13/04/2019

O ramo

 José Alejandro Inoa Jiménez,  mural - Domingo de Ramos



O ramo de Domingo de Ramos, na minha zona, é feito com louro, oliveira e alecrim.

Um passeio pelo parque do hotel das termas da Cúria.



06/04/2019

Rio conspurcado



Tudo é encontrar qualquer coisa.

Tudo é encontrar qualquer coisa. Mesmo perder é achar o estado de ter essa coisa perdida. Nada se perde; só se encontra qualquer coisa. Há no fundo deste poço, como na fábula, a Verdade.

Sentir é buscar.
s.d.

 Fernando Pessoa, Textos Filosóficos . Vol. I.. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993), p 228.


30/03/2019

Sob a luz do poente

Sob a luz do poente, Panteão, Mosteiro de Santa Maria da Vitória, Batalha



A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua, 
Beneditino, escreve! No aconchego 
Do claustro, na paciência e no sossego, 
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua! 
Mas que na forma de disfarce o emprego 
Do esforço; e a trama viva se construa 
De tal modo, que a imagem fique nua, 
Rica mas sóbria, como um templo grego. 
Não se mostre na fábrica o suplício 
Do mestre. E, natural, o efeito agrade, 
Sem lembrar os andaimes do edifício: 
Porque a Beleza, gêmea da Verdade, 
Arte pura, inimiga do artifício, 
É a força e a graça na simplicidade. 


Olavo Bilac, in "Poesias"  (poema retirado do Citador)

David Fray, Jacques Rouvier, Emmanuel Christien & Audrey Vigoureux, pianos String ensemble of the Orchestre National du Capitole de Toulouse

27/03/2019

A mentira!

Olhos mudos



Olhos mudos observam a mentira,
imutáveis... nada podem fazer.
É a verdade contra uma parede falsa.
Arbítrio: verdade ou mentira?
A verdade dos inocentes versus a mentira fria
do poder do grupo sobre o indivíduo...
...Silêncio.

*****

A nossa ânsia de verdade é grande,

A nossa ânsia de verdade é grande, e por certo o que quiséramos fora, não esta doutrina do Limiar, senão a casa e o lar que há nele.

De aí a arte, feita para entretimento dos outros e nossa ocupação, dos que somos ocupáveis desse modo. Negada a verdade, não temos com que entreter-nos senão a mentira. Com ela nos entretenhamos, dando-a porém como tal, que não como verdade; se uma hipótese metafísica nos ocorre, façamos com ela, não a mentira de um sistema (onde possa ser verdade) mas a verdade de um poema ou de uma novela - verdade em saber que é mentira, e assim não mentir. (...) e assim construí para mim esta regra de vida.

Procurei a verdade ardentemente, ora com uma atenção (…)

s.d.
Fernando Pessoa


Teresa Rita Lopes, Pessoa por Conhecer - Textos para um Novo Mapa. Lisboa: Estampa, 1990, p.90.


23/03/2019

Invenções!

Uma nova forma de rega para quem gosta...


The Lent Lily
’Tis spring; come out to ramble
The hilly brakes around,
For under thorn and bramble
About the hollow ground
The primroses are found.
And there’s the windflower chilly
With all the winds at play,
And there’s the Lenten lily
That has not long to stay
And dies on Easter day.
And since till girls go maying
You find the primrose still,
And find the windflower playing
With every wind at will,
But not the daffodil,
Bring baskets now, and sally
Upon the spring’s array,
And bear from hill and valley
The daffodil away
That dies on Easter day.
 A. E. Housman (1859-1936)
https://interestingliterature.com/2018/10/15/a-short-analysis-of-a-e-housmans-the-lent-lily/

22/03/2019

Hino à Primavera!

Primavera, a minha estação preferida. O sol, a luz incidente sobre as flores, a alegria.


Renascer


Árvores ainda adormecidas ... a permanência na mudança!


Inspirar a Natureza



A beleza de Botticelli na observação da Primavera.
Sandro Botticelli, Alegoria da Primavera, detalhe, Galleria degli Uffizi Florença, (c. 1480)


Imagem relacionada


.Flora, detalhe de "A Primavera", também conhecido como Alegoria da Primavera. Criação: 1477–1482




Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos,
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Antologia,  Lisboa: Círculo de Poesia Moraes Editores, 1975,
p. 19


16/03/2019

Transparência



Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.


Retirado daqui: https://www.escritas.org/pt/t/1650/plano

 

07/03/2019

Para uma amiga


Para a MR com um desejo de um dia feliz.
Parabéns!

Taça dinastia Qing, 1644, reinado de Qianlong (1736-1796), Palácio da Ajuda, A ROTA MARÍTIMA DA SEDA,Museu da Cidade Proíbida

Não é uma taça para o chá, mas achei-a tão linda que é esta a minha prenda virtual.:))


Natalia Osipova e Edward Watson - Orlando pas de deux, baseado na escrita de Virgínia Woolf, 
Mrs Dalloway

05/03/2019

To see a World in a Grain of Sand


AUGURIES OF INNOCENCE

To see a World in a Grain of Sand,
And a Heaven in a Wild Flower,
Hold Infinity in the palm of your hand,
And Eternity in an hour.


William Blake, Songs of Innocence and of Experience, 1863 (excerto)


23/02/2019

Pela noite dentro...



Pela noite dentro...


Para Atravessar Contigo o Deserto do Mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo 
Para enfrentarmos juntos o terror da morte 
Para ver a verdade para perder o medo 
Ao lado dos teus passos caminhei 

Por ti deixei meu reino meu segredo 
Minha rápida noite meu silêncio 
Minha pérola redonda e seu oriente 
Meu espelho minha vida minha imagem 
E abandonei os jardins do paraíso 

Cá fora à luz sem véu do dia duro 
Sem os espelhos vi que estava nua 
E ao descampado se chamava tempo 

Por isso com teus gestos me vestiste 
E aprendi a viver em pleno vento 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto'  (citador)


09/02/2019

Invasivos trevos

Invasivos trevos


Se
Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na luta por um bem definitivo
Em que as cisas do amor se eternizassem.

Sophia de Mello Breyner Andresen, DOZE POEMAS uma edição da Divani & Divani, sd


02/02/2019

Um poema em doze!

O mar monocromático

Deriva


Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flôr das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o rosto de Eurydice das neblinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri


Sophia de Mello Breyner Andresen, DOZE POEMAS uma edição da Divani & Divani, sd

[É uma caixinha muito bonita que comprei na Livraria Lumière quando visitei a Cláudia].

05/01/2019

Saudades...

Saudades dos passeios pelos canais..., Amesterdão





...e as algas como molhados cabelos empastando o rosto morto das águas.
Um som suave de rio largo, uma indecisa frescura aquática, uma saudade audível, oculta, um amarelo morto de movimento.

Leves, leves as sombras calmas.

A noite era cheia daquelas pequenas nuvens muito brancas, que se destacam umas das outras. Vista através de uma ou outra delas, a Lua tinha em seu torno um halo azul, castanho e amarelo, com uns tons supostos de verde-vivo. Entre as árvores o céu era dum azul-negro profundíssimo, longínquo, irrevogável. As estrelas viam-se ora através das nuvens, ora, muito longe, mas entre elas. Uma saudade de coisas idas, de grandes passados da alma, talvez porque em reencarnações antigas, olhos nossos, no corpo físico, houvesse visto, este luar sobre florestas longínquas, quando selvática ainda, a alma infanta talvez pressentia, por uma memória em Deus ao contrário, no futuro das suas reencarnações, esta lua retrospectiva. E assim essas duas luas davam mãos de sombra por sobre a minha cabeça abatida.
s.d.



Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I, (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990, p. 82.



01/01/2019

1 de janeiro: " A cura"

Um novo ano, no imaginário humano todas as esperanças e promessas se renovam, o futuro pode ressarcir o passado... tudo se torna possível no ciclo da vida.
Assim, procuro nas palavras de uma amiga a cura para a Humanidade como mote de iniciação.


(...)
Hoje o que venho pedir-te é a cura para a Humanidade. Os Homens estão doentes. Assistimos a todo o momento a guerras em praça pública e a julgamentos em busca de aplausos: "ele é mau, porque eu sou bom"; "ele não sabe, eu é que sei"; ele isto, eu aquilo... Como se pode sentir bem um homem que julga outro em busca de proveito próprio? E como podem outros aplaudir comportamentos assim? E onde fica a tão apregoada solidariedade? Todos somos imperfeitos, mas o Homem tornou-se egoísta e "apontar o dedo" é, infelizmente, mais fácil e rápido do que olhar para dentro de si. 

Proliferam atitudes como a rivalidade, a inveja, a hipocrisia, a mentira, a falsidade, a má-língua, a corrupção, o oportunismo, a conveniência – uma longa lista. Durante uns dias a Humanidade irá fingir que é Carnaval, colocar as suas máscaras e engalanar-se para as festas. Vai dar-se o mundo embrulhado em laços coloridos de amizade, amor e solidariedade. 
Por isso, Menino Jesus, neste Natal, queria pedir-te que fizesses com que os homens se tornem mais conscientes e melhores, pois, se isso acontecer, o mundo poderá retomar um pouco do seu equilíbrio perdido e seremos todos muito mais felizes.

Graça Alves, Carta ao Menino Jesus

(clique no nome para ver o texto completo)

Com a cortesia do youtube, porém é uma pena estar mal filmado



Aqui fica outro vídeo onde se pode ver bem a expressão corporal do bailarino.

29/12/2018

Da Terra...

Da Terra  para o Céu, 
um
 Feliz Ano Novo!



O passado,                        o presente,                                 o futuro





O futuro é uma equação desconhecida, por isso escolhi as cores quentes para que ele nos
traga harmonia, calor e amor.






08/12/2018

Máscara na caixa quadrada



Depus a máscara e vi-me ao espelho.

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um terminus de linha.

18-8-1934


Álvaro de Campos, Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 61.


Já se canta o Natal...

01/12/2018

"Ó ditosa ventura!"

Noite Escura
Em uma Noite escura,
com ânsias em amores inflamada,
ó ditosa ventura!
saí sem ser notada,
estando minha casa sossegada.

A ocultas, e segura,
pela secreta escada, disfarçada,
ó ditosa ventura!,
a ocultas, embuçada,
estando minha casa sossegada.
Em uma Noite ditosa,
tão em segredo que ninguém me via,
nem eu nenhuma cousa,
sem outra luz e guia
senão aquela que em meu seio ardia.

Só ela me guiava
mais certa do que a luz do meio-dia,
aonde me esperava
quem eu mui bem sabia,
em parte onde ninguém aparecia.
Ó Noite que guiaste!,
ó Noite amável mais que a alvorada!,
ó Noite que juntaste
Amado com amada,
amada nesse Amado transformada!


No meu peito florido,
que inteiro para ele se guardava,
quedou adormecido
do prazer que eu lhe dava,
e a brisa no alto cedro suspirava.
Da torre a brisa amena,
quando eu a seus cabelos revolvia,
com fina mão serena
a meu colo feria,
e todos meus sentidos suspendia.

Quedei-me e me olvidei,
e o rosto inclinei sobre o do Amado:
tudo cessou, me dei,
deixando meu cuidado
por entre as açucenas olvidado.
São Jão da Cruz, Transcrito de Poesia de 26 Séculos, (Tradução de Jorge de Sena) Coimbra: Fora do Texto, 1993.

16/11/2018

Parabéns, João Menéres

Parabéns, João Menéres.
Desejo que tenha um final de dia feliz!

Um jantar sublime com muitos Vivas! :))


Henri Cartier-Bresson, Simiane-la-Rotonde (France, 1969)

Resultado de imagem para grandes fotógrafos

https://vejasp.abril.com.br/atracao/exposicao-de-henri-cartier-bresson/

Ainda para si esta foto de Bresson e a Carmen, pois então. :))


08/11/2018

Se...

Se a trança de Inês se ornamentasse
                              de certeza que eram estas orquídeas a sua escolha



Cláudia, obrigada pela Trança de Inês de Rosa Lobato Faria.


03/11/2018

Para a Margarida

Parabéns, Margarida!
Desejo que passe um dia muito feliz.

John Singer Sargent, “The Fountain, Villa Torlonia, Frascati, Italy,” 1907- (detalhe),
Art Institute of Chicago



https://i0.wp.com/www.gailsibley.com/wp-content/uploads/2013/08/IMG_8771.jpg




27/10/2018

na hora de pôr a mesa






na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão. Quasi, 2007.


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