A Maria João enviou-me um poema muito bonito de Camilo Pessanha. Associei-o ao trabalho de Myra Landau que intitulo Jardim de Inverno e às fotografias: tímida Primavera e lento acordar primaveril.
Tímida Primavera
Myra Landau, Jardim de Inverno
Passarito assustado com o lento acordar primaveril
Floriram por engano as rosas bravas
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze – quanta flor! – do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
À Myra, ao João e a José Pinheiro dou os parabéns pelo livro bonito que concretizaram.
Ao receber o livro e após a sua leitura sentei-me a pensar: o que é que ele me trouxe, qual o seu impacto? Provocou-me?
As minhas escolhas recaíram nas imagens e nos versos que apresento.
Foram as imagens ou as palavras que ditaram a escolha? Foram ambas, contudo, a escrita teve importância, sim. O que me levou a lembrar o filme protagonizado por Juliette Binoche e Clive Owen: Falar de Amor. Nele conclui-se que nem é mais importante a imagem, nem a escrita mas a simbiose perfeita entre as duas.
Os versos e as imagens que escolhi provocaram o meu sentido estético. Não pude deixar de ligar o presente ao passado, a imagem como reflexo da nossa visão sensitiva e cognitiva, o espelho como reflexo de um eu mais profundo e invisível.
O PASSADO / PRESENTE, daí a escolha da tapeçaria A Dama e o Unicórnio (Visão) e o Banho, atribuído a Van Eyk, a presença do espelho como a consciência da alma para acompanhar o Reflexo.
REFLEXO
vertigem
queda sem fim
espelho de luz
confronto de mim
Myra Landau e João Menéres, Imagini, Edição www.qualquerideia.com, ( Introdução e textos de José Pinheiro) 2015, p. 17,18 e 19.
Nas imagens que se seguem vi a mulher, centro do amor e da arte.
Myra escreveu: amar demais dói...amor amor... Escolhi a tela de António Ramalho por causa da cor do atelier onde o escultor cria a mulher/amor e ainda a Eva de Memling que está presente na fotografia e nos versos. A nudez sugerida representa o amor.
MULHER
eva que fora
era eu sem ser
seria ela
sem eu saber?
Myra Landau e João Menéres, Imagini, Edição www.qualquerideia.com, ( Introdução e textos de José Pinheiro) 2015, p. 33, 34 e 35
António Monteiro Ramalho,
o escultor Alberto Nunes no seu atelier, 1887 Hans Memling, Eva, c.1485
Museu José Malhoa, Caldas da Rainha Kunsthistorisches Museum, Viena
beatificada em 1516 pelo papa Leão X e canonizada em em 1625 pelo papa Urbano VIII
Museu Nacional Machado de Castro, Livro manuscritocom 29 páginas e duas iluminuras, datado de 1592, “que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dª. Isabel, e dos seus bons feitos e milagres em sua vida e depois da sua morte”
Uma exposição de rosas em louvor a D. Isabel e à lenda conhecida, da Rainha? ou da tia, Isabel de Húngria?..., não importa, o povo assim popularizou - O Milagre das Rosas.
Levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres(...) Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava,(...) ela disse, levo aqui rosas. E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas.
Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.
Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.
Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.
Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.
Foi dono da Terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.*
Moral da história: tenho o fecho, falta-me o Filipe. (p. 168)
*António Gedeão, "Poesias completas".[Lisboa: Sá da Costa, 1996] in Rita Ferro, Só se Morre uma Vez, Diário 2. Lisboa: D. Quixote, 2015, pp. 166-168.
Para o povo grego, com quem simpatizo, dedico The Fairy Queen e [o Cavaleiro] a Alucinação de Myra:
para que a consciência de um povo com passado glorioso: triunfe.
A coragem, a atitude e o desafio ao paradigma financeiro da Europa actual merecem o meu aplauso.
Parabéns Myra Landau, João Menéres e Jorge Pinheiro
Desejo que seja um belo acontecimento.
«Quem sabe ver vê para lá do olhar. Olha para além da vista. Quem sabe ver eterniza pessoas. Fixa lugares. Desvenda sentidos. Antes era nada. Agora são cores e formas. Curvas e rectas. Êxtase e esplendor. As imagens podem impressionar. Alegrar. Seduzir. Podem matar e ser mortas. As imagens são tudo o que se quiser. Porque elas não existem. Somos nós que as criamos.»
Uma iniciativa interessante e que entra pelos olhos dentro. Entre as várias criações - que podem ver no link abaixo registado - escolhi esta por achar que a ligação à livraria é perfeita, para não falar na simbologia em causa. Precisamos de luz para viver inteligentemente.
Fotografia de Cláudia Ribeiro - Reparem como as luzes estão acesas, no lado direito.
O Clube de Criativos de Portugal existe há 16 anos e tem como objectivo premiar o que de melhor se faz em criatividade comercial em Portugal.
Nesse sentido, o Clube lança anualmente um tema que, em 2015, envolve o convite às livrarias icónicas de Lisboa e Porto na integração do projecto. No Porto, trata-se da INCM, Leitura Bulhosa, Poetria e Lumière.
Num tempo em que a urgência impera no tom e na forma, "URGENTE É A POESIA" impôs-se como tema, porque é urgente a inspiração, a renovação e a arte, que a rotina - ou o mercado -, nos vai fazendo esquecer ou que, cada vez mais, é urgente contrariar.
A forma encontrada para materializar esse conceito, foi a criação de um laço entre o Design e as livrarias, tornando-as no objecto da intervenção. Ou, por outras palavras, a Poesia do Design serve de mote para a atribuição de montras de livrarias a designers e ateliers nacionais que nelas trabalharam, alguns dos profissionais mais reconhecidos nesta área.
Partindo e valorizando a literatura poética disponível em cada livraria intervencionada, esta parceria visa, para além da promoção dos artistas envolvidos, a das próprias livrarias, chamando a atenção do público para as suas montras e induzindo-o para a descoberta e compra dos livros.
A vertente do vitrinismo é assim assumida como forma de comunicação e captação do interesse e do olhar de quem por elas passa.
Ver aqui o projecto Livraria Lumière Gosto de contrastes e é assumidamente entre estes dois mundos: o da criatividade comercial e o da arte pura que trago aqui alguma luz.
A arte puramente pela arte- foi com alegria que recebi os raios de Sol da Myra.
Luz incandescente [título meu]
URGENTE É A POESIA: Iosif Landau é poeta e irmão da pintora Myra Landau. No link assinalado encontra mais poesia. ERA UMA VEZ
Meus doze anos, calças curtas, pele luminosa, seda do oriente, olhos castanhos, cerejas maduras, perfume de macieira, inocência.
Como a mãe em vigília, dias escorrem em silêncio, a grama por onde ando esconde meus passos, estrelas longe do meu alcance, visões, idéias e pensamentos em minha mente flutuam, mão do destino guia.
Lendas de reis e princesas, Excalibur e a Dama do Lago, abrem as portas da casa escura, flautas e oboés, Puck dança, flores surgem da terra, visão floresce, ela deitada ao meu lado, encanto
Meu rosto vincado, mapa do meu passado, vida de longo caminho, já fui criança, mãe, me abraça.
Se não fosse a "Lumière" não tinha descoberto este cantor : Calogero Joseph Salvatore Maurici, conhecido como Calogero é um cantor francês. Entre a canção e a declamação poética a fronteira é ténue.
É uma ideia maravilhosa, usar a música para criar a paz, gostava de saber que melodias vais tocar lá. Só vou afinar, não sou pianista (...).
Daniel Mason, O Afinador de Pianos. ( Tradução Isabel Alves), Lisboa: Asa, 2005 (8ª edição) p. 43.
O livro narra uma viagem à Birmânia, colónia inglesa no século XIX. O afinador, protagonista da história, vai de Londres para afinar um piano Érard a um médico militar.
O livro faz sonhar.
Heinrich Vogeler, Die Erwartung (Träume II). O Devaneio (Sonho II) [tradução livre]
A música é o canto dos pássaros por isso roubei a Myra o seu pássaro.
Myra Landau, Pássaro [Título meu]
Um piano Érard, construído por Sebastian Erhrard, foi amplamente apreciado pelos seguintes músicos: Beethoven, Chopin, Fauré, Haydn, Herz, Liszt, Mendelssohn, Moscheles e Verdi.
CANTOR DA ALMA Chamou-me cantor da alma Por ser poeta Por cantar e contar O que o outro chora E sente Que razão terei Que não esta natureza Que me embala E nos envolve? E chamou-me poeta...
Odete Semedo
Odete Costa Semedo, Entre o Ser e o Amar. Odete Semedo e INEP, Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, República da Guiné-Bissau, 1996, p.43. Edição bilingue em português e kriol,
Livros fac-similados do Público.
Diálogos: poesia e prosa, um tudo nada que faz percorrer o pensamento. Por vezes recebemos tanto e damos tão pouco. Obrigada.
Myra Landau, Jarro vermelho [intitulado por mim]
Nesta vida que se nos afigura por vezes como um vasto terreno deserto sem marcos de informação, no meio de linhas de fuga e dos horizontes perdidos, gostaríamos de encontrar pontos de referência, de estabelecer uma espécie de cadastro para iludir a impressão de navegar ao acaso. Então, tecemos laços, procuramos tornar mais estáveis encontros ocasionais. Calei-me de olhos fixos na pilha das revistas. No meio da mesa de centro, um grande cinzeiro amarelo que continha a inscrição: Cinzano. (...) urgia descobrir um sentido para tudo isto.
Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida. Lisboa: Asa, 2014 (2ª edição), p. 36
Quatro telas e um acto foi como intitulei o grito de Myra contra a guerra que grassa em Israel.
Poema da Terra Adubada
Por detrás das árvores não se escondem faunos, não. Por detrás das árvores escondem-se os soldados com granadas de mão. As árvores são belas com os troncos dourados. São boas e largas para esconder soldados. Não é o vento que rumoreja nas folhas, não é o vento, não. São os corpos dos soldados rastejando no chão. O brilho súbito não é do limbo das folhas verdes reluzentes. É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes. As rubras flores vermelhas não são papoilas, não. É o sangue dos soldados que está vertido no chão. Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar. São os silvos das balas cortando a espessura do ar. Depois os lavradores rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados, e a terra dará vinho e pão e flores adubada com os corpos dos soldados.
António Gedeão, in Linhas de Força
Dois mundos distintos aqui cruzados... cenário: os homens, o poder, o mal/ o bem.
... à guerra passiva - desemprego.
Vidros Partidos, uma curta-metragem do filme Centro Histórico realizada por Víctor Erice,
(ciclo de cinema do Festival das Artes, Coimbra).
A história do filme sobre a Fábrica de Vizela parte desta fotografia
Actores e equipa de rodagem, o 6º a contar da direita é o realizador Víctor Erice que com olhar profundo filma a preto e branco [alguns apontamentos a cor]
o olhar de alguns operários, agora no desemprego.
Trabalhadores da fábrica que participaram no filme: Maria Fatima Braga Lima; Arlindo Fernandes; Filomena Gigante; José Cruz; Amândio Martins; Gonçalves Rosa; Henriqueta Oliveira; Manuel Silva e [filho de um operário] acordeonista Pedro Santos.
Da Senhora que se vê neste flash registei a ideia
(pena minha não serem as palavras exactas que o trecho não dá):
- O que é a felicidade que a televisão anda sempre a mostrar? Não há felicidade... apenas há sim, alegrias e tive-as, tal como amarguras, mas felicidade não.
CENTRO HISTÓRICO é um conjunto de quatro curtas-metragens, reunindo quatro nomes do cinema contemporâneo, os portugueses Manoel de Oliveira e Pedro Costa, o finlandês Aki Kaurismaki e o espanhol Victor Erice.
Projecto para Guimarães 2012: preservar a memória de Guimarães e do Vale do Ave. Assim, os quatro realizadores, Kaurismaki, Costa, Erice e Oliveira filmaram respectivamente, O TASQUEIRO, SWEET EXORCIST, VIDROS PARTIDOS e O CONQUISTADOR CONQUISTADO.
— Qual é, entre todas as coisas do Mundo, a mais longa e a mais curta, a mais rápida e a mais lenta, a mais divisível e a mais extensa, a que mais se despreza e a que mais se tem pena de perder, sem a qual nada pode fazer-se, que devora tudo o que é pequeno e que revigora tudo o que é grande? [...]
Uns disseram que a chave do enigma era a fortuna, outros a terra, outros a luz. Zadig disse que era o tempo.
In Enigmas.
Voltaire, Zadig ou o Destino. Lisboa: Editorial Verbo, Livros RTP, ( tradução de João Gaspar Simões) 1972, p. 95-96.
Myra Landau [Parole], Rostos, olhares sobre Zadig
(intitulado por mim)
Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas.
Papa Francisco, "A Alegria do Evangelho, Exortação Apostólica Evagelii Gaudium". Prior Velho: Edições Paulinas, 2013, p. 157 [cap. IV - O diálogo Social como contribuição para a paz], p. 164.
Sandro Botticelli, Lamentação sobre o Cristo morto, 1490-1492, (detalhe Maria Madalena e o Cristo). Alemanha, Alte Pinakotheck, Munique. Daqui
A minha lista de livros aumenta, não tenho mãos a medir.
Neste momento ando a ler "O Último Segredo", um livro que me foi gentilmente oferecido. Estou a gostar, o mistério e o assunto do livro são caros para mim.
Tenho na pilha:
- "O Esplendor da Austeridade, Mil Anos de Empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal: Arte, Cultura e Solidariedade", um livro que já folheei com prazer mas que ainda não li com a atenção que merece. O livro é lindíssimo.
- "Dictionnaire du Ballet Moderne", já li algumas entradas, é para consulta. Há tanta coisa para aprender.
- "Sonetos do Obscuro Quê", de Manuel Alegre, um poema por dia. Um apreço por Itália é o que respira deste livro de Sonetos. Assinado pelo poeta o eco é imenso.
- "Papa Francisco A Alegoria do Evangelho, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium", o Papa é ainda um enigma para mim. A sua bondade e vontade de mudança causam-me surpresa, ainda vazia.
Esta lista de livros é recente [é com afecto que agradeço] tenho uma "residente" à espera de melhores dias.
Precisava de um retiro continuado na Quinta dos Visconde da Várzea
(Turismo Rural) para colocar as leituras em dia.
Um presente que me ofereceram para apreciar o tempo.