Dizem que as sociedades atuais não são para velhos...
Não queria crer, mas começo a acreditar que é verdade.
É lamentável?
É.
O que fazer?
Não sei.
Velhice
Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente Olhando as coisas através de uma filosofia sensata E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite. Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito Ou talvez tenha saído definitivamente dele. Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmulo E todas as ideias autobiográficas da mocidade terão desaparecido: Ficará talvez somente a ideia do testamento bem escrito. Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida Só terei uma experiência extraordinária. Fecharei minha alma a todos e a tudo Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim. Nem o cigarro da mocidade restará. Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados E que dará a tudo um ar saturado de velhice. Não escreverei mais a lápis E só usarei pergaminhos compridos. Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.
Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio Cheio de irritação para com a vida Cheio de irritação para comigo mesmo.
O eterno velho que nada é, nada vale, nada vive O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.
As minhas amigas da Cozinha dos Vurdóns têm um "post" sobre o amor, a vida, a morte, ... Este é um elo de ligação mas com uma componente mais restrita.
Diego Rivera, Família Pobre na Rua, 1934
Audrey Hepburn em África fotografia retirada do site da UNICEF.
O Haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura Essa intimidade perfeita com o silêncio Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo - Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo Essa mão que tateia antes de ter, esse medo De ferir tocando, essa forte mão de homem Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos Essa inércia cada vez maior diante do Infinito Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade Do tempo, essa lenta decomposição poética Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio Numa catedral em ruínas, essa tristeza Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa Piedade de si mesmo e de sua força inútil.
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado De pequenos absurdos, essa capacidade De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade De aceitá-la tal como é, e essa visão Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante
E desnecessária presciência, e essa memória anterior De mundos inexistentes, e esse heroísmo Estático, e essa pequenina luz indecifrável A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade Pelo momento a vir, quando, apressada Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada...
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto Esse eterno levantar-se depois de cada queda Essa busca de equilíbrio no fio da navalha Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo Infantil de ter pequenas coragens.
15/04/1962
Vinicius de Moraes, in "Jardim Noturno - Poemas Inéditos", Companhia das Letras - São Paulo, 1993, pág. 17.
Pedro Coimbra, de Devaneios a Oriente, colocou-me um desafio ao qual não soube responder. Deu-me uma pista. Todavia, não sei se cheguei à canção correcta. Obrigada, Pedro, porque reencontrei "Aquarela" de Toquinho.
Hoje gostava de encarnar uma gaivota e voar, voar... gostava de voltar à infância para desenhar estrelas no céu sem conceitos, nem medidas, nem forma.
A música escolhida por Pedro Coimbra - Música de Vinícius & Toquinho, cantada por Tom Jobim, Miúcha e Chico Buarque! - casa bem com o texto de Kierkgaard (colocada 21:59 horas de 6 de Maio)
Vinicius de Moraes e Toquinho - Sei lá...a vida tem sempre razão
Vinicius Moraes e a guitarra portuguesa. Lembrar Vinicius no dia em que partiu e foi ao encontro da sua Eurídice. (19, Outubro, 1913- 9 Julho 1980)
A partir de uma gravação em casa de Amália Rodrigues num serão com Vinicius de Moraes, Natália Correia, David Mourão-Ferreira e José Carlos Ary dos Santos, em 1968
Às vezes é difícil adaptarmo-nos e corremos o risco de não sermos compreendidos.
A poesia ajuda a ultrapassar todas as fronteiras!
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Carta de Vinicius de Moraes, para Rodrigo Melo Franco de Andrade, quando esteve em Oxford a estudar:
x "Estou longe da poesia, seco, estudando Anglo-Saxão e metido em grandes roupagens. Jantando no Hall em que jantou o Rei, vendo nomes penosos por toda a parte e monumentos belíssimos a cada passo. Mas sinto que só vou começar a viver mesmo quando ela vier, quando ela me trouxer de volta tudo o que eu deixei de mim – eu mesmo – nela, quando a aventura me obrigar a vir e sobretudo quando o segredo me fortificar as horas, e o cuidado, a ação".