27/10/2018

na hora de pôr a mesa






na hora de pôr a mesa, éramos cinco

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.


José Luís Peixoto, A Criança em Ruínas, Vila Nova de Famalicão. Quasi, 2007.


19/10/2018

16/10/2018

Para a Maria João

Parabéns!
Desejo que passe um dia muito feliz e com muita luz, à beira-mar.

Para uma mulher vitoriosa - "Sê lanterna, sê luz...! :))


Vann Gogh- Detalhe de Noite estrelada, cortesia do google 
Resultado de imagem para van gogh




Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,

Sê lanterna, sê luz com vidro em torno,
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá ser frio
No inútil infinito


3-3-1929

Ricardo Reis, (Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte.) Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994, p.139.




De uma Maria João para outra Maria João - Fantasia de Chopin


13/10/2018

DÉJEUNER DU MATIN

Pequeno almoço de Sábado



DÉJEUNER DU MATIN

Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec le petit cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
Et il a resposé la tasse
Sans me parler
Il a alumé
Une cigarrette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis des cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s'est levé
Il a mis
Son chapeau sur la tête
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu'il pleuvait
Il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
E moi j'ai pris
Ma tête dans ma main
E j'ai pleuré.

Jacques Prévert ( https://trapichedosoutros.blogspot.com/2012/07/dejeuner-du-matin-cafe-da-manha-de.html)

Uma actriz que adoro, um filme que revivi.

07/10/2018

Os livros são um oceano, para uma amiga

Parabéns Cláudia,

Desejo que tenha passado um dia feliz!

Imagem retirada do pinterest
Ocean of knowledge


Mulher a ler - Imagem retirada do pinterest

The Master of the Female Half-Lengths, active ca.1530-1540, was a Dutch Northern Renaissance painter or likely a group of painters of a workshop. The name was given in the 19th century to identify the maker or makers of a body of work consisting of 67 paintings to which since 40 more have been added.

Tenho andado ainda longe da internet, isto é, só venho pontualmente aqui, o que é um acto egoísta. Porém, houve uma alma querida que me avivou a memória, através de uma sms que só li hoje. 
Daí só aparecer aqui a minha manifestação de amizade, um dia depois :((. Contudo, sabe que me lembro muitas vezes de si e do seu magnífico espaço que me vai alimentando. O oceano que corre e traz o oxigénio que preciso.

Por tudo, pela amizade, pelos livros, pela sua gentileza constante,
um beijinho de parabéns pintado a ouro renascentista, como a segunda imagem.
Mil felicidades e muitos dias 6 de Outubro!


06/10/2018

... a flor do cardo


A flor do cardo em pranto



VISITA

Adornou o meu quarto a flor do cardo,
Perfumei-o de almiscar recendente;
Vesti-me com a purpura fulgente,
Ensaiando meus cantos, como um bardo;

Ungi as mãos e a face com o nardo
Crescido nos jardins do Oriente,
A receber com pompa, dignamente,
Mysteriosa visita a quem aguardo.

Mas que filha de reis, que anjo ou que fada
Era essa que assim a mim descia,
Do meu casebre á humida pousada?...

Nem princezas, nem fadas. Era, flor,
Era a tua lembrança que batia
Ás portas de ouro e luz do meu amor!


Antero de Quental, in Sonetos (https://pt.wikisource.org/wiki/Visita)

In Memoriam -  uma ária que gosto muito de ouvir na belíssima voz de Monserrat Caballé

01/10/2018

No dia da música: A REVOLUÇÃO DAS FLORES

Jan Brueghel, o Velho, detalhe -
Still Life with a Cop, a Crown of Flowers and a bouquet,
(retirado do site assinalado na imagem: arte.sunlight.com)

Still Life with a Cop, a Crown of Flowers and a bouquet of F - Jan Brueghel the Elder


A REVOLUÇÃO DAS FLORES
Correspondendo a um apelo subterrâneo há vários dias que as dálias, as cinerárias, os gerânios e as hortências se recusam a florirem e os jasmineiros e as violetas a exalarem o seu aroma penetrante. De entre as rosas foram as vermelhas as primeiras a aderir. Comités de flores que se formaram espontaneamente em todos os jardins reivindicam o direito de florir em qualquer estação do ano, medidas eficazes contra as arbitrariedades das floristas, a extinção pura e simples das estufas. Uma nuvem de pó cobre a cidade. Em vão a polícia controla os portos e as fronteiras. A exportação de bolbos e sementes foi suspensa entretanto. Na Madeira o movimento foi desencadeado pelas estrelícias. Tulipas que viajavam de avião e se destinavam a abastecer o mercado londrino murcharam colectivamente. No Extremo Oriente, crisântemos negros invadem as ruas de cidades como Tóquio e Pequim. Apanhadas desprevenidas as borboletas, abelhas, vespas e outros insectos ensaiam agora perigosos voos sobre os transeuntes. Às dezasseis horas numa conferência de imprensa realizada no Jardim de S. Lázaro, um grupo não identificado de flores, mas entre as quais se podia reconhecer alguns amores-perfeitos, proclamou o estado de felicidade permanente nos jardins.

Jorge Sousa Braga, Lisbon Revisited, Dias de Poesia (Leitura na Casa de Fernando Pessoa 14 e 15 de Junho). Lisboa:  Casa Fernando Pessoa, 2018, p. 30


Uma das  músicas  do Feiticeiro de Oz

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