12/10/2017

Velhice

João Augusto Ribeiro, O Pescador, c. 1917,
Museu Soares dos Reis, Porto


Dizem que as sociedades atuais não são para velhos...
Não queria crer, mas começo a acreditar que é verdade. 
É lamentável? 
É. 
O que fazer? 
Não sei.

Velhice

Virá o dia em que eu hei de ser um velho experiente
Olhando as coisas através de uma filosofia sensata
E lendo os clássicos com a afeição que a minha mocidade não permite.
Nesse dia Deus talvez tenha entrado definitivamente em meu espírito
Ou talvez tenha saído definitivamente dele.
Então todos os meus atos serão encaminhados no sentido do túmulo
E todas as ideias autobiográficas da mocidade terão desaparecido:
Ficará talvez somente a ideia do testamento bem escrito.
Serei um velho, não terei mocidade, nem sexo, nem vida
Só terei uma experiência extraordinária.
Fecharei minha alma a todos e a tudo
Passará por mim muito longe o ruído da vida e do mundo
Só o ruído do coração doente me avisará de uns restos de vida em mim.
Nem o cigarro da mocidade restará.
Será um cigarro forte que satisfará os pulmões viciados
E que dará a tudo um ar saturado de velhice.
Não escreverei mais a lápis
E só usarei pergaminhos compridos.
Terei um casaco de alpaca que me fechará os olhos.

Serei um corpo sem mocidade, inútil, vazio
Cheio de irritação para com a vida
Cheio de irritação para comigo mesmo.

O eterno velho que nada é, nada vale, nada vive
O velho cujo único valor é ser o cadáver de uma mocidade criadora.


Vinicius de Moraes, 1933


9 comentários:

  1. Foi ontem aqui noticiada uma iniciativa legislativa que visa proteger os idosos.
    A solidão dos mais velhos é simplesmente revoltante.
    Bjs, bfds

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    1. Pedro,
      Os asiáticos trataram sempre bem os anciãos.
      Beijinho e bom Domingo!:))

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  2. ..e qualquer dia somos todos velhos, os novos, ou emigram, ou ficam e não desejam filhos. Grávidas em Portugal são bem escasso e em desuso. A sociedade democrática está a revelar-se, em alguns aspectos, bem desumana. A cultura de superfície origina resultados deste género. Não sei se as leis servem para proteger efectivamente quem precisa de amor, carinho, atenção. Deixou de se cultivar a humanidade. Dá trabalho, requer esforço e sacrifício, exige princípios e sentimentos. E tudo isto é demasiada exigência em prol de um bem que se destina aos outros.

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    1. Tem razão, Bea, infelizmente é tudo o que descreve.
      Bom Domingo!:))

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  3. OI ANA!
    UM TEXTO DEVERAS MELANCÓLICO MAS, INFINITAMENTE BELO.
    ABRÇS
    http://zilanicelia.blogspot.com.br/

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    1. Obrigada Zilani.
      Seja bem-vinda.:))
      Um Abraço.

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  4. Ana,
    É uma realidade bem presente - a percentagem de idosos está a aumentar substancialmente, relativamente aos nascimentos. Sei que já há certas medidas e cuidados para com as pessoas idosas, mas estão longe de ser os ideais!
    A solidão e a falta de meios são assustadores!
    E no dia-a-dia das famílias, pouco "espaço" existe para eles!
    Um assunto preocupante!
    Beijinhos.:))

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    1. Cláudia,
      É realmente uma solidão e uma tristeza enorme, e será que é vida?
      Que seja suave pelo menos.
      Beijinho e bom Domingo!:))

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  5. Subscrevo o comentário de Bea.
    Vemos HOJE uma hierarquia de valores subvertida pela força do dinheiro e o cimento que agrega as comunidades está em desagregação avançada. O que vale um velho? O egoísmo cavalga toda a sociedade embora lance ainda uma maquilhagem para descanso de algumas consciências.
    O próximo passo para a humanidade parece vir a ser o derrube do muro que distingue o homem do robot. Que espécie prevalecerá como dominante. Quem será descartado na lógica do desenvolvimento.
    BFS.

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