempre com uma espécie de bengala que é ao mesmo tempo o seu amigo inseparável e a sua varinha de condão, e serve também para experimentar a valentia de todas as coisas, isto é, se vão abaixo logo à primeira ou se é necessário puxar-lhe ainda com mais ganas. É difícil que Arlequim já alguma vez tenha passado despercebido em qualquer parte. 
O seu maillot é feito de trinta e sete mil pedaços de trinta e sete mil cores e que são precisamente as trinta e sete mil histórias de Arlequim, as quais todas juntas não chegam para fazer uma só. Pierrot anda sempre metido consigo e não é fácil saber quando está acordado ou a dormir. Pelo contrário, Arlequim não pára nem um momento, não pode estar quieto, e sem dúvida porque não anda satisfeito. Está sempre a magicar ideias e sempre com experimentações, e não são ideias o que falta ao Arlequim. 
Pierrot é a contemplação do próprio Desejo o qual se desenvolve, se purifica e torna-se Perfeição. É o ideal tornado Perfeição no próprio Desejo. Arlequim é a passagem autêntica do corpo por esta vida. 
Almada Negreiros, O Pierrot e o Arlequim. in Obra Completa, vol. VII, p. 51.

Será que Almada se importaria desta associação? Tiger Lillies/ Arlequim
 

21/03/2015

O écrã veste-se de Primavera

Semicerra os olhos...
Cheira a fragrância que paira no ar.
Lentamente... 
                    m-u-i-t-o len-ta-men-te,
abre as pálpebras e maravilha-te:
com o ensaio único do despertar da Primavera. 

Ameixoeira 
(14:45 h /22-03-15))


Magnólias

Amores-perfeitos

Azedas

A Primavera é a minha estação. Renova-se o ciclo com a alegria da cor, o canto dos pássaros e o regresso das andorinhas. Boa noite!


No dia da poesia a minha homenagem contempla Almada Negreiros:

A Flor, in "O Regresso ou o Homem Sentado - III parte"

11/02/2013

Pierrot e mimosas

O Carnaval deste ano teve para mim o encontro com estas flores magníficas a que popularmente se chamam mimosas.
Mimosas da Serra da Lousã, as primeiras que vi este ano,




James Ensor, O desepero de Pierrot, também conhecido como Pierrot Ciumento, c.1910
Kroller Muller Museum

Ciumes

Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle passam sêde, não n'o acordem ao beber. Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo. 
De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes. 
De repente viu-se cego - os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas... 
- Sabes? Uma andorinha... 
E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos. 
Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina! 

Almada Negreiros, "Frisos", Revista Orpheu nº1. Lisboa: Edições Ática, 1971, p.71.


Frank Xavier Leyendecker (1876 - 1924),Arlecchino and Columbina,   
New York  em especial para Manuel Poppe [veja o primeiro link]


A eterna ópera, uma das primeiras que ouvi.

05/07/2011

"Tudo se passava exclusivamente na imaginação"

Regresso ao passado, Convento de Cristo, Tomar


Regresso ao passado.


O comentário de Manuel Poppe, do blogue Sobre o Risco, levou-me a procurar na Biblioteca: Nome de Guerra, um livro que havia lido há uns anos. Sim, na minha biblioteca pessoal não o tenho e é imperdoável.


O seu empenho era misturar-se com a multidão, fazer parte da humanidade. E era o que não sabia fazer. Não bastavam os pensamentos, faltava-lhe a aplicação. Tudo se passava exclusivamente na imaginação.
De repente, o Antunes viu diante de si uma cara horrível, espectral, parada, que não tirava os olhos de cima dele. Era a sua própria cara que estava no espelho. Ele e a sua imagem eram como duas esculturas de pedra voltadas uma para a outra.


José de Almada Negreiros, Nome de Guerra, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004, p. 44 (2ª Edição)

28/06/2011

Adão e Eva, de Almada Negreiros a Botticelli?

Almada Negreiros, Adão e Eva, 1936

Museu Abade de Baçal

Adão e Eva, duas personagens que me encantam pela carga simbólica que encerram.

Almada terá bebido a sua inspiração na Vénus de Botticelli?









Sandro Botticelli, detalhe do Nascimento da Vénus, 1482


Galleria degli Uffizi, Florença



«E assim foi que Deus fez o homem e a mulher semelhantes um ao outro, mas de caracteres opostos, antagónicos; de naturezas independentíssimas cada um deles, acérrimos disputadores da igualdade no par, inimigos do sexo alheio mas irresistivelmente atraídos um pelo outro, inseparáveis de verdade, e condenados para sempre à fatalidade da sua única unidade comum.
Por outras palavras, fez Deus do homem e da mulher dois animais selvagens que não podem ser domados isoladamente. Fez o isolamento ainda pior -do que era, tornou a solidão ainda mais amarga do que devia ser e indicou a direcção única da colaboração entre ambos: 1+1=1.
Mas por causa das dúvidas, e não estando completamente seguro dos resultados por causa deles, não fossem eles estragar-lhe a sua obra, (Deus sabe muito bem e que faz), arranjou as coisas de tal maneira que a Humanidade se multiplicasse e continuasse pelos séculos ainda mesmo naqueles casos em que não fosse possível o entendimento entre a mulher e o homem.
Isto é, a direcção única haveria de ser eternamente a mesma, ainda que em toda a História da Humanidade não se fizessem senão disparates.
Tudo o que se está contando passou-se nos primeiros dias do mundo à sombra de uma árvore. E daqui vem porem agora todas as culpas à árvore. Chamam-lhe a árvore do bem e do mal. Pois sim, agora chamem-lhe nomes! É desta maldita mania que temos de pôr sempre a culpa aos outros. E quando, como nesse dia não há mais ninguém a quem se possa pôr as culpas, pomo-Ias ao que está mais à mão, – à árvore!

Mas a verdade do que se passou é a seguinte:

O par... Ah! agora me lembro de como se chamavam os dois: Adão e Eva!»

José de Almada Negreiros, Direcção Única, Lisboa, UP, 1932.
Ler o texto na íntegra.

*Conferência realizada em Lisboa no Teatro Nacional de Almeida Garrett, a convite de Amélia Rey-Colaço, repetida em Coimbra no Salão Nobre da Associação Académica, a convite da revista «Presença» e editada pelas Oficinas Gráficas UP de Lisboa
Julho de 1932.

20/04/2011

Miró e o azul

Joan Miró nasceu a 20 de Abril de 1893 em Barcelona! Sou admiradora deste surrealista. O ponto fulcral da sua obra é que toca na criança que temos escondida dentro de nós. Ao pintor associo sempre um texto de Almada Negreiros que sinto profundamente. O azul do Miró é para mim a excelsa cor porque é a minha preferida.


Parabéns Miró!


Miró, Blue Star, 1927



Colecção particular



Pede-se a uma criança: Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção , outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era de mais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor
!



Almada Negreiros, A INVENÇÃO DO DIA CLARO, LIRICAS PORTUGUESAS, PORTUGÁLIA EDITORA, LISBOA, P. 95


Joan Miró, Ceci est la couleur de mes rêves, 1925,


Met © SABAM Belgium 2009

O pássaro / estrela e o voo sobre azul é o meu sonho, o céu é o desejo de liberdade!

27/05/2010

A Taça de Chá, Almada Negreiros!

Tenho uma paixão pela escrita de Almada Negreiros, por chá e pela cultura oriental.
O texto foi retirado da Revista Orpheu, nº1.
x
Jean Metzinger, nasceu em Nantes, França, Hora do Chá (Mulher com chávena de chá),


A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.
Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:
-Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.
Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.
A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in "Frisos", Revista Orpheu nº1, Lisboa: Edições Ática, 1971, p.82

26/05/2010

A Verdade!


A Verdade

Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade! E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade:

Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas!Mestre! A boneca tinha os dedos finos...

Escrito em 1921


José de Almada Negreiros - Obra Poética

28/02/2010

A Taça de Chá, Almada Negreiros

Auto-retrato, 1927
Óleo s/tela, Colecção particular, Lisboa
A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.
Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.
Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.
A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in 'Frisos ", Revista Orpheu nº1, Ano I - 1915.

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