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03/08/2023

Um quadro, uma tela para breves instantes! (1)

 MR deu-me a conhecer a pintora russa, Ksenia Stekolshchikova, no blogue Prosimetron (https://prosimetron.blogspot.com/2023/08/a-mesa.html)



Fui à procura e encontrei a tela que se segue para uns breves instantes.

Ksenia Stekolshchikova, sem título


https://www.tuttartpitturasculturapoesiamusica.com/2023/04/ksenia-stekolshchikova.html

A luz e as sombras fascinaram-me. O branco, o vazio que abre tantas possibilidades!

Bom dia!



16/10/2018

Para a Maria João

Parabéns!
Desejo que passe um dia muito feliz e com muita luz, à beira-mar.

Para uma mulher vitoriosa - "Sê lanterna, sê luz...! :))


Vann Gogh- Detalhe de Noite estrelada, cortesia do google 
Resultado de imagem para van gogh




Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito


3-3-1929

Ricardo Reis, (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.139.




De uma Maria João para outra Maria João - Fantasia de Chopin


21/04/2018

o sol - flor- tem várias texturas

girassol

- Não gosto deste jogo.
- Não interessa, Zofia.
-Quero ser a Selma.
- Temos de estar sempre a jogar este jogo ou vai acontecer-nos algo muito mau.
- Porquê? Porque é que toda a gente nos quer fazer mal?
- Explicar-te-ei quando fores mais cresdida, Zofia.
Mas agora querem fazer mal às pessoas que se chamam Schwarzwald e Litwak e por isso nunca mais dizes esses nomes.

R. D. Rosen, Memórias do Silêncio: As vidas das crianças que sobreviveram escondidas ao Holocausto. ( Trad. Pedro Garcia Rosado). Amadora 20/20 Editora, 2014, trecho retirado da badana da contracapa do livro.

[Uma das últimas leituras que me surpreendeu. Os testemunhos dos 3 casos visados vêm documentados com bibliografia]

30/01/2018

"Era bondoso"...

Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci é um livrinho de Sigmund Freud; comprei-o na Livraria Lumière, foi escrito em 1910, e está a cativar-me imenso. Talvez, agora, consiga compreender melhor este grande humanista.

Leonardo da Vinci, A Virgem, o Menino e Santa Ana, c.1513, Museu do Louvre
Imagem da wikipédia

Era bondoso e amável para com todos, segundo se dizia, recusava a alimentação à base de carne por se considerar injusto tirar a vida aos animais, e dava-lhe particular prazer restituir à liberdade os pássaros que comprava no mercado*.

Sigmund Freud, Uma Recordação de Infância de Leonardo da Vinci. (Tradução Maria João Pereira)  Lisboa: Círculo dos Leitores, 1990, p. 17

Citação de * E. Müntz, Leonardo da Vinci, Paris, 1899, p. 18. ( Um a carta de um contemporâneo dirigida a Médicis e escrita da Índia alude a esta particularidade de Leonardo Segundo Richter: The literary works of Leonard daVinci.)


27/09/2017

Red Tower

Para Majo,

O meu estado de espírito, 



daí não visitar os blogues amigos e andar distante.

Giorgio De Chirico, The Red Tower, 1913, Guggenheim, New York 
Giorgio de Chirico, The Red Tower, 1913. Oil on canvas, 28 15/16 x 39 5/8 inches (73.5 x 100.5 cm)

11/07/2017

A Rose, is a Rose...

Egon Schiele, Mãe e filho,1914; 
Viena, Áustria - coleção privada
https://biblioklept.org/2015/05/10/mother-and-child-egon-schiele/



Mãe, diz-me, sabes onde estás agora?
-Senhor, habito a espessa cordilheira,
já ninguém me vê nos olhos da concha,
entre corpos... obscuros e... efémeros,
ou entre colmeias brancas e tardias
o silêncio, eterna...mente o puro silêncio,
o vácuo da minha alma enxerga-se
entre corpos... raízes... ninguém me vê,
o silêncio... nos olhos... habi...to a neve
onde edifico o meu... rosto... senhor...!

João Rasteiro, A Rose, is a Rose is a Rose et coetera.  Edições Sem Nome, 2017, p.44.

Este livro de poesia de João Rasteiro é a história, em poema, de sua mãe quando adoeceu com alzheimer.
O título foi inspirado num poema de Herberto Helder.

Obrigada, João Rasteiro.


02/06/2017

Jardim privado sem "neblina"

Olhar proibido para o jardim privado.

A neblina

Realmente, não é sábio
Aquele que não conhece a escuridão,
Que inevitavelmente e em silêncio
Nos separa dos outros.

É estranho andar na neblina!
A vida é solidão.
Nenhum de nós conhece os outros,
Todos estamos sozinhos.

Herman Hesse "A neblina" in A Sublime Arte de Envelhecer de Anselm Grün [monge beneditino] (Prefácio de Mons. Vitor Feytor Pinto). Prior Velho, Edições Paulinas, 2011 (3ª edição), p. 46.




19/02/2017

padrão/paradigma

padrão = modelo, paradigma.                                      Mário Cesariny, Naniôra, Uma e Duas, 1960, Centro Aarte Moderna Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian


O paradigma humano é dos mais difíceis de entender. Porém, há um conjunto de sinais que se repete, que se constrói, que vêm a delinear e a desenhar um rosto.
Nem sempre queremos ver o rosto que sai do papel, embora, o tenhamos presente, não o queremos ver. Os olhos traem a nossa mente.
Do esboço, no entanto, sai um rosto real que nos observa, que nos trai, que nos interpela de diferentes maneiras, que nos distrai, que nos confunde e que no final fica só.
Há o fio umbilical ligado a si próprio, tal narciso, nem da posição fetal se recorda. 
Há um princípio e um fim mas a realidade fica à margem deste ciclo e acaba... mal.

ana


06/01/2017

O que nos espera? Do relativismo das coisas...

O que nos espera? 


O que será a melhor fotografia tirada no ano de 2016? 
Um momento guardado, um gosto subjectivo? Um rosto?, uma paisagem?, uma flor? um conceito? 
O melhor, o que é o melhor hoje? Será o melhor amanhã? Será mais estético um rosto ou uma flor?, uma paisagem urbana ou uma rural?, uma casa ou um rio? Tudo é relativo. Daí o melhor de 2016 ser uma preposição obscena. Daí a minha escolha assentar no critério da fotografia conceito: o vazio, as brumas a assinalar este começo do ano, neste dia de Reis. Um dia em que o ouro, o incenso e a mirra foram a oferta para o príncipe entre os Príncipes.


Com o meu agradecimento a Bea que me deixou esta surpresa de Chopin. 
[... tenho saudades da Primavera!]

04/01/2017

Diálogo improvável

   
     VII
Saber? Que sei eu?                           Nada sei.
Pensar é descrer.                              Quanto mais penso, menos sei.
- Leve e azul é o céu -                       Neste céu de chumbo
Tudo é tão difícil                               Que me cerca.
De compreender!...                           O que entender?

A ciência, uma fada                           Viver, é caminhar
Num conto de louco...                        estranhamente 
- A luz é lavada -                               numa bruma sem fim.
Como o que nós vemos                     O perceptível
É nítido e pouco!                               é mínimo e claro.

Que sei eu que abrande                      O que aprendi eu
Meu anseio fundo?                             Que alimenta o meu desespero?
Ó céu real e grande,                           A realidade nua e crua,
Não saber o modo                              Os outros com que me cruzo
De pensar o mundo!                            De quem nada sei, nem ouço!

4-XI-1914                                            4-I-2017

Fernando Pessoa *                                 ana

*Fernando Pessoa, Cartas a Armando Côrtes- Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão) Lisboa: Editorial Inquérito Lda, 1984 (2ª Edição) p.  88.


19/07/2016

"Spirit of Ecstasy"

Spirit of Ecstasy                                                                              Spirit of Ecstasy

Crianças, adolescentes, pessoas indefesas
perderam a vida num acto de brutal violência humana.

Quem se arroga em ter poder sobre a vida?
Como é que a violência se apodera do homem friamente?

A História comprova esta disposição do homem.
A Psicologia tenta explicá-la.
A Ciência concorre no mesmo.
A Religião interroga-se.

O homem perde o sentido de evolução.
O medo impera.
O caos é maior que a ordem.

Que o Spirit of Ecstasy transporte em paz os que pereceram.
Que traga novos ventos...
Que espalhe generosidade e inteligência.
Que determine nos homens a sapiente escolha do bem sobre o mal.

ana

A minha homenagem às vitimas do atentado de 14 de Julho, em Nice, quando festejavam a Tomada da Bastilha.

28/03/2016

livros e arte

Alessandro Turchi, Orbetto, Lamentação da morte de Cristo [tradução livre], c. 1645-50.

Na galeria Gherardini encontrei belas obras de Orbetto*e passei a conhecer este meritório artista. Quando estamos longe contentamo-nos com saber dos artistas de primeiro plano, muitas vezes apenas com os seus nomes; mas quando nos aproximamos deste firmamento de estrelas e as de segunda e terceira grandeza começam também a brilhar, e cada uma se destaca como parte de toda a constelação, nessa altura o mundo alarga-se e a arte enriquece-se. Tenho de louvar aqui a ideia de um desses quadros. Tem apenas duas figuras em meio corpo. Sansão acabou de adormecer no regaço de Dalila, ela inclina-se levemente sobre ele para pegar numa tesoura que está em cima da mesa, ao lado de uma candeia. A execução é muito perfeita. 

Johann Wolfgang Goethe, Viagem a Itália, 1786-1788. ( Tradução, prefácio e notas de João Barrento) Lisboa: Bertrand Editora, 2016, p. 73. 
[A pedido do tradutor a obra não segue a grafia do novo acordo ortográfico].

* Orbetto é o pintor Alessandro Turchi também conhecido por Alessandro Veronese. O pintor nasceu em Verona em 1578 e morreu em Roma em 1649.

Apesar da nota no fim do livro referir que a tela está no Louvre não a consegui encontrar. De forma que coloco outra que gostei muito e que foca Maria Madalena após a deposição de Cristo. É bela não é?
Esta viagem a Itália está a encantar-me. Não estou a ler rapidamente até porque o comecei numa altura de muito trabalho. Contudo, o tempo não importa quando a beleza entra pelos olhos dentro e quando nos leva a investigar.
Boa noite!


24/03/2016

Primavera! [Almejada]

“A primavera chegará, 
mesmo que ninguém mais saiba seu nome, 
nem acredite no calendário, 
nem possua jardim para recebê-la.”

Cecília Meireles 


Obrigada, em breve corresponderei à vossa presença.:))
***

28/11/2015

As primeiras camélias

A Natureza é absolutamente surpreendente. Enquanto o Outono prossegue com as folhas mortas na maior parte das árvores, outras há que se renovam e brotam com vigor e pujança numa beleza irrepreensível. A árvore da camélia, na sua maioria, ainda verde, salpicada por rosa aqui e acolá revela os ciclos habituais seguindo a ordem das coisas. No jardim ocre, amarelo e castanho o rejuvenescimento pontual faz acreditar na vida.



29/07/2015

"Robaiyat?"

Em tempo de reclusão a leitura é um bálsamo. O livro que ando a ler:




Afinal o que é um robayat?

Rubayat  foi o título dado por Edward Fitzgerald à selecção de poemas atribuídos a Omar Khayyam  (1048-1131)   e traduzidos da escrita persa. Omar foi um filósofo, astrónomo e matemático, enfim, um sábio.
Um ruba'i é uma estrofe de duas linhas, com duas partes cada, daí o nome Rubaiyat (quarteto) que provém da palavra "quatro" em árabe.
A poesia de Rubaiyat ou Ruba'iyat canta a existência humana, a brevidade da vida, o êxtase e o amor. Omar Khayyam desenvolveu o êxtase do vinho como transcendência do homem. O poeta inglês Edward Fitzgerald foi o responsável por tornar conhecido o Rubaiyat, ao traduzi-lo e ao publica-lo em 1859.                                                                                                                    *Legenda no  final
Fernando Pessoa foi influenciado pelos Rubaiyat do iraniano Omar Khayyam o qual leu através da tradução inglesa de Edward Fitzgerald. Existe um volume na sua biblioteca particular, na Casa Fernando Pessoa. «Este exemplar, publicado em Leipzig, em 1928, é de grande interesse para os estudiosos pessoanos, pois está sublinhado e anotado a lápis pelo poeta, contendo ainda inscritos alguns "rubai" da sua autoria. Fernando Pessoa compôs também o seu Rubaiyat, "Canções de Beber" inspiradas no poema homónimo de Omar Khayyam. Em vida, Fernando Pessoa publicou apenas três "rubai", com o título "Rubaiyat", no último número da revista Contemporânea, dirigida pelo seu amigo José Pacheco, em Julho de 1926 (p. 98)» (Wikipédia)

Fonte Wikipédia: 
Rubaiyat, Omar Khayyam. Clássicos do Oriente. Editora EKO, 2007.
Márcia Manir Miguel Feitosa, Fernando Pessoa e Omar Khayyam: o Ruba'iyat na poesia portuguesa do século XX, Márcia Manir Miguel Feitosa. São Paulo: Giordano, 1998.

Uma cópia do exemplar do Rubaiyat em Inglês, que pertenceu a Fernando Pessoa, pode ser descarregada da Biblioteca Digital da Casa Fernando Pessoa.
Compemporanea, 3.ª série, n.º 3, Julho - Outubro de 1926.
Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal:
Rubaiyat: odes ao vinho, Omar Khayyam, versão de E.M. de Melo e Castro. Lisboa: Moraes. 1970.
Rubaiyat, "Odes ao vinho", Omar Khayyam, versão de Fernando Couto, pref. E. M. de Melo e Castro. Lisboa: Moraes, 1982.
Rubaiyat: odes ao vinho, Omar Khayyam, trad. Fernando Castro, pref. E. M. de Melo e Castro. Lisboa: Estampa, 1990.
Rubaiyat: odes ao vinho, Omar Khayyam, trad. Fernando Castro, 3.a ed. Lisboa: Estampa, 1999.
Rubaiyat: celebração da vida, Omar Khayyam, trad. A. César Rodrigues. Queluz: Coisas de Ler, 2002.
Rubá'iyat, Umar-I Khayyãm, apres. Maria Aliete Galhoz, selec., trad. e notas Halima Naimova, rev. António Lampreia. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.


*Página de um manuscrito do Rubaiyat de Omar Khayyam. Caligrafia e ornamentação de William Morris, ilustração de Edward Burne-Jones.



08/03/2015

Motivo - As Rosas

No dia Internacional da Mulher - 3 poetizas

A sepal, petal, and a thorn                                   Sépala, pétala, espinho.
Upon a common summer's morn –                       
Na vulgar manhã de Verão –
A flash of Dew – A Bee or two –                          
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
A Breeze – a caper in the trees –                         
Brisa saltando nas árvores –
And I'm a Rose
!                                                    – E sou uma Rosa!

Emily Dickinson (1830-1886)

(Tradução de) Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson. Lisboa: Guimarães/Babel, 2010*


Para Emily 



Para Sophia

Para Cecília

Sophia de Mello Breyner Andresen- retirado da BNP

Para todas as amigas que por aqui passam: não é uma rosa mas é rosa.

4º. Motivo da rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

Leia mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1472 © Luso-Poemas

*Nenhuma poesia do tempo se parecia com a sua, tão insólita, tão abrupta, tão tensa e tão concisa. […] a "liberdade" de Emily Dickinson é extremamente complexa, só entendível em pessoalíssimos termos. Mas, na história da poesia norte-americana, em que as figuras dolorosas ou tragicamente isoladas são tantas, ela avulta esplêndida, igualmente distante dos "profissionais" da poesia ou dos fabricantes dela para consumo doméstico ou público.
Jorge de Sena introdução na antologia: 80 poemas de Emily Dickinson.

Paris Opera Ballet, Agnès Letestu e Stéphane Bullion, Coreografia - John Neumeier

27/01/2015

Holocausto- In Memoriam

No dia em que se assinala o Dia Internacional da Memória do Holocausto recordo a figura de Arístides de Sousa Mendes. Uma exposição que vi recentemente no Centro de Coordenação Cultural de Viseu: 

Coragem em tempo de Medo: Arístides de Sousa Mendes



















2. Sala Vermelha - sala do terror     1. Sala Azul - sala biográfica. 

 Sala do Terror - O Nacional Socialismo - Hitler e o poder
Sala Roxa - sala que foca as dificuldades sentidas. Leis de Nuremberga que limitaram a passagem de vistos.

Sala Laranja - O cônsul ajudou a fugir muitos judeus dando vistos quando já não o podia fazer.
Crianças refugiadas em Portugal, 1941
Sala Verde - a sala da homenagem e reconhecimento
Placa de homenagem no Bosque dos Justos, Jerusalém                    Retrato em Jerusalém

Homenagem no Parlamento Europeu e na Assembleia da República: 
Cruz da Ordem Militar de Cristo



... com o sofrimento de tantos judeus.

13/01/2015

Afectos que (en)cantam a alma

CANTOR DA ALMA

Chamou-me cantor da alma
Por ser poeta
Por cantar e contar
O que o outro chora
E sente

Que razão terei
Que não esta natureza
Que me embala
E nos envolve?

E chamou-me poeta...

Odete  Semedo

Odete Costa Semedo, Entre o Ser e o Amar. Odete Semedo e INEP, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, República da Guiné-Bissau, 1996, p.43. Edição bilingue em português e kriol, 
Livros fac-similados do Público.

Diálogos: poesia e prosa, um tudo nada que faz percorrer o pensamento. Por vezes recebemos tanto e damos tão pouco. Obrigada. 

Myra Landau, Jarro vermelho [intitulado por mim]                 
    
Nesta vida que se nos afigura por vezes como um vasto terreno deserto sem marcos de informação, no meio de  linhas de fuga e dos horizontes perdidos, gostaríamos de encontrar pontos de referência, de estabelecer uma espécie de cadastro para iludir a impressão de navegar ao acaso. Então, tecemos laços, procuramos tornar mais estáveis encontros ocasionais. Calei-me de olhos fixos na pilha das revistas. No meio da mesa de centro, um grande cinzeiro amarelo que continha a inscrição: Cinzano.   (...) urgia descobrir um sentido para tudo isto.

Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida. Lisboa: Asa, 2014 (2ª edição), p. 36


23/07/2014

Aprazíveis Diálogos- VIII

De Lisboa, mais propriamente do Estoril, uma flor trouxe-me o texto de Maria João Falcão do blogue O Falcão de Jade. Tive o privilégio de ler diversos contos desta minha amiga. A unir-nos para além de Roma, há uma cidade portuguesa cheia de afectos: Portalegre. A flor e a tela, de Aldo Zari (1982), são fotografia da sua autoria. Muito obrigada. :))

«A Mãe



Ela

Descia as curvas da serra, de carro, a ouvir um Nocturno de Chopin, quase sempre o mesmo.

Lembrava-me de ouvir a minha mãe tocar Chopin, ou Lizt, na velha casa amarela da minha infância.

Em volta a natureza era maravilhosa. Chegara o Verão e via os campos, lá em baixo, com as searas brilhantes e dourados, e uma ou outra papoila bem vermelha a rebentar.

Ia ter com ela, que estava a morrer.

Sabia que sofria e que tudo ia acabar em breve. Irremediavelmente, íamos ficar separadas, como tínhamos vivido tanto tempo.

Separadas.

Enquanto fazia e desfazia as curvas da estrada, no meio dos pinhais e dos eucaliptos, olhando as giestas amarelas cheias de força, pensava que, se calhar, lhe era indiferente ver-me chegar.

Quando entrava no quarto dela, esquecia tudo. Às vezes deitava-me ao lado e cantava-lhe baixinho as canções que me ensinara, em pequenina.                                                   Aldo Zari, Bailado [intitulado por mim]

“Ah! Si j’étais
le rossignol qui chante...
Dans la fôret, 
je viendrais près de toi.
Et chanterais
d'une voix si touchante...” 

Numa dessas manhãs, começou a chorar, de olhos fechados, soluçando como uma criança.
- O que foi, Mamã?

Disse apenas:
- Dói-me... 
- O quê, Mamã?

Eu falava-lhe como se ainda fosse pequena e estivesse deitada na cama dela, a ouvir as histórias que nos contava.
O que lhe doía?

Sabia que não lhe doía o que me doía a mim, o afastamento de sempre.
Guardava a esperança de que sentisse alguma saudade desses tempos, e estivesse agora mais perto de mim, na recordação. 

“Por isso, a vontade de chorar?”, pensei por um momento.
O mais provável era que lhe doesse a sua dor real, física.

Queixara-se sempre pouco a minha mãe, e aguentava a dor como aguentara a solidão na casa da Serra, tantos anos. 
Mas desta vez gemera, protestara.

“Pobre Mamã”…

Dei-lhe a mão, fiz-lhe uma festa, e comecei a chorar, baixinho, para ela não me ouvir.»

Maria João Falcão
Dois Nocturnos da minha eleição.

01/07/2014

Aprazíveis Diálogos - V

Do Fundão recebi, com prazer, o texto de AC do blogue Interioridades que de mansinho, levemente, entrou pela janela aberta de par em par. Muito obrigada. 

Constant Moyaux (1835-1911) - View of Rome from the Artist’s Room at the Villa Medici, 1863

File:Constant Moyaux - View of Rome from the Artist’s Room at the Villa Medici.jpg


SUSTENTÁVEL LEVEZA 

 Sentias o fogo latente, o corpo a reclamar. A chama, incandescente, conduzia-te os sonhos, o peito era escudo onde tudo resvalava. Sentias a poesia na descoberta da noite infinita, na magia do despertar da aurora, na terra onde tudo continuava por lavrar. Intuíste novas palavras, novas linguagens. 

Quando aprendeste a pousar, suavemente, no aroma das alfazemas, já sabias que tudo continuava por fazer. Mas passaste a sentir, cada vez mais, o sereno sinal que da alma emana. 

AC




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