16/01/2017

Um minuto...




Não há hipócrita que saiba resistir ao exame de uma longa, de uma paciente observação, e o trabalho dissimulado de um ano perde-se na distracção de um minuto.

Paolo Mantegazza


15/01/2017

Do apolíneo ao dionísiaco

Do apolíneo ao dionísiaco

Salvator Rosa, La menzogna (1635-1673), 

Galleria Palatina di Palazzo Pitti a Firenze
daqui
Imagem relacionada
Apolo nasce virtuoso,
cumpre o destino luminoso.
Dionísio canta pela noite
a sombra e os gracejos do prazer.

Apolo transporta as pautas musicais,
o espanto perante a melodia.
Dionísio traz consigo as uvas e o mel,
a bebida do esquecimento.

Apolo beija as flores da manhã,
escuda com a luz a fragilidade humana.
Dionísio traz a máscara do teatro,
num esgar mostra a verdade e a mentira.

A máscara de Apolo é dourada,
a de Dionísio é negra, da cor do carvão.
Botticelli pintou Apolo
e Caravaggio pintou Dionísio.

Ergo o espelho do chão e vejo
Apolo transformar-se em Dionísio
e Dionísio transformar-se em Apolo.
Apolo e Dionísio são uma e a mesma pessoa.

ana

12/01/2017

Há livros que são bálsamo!

Sabe, é curioso, eu tenho cores de Verão e cores de Inverno. Quando está calor gosto de pintar em azul, em verde, em branco. O branco, aliás, posso usá-lo durante todo o ano. E quando está frio gosto do vermelho.

Vieira da Silva in, O Fulgor da Luz, Conversas com Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes. 
Um livro de Anne Philipe traduzido por Luiza Neto Jorge e editado pela Rolim, Lisboa, sd, p. 14.


Está um frio que faz doer a alma e este livro foi um bálsamo que amenizou a dor.

Obrigada.




Ouvi hoje no rádio do carro a voltar para casa. Um dos meus álbuns preferidos dos Pink Floyd


09/01/2017

Um destino, a História, 2 marcos e mundos diferentes

Talvez seja polémica a minha homenagem por juntar dois rostos tão antagónicos. Contudo, o primeiro a quem presto aqui homenagem existiu e construiu-se  a combater o segundo.
Dois homens que marcaram quatro décadas, influenciaram meio século e estiveram em actividade política exactamente 42 anos: contando ao primeiro (de forma livre) a partir de 1974 a 2017 e ao segundo a partir de 1926 (ministro das Finanças) a 1968. Dois rostos incontornáveis na História de Portugal.


                      Retrato presidencial de Mário Soares,
                         Júlio Pomar, 1992    (Wikipédia)                                     António de Oliveira Salazar
                                                                                                                         (Wikipédia)
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Felizmente, vivi mais tempo em democracia do que em ditadura. Contudo, lembro-me destes dois mundos, do que se estudava na escola, das mentalidades e da ruptura que constituiu viver num e noutro.
Cabe-me agradecer ao Dr. Mário Soares ter tido a coragem que teve, ter optado por construir a sua vida como a construiu e ter feito de Portugal uma democracia.


06/01/2017

O que nos espera? Do relativismo das coisas...

O que nos espera? 


O que será a melhor fotografia tirada no ano de 2016? 
Um momento guardado, um gosto subjectivo? Um rosto?, uma paisagem?, uma flor? um conceito? 
O melhor, o que é o melhor hoje? Será o melhor amanhã? Será mais estético um rosto ou uma flor?, uma paisagem urbana ou uma rural?, uma casa ou um rio? Tudo é relativo. Daí o melhor de 2016 ser uma preposição obscena. Daí a minha escolha assentar no critério da fotografia conceito: o vazio, as brumas a assinalar este começo do ano, neste dia de Reis. Um dia em que o ouro, o incenso e a mirra foram a oferta para o príncipe entre os Príncipes.


Com o meu agradecimento a Bea que me deixou esta surpresa de Chopin. 
[... tenho saudades da Primavera!]

04/01/2017

Diálogo improvável

   
     VII
Saber? Que sei eu?                           Nada sei.
Pensar é descrer.                              Quanto mais penso, menos sei.
- Leve e azul é o céu -                       Neste céu de chumbo
Tudo é tão difícil                               Que me cerca.
De compreender!...                           O que entender?

A ciência, uma fada                           Viver, é caminhar
Num conto de louco...                        estranhamente 
- A luz é lavada -                               numa bruma sem fim.
Como o que nós vemos                     O perceptível
É nítido e pouco!                               é mínimo e claro.

Que sei eu que abrande                      O que aprendi eu
Meu anseio fundo?                             Que alimenta o meu desespero?
Ó céu real e grande,                           A realidade nua e crua,
Não saber o modo                              Os outros com que me cruzo
De pensar o mundo!                            De quem nada sei, nem ouço!

4-XI-1914                                            4-I-2017

Fernando Pessoa *                                 ana

*Fernando Pessoa, Cartas a Armando Côrtes- Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão) Lisboa: Editorial Inquérito Lda, 1984 (2ª Edição) p.  88.


02/01/2017

Dualidade

Fogo de artifício a assinalar o Novo Ano:
Duas estrelas
Ao ler a introdução de Joel Serrão no livro, Fernando Pessoa Cartas a Armando Côrtes-Rodrigues, encontrei como resposta possível para os estados de alma de Pessoa, uma citação de António Sérgio sobre  Antero e os seus Sonetos, a qual determinava a "dualidade irredutível" do escritor. Esta dualidade fascinou-me sempre, daí a vontade em a registar e partilhar. O homem tem sempre algo de apolíneo e de dionisíaco. O resultado entre esses dois mundos depende do livre arbítrio.


Imagem relacionada«Dois Anteros, imagino eu»; - continua o ilustre ensaísta - chamemos-lhe, por comodidade, o Apolíneo e o Nocturno (ou Romântico). Ao primeiro, domina-o o espírito crítico do filósofo; ao segundo, o temperamento mórbido do homem. Canta o primeiro a lucidez do intelecto, o heroísmo apostólico, o claro-sol; prega o auto-domínio e a consciência plena a concentração da personalidade e da actividade pensante; afirma ao mesmo tempo uma filosofia da imanência, intelectualista e aristocrata, e exalta o Amor e a Razão, concebidas como sendo irmãs, fontes de ordem e de harmonia no indivíduo e na sociedade; o segundo pelo contrário, canta a noite, o sonho, a submersão, a morte, «as regiões do vago esquecimento», a dissolução da personalidade, e o repouso da alma no Deus transcendente, na «humilde fé das obscuras gerações».*

Fernando Pessoa, Cartas a Armando Côrtes- Rodrigues. (*Introdução de Joel Serrão) Lisboa: Editorial Inquérito Lda, 1984 (2ª Edição) p. 29-30


31/12/2016

Feliz Ano Novo!

Feliz Ano Novo para todos!
Os meus votos para o ano vindouro são:
- Inteligência;
- Amor;
-Lucidez;
- Paz;
- Fortuna.


Luz de dentro

Miminhos que recebi  e que muito agradeço.:))


 



30/12/2016

Nuvens

A nuvem invólucro arquitectónico.
A Coluna de Nelson, Trafalgar Square

NUBES (I)

No habrá una sola cosa que no sea
una nube. Lo son las catedrales
de vasta piedra y bíblicos cristales
que el tiempo allanará. Lo es la Odisea,
que cambia como el mar. Algo hay distinto
cada vez que la abrimos. El reflejo
de tu cara ya es otro en el espejo
y el día es un dudoso laberinto.
Somos los que se van. La numerosa
nube que se deshace en el poniente
es nuestra imagen. Incesantemente
la rosa se convierte en otra rosa.
Eres nube, eres mar, eres olvido.
Eres también aquello que has perdido.


NUBES (II)

Por el aire andan plácidas montañas
o cordilleras trágicas de sombra
que oscurecen el día. Se las nombra
nubes. Las formas suelen ser extrañas.
Shakespeare observó una. Parecía
un dragón. Esa nube de una tarde
en su palabra resplandece y arde
y la seguimos viendo todavía.
Qué son las nubes? Una arquitetura
del azar? Quizá Dios las necesita
para la ejecución de Su infinita
obra y son hilos de la trama oscura.
Quizá la nube sea no menos vana
que el hombre que la mira en mañana.

Jorge Luís Borges, De Los Conjurados (daqui)

27/12/2016

"Escuta, lenhador..."


Seurat, La Tour Eiffel, ca. 1889, 24,1 x 15,2 cm Fine Arts Museums of San Francisco, Museum purchase, William H. Noble Bequest Fund (daqui)



Escuta, lenhador...
Todos os anos vejo as árvores desaparecerem. Pode dizer-se que voltam a ser plantadas, mas nunca se reencontram tantas como anteriormente e é sempre um número mínimo que volta a estender os seus jovens ramos em direcção ao sol ou que agita a sua cabeleira ao vento.
Paris é a única cidade onde se tratam  assim as nossas irmãs árvores; nem Berlim nem Londres, para citar apenas cidades civilizadas, demonstram um tal desconhecimento da natureza. Todos os anos, sob os mais diversos pretextos, as nossas avenidas apresentam um desfile digno dos «infortúnios de guerra» e os mutilados expõem os seus cotos perante a indiferença dos automóveis, em grande medida responsáveis por esta desastrada exterminação. Se, como diz Aristóteles, as árvores são pessoas que sonham, o que pensará a árvore dos seus carrascos? Não quero fingir que lhe dou voz, porque ela tem a seu favor o silêncio dos amantes, as brincadeiras das crianças, as divagações dos solitários e um povo livre sem constrangimentos, ou seja, os pássaros.

Julien Green, Paris. [1983]( Tradução Carlos Vaz Marques) Lisboa: Tinta da China, 2008, p. 105.

Um livro que só agora li por razões várias e porque revisitei Paris nesta época natalícia há uns tempos atrás. Saudades de Paris? Talvez.

Em homenagem a mais uma partida do mundo da música:
(1963-2016)

23/12/2016

Feliz Natal!

A todos um Feliz Natal! 


Numa bola de sabão ...
uns flocos de neve pairam
sob um presépio
que tem uma base barroca: 
 uma caixa de música que canta alegria.


Em re-re-reposição porque gosto muito de ouvir este poema neste dia

19/12/2016

Vento


Vento
A porta da igreja está aberta 
e o presépio em construção.
Os sinos silenciosos marcam
a sexta-feira sombria.
Folhas rolam pelo chão...
com o som agudo e agreste do vento
As muralhas defensivas
talvez defendam dos ataques dos homens,
mas não da Natureza.
Faz frio porque o vento bate fortemente
chamando por mim,
não sei se hei-de ficar ou partir com o vento.


ana

(Agradeço a todos a visita, em breve poderei retribuir)

12/12/2016

Passado/Porvir - Diálogo

Danny Galieote, The Great Escape

"The Great Escape," oil on canvas, by Danny Galieote



Na realidade afigura-se mais lógico, mais fácil, e mesmo mais interessante, conhecermo-nos primeiro em Passado do que em Porvir, - já que ignoramos um e outro.

Mário de Sá-Carneiro, A Estranha Morte do Professor Antena. (Prefácio de Nuno Júdice). Sintra: Colares Editora, p. 26.

...............

O que é o presente?
Algo que conhecemos
e vemos como algo que não atingimos.

O que é o passado?
As memórias doces e amargas
de algo que perdemos.

O que é o porvir?
Algo que almejamos
como a melhor das utopias
felicidade suprema...

ana


09/12/2016

When I Was a child!

Brinquedo, Museu do Caramulo

"When I Was A Child"

I was reaching for the future
Slowly floating in the blue
When I was a boy
I dreamed a dream of you

I danced upon the tree top
I drifted with the stream
When I was a child
I held you in my dreams

Oh, oh
Oh, oh
Ooh

Once I was a soldier
In my castle strong
Oh, I stood so tall then
I could do no wrong
Innocence and slumber
When I was a boy

I was walking with a stranger
He left without a trace
When I was a boy
I slept at Heaven's gate

Once I was a soldier
In my castle strong
Oh, I stood so tall then
I could do no wrong
Innocence and slumber
When I was a boy

Once I was a soldier
In my castle strong
Oh, I stood so tall then
I could do no wrong

Innocence and slumber
Oh, when I was, when I was, when I was
When I was, when I was
When I was, oh, oh, ooh yeah

Once I was a soldier
In my castle strong
Oh I stood so tall then
I could do no wrong

Innocence and slumber
Oh, ooh yes, you know and so I wonder
Through it grows and grows
When I was a boy
I was a boy
I was a boy


05/12/2016

Noite


Noite

Cansaço...
ruído
alegria
tristeza
palavras inscritas
na pedra,
no rio,
no mar.

Grito
mudo...
do fundo da caverna
esperança
em contradança
entre a presença fugaz
e a ausência permanente,
vida.

Laços
embalo
ao de leve
frágil
proeza surreal
do amor
harmonia
no relógio
sem ponteiros,
noite.

ana

 

30/11/2016

Não quero ir onde não há a luz

Brilho duplo.
Joana Vasconcelos (casamento) no Palácio da Ajuda

Não quero ir onde não há a luz
verso título do poema de

Fernando Pessoa, Poesias Inéditas (1930-1935).  (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990), p. 109.

28/11/2016

Infernos, um livro que veio da minha primeira visita à nova Lumière

Na nova Lumière fui muito bem recebida, como sempre. O espaço é fantástico, a luz é dominante, ou não se chamasse assim a livraria. Ao fundo, a galeria de escritores. Uma cadeira, um café e a companhia agradável da Cláudia e da Alexandra Ribeiro. Muito acolhedora esta livraria, já o era no passado, agora é mais porque nos oferece um espaço maior.
De lá trouxe o livro que ando a ler: Infernos de Jean Genet. Um livro poético,  lucidamente amargo, uma auto-crítica? Não sei se será, mas é um livro em que o escritor faz um ajuste de contas consigo e com o mundo marginal de que fazia parte.  






Não há - nem mesmo tu - quem te perdoe a beleza. Não há - e mesmo tu - quem saiba fazer mais do que desatar a rir perante as maldições indeslindáveis que te deixam melancólico. Serás em breve só a memória da tua beleza. Dela restará o canto, e depois o canto deste poema que abandonas, e talvez mais longe «esta ideia de miséria infinita». Trabalha. Manifesta brilhantemente aquilo que o mundo já condenou em ti e não os astros. (...)

Jean Genet, Infernos, Fragmentos. (Tradução e prefácio de Aníbal Fernandes). Lisboa: Hiena Editora, 1990, p. 38

... Já passaram 25 anos que morreu Freddie Mercury.


26/11/2016

Abstracto

Composição a partir da tela de António Charrua



O amor é abstracto,
são explosões de cor,
é luminoso no seu esplendor
e escuro na tristeza da sua morte.

 

25/11/2016

Numa visita ao museu

A arte abstracta nasceu em 1910, por oposição à arte concreta e real, por oposição à fotografia que captava a realidade tal como se apresentava.

Tela de António Charrua,
numa exposição temporária no Museu Nacional Machado de Castro

Gostei da citação de Raquel Henriques da Silva pois, na tentativa de explicação fica sempre algo por dizer.

18/11/2016

Tarde de Outono

Cascata encenada pelo homem

Tarde de Outono,
uma cascata sinfónica
corta o silêncio majestoso do jardim,
espaço cénico do botânico que o criou.
Os amantes procuram a paz
para fazer juras de amor.
Os poetas procuram a quietude
para escrever.
Os pintores procuram a mansidão,
para colocarem na tela
a impressão dourada das folhas.
As crianças procuram na água
os peixinhos vermelhos
 e a alegria de chapinhar.
A folha cai da árvore lentamente,
flutua no ar... flutua
cai na água e rodopia
em movimentos concêntricos,
à procura de ti.


16/11/2016

Parabéns, João Menéres!

Parabéns, João!
Um dia muito feliz e tão bonito como o de ontem no lançamento do livro.

fotografia de João Menéres, Entre o Ver e o Olhar, p. 22

Estrelas cadentes em forma de flor
enchem o céu de júbilo.

ana

11/11/2016

O castanheiro

Boa noite de S. Martinho!


Nostalgia
o castanheiro da avó
ficou perdido no bosque
já ninguém o visita.
Debaixo da frondosa copa,
à sombra das suas folhas dançantes,
os livros ficaram perdidos
pousados junto às raízes fortes.
As memórias boas e funestas
são sombras e afectos perdidos.
O canto dos pássaros continua...
a vida continua,  o canto também,
mas os pássaros são outros, ...
O livro aberto está em branco,
a passagem do tempo apagou a escrita,
apagou o nome,
apenas ficou o coração desenhado na árvore.
O castanheiro da avó
permanece inteiro, em direcção ao céu,
no chão ficaram duas ou três castanhas.

ana

Homenagem a um cantor que gosto.

10/11/2016

"stories"


You may have heard the world is made up of atoms and molecules, but it's really made up of stories. When you sit with an individual that's been here, you can give quantitative data a qualitative overlay.
William Turner



09/11/2016

O ritmo antigo que há nos pés descalços

O ritmo antigo que há nos pés descalços

O ritmo antigo que há nos pés descal
ços
Esse ritmo das ninfas copiado
Quando sob arvoredos
Batem o som da dança —

Pelas praias às vezes, quando brincam
Ante onde a Apolo se Neptuno alia
As crianças maiores,
Têm semelhanças breves

Com versos já longínquos em que Horácio
Ou mais clássicos gregos aceitavam
A vida por dos deuses
Sem mais preces que a vida.

Por isso à beira deste mar, donzelas,
Conduzi vossa dança ao som de risos
Soberbamente antigas
Pelos pés nus e a dança

Enquanto sobre vós arqueia Apolo
Como um ramo alto o azul e a luz da hora
E há o rito primitivo
Do mar lavando as costas.

9-8-1914

Ricardo Reis, Odes (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor). Lisboa: Ática, 1946.


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