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28/06/2015

Leituras de Verão - Rita Ferro

No início, ao ler as duas primeiras páginas, não estava a gostar da crua verdade da vida, aceitar a ordem natural das coisas: nascer, crescer, envelhecer. Parecia-me que o livro era amargurado. Depois ao passar dois dias do início do Diário, apaziguei-me com a leitura. Talvez porque a vida acaba sempre por gritar.

«Estoril, terça-feira, 26 de Novembro de 2013
Um salto ao Príncipe Real para a vernissage do Carlos Pedro Barahona Possollo (...) As exposições são sempre emocionantes, com as telas muito grandes, de um realismo quase fotográfico, e as figuras, mormente inspiradas na mitologia grega ou romana, nos pecados capitais ou na herança egípcia, projectam-se em toda a sua nudez. Nem todos têm estômago para aquilo. [É verdade, algumas telas são difíceis, vi esta exposição]. Os genitais são portanto escalados a proporções ciclópicas, enquanto os rostos são perversamente comuns, como os das pessoas com quem nos cruzamos diariamente, o carteiro, a cabeleireira, o gerente da conta.
As telas são indecorosas, ofensivas para muitos, mas o talento é tamanho que amortece o escândalo. Para mim o que espanta é o contraste dos seus nus com a expressão angélica que Deus lhe deu. (...)
Ana Maria Caetano, filha do Professor Marcello Caetano, mulher culta e livre, tem um trabalho dele a toda a largura da sua sala de Belas, representando a arquetípica Inês, que provoca chiliques às visitas. Embora trajada com vestes de rainha, está nua da cintura para baixo, sentada, as pernas abertas, as mãos pousadas nos joelhos afastados, como se preparasse para introduzir um tampão.
É risonho e doce [(Kapê) Carlos Pedro Possollo], fala muitos decibéis abaixo da maioria das pessoas, e é daquela delicadeza sincera e humilde própria dos muito inteligentes, ou daqueles que já foram e voltaram em termos de Conhecimento e, no caminho, se aperceberam do que realmente conta num ser humano. Lembro o que alguém (1) escreveu e lhe assenta como uma luva:

Carácter é o modo como tratas as pessoas
que nada têm para te oferecer»

Rita Ferro, Só se Morre uma Vez, Diário 2. Lisboa: D. Quixote, 2015, pp. 17-18.
(1) Abigail von Buren [americana Pauline Phillips...]; sublinhado meu, pois gostei sobremaneira da citação.


Rita Ferro não se refere a esta Inês aqui apresentada. Contudo, resolvi colocá-la porque não encontro a que o trecho descreve. Para mim a nudez inteira não me choca. Se calhar a tela da colecção particular é mais impressionante. Tentei encontrá-la mas a minha procura foi infrutífera.

Carlos Barahona Possollo, Inês ou o Reino, 2004 
120 x 85 cm.
http://barahonapossollo.com/
Imagem daqui


03/04/2015

porta fechada?

Porta fechada, porta abandonada

Viver

Mas era apenas isso,
era isso, mais nada?
Era só a batida
numa porta fechada?

E ninguém respondendo,
nenhum gesto de abrir:
era, sem fechadura,
uma chave perdida?

Isso, ou menos que isso
uma noção de porta,
o projecto de abri-la
sem haver outro lado?

O projecto de escuta
à procura de som?
O responder que oferta
o dom de uma recusa?

Como viver o mundo
em termos de esperança?
E que palavra é essa
que a vida não alcança?


Carlos Drummond de Andrade, in  As Impurezas do Branco (citador)

Homenagem a Manoel de Oliveira: A Divina Comédia, 1991, obteve o Grand Special Jury Prize no Festival de Veneza.




Porque é Sexta-feira Santa

07/01/2015

O poder dos livros...

Comecei a ler o livro: No Café da Juventude Perdida de Patrick Modiano. Dá vontade de encontrar um café assim...
Causa, no entanto, alguma nostalgia juntamente com o Inverno. Apetece dizer: Carpe Diem, pega na mochila e parte.
Janelas de Paris


O ano começa no mês de Outubro. É o início das aulas e julgo ser a estação dos projectos. Portanto, se Louki entrou no Condé pela primeira vez em Outubro, foi por ter rompido com uma parte da sua vida  e querer COMEÇAR DE NOVO, como se lê nos romances.

Patrick Modiano, No Café da Juventude Perdida. Lisboa: Asa, 2014 (2ª edição), p. 17.




Três vozes incontornáveis

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