As palavras não dizem nada... quando querem dizer tudo.
Buscava o amante a amada para preencher o vazio, resolver a insatisfação. O mesmo buscava a amada no amante. Fugiam de se verem ou tentavam ver-se um no outro?
Manuel Poppe, Novas Crónicas Italianas, Lisboa: Teorema, 1994 p.140.
O Fogo um dos elementos químicos estudados desde sempre, o fogo que aquece, solda, contribui para a evolução do Homem, também, destrói a Natureza, Casas, Vidas, destrói Memórias.
Uma simples reacção química faz desaparecer 200 anos e séculos de História guardados.
A História que para alguns é tão pouco valorizada, como se comprova nas notícias com a falta de preocupação pela segurança dos edifícios históricos, ou fiscalização sobre a mesma.
Eis, pois, que desaparece assim a cultura de dois povos, de um povo, de vários e múltiplos povos e identidades.
As Memórias, a Cultura, pouco importam no imediato. Só quando são irrecuperáveis é que se tornam valiosas.
O dinheiro é para investir de acordo com a "moda" do modelo económico em voga, experiências... interesses... investimento no imediato, no que lucra com horizonte definido.
O mesmo se passa com a Educação, a cultura Clássica está a morrer aos poucos, não interessa porque é difícil, não provoca efeitos estatísticos de acordo com o que se quer provar. Não arde com o fogo, arde com mudanças de secretaria.
Lamento não ter visitado este museu. Tinha-o na lista para uma futura viagem que ainda não se tinha proporcionado. Jamais o conhecerei.
Se nada estava digitalizado em lugar seguro, também não pode ser um dia enviado para o Universo, uma quimera que o Homem alimenta.
E de repente o resumo de tudo é uma chave. A chave de uma porta que não abre para o interior desabitado no solo que inexiste, mas a chave existe. Aperto-a duramente para ela sentir que estou sentindo sua força de chave. O ferro emerge de fazenda submersa. Que valem escrituras de transferência de domínio se tenho nas mãos a chave-fazenda com todos os seus bois e os seus cavalos e suas éguas e aguadas e abantesmas? Se tenho nas mãos barbudos proprietários oitocentistas de que ninguém fala mais, e se falasse era para dizer: os Antigos? (Sorrio pensando: somos os Modernos provisórios, a-históricos…) Os Antigos passeiam nos meus dedos. Eles são os meus dedos substitutos Ou os verdadeiros? Posso sentir o cheiro do suor dos guarda-mores, o perfume- Paris das fazendeiras no domingo de missa. Posso, não. Devo. Sou devedor do meu passado, cobrado pela chave. Que sentido tem a água represada no espaço onde as estacas do curral concentram o aboio do crepúsculo? Onde a casa vige? Quem dissolve o existido, eternamente existindo na chave? O menor grão de café derrama nesta chave o cafezal. A porta principal, esta é que abre sem fechadura e gesto. Abre para o imenso. Vai-me empurrando e revelando o que não sei de mim e está nos Outros. O serralheiro não sabia o ato de criação como é potente e na coisa criada se prolonga, ressoante. Escuto a voz da chave, canavial, uva espremida, berne de bezerro, esperança de chuva, flor de milho, o grilo, o sapo, a madrugada, a carta, a mudez desatada na linguagem que só a terra fala ao fino ouvido. E aperto, aperto-a, e de apertá-la, ela se entranha em mim. Corre nas veias. É dentro em nós que as coisas são, ferro em brasa – o ferro de uma chave.
Carlos Drummond de Andrade, O Corpo. ( Itabira, 1902 – Rio de Janeiro, 1987)
Não há hipócrita que saiba resistir ao exame de uma longa, de uma paciente observação, e o trabalho dissimulado de um ano perde-se na distracção de um minuto.
A model presents a body painting composition ''Time" by Belarusian designer Andrei Lagun during the Mammoth Fashion Festival in Minsk,
Picture: VIKTOR DRACHEV/AFP/Getty Images, in The Telegraph
O tempo
O tempo diz ao tempo
passa, passa, lentamente,
o tempo diz ao tempo
passa, passa, rapidamente.
O tempo diz ao tempo
que perda tudo isto,
passas na rua, sem olhar,
entras em casa sem enxergar.
Vagueias pelo caminho que abriu sem o conheceres;
desenham-se no horizonte auroras e poentes,
mas tu continuas a vaguear...
passa o tempo, passa o tempo,
sem fronteira, nem destino,
sem ritmo, nem desafio,
sem rumo, nem meta,
apenas vagueias sem pressa.
Diz o tempo para o tempo,
adormece e passa o tempo.
Diz o tempo para o tempo.
Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: "Navegar é preciso; viver não é preciso*."
Quero para mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em goza-la penso. Só quero torna-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. Só quero torna-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.»
Trecho retirado do livro que acabei de ler de Manuela Nogueira, O Meu Tio Fernando Pessoa. (Prefácio de Richard Zénith). V. Nova Famalicão: Centro Atlântico, Lda, 2015, p. 15-16.
*Nota de Soares Feitosa: "Navigare necesse; vivere non est necesse" - latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 aC., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu.
Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. (...) Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir…
Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim,1998, p. 193.
Um homem de paz faz mais bem que um homem muito erudito.
Thomas Kempis, A Vida Interior.[Livro II da Imitação de Cristo, cap. 1]
(Tradução da versão inglesa, Jorge Pinheiro).
Carcavelos: Coisas de Ler, 2005, p. 13
Será verdade?
Thomas Kempis foi monge (Agostinho) no mosteiro de Saint Agnetenberg,( Zwolle), de ascendência alemã, ligado ao misticismo. A sua obra mais importante foi A Imitação de Cristo.
Quero um cavalo de várias cores Quero um cavalo de várias cores, Quero-o depressa, que vou partir. Esperam-me prados com tantas flores, Que só cavalos de várias cores Podem servir. Quero uma sela feita de restos Dalguma nuvem que ande no céu. Quero-a evasiva - nimbos e cerros - Sobre os valados, sobre os aterros, Que o mundo é meu. Quero que as rédeas façam prodígios: Voa, cavalo, galopa mais, Trepa às camadas do céu sem fundo, Rumo àquele ponto, exterior ao mundo, Para onde tendem as catedrais. Deixem que eu parta, agora, já, Antes que murchem todas as flores. Tenho a loucura, sei o caminho, Mas como posso partir sozinho Sem um cavalo de várias cores?
Reinaldo Ferreira, Poemas, Estudo de José Régio, Prefácio de Guilherme de Melo. Lisboa: o chão da palavra/poesia
Alexander Aleksandrovich Deineka, Runners, 1934,
St.Petersburg. The Russian Museum
Os irmãos Domingos e Dionísio Castro, corredores do Sporting, treinados pelo professor Mário Moniz Pereira, contaram à SIC a sua história. Foi com comoção que narraram pertencer a uma família muito pobre (dormiam 5 irmãos numa cama). Após a escola, a partir dos 6 anos, iam trabalhar numa fábrica de betão. Quando ganharam os primeiros prémios juntaram dinheiro e fizeram uma casa para os pais. O acto de benignidade dos Castro evidencia-se ainda, por pagar os estudos aos irmãos mais novos. Uma história triste que acaba bem. A história tocou-me, foram verdadeiros campeões.
Um livro que chegou para acrescentar a lista. [Obrigada]. :))
O neopaganismo trouxe a sublimação da mulher.
A expressão espiritual feminina é glorificada pela forma, pela sua idealização. O platonismo amoroso transcende a grosseira materialização do instinto. Começa então para a mulher o reinado do espírito, da forma e da cor.
Natália Correia, Breve História da Mulher e outros escritos. Lisboa: Parceria A. M. Pereira Livraria Editora, 2003 (2ª edição), p. 88.