A minha escolha para homenagear Pomar recaiu na ilustração de D. Quixote de la Mancha... talvez porque há pouco tempo esta obra esteve presente numa discussão.
Esta imagem foi retirada da Biblioteca Nacional Digital. Fez parte de uma exposição que infelizmente não visitei, Ilustradores de Dom Quixote,realizada para comemorar o IV centenário da publicação de Don Quijote de la Mancha, obra editada, em 1605, em Madrid e, logo a seguir, ainda no mesmo ano, em Lisboa. A Biblioteca Nacional associou-se à comemoração da efeméride com a exposição: ver aqui.
Júlio Pomar, Ilustração
Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!
Se penso, existo; se falo, existo para os outros, com os outros.
A necessidade é o lugar do encontro. Procuro os outros para me lembrar que existo. E existo, porque os outros me reconhecem como seu igual. Por isso, a minha vida é parte de outras vidas, como um sorriso é parte de uma alegria breve.
Breve é a vida e o seu rasto. A posteridade é apenas a memória acesa de uma vela efémera. Para que a memória não se apague, temos que nos dar uns aos outros, como elos de uma corrente ou pedras de uma catedral.
A necessidade de sobrevivência é o pão da fraternidade.
O futuro é uma construção colectiva.
António Arnaut, in 'As Noites Afluentes'
( Retirado do citador)
Para o pai do SNS (Serviço Nacional de Saúde), o Dr. António Arnaut, que ouvi algumas vezes em palestras, deixo este Requiem.
Aproveito para agradecer a todos a Vossa presença amiga.
O livro que comecei a ler compreende uma viagem a Roma, a Brasília, à Sicília, à Cróacia e o regresso. Comprei-o por causa do tema e do título: Não se Encontra o que se Procura. O livro é de Miguel Sousa Tavares. Andei uns tempos zangada com este escritor mas gostei deste título...
Se pudesse ter uma vida paralela, gostaria de ter a vida de um caracol, carregando comigo a casa e plantando-a onde houvesse sol e silêncio, onde houvesse mar e espaço, onde houvesse tempo e distância. Onde houvesse essa improvável e louca hipótese de ser feliz fora do mundo. ( na badana do livro) Miguel Sousa Tavares, Não se Encontra o que se Procura. Clube do Autor, SA, 2014.
A fotografia é um nonsense, mas é o Velho Mundo a contrapôr-se ao Novo Mundo...
Para o Manuel Poppe, com o desejo que este dia seja um dia muito claro e feliz.
Parabéns!
Uma janela aberta, embore ande escondida.
Traz Outro Amigo Também
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
- Temos de estar sempre a jogar este jogo ou vai acontecer-nos algo muito mau.
- Porquê? Porque é que toda a gente nos quer fazer mal?
- Explicar-te-ei quando fores mais cresdida, Zofia.
Mas agora querem fazer mal às pessoas que se chamam Schwarzwald e Litwak e por isso nunca mais dizes esses nomes.
R. D. Rosen, Memórias do Silêncio: As vidas das crianças que sobreviveram escondidas ao Holocausto. ( Trad. Pedro Garcia Rosado). Amadora 20/20 Editora, 2014, trecho retirado da badana da contracapa do livro.
[Uma das últimas leituras que me surpreendeu. Os testemunhos dos 3 casos visados vêm documentados com bibliografia]
Flores amo, não busco. Se aparecem Flores amo, não busco. Se aparecem Me agrado ledo, que há em buscar prazeres O desprazer da busca. A vida seja como o sol, que é dado, Nem arranquemos flores, que, arrancadas Não são nossas, mas mortas.
16-6-1932
Ricardo Reis, Poemas.(Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p. 163.
As coisas nítidas confortam, e as coisas ao sol confortam.
As coisas nítidas confortam, e as coisas ao sol confortam. Ver passar a vida sob um dia azul compensa-me de muito. Esqueço indefinidamente, esqueço mais do que podia lembrar. O meu coração translúcido e aéreo penetra-se da suficiência das coisas, e olhar basta-me carinhosamente. Nunca eu fui outra coisa que uma visão incorpórea, despida de toda a alma salvo um vago ar que passou e que via.
s.d.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego por Vol.II. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982, p. 266.
MR, sei que gosta de livros de viagens e de viajar. Aqui fica um trecho do livro que ando a ler: Egipto, Notas de Viagem, de Eça de Queirós. (Optei por transcrever com o português da época por achar engraçado.)
Quando a tarde cahía, fomos vêr a columna de Pompeu. É uma alta columna grega, de granito rosado, que se ergue sobre uma colina d'areia. Foi elevada em honra de Diocleciano por um Prefeito do Egypto.
Alli, n'aquella solidão, tem uma melancholia altiva e cheia de passado. Ao pé, negreja uma estátua de granito do tempo de Ramsés, meia enterrada na areia,coberta de immundicies.
Eça de Queiroz, O Egipto, Notas de Viagem. Porto: Lello & Irmão, 1945 (4ª Edição) p.42
Sou garoto curioso, e pra bem me instruir, o que me é misterioso, tento logo descobrir. Sem certeza ou sem fé, indago desde pequeno: se a vaca bebesse café, o leite seria moreno?
Tecnologia versus Humanidade, é um velho debate, um debate intemporal, chegou-me através de um marcador. Porém, é a realidade que nos cerca, a inteligência que nos toca, mas nada chega para apagar a beleza da rosa.
Tecnologia versus Humanidade, o Robot e a Rosa
Estou cansado da inteligência.
Estou cansado da inteligência. Pensar faz mal às emoções. Uma grande reacção aparece. Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo Na casa antiga da quinta velha. Pára. meu coração! Sossega, minha esperança factícia! Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui... Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer! Meu horizonte de quintal e praia! Meu fim antes do princípio! Estou cansado da inteligência. Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa! Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
18-6-1930
Álvaro de Campos, Livro de Versos (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993, p. 125.
O amor que eu tenho não me deixa estar
Pronto, quieto, firme num lugar
Há sempre um pensamento que me enleva
E um desejo comigo que me leva
Longe de mim, a quem eu amo e quero.
Inda de noite, quando durmo, espero
A manhã em que torne a vê-la e amá-la.
……
.
s.d.
Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer – Textos para um Novo Mapa, Lisboa: Estampa, 1990, p.36.
NÃO SEI SE É AMOR QUE TENS, OU AMOR QUE FINGES
Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dadiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?
.
12-11-1930
Ricardo Reis, Odes, (Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (imp.1994), p. 128.
Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci é um livrinho de Sigmund Freud; comprei-o na Livraria Lumière, foi escrito em 1910, e está a cativar-me imenso. Talvez, agora, consiga compreender melhor este grande humanista.
Leonardo da Vinci, A Virgem, o Menino e Santa Ana, c.1513, Museu do Louvre
Imagem da wikipédia
Era bondoso e amável para com todos, segundo se dizia, recusava a alimentação à base de carne por se considerar injusto tirar a vida aos animais, e dava-lhe particular prazer restituir à liberdade os pássaros que comprava no mercado*.
Sigmund Freud, Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci. (Tradução Maria João Pereira) Lisboa: Círculo dos Leitores, 1990, p. 17
Citação de * E. Müntz, Leonardo da Vinci, Paris, 1899, p. 18. ( Um a carta de um contemporâneo dirigida a Médicis e escrita da Índia alude a esta particularidade de Leonardo Segundo Richter: The literary works of Leonard daVinci.)
Que luz é esta que me ilumina de quando em quando e me fere o coração, sem o lesar? Horrorizo-me e inflamo-me: horrorizo-me enquanto sou diferente dela, inflamo-me enquanto sou semelhante a ela. É a Sabedoria, a mesma Sabedoria que bruxuleia em mim e rasga a minha nuvem. Esta encobre-me de novo quando desanimo por causa da escuridão e do peso das minhas misérias. [...] Oiça, pois, a Vossa voz em seu interior, quem puder! Eu clamarei, confiado no Vosso oráculo: "Quão magníficas são as Vossas obras, Senhor! Tudo fizeste na Vossa Sabedoria" (SI 103,24). É ela o Princípio e foi neste Princípio que criaste o céu e a terra.
Leituras realizadas através de ofertas amigas. Hoje, falo apenas de dois livros, um que já li, outro que comecei a ler.
Li Uma Velha e o seu Gato e a História de dois Cães. É um livro triste que narra a história da vida de pessoas e a sua relação com os animais. A primeira é uma história de amor, o gato substitui toda a família e preenche a solidão. Ele acaba por delinear o futuro e o final da vida da sua dona... e mais não digo.
A segunda história é a ligação entre dois animais, a amizade e a partida...
O segundo livro é uma viagem a Itália, um país que adoro, do qual tenho imensas saudades: da cor ocre, do cheiro, do som das fontes e da beleza própria que só aquele país consegue ter na sua multiplicidade geográfica.
Comecei a lê-lo este ano, é o primeiro livro de 2018. Por isso, trago-o comigo, e escolhi este trecho: pela razão simples que a minha visita a Capri, que, em parte, calcorreei solitariamente, foi mágica.
Il fut un temps où Capri était africaine. À présent elle est grecque. On la dit aussi romantique. «Trouvez-vous notre île romantique?» me demande un Italien. Naturallement elle est aussi classique. Elle fut anglaise, puis allemande. À chaque fois il ságit de la fixer et de la voir Afrique ou Grèce. Bref, de se faire reflèter par elle le mythe du moment. Il ya eu même une Capri futuriste quand Marinetti est venu dans l´île. Donc: île de Tibère, île romaine, île romantique, île africaine, île pédérastique et symboliste, île futuriste et faciste, île grecque et classique. Le procédé est le même: une clé qui ne colle pour déchiffrer.
Jean-Paul Sartre, La reine Albemarle ou le dernier touriste (fragments). Éditions Gallimard, 1991, p. 22 e 23
(Um especial bem-haja pela Vossa Visita, em breve, regressarei)
EROS E PSIQUE
... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade.
Do ritual do grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino —
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E, inda tonto do que houvera,
A cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
s. d.
Fernando Pessoa. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995), p. 237.
[1ª publ. in Presença , nº 41-42. Coimbra: Mai. 1934.]