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11/01/2020

Al ...

Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, nasceu em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948. Notabilizou-se como poeta, pintor, editor e animador cultural português. Morreu em 1997.

Al Berto, dois auto-retratos, Centro de Arte de Sines


HOJE É DIA DE COISAS SIMPLES

hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira
na ladeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das
chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
é o brincar agitado do sol nas mãos das crianças
descalças
hoje




10/01/2015

As plantas deslocam-se



As Plantas deslocam-se

as plantas deslocam-se
fendem a parte granítica da memória
os quartzos e as argilas provocam a amnésia
o corpo alimenta-se de resina
tolhe-se cintilante a um canto da casa
serão os pastores capazes de reacender o mágico fogo?
a terra incha abre-se às sementes mais amargas
o jardim abandonado nos lábios das crianças
os animais vêm beber em teus lábios
água púrpura e breves nuvens de açúcar
e no instante de um cometa eclode a última flor viva
o regresso é uma queda dolorosa de órbita em órbita
no entanto
nenhum obstáculo foi suficiente para impedir
este cíclico regresso à terra
nem mesmo o inflexível rigor da morte extravasou
os fascinados rebanhos

Al Berto, O Medo



29/05/2014

A INVISIBILIDADE DE DEUS




 A INVISIBILIDADE DE DEUS

dizem que em sua boca se realiza a flor
outros afirmam:
                       a sua invisibilidade é aparente
mas nunca toquei deus nesta escama de peixe
onde possamos compreender todos os oceanos
nunca tive a visão de sua bondosa mão

o certo
é que por vezes morremos magros até ao osso
sem amparo e sem deus
apenas um rosto muito belo surge etéreo
na vasta insónia que nos isolou do mundo
e sorri
dizendo que nos amou algumas vezes
mas não é o rosto de deus
nem o teu nem aquele outro
que durante anos permaneceu ausente
e o tempo revelou não ser o meu

Al Berto, O Medo. Lisboa: Assírio e Alvim, 1987.

 

11/01/2014

Em memória de Al Berto

Al Berto nasceu em Coimbra em 1948 e faleceu em Lisboa em 1997.

A Escrita

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, O Medo. Lisboa: Círculo dos Leitores 1991.

Para ouvir o silêncio...
 

17/05/2013

"A vida, afinal, talvez seja uma encenação do desespero"

Ao passar os olhos pelos media encontrei uma notícia que me pesou no coração e abriu uma ferida na mente: 
- Uma mãe chorou que o filho trouxera da escola comida para uma casa vazia. São estes os dias de Portugal.



A vida, afinal, talvez seja uma encenação do desespero.

Al Berto, O Anjo Mudo. Lisboa. Assírio e Alvim. 2001, p. 108.

[Sem tecto mas junto ao teatro S. Carlos, Lisboa, porque:]
Quero morrer
com uma overdose de beleza.

Al Berto, "Vigílias" in O Medo. Lisboa: Assírio e Alvim, 2000, p. 259. 

19/01/2011

A Flor do Sol

Às vezes queremos que o sol nos aqueça e nos ilumine mas ele teima em adormecer... Talvez esta flor traga um pouco de sol!
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Mário Cesariny, detalhe "Naniôra"- Uma e duas, 1960
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Têmpera e Verniz sobre Platex, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian
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Há ainda outra árvores de natureza mui singular, chamada irudemaus, que em sua língua significa flor do sol, porque as suas flores não abrem nem aparecem nunca senão ao nascer do sol, e caem quando ele se põe; o que é o contrário da árvore triste. É a mais excelente flor, lança melhor cheiro que todas as outras; e da qual fazem ordinariamente uso o rei e as rainhas.

Viagem de Francisco Pyrard de Laval: TRADUÇÃO E DESCRIÇÃO DOS ANIMAIS, ÁRVORES E FRUTOS DAS ÍNDIAS ORIENTAIS

in, Al Berto, CARTA DA FLOR DO SOL (A MEU AMIGO) retirado daqui

Nightwish - Sleeping Sun

12/08/2010

Praias... Al Berto

Num intervalo dos meus afazeres encontrei na casa improvável um excerto de um poeta que gosto muito Al Berto. Diz-se que um pensamento leva a outro e a outro e de repente vejo-me com um livro que li durante uma estadia no Alentejo. Nessa altura tinha mais tempo. Agora é simplesmente um desejo de ver o mar "como um mergulhão".
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14. Praias
A luz afoga-se no silêncio destes lugares desertos. Um mergulhão em voo picado entra numa onda.
xxxxxPedra Casca: caminha pelas areias e pensa na cidade que se liquefaz na memória. Passo a passo, estremece com aquilo que desejas. E não desejas mais do que entrar neste mar, como mergulhão.
xxxxxBurrinho: uma noite são mil anos. Mil anos são um dia. Respira fundo e pensa: " Sou um aventureiro, quero conhecer todos os países e todos os povos do Mundo".
xxxxxMorgavel: dizem que os pássaros e as borboletas são a alma dos mortos. Talvez tenhas chegado à casa que flutua no meio da barragem. Descansa agora, no agasalho dos teus antepassados.
xxxxxOliveirinha: estende o corpo, adormece debaixo da sombra do meu. Sorris, quando te segredo, que a sombra te seja leve.
xxxxxSamoqueira: caminhamos pelos continentes em direcção à casa imaginada. Espoliados de projectos e de esperança.
xxxxxÀ porta de alba encontramos os mortos, com os cabelos emaranhados em tumultuosas estrelas. Brilham, como pirilampos, ao fundo do túnel da noite. É para esse litoral que nos dirigimos.
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Al Berto, O Anjo Mudo, Lisboa: Assírio & Alvim, 2000, p.37

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