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11/06/2020

Dez de Junho

Um 10 de Junho diferente com apenas 2 oradores e 6 convidados. Um gesto político determinado pelo covid 19.
Um estado laico com um orador eclesiático. No entanto, é um orador especial, 
o cardeal José Tolentino Mendonça.

 Camões, Canto IX, A Ilha dos Amores, estrofe 64

A INFÂNCIA DE HERBERTO HELDER
[primeiro poema de Tolentino de Mendonça]

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora

acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra


José Tolentino Mendonça, Anos 90 e Agora, Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2001, p.127.
Cortesia do youtube

17/06/2017

Reflectir

Museo Nacional de Ciencia y Tecnología, Coruña


A língua portuguesa é rica e dolorosa quando quer. Detesto vulgaridades.
Gaja, é calão ou é vulgar?



05/07/2016

Mariza nas festas da cidade

Festas da Cidade Homenagem à Rainha Santa Isabel, padroeira da cidade
(V centenário da sua beatificação)



A Mariza falou de amor e cantou o amor

Rene Magritte - Love from a Distance  

https://pt.pinterest.com/pin/243546292321383965/

Um dos fados cantados por Mariza

07/05/2016

Casa vazia

Janela com janela, Alta, Coimbra



Dai-me a casa vazia e simples onde a luz é preciosa. Dai-me a beleza intensa e nua do que é frugal. Quero comer devagar e gravemente como aquele que sabe o contorno carnudo e o peso grave das coisas. 
Não quero possuir a terra mas ser um com ela. Não quero possuir nem dominar porque quero ser: esta é a necessidade.
Com veemência e fúria defendo a fidelidade ao estar terrestre. O mundo do ter perturba e paralisa e desvia em seus circuitos o estar, o viver, o ser. Dai-me a claridade daquilo que é exactamente o necessário. Dai-me a limpeza de que não haja lucro. Que a vida seja limpa de todo o luxo e de todo o lixo. Chegou o tempo da nova aliança com a vida. 

inédito sem data

continua...  (BNP)

09/12/2015

A mesa junto à janela

A mesa junto à janela



A mesa junto à janela é muitas vezes companheira de reflexão. O mármore branco de forma hexagonal infere alguma pureza ao conjunto de estilo holandês, pesado e sóbrio.
Dois candelabros jogam no espaço cénico a verticalidade dos sentidos. A luz é a grande vencedora, projecta as sombras, dilui os pensamentos. 
O sabor do café solitário, o olhar vazio para a rua iluminada leva a pensamentos cruzados, à informação partilhada. 
Um grito mudo de impotência. A desordem nascida do improvável, a derrota dos frágeis, incoerência anunciada, a queda de Ícaro num campo sem flores.
A barca é pequena e o homem do leme perde as referências básicas, perde o nome que encerra em si.
Perde-se...
O nó desata-se, o fio desfia-se, o tear desconhece a mão que vagarosamente quer tecer o fio.



Em re-re-reposição.

29/12/2014

2 versos do O'neill

Sabes por que se diz
                             «gemem os prelos?»
não penses que é por ti.

Dois versos de Aexandre O'neill de «A um poeta que deixou de comparecer nas antologias»
Poesias Completas, 1954-1984.
Impresso na Biblioteca Nacional no dia 14  de Novembro de 2014.
Edizioni Troppe Inchiostro

Agradeço os versos enviados por MR.

Duas imagens que caso com os dois versos de O'neill:
o Sol de Inverno
que parte muito rapidamente.

 Sábado 16:30 horas

Sábado, 17:10 horas

A brochura é muito bonita.

E um dos poemas de O'neill cantado por Mariza.

27/05/2014

As coisas vulgares

As coisas vulgares que há na vida 
Não deixam saudades 
Só as lembranças que doem 
ou fazem sorrir

-------
Para lá do vidro
em verdes tons
insinuam-se as árvores
símbolos maiores.

Marc Chagall, Janela no Campo, 1915,
 The Tretyakov Gallery, Moscow
(Imagem retirada de Olga's Gallery)
Marc Chagall. Window in the Country. (Fenêtre à la campagne).

Mais uma vez em reposição 

18/10/2013

Dor

[Da fome da "gente da minha terra" 
... testemunho de uma mãe: "não tenho um mimo para lhe dar".]

David Oliveira, uma das esculturas integradas na exposição Corpo Habitado. Galeria 111, Lisboa
Intitulei-a dor.

Dor

Passa-se um dia e outro dia 
À espera que passe a Dor, 
E a Dor não passa, e porfia, 
Porque trás dia, outro dia 
Que traz Dor inda maior; 

Porque embora a Dor aflita 
Calasse há muito seus ais, 
Ainda, fundo, palpita 
Uma outra Dor que não grita: 
A Dor do que não dói mais. 

Francisco Bugalho, in "Dispersos e Inéditos"
(Citador)

05/10/2013

Moldura de pedra


BARCA BELA

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!

Almeida Garrett, Folhas Caídas. Lisboa: Portugália, 1955

Porque não me canso de ouvir... esta chuva.

21/08/2013

Vincent Van Gogh

Van Gogh, Detalhe Natureza-Morta com Lírios, 1890


«[...] n'oublions pas que les petites émotions sont les grands capitaines de nos vies et qu'à celles-ci nous obéissons sans le savoir».

 Vincent Van Gogh, Lettres à son frère Théo. Gallimard, 1988, p. 517. 


Apontamentos




Com o meu agradecimento 
à Sandra
do blogue O Presépio no Canal


Há uma Música do Povo, letra de Fernando Pessoa, Mariza

29/01/2013

Portugueses a falar sobre portugueses. Um desafio?

Os portugueses andam tristes e insatisfeitos com a crise e as políticas traçadas pelos nossos governantes.
A Sandra, do blog Presépio com Vista para o Canal, acerca da imutável tristeza do povo português - já confirmada num pensamento do historiador A.H.Oliveira Marques sobre os portugueses de quinhentos -  escreveu:


A insatisfação desceu à rua. Lisboa, 2013

«Não sei se concordo que somos um povo triste; direi antes, que estamos muito tristes e desalentados devido as dificuldades económicas do momento e as preocupações associadas. Quando cheguei aos Países Baixos, e nos primeiros anos, senti falta dos barulhos das conversas nos nossos cafés/restaurantes, dos risos nas esplanadas, do toque mais solto dos portugueses. Mas eu saí de Portugal em 2007, altura que os meus amigos e conhecidos não acreditavam quando lhes dizia que Portugal estava a mergulhar numa crise económica profunda que vinha para ficar um tempo considerável. Lembro-me de dizer ao meu marido: "Ou saímos agora, ou já será muito difícil". Este ano, quando aí fui, encontrei um ambiente muito carregado e deprimido e já não o ambiente solto que me recordava. Mas concordo que temos mais propensão para pensarmos que somos piores que os outros, que a nossa situação é sempre pior que a do vizinho, que o que é de fora é sempre melhor - visão na qual não me incluo, pois temos um património (seja arquitectónico, musical, natural,...) e cultura invejáveis. Irrita-me também quando oiço o discurso que somos um país pequeno e periférico e por isso, somos pobres e coitadinhos e uns desgraçados e mais não sei o que. Até onde sei, a Bélgica, os Países Baixos, o Luxemburgo, o Lienchtestein são países mais pequenos que Portugal e... mais ricos. Nós temos muitos e variados recursos, cuidamos mal, isso sim(veja-se o caso das florestas, por exemplo, e os incêndios que ocorrem todos os anos). E não somos periféricos; estamos sim, no centro do mundo, entre a Europa, a África e a América - saibamos pois, tirar partido desta localização geográfica formidável. O comentário já vai longo, mas vou contar-te uma pequena história que se passou aqui, comigo, logo no início. Estava numa consulta de ginecologia, com uma médica holandesa, já perto dos sessenta anos, que me perguntou com ar irónico e a gozar se Portugal já pertencia a Europa. Não gostei do tom, nem da pergunta. Respondi que sim, há muito tempo, que éramos a nação mais antiga da Europa e aquela com fronteiras definidas há mais tempo, que tínhamos feito a primeira globalização, que démos novos mundos ao mundo e que estávamos na UE desde meados dos anos 80. E na sequencia de outros comentários menos abonatórios e injustos a Portugal, acrescentei que temos cientistas brilhantes, escritores e músicos de renome mundial e que recebemos prémios internacionais com muita frequência, incluíndo nas áreas da Saúde e da Biologia. Bom, isto para dizer, que, apesar dos pesares, não temos de baixar a cabeça a ninguém e não valemos menos que ninguém. Tomara muitos países, incluíndo este onde vivo, terem as taxas de sucesso que temos em determinadas áreas. Agora se me perguntares o que faz, na minha opiniao, atrasar Portugal, direi: a impunidade face a corrupção, o xico-espertismo, o compadrio, a má gestão de dinheiros públicos e o consequente desperdício (anos e anos nisto...), o facto de, a troco de uns dinheiros, termos deixado cair a agricultura, a pesca e a indústria e o termos deixado, ao longo de muitos anos, de valorizar o que é nosso e bom (...). »

A Sandra vive na Holanda.

A todos os meus amigos e visitantes deste blog lanço o desafio de escreverem algo sobre este tema, uma frase, um poema, uma música, uma foto, uma tela, algo que personifique a inalterável (ou alterável) tristeza de "ser português". O vosso contributo e partilha  ficará registado com o meu agradecimento.


15/12/2012

Chove muito, mais, sempre mais..

Vincent van Gogh, Rain in Auvers, 1890 
© National Museum of Wales

Chove muito, mais, sempre mais... 
 L. do D. 

Chove muito, mais, sempre mais... Há como que uma […] que vai desabar no exterior negro... Todo o amontoado irregular e montanhoso da cidade parece-me hoje uma planície, uma planície de chuva. Por onde quer que alongue os olhos tudo é cor de chuva, negro pálido. Tenho sensações estranhas, todas elas frias. Ora me parece que a paisagem essencial é bruma, e que as casas (é que) são a bruma que a vela. Uma espécie de anteneurose do que serei quando já não for gela-me corpo e alma. Uma como que lembrança da minha morte futura arrepia-me de dentro. Numa névoa de intuição sinto-me matéria morta, caído na chuva, gemido pelo vento. E o frio do que não sentirei morde o coração actual.
s.d. 

Bernardo Soares, Livro do Desassossego.  (Fernando Pessoa. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982. Vol. I, .p. 79.

A encantadora voz de Mariza que me enche os olhos de chuva.

08/05/2012

Almoço português com certeza!

Almoço português com certeza!



Compras carapaus ao cento

Compras carapaus ao cento,
Sardinhas ao quarteirão.
Só tenho no pensamento
Que me disseste que não.

s.d.
Fernando Pessoa,  Quadras ao Gosto Popular. . (Texto estabelecido e prefaciado por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1965. (6ª ed., 1973).p. 59. 

14/04/2012

Sardinheiras à janela...


Uma janela portuguesa, com certeza!

Sardinheiras* à janela, cortina de renda e uns olhos que a atravessam.
Como gostava de ter
uma casa assim...
e
nada mais importar...
senão os *gerâneos.


Óbidos, vista para o casario



23/11/2011

"Cada dia as horas se despem mais do alimento" (Pelo Fado 2)

Pierre-Auguste Renoir, Detalhe de Children's Afternoon in Wargemont, 1884




Oil on canvas, Nationalgalerie, Berlin, Germany



Cada dia é mais evidente que partimos

Cada dia é mais evidente que partimos
Sem nenhum possível regresso no que fomos,
Cada dia as horas se despem mais do alimento:
Não há saudades nem terror que baste.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia Círculo de Poesia, Moraes Editores, 1975


Pelo Fado


06/11/2011

AC contagiou-me

Já coloquei aqui "A Chuva" mas não faz mal poderia fazer replay, replay, replay, replay...

18/03/2011

"O futuro do homem é o homem",

Nas minhas divagações sobre a essência da humanidade: Quem somos? Para onde vamos? O que queremos?, cheguei a este trecho de Eugénio de Andrade.
x
Mário Botas, Eugénio de Andrade, 1980.

Tinta da china

Poética
Texto ou Antologia para Prosa

"O futuro do homem é o homem", estamos de acordo. Mas o homem do nosso futuro não nos interessa desfigurado. Este animal triste que nos habita há milhares de anos, cujas possibilidades estamos tão longe de conhecer, é o fruto de uma desfiguração - acção de uma cultura mais interessada em ocultar ao homem o seu rosto do que em trazê-lo, belo e tenebroso, à luz limpa do dia. É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela. E se ousa "cantar no suplício" é porque não quer morrer sem se olhar nos seus próprios olhos, e reconhecer-se, e detestar-se, ou amar-se, se for caso disso, no que não creio. De Homero a S. João da Cruz, de Virgílio a Alexandre Blok, de Li Bay a William Blake, de Bashô a Kavafis, a ambição maior do fazer poético foi sempre a mesma: Ecce Homo, parece dizer cada poema.
x

Eugénio de Andrade,in " Afluentes do Silêncio", Editorial Inova Limitada, Dezembro 1970, trecho retirado da Fundação Eugénio de Andrade


01/11/2010

Ainda a chuva... leituras

Ao sabor da chuva veio-me à memória um livro que li em 2001, quando foi publicado pela D. Quixote, As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sandór Marái. Estive para o levar para a Hungria para reler durante a minha estadia naquelas paragens. Não o levei. A chuva, a melancolia, as constantes perguntas sobre o que é a vida levaram-me ontem, ao seu encontro, numa tarde de Domingo.
Qual é o significado da vida?
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Claude Monet, Cliffs at Pourville, Rain, 1896


A chuva bate oblíqua na minha janela...
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Cry Me a River. [Nota - a vida é como um rio que corre]
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«Eros está no fundo de todos os afectos, de todas as relações humanas. (...) Li e reli Platão também várias vezes, porque na escola ainda não o tinha percebido. A amizade, pensava eu - e tu, que andaste mais perto pelo mundo fora, certamente sabes mais e melhor que eu, aqui na minha solidão campestre - , é a relação humana mais nobre que pode haver entre os seres humanos. É curioso, os animais conhecem-na também. Existe amizade, altruismo, solidariedade entre os animais».
p.81
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«Pensas também que o significado da vida não seja outro senão a paixão, que um dia invade o nosso coração, a nossa alma e o nosso corpo, e depois arde para sempre até à morte? Aconteça o que acontecer? E que se nós vivemos essa paixão, talvez não tenhamos vivido em vão? É assim tão profunda, tão maldosa, tão grandiosa e desumana a paixão?... E talvez não se dirija a uma pessoa em concreto, mas apenas ao desejo do mesmo? ... Essa é a pergunta. Ou dirige-se a uma pessoa em concreto, desde sempre e para sempre à única e mesma pessoa misteriosa, que pode ser boa ou má, mas cujas acções e qualidades não influenciam a intensidade da paixão que nos une a ela?»
p.152
ee as velas arderam até ao fim...
Sándor Márai, As Velas Ardem Até Ao Fim, Lisboa: D. Quixote, 2001, p.81 e 152.

30/10/2010

Chuva...

René Magritte, La Victoire

A chuva é a melancolia do céu.
É o choro do pássaro,
a lamúria de um piano!



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