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09/09/2012

Mulheres - Irene Lisboa, Clarice Lispector e Ondina Braga

Charles Courtney Curran, Antes da Guerra, 1913


Por mão amiga recebi notícias de Irene Lisboa evocada por Luísa Dacosta e por Paula Morão. Obrigada Maria João do blogue "O Falcão de Jade".
Após a leitura das notícias, lembrei-me de duas mulheres mais novas, mas ainda assim contemporâneas, que se notabilizaram seguindo a mesma escrita intimista: Clarice Lispector (1920-1977) e Maria Ondina Braga (1932-2003).
Com estilos de vida diferentes, pertencendo a gerações diferentes, a vida destas três mulheres cruza-se através da palavra portuguesa: solidão.
Ter-se-ão conhecido?
Nada sei sobre uma possível ligação. O mais provável é nem se terem conhecido.
Todavia, em locais dispersos, com realidades peculiares, as três mulheres têm, a meu ver, algo em comum. O que me fez refletir que em cada canto do mundo, sem que as pessoas se apercebam, a fonte da vida é a mesma, as energias são iguais, os anseios são os mesmos, não importa a religião, o poder político ou o poder económico. Quero com isto dizer que as sombras são as mesmas, todos temos uma caverna e é dela que partimos para traçar os dias.

IRENE LISBOA 
Irene Lisboa , com 24 anos, fotografia retirada do
Quinzenário Literário:Educação Feminina, 1 de Abril, 1913, nº I
«...
Gostava de escrever com um fio de água.
um fio que nada traçasse
Fino e sem cor, medroso...»
Irene Lisboa

[Irene Lisboa]
Morreste em Novembro de 1958 e para mim tinhas nascido tão tarde! Só em 1956 - Lembras-te? Foi António Sérgio que nos apresentou, num concerto. (...) A natureza foi o teu espelho e exaltação. criaste-lhe uma alma, sentias a água a chorar, e o impossível corporizava-se, sob os teus olhos, na rapariga de pedra.

Luísa Dacosta, "Um Perfil e Uma Obra. Irene Lisboa in Vida mundial. Lisboa. Nº 1636 (16 Out. 1970), p. 41-52.

Segundo Paula Morão, Irene Lisboa no livro, o pouco e o muito, descreve a chuva violenta que cai lá fora ordenada em três linhas de fuga: o tema do isolamento (corolário da solidão); a metáfora da linguagem e a auto-análise, «eu que faço?», «eu que escrevo o quê?» e em «eu quem sou?».
Paula Mourão interliga a escritora com o intersecionismo modernista, nomeadamente, com Álvaro de Campos de "Tabacaria" pelo recurso comparativo e pelo tema da solidão; e no tema da chuva aproxima-a à "Chuva Oblíqua" ou de "Chove?" de Fernando Pessoa.; perfila-a na sombra de Cesário Verde de "Contrariedades"; e ainda, enquadra-a na escrita de Camilo Pessanha. Concluiu que era "interessante notar como em todos os casos se trata de poetas que estiveram à frente do seu tempo, suscitando problemas de avaliação crítica e de reconhecimento, como veio acontecer com Irene Lisboa".

Paula Morão, "Notas sobre o estilo de Irene Lisboa", Irene Lisboa: 1892-1958 [catálogo], pp.31-38, Lisboa: Biblioteca Nacional, 1992 .

CLARICE LISPECTOR

Carlos Scliarp (1920-2001), Retrato de Clarice Lispector, 1972. Daqui



Apenas isso: chove e estou vendo a chuva. Que simplicidade. Nunca pensei que o mundo e eu chegássemos a esse ponto de trigo. A chuva cai não porque está precisando de mim, e eu olho a chuva não porque preciso dela. Mas nós estamos tão juntas como a água da chuva está ligada à chuva.
Clarice Lispector

ONDINA BRAGA
Maria Ondina Braga, Cortesia do Google
Chovia a potes. Muito pretendido, àquela hora, muito requisitado, o condutor: tlim-tlim! Grosseiro, o condutor? Dava-se-lhe um desconto. Pang-yau de manhã à noite a pedalar de costas curvadas, que ganhava o pobre que lhe sobrasse para cortesia? Elas pelo menos assim o entenderam, pulando uma atrás da outra para dentro do coche, rápidas, encharcadas, a abrigar-se, a enxugar o rosto molhado. Para onde quer ir?, perguntou então a professora da Escola Chinesa. Ora, para onde quero ir!... Num domingo de chuva em Macau tudo quanto se podia desejar era um sam-lun-ché, não era? Riram, radiantes, e não só por terem conseguido transporte como pelo encontro, pela convivência. Abotoavam as bandas do oleado que as cobria da cabeça aos pés. Diga-lhe que nos leve sem destino, queremos é matar o tempo!, propôs Ester. Sem destino? Xiao franzia o sobrolho. Não. Isso sem destino o homem não compreendia.

Maria Ondina Braga, Nocturno em Macau. Lisboa:Editorial Caminho, 1991.

O vídeo clip é surreal e a meu ver comunga com a solidão, o fio condutor desta postagem

 

12/07/2011

"... que faremos nós de ti e tu de nós? "- Irene Lisboa

Amadeo Modigliani nasceu a 12 de Julho de 1884, em Livorno, Itália. Os retratos de mulheres são, na sua paleta, de uma cor e beleza muito próprias. O traço é inconfundível. Podemos dizer que ele é igual a si mesmo! Esta é a ideia que me ficam das suas telas e a minha forma de o homenagear.


Amadeo Modigliani, Nú Sentado, 1916






Óleo sobre tela, 92.4 x 59.8 cm. Courtauld Institute Galleries, London, UK.




AMOR

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
Defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando,
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
Poderosa e plácida.

Amor tão cheio de Amor,
Que sensível és…
Sensível e violento, apaixonado.
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e se enfurece
e logo recai na branda impotência.

Canseira eterna!
Ou desespero, ou medo.
Fuga doida à posse, à dádiva.
Tanto bater de asas frementes
tanto grito e pena perdida…
E as tréguas, amor cobarde?
Cada vez mais longe,
mais longe e apetecidas.
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti
e tu de nós?

Irene Lisboa

24/03/2010

Histórias... Irene Lisboa!


Fauno. No jardim do lado há um fauno. Há bocado estive encostada à janela e achava que copiava a cómoda atitude do fauno: ombro apoiado, uma perna descansada na outra…Pois aquele fauno tem uma história muito curta. Apesar do seu ar de vetustez enganar, de aparentar idade naquele poiso… Não deixa de ser elemento deste jardim, há apenas um ano! Vi colocarem-no lá, com a sua primitiva e honesta cor de barro. Depois é que o pintaram de branco.
A sua história, afinal, é o ser de barro e parecer de mármore e de ser recente e parecer antigo. Uma história sem entrecho.

Irene Lisboa, Solidão, notas no punho de uma mulher, Lisboa: Editorial Presença, Vol II, p. 59-60.

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