20/02/2016

carta de jogar, de naipe antigo...




Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido. Não tenho sentido, não sei do meu valor, não tenho a que me compare para que me encontre, não tenho a que sirva para que me conheça. (...) Volto em mim ao que sou, ainda que seja nada. E alguma coisa de lágrimas sem choro arde nos meus olhos hirtos, alguma coisa de angústia que não houve me empola asperamente a garganta seca. Mas aí, nem sei o que chorara, se houvesse chorado, nem por que foi que o não chorei. A ficção acompanha-me, como a minha sombra. E o que quero é dormir… 

 Bernardo Soares, Livro do Desassossego, Edição de Richard Zenith, Assírio & Alvim,1998, p. 193.


14 comentários:

  1. ~~~
    Um prazer recordar estas duas obras - a de Pessoa e a de Donizetti.

    A fotografia está belíssima na reprodução dos espaços e contrastes...
    ~ Parabéns, Ana.

    ~~~ Excelente fim de semana. Beijinhos. ~~~
    ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~

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    1. Obrigada, Majo.
      Peço desculpa por só hoje agradecer.
      Beijinho.:))

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  2. Um rio de nuvens corre
    entre o bosque e a montanha
    não é ficção "a minha sombra"
    cansada do frio que se entranha

    O "desassossego" de Fernando Pessoa, ou de Bernardo Soares, (uma alma num jogo de espelhos) motivou a escolha da fotografia ou foi ao contrário?
    Ela, a fotografia, delimita os diferentes planos da unidade. a nesga da paisagem. Um tenor e pêras!
    Bom domingo, Ana.

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    1. Agostinho,
      Um pouco a alma num jogo de espelhos associada à fotografia, montanhas que se sucedem como as cartas de um baralho, uma coloca-se atrás da outra.
      Obrigada e as minhas desculpas por só hoje agradecer.:))
      Boa semana!

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  3. Um rio de nuvens corre
    entre o bosque e a montanha
    não é ficção "a minha sombra"
    cansada do frio que se entranha

    O "desassossego" de Fernando Pessoa, ou de Bernardo Soares, (uma alma num jogo de espelhos) motivou a escolha da fotografia ou foi ao contrário?
    Ela, a fotografia, delimita os diferentes planos da unidade. a nesga da paisagem. Um tenor e pêras!
    Bom domingo, Ana.

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  4. Sinto-me um pouco assim como este heterónimo de Pessoa...e dói tanto...tal como o canto do tenor...
    A foto é sublime como é sempre a Natureza cheia de beleza e contrastes.
    Beijinho e bom domingo :)

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    1. Graça,
      Por vezes, com o cansaço, sentimos-nos mais assim.
      Obrigada e as minhas desculpas por só hoje agradecer.:))
      Beijinho e boa semana.:))

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  5. Mais um belíssimo post, ana.
    Já é um hábito.
    Beijinhos, boa semana

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    1. Obrigada, Pedro, e as minhas desculpas por só hoje agradecer.:))

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  6. Ana, Fernando Pessoa tinha um conhecimento tão real e tão exacto do que sentia e da sua pluralidade e passava tudo isso para o papel de maneira tão magistral, que até arrepia!
    Um beijinho e uma excelente semana.:))

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    1. Cláudia,
      É essa a essência sim. Concordo com a magistralidade que foca.
      Obrigada.
      Beijinhos:))

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  7. Este nosso Pessoa, que desassossego constante!
    "Sou uma espécie de carta de jogar, de naipe antigo e incógnito, restando única do baralho perdido..."
    Uma boa carta no entanto... "Una furtiva lagrima", todo o Elisir d'amore, é fantástico!
    Um beijo

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    1. Querida Maria João,
      Estou um pouco longe da internet. Obrigada pela visita. Tenho a necessidade de algum isolamento.
      Beijinho. :))

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