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15/06/2019

O homem do realejo, beatnik?


O homem do realejo, beatnik?

Os dois lados do realejo

Pelo lado de cima,
o realejo é como um altar barroco,
de colunas douradas, flores grandiosas,
conchas crespas, abraço de volutas e fitas.

Pelo lado de cima,
o realejo é um pátio mágico,
onde cantam os pássaros e jorram os repuxos,
com requebros de dança
e festas de amor.

E das altas janelas voam para o realejo
pequenas moedas cintilantes,
libélulas douradas,
borboletas de prata,
pedacinhos de sol
gravitando na musica.

Do lado de baixo, a rodar a manivela,
há um homem sem emprego,
que alegra a rua.
mas tem os olhos graves.

Uns olhos que viram rios de sangue
em redor daquelas casas.
Rios de guerra,
onde boiou sua gente fuzilada e sem culpa.


Cecília Meireles, In: Poesia Completa, Viagem (1939)
Cortesia do Google


 

08/03/2017

Retrato...

No dia da Mulher :



Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in 'Poemas (1942-1959)'


24/03/2016

Primavera! [Almejada]

“A primavera chegará, 
mesmo que ninguém mais saiba seu nome, 
nem acredite no calendário, 
nem possua jardim para recebê-la.”

Cecília Meireles 


Obrigada, em breve corresponderei à vossa presença.:))
***

08/03/2015

Motivo - As Rosas

No dia Internacional da Mulher - 3 poetizas

A sepal, petal, and a thorn                                   Sépala, pétala, espinho.
Upon a common summer's morn –                       
Na vulgar manhã de Verão –
A flash of Dew – A Bee or two –                          
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
A Breeze – a caper in the trees –                         
Brisa saltando nas árvores –
And I'm a Rose
!                                                    – E sou uma Rosa!

Emily Dickinson (1830-1886)

(Tradução de) Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson. Lisboa: Guimarães/Babel, 2010*


Para Emily 



Para Sophia

Para Cecília

Sophia de Mello Breyner Andresen- retirado da BNP

Para todas as amigas que por aqui passam: não é uma rosa mas é rosa.

4º. Motivo da rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.

Cecília Meireles

Leia mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news03/article.php?storyid=1472 © Luso-Poemas

*Nenhuma poesia do tempo se parecia com a sua, tão insólita, tão abrupta, tão tensa e tão concisa. […] a "liberdade" de Emily Dickinson é extremamente complexa, só entendível em pessoalíssimos termos. Mas, na história da poesia norte-americana, em que as figuras dolorosas ou tragicamente isoladas são tantas, ela avulta esplêndida, igualmente distante dos "profissionais" da poesia ou dos fabricantes dela para consumo doméstico ou público.
Jorge de Sena introdução na antologia: 80 poemas de Emily Dickinson.

Paris Opera Ballet, Agnès Letestu e Stéphane Bullion, Coreografia - John Neumeier

26/02/2015

Amor perdido entre as pedras

Amor perdido entre as pedras do chão, Amesterdão



Se te Abaixasses, Montanha

Se te abaixasses, montanha,
poderia ver a mão
daquele que não me fala
e a quem meus suspiros vão.

Se te abaixasses, montanha,
poderia ver a face
daquele que se soubesse
deste amor talvez chorasse.

Se te abaixasses, montanha,
poderia descansar.
Mas não te abaixes, que eu quero
lembrar, sofrer, esperar.


Cecília Meireles, in 'Poemas (1947)'

06/08/2014

"Houve um tempo em que minha janela se abria"

Janelas em parede azul



Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.

Cecília Meireles5 versos do poema, A Arte de Ser Feliz

04/08/2014

Janela com cortinas brancas

«Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas. »

Cecília Meirelles 
versos do poema A Arte de Ser Feliz.

Janela com cortinas brancas


27/11/2013

Sinal vermelho

A economia deve ser gerida pelo Direito e a política pela ética
Ramalho Eanes, 25-11-2013.

Sinal vermelho para os nossos governantes (Lisboa, 2012)

O fado de ser português...

Traça a reta e a curva

Traça a reta e a curva, 
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso. De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

Cecília Meireles in Poesia Brasileira do Século XX, Dos Modernistas à Actualidade
(seleção, introdução e notas Jorge Henrique Bastos). Lisboa: Antígona [daqui]

Uma versão do Lamento de Dido [Purcell]

18/06/2013

Mulher

Rossio, Mulher: solidão e generosidade



Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Cecília Meireles

08/03/2012

De mulheres para a mulher

Myra Landau, Écoute (la vie)



CATARINA EUFÉMIA

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua

Sophia de Mello Breyner Anderson, Dual, Lisboa: Salamandra, 1986


Paula Rêgo, Festa, 2002


Retrato de Mulher Triste

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in Poemas (1942-1959)


Graça Morais, sem título,
[segredos]
Maria das Quimeras

Maria das Quimeras me chamou
Alguém. Pelos castelos que eu ergui
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh'alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d'oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?...

Florbela Espanca, Livro de Sóror Saudade, Lisboa: Tipografia A Americana, 1923.




Um filme delicioso: 8 Mulheres de François Ozon, 2002

24/09/2011

inteira

Aprendi com as Primaveras
a me deixar cortar
para poder voltar sempre inteira.

Cecília Meireles


Obrigada por este presente, Cozinha dos Vurdóns, foi tão bonito reler depois da noite passada entre investigadores e cientistas que comemoraram Noite Europeia dos Investigadores, 2001 - 23 de Setembro. Um encontro em que se falou de ciência, religião e filosofia. Talvez um dia me sinta inteira!



Desenho não identificado de Rómulo de Carvalho no Centro de Ciência Viva do Departamento de Física da Universidade de Coimbra.

14/05/2011

Intermezzo

Houve um tempo em que a minha janela dava para o céu, era tão alta, tão alta que não tive tempo de crescer para nela me abeirar e descobrir o que escondia para além das nuvens de Inverno que me diziam de manhã "vamos chover", ou dos nevoeiros Outonais que a empalideciam como a um espelho de casa-de-banho depois de um duche que, ao invés de nos reflectir o corpo nu embirra num sombrio, cinzento e macilento esgar que nada transpõe, ou da luz clara, límpida e forte que me acordava nas manhãs de Verão.



Cecília Meireles, in a Arte de ser feliz



Um breve intervalo e o sol estava reflectido nestas janelas




Rua Serpa Pinto, Tomar ou antiga Rua da Corredoura





Rua Serpa Pinto, ou antiga Rua da Corredoura, Tomar




Transversal da rua Serpa Pinto, Tomar


06/02/2011

Quem é afinal a personagem desta tela?

Vem ver o dia crescer entre o chão e o céu
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Verso de Cecília Meireles, in Gonçalo M, Tavares, O Senhor Eliot e as conferências, Lisboa: Caminho, 2010, p. 17
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Joanna Chrobak s/título (?)
A minha última paixão na área da pintura foca-se na pintora polaca Joanna Chrobak. Descobri-a há pouco tempo através do blogue a Feira das Vaidades com a tela intitulada: Narciso que coloquei no Prosimetron.
A tela escolhida, neste caso, encantou-me. Procurei saber a história dela mas não consegui a informação necessária. Olhei para a figura central e resolvi chamá-la a Senhora com Unicórnio. Nos links assinalados encontram-se algumas informações mas nada de relevante. Num segundo plano podem observar S. Jorge a lutar com o dragão. A carga simbólica que Joanna Chrobak coloca nos seus quadros tornam-nos enigmáticos e fascinantes.
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Detalhe

11/12/2010

O Outono gelado quase a despedir-se...

O Outono gelado e com neve parece que se despediu. O Outono com as folhas caídas dos belos plátanos está quase a despedir-se... mas a melancolia ainda não embarcou no navio de Cecília Meirelles que nos acompanhou esta semana.

Thomas Heeremans (c. 1640-1697)Winter Scene by a City Wall (c.1660-1697)

Courtesy of MU's Museum of Art and Archaeology
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Prazo de Vida

No meio do mundo faz frio,
faz frio no meio do mundo,
muito frio.

Mandei armar o meu navio.
Volveremos ao mar profundo,
meu navio!

No meio das águas faz frio.
Faz frio no meio das águas,
muito frio.

Marinheiro serei sombrio,
por minha provisão de mágoas.
Tão sombrio!

No meio da vida faz frio,
faz frio no meio da vida.
Muito frio.

O universo ficou vazio,
porque a mão do amor foi partida
no vazio.

Cecília Meireles, in 'Mar Absoluto' (retirado do citador)

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