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03/07/2015

"Moral da história"

Myra Landau, Alucinação
 [Cavaleiro, intitulado por mim]
Poema do fecho "éclair"


Filipe II tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.


Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho éclair.*


Moral da história: tenho o fecho, falta-me o Filipe. (p. 168)

*António Gedeão, "Poesias completas".[Lisboa: Sá da Costa, 1996] in Rita Ferro, Só se Morre uma Vez, Diário 2. Lisboa: D. Quixote, 2015, pp. 166-168.


Para o povo grego, com quem simpatizo, dedico The Fairy Queen e  [o Cavaleiro] a Alucinação de Myra: 
para que a consciência de um povo com passado glorioso: triunfe. 
A coragem, a atitude e o desafio ao paradigma financeiro da Europa actual merecem o meu aplauso.


Nota: tenho-me como pessoa de boas contas.

28/06/2015

Leituras de Verão - Rita Ferro

No início, ao ler as duas primeiras páginas, não estava a gostar da crua verdade da vida, aceitar a ordem natural das coisas: nascer, crescer, envelhecer. Parecia-me que o livro era amargurado. Depois ao passar dois dias do início do Diário, apaziguei-me com a leitura. Talvez porque a vida acaba sempre por gritar.

«Estoril, terça-feira, 26 de Novembro de 2013
Um salto ao Príncipe Real para a vernissage do Carlos Pedro Barahona Possollo (...) As exposições são sempre emocionantes, com as telas muito grandes, de um realismo quase fotográfico, e as figuras, mormente inspiradas na mitologia grega ou romana, nos pecados capitais ou na herança egípcia, projectam-se em toda a sua nudez. Nem todos têm estômago para aquilo. [É verdade, algumas telas são difíceis, vi esta exposição]. Os genitais são portanto escalados a proporções ciclópicas, enquanto os rostos são perversamente comuns, como os das pessoas com quem nos cruzamos diariamente, o carteiro, a cabeleireira, o gerente da conta.
As telas são indecorosas, ofensivas para muitos, mas o talento é tamanho que amortece o escândalo. Para mim o que espanta é o contraste dos seus nus com a expressão angélica que Deus lhe deu. (...)
Ana Maria Caetano, filha do Professor Marcello Caetano, mulher culta e livre, tem um trabalho dele a toda a largura da sua sala de Belas, representando a arquetípica Inês, que provoca chiliques às visitas. Embora trajada com vestes de rainha, está nua da cintura para baixo, sentada, as pernas abertas, as mãos pousadas nos joelhos afastados, como se preparasse para introduzir um tampão.
É risonho e doce [(Kapê) Carlos Pedro Possollo], fala muitos decibéis abaixo da maioria das pessoas, e é daquela delicadeza sincera e humilde própria dos muito inteligentes, ou daqueles que já foram e voltaram em termos de Conhecimento e, no caminho, se aperceberam do que realmente conta num ser humano. Lembro o que alguém (1) escreveu e lhe assenta como uma luva:

Carácter é o modo como tratas as pessoas
que nada têm para te oferecer»

Rita Ferro, Só se Morre uma Vez, Diário 2. Lisboa: D. Quixote, 2015, pp. 17-18.
(1) Abigail von Buren [americana Pauline Phillips...]; sublinhado meu, pois gostei sobremaneira da citação.


Rita Ferro não se refere a esta Inês aqui apresentada. Contudo, resolvi colocá-la porque não encontro a que o trecho descreve. Para mim a nudez inteira não me choca. Se calhar a tela da colecção particular é mais impressionante. Tentei encontrá-la mas a minha procura foi infrutífera.

Carlos Barahona Possollo, Inês ou o Reino, 2004 
120 x 85 cm.
http://barahonapossollo.com/
Imagem daqui


15/01/2015

"o tamanho ilude"

A escala é real mas também é ilusão. Não precisamos de muito espaço se a nossa mente voar. Comecei a ler "Veneza pode Esperar, Diário I". Nunca estive em Veneza mas sei que ela pode esperar porque tenho em mim que lá irei. Estive "numa" Veneza ou melhor na "Roma" do Oriente: Goa, terra da cor, da seda e das fragrâncias. Rita Ferro levou-me ao quarto/ sala/ cozinha/ escritório onde vivi em Goa. A vida é a ilusão que dela criamos. 

Em especial para um amigo que vai mudar de casa.

Quarta-feira, 8 de Maio de 2013
23:00 h                                                                                                                       Goa, Sedas


Gosto muito desta casa, para onde me mudei há três meses. Sempre vivi em casas grandes, esta é a mais pequena, mas também é a primeira vez que vivo sozinha, universalmente sozinha. Casaram-se todos: o Miguel, a Marta, o Salvador. Em rigor não preciso de mais espaço. Uma sala, um escritório, um quarto - às vezes sinto-me num hotel, e a ideia diverte-me. A casa tem luz, as pinturas são novas, os armários lacados - gosto de estar aqui. A anterior era maior e o acesso à garagem mais cómodo, mas aprendi a tempo que o tamanho ilude e pode ser uma fraude no bem-estar das pessoas. A escala menor dá-nos outra calma, a ilusão de controlo é maior. (...)
Ainda vivo no Estoril. Como troquei o azul do mar pelo verde da folhagem, não me sinto desfalcada. De manhã, oiço o canto dos pássaros e, ao entardecer, os grandes silêncios do campo.

Rita Ferro, Veneza Pode Esperar, Diário 1,  Lisboa: Dom Quixote, 2014, p. 16-17.


Sadko, uma ópera para mim desconhecida.

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