Talvez porque estou assoberbada de trabalho e confinada a este isolamento obrigatório, não tenho muitas palavras para lhe dizer, a não ser que nunca me vou esquecer dos olhos de alguns miúdos interessados na sua história de vida. E que vida!
A Europa no século XVI, vista por um judeu provavelmente nascido em Portugal, descendente de judeus espanhóis. Samuel Usque passou a sua vida entre o ensino e o estudo, "e deve ter sido rabino"(p.25)*. Morreu em Ferrara.
O tempo avança mas nada muda... ou muda muito ligeiramente. Intolerância, poder, riqueza, economia-mundo, guerras...
Pois, Europa, Europa, (meu inferno na terra), que direi de ti, se de meus membros tens feito a mor parte de teus triunfos? De que te louvarei, viciosa e guerreira Itália? Em ti os famintos liões se cevarom, espedaçando as carnes de meus cordeiros. Viçosos prados franceses, peçonhentas ervas pascerom em vós minhas ovelhas. Soberba áspera e montanhosa Alemanha, em pedaços cairom do cume de teus fragosos Alpes minhas cabras. Ingresas [Inglesas], doces e frias águas, amargas e salobras beberagens bebeu de vós meu gado. Hipócrita, cruel e loba Espanha, rabazes [rapazes] e encarniçados lobos tragarom e inda tragam em ti meu veloso rabanho.
Samuel Usque, in Dial. I, I-II , do livro Consolaçam, as Atribulaçoens de Israel...
*Prosadores Religiosos do século XVI, Samuel Usque, Fr. Heitor Pinto, Fr, Amador Arrais, Fr. Tomé de Jesus. (Selecção, prefácios e notas de Alcides Soares e Fernando Campos) Coimbra: Casa do Castelo, 1950, p. 44.
Este livro veio da livraria Lumière ainda situada na Travessa da Cedofeita.
Prefácio dos Contos Exemplares, de Sophia um texto maravilhoso de D. António Ferreira Gomes, intitulado: Pórtico.
"Que o grande pecado da cultura moderna - pecado, em verdade, não original mas herdado de toda a cultura anterior, sobretudo da cultura medieval decadente - o grande pecado cultural tem sido «usar o santo nome de Deus em vão»
(assim dizia a Cartilha, mais infelizmente esquecida ou não advertida neste ponto do que em tantos outros). Deus, fundamento de toda a Lógica ou de todo o Método para um Descartes, Deus, fundamento de toda a Ética para um Spinoza, Deus, fundamento de toda a Retórica para os pregadores e literatos barrocos, Deus fundamento de toda a política para um Cromwell, o primeiro dos ditadores modernos, isto é, de Estado totalitário (por Deus ou Contra Deus:«tanto monta, monta tanto!»), Deus enfim fundamento de tudo quanto o homem se lembra de construir a seu bel-prazer. E para mais, um deus claro e distinto, um deus mais evidente do que este pau ou esta pedra, um deus unívoco com as nossas ideias racionais e racionalistas - Verum sive intelectus, Deus sive natura, para Spinoza e para os spinozistas, que todos somos um pouco (mesmo os tomistas, quando dormitam) para quem «o primeiro artigo de fé é um racionalismo que postula inteligibilidade de Deus e das coisas» (J. Lacroix).
E por acréscimo um deus sem Mistério nem mistérios, um deus mais claro e visível do que o sol meridiano - como se o sol ao meio-dia nos fosse visível!... Hoje, talvez em linguagem mais culta, saborosa e rápida: Deus valor supremo e fonte de todos os valores! Esse novo equívoco que já Nietzsche denunciava e do qual diz Heidegger com toda a razão: « O último golpe contra Deus e contra o mundo suprassensível consiste em que Deus, o existente de todo o existente, seja rebaixado à condição de valor supremo. Não porque se tenha Deus por incognoscível, não porque se demonstre que a existência de Deus é indemonstrável, se assesta o golpe mais duro em Deus, mas sim por elevar meramente a valor supremo o Deus tido por real. E, com efeito, esse golpe não vem dos profanos que não creem em Deus, mas dos crentes e dos seus teólogos»...
Usar o santo nome de Deus em vão e caminhar-sem-Deus na vida tranquilamente não parece ser facto de hoje; ao menos não terá hoje boa imprensa... existencialista. Sobretudo na Filosofia e na Poesia, que tantas vezes se disputam, ou entre si comutam o terreno ontológico, uma como análise, outra como criação. É bem certo que há, nesses domínios, quem continue a malbaratar o nome de Deus, apondo essa etiqueta, como os primeiros cristãos exprobravam ao paganismo, a tudo quanto se lhes antolhe, menos ao único Deus vivo e verdadeiro; não é hoje porém fenómeno próprio dos mais nem dos melhores. Sobretudo não dos mais autenticamente religiosos. Não andaria muito longe de certa verdade Fernando Pessoa quando notava que, entre nós, os poetas religiosos não eram católicos e os poetas católicos não eram religiosos."
D. António Ferreira Gomes, Pórtico in "Contos Exemplares" de Sophia de Mello Breiner Andresen. Porto: Porto Editora, 2013 (36ª ed), p. 13 a 15 (1ª edição em 1962)
Li num ápice a peça que Manuel Poppe escreveu sobre o amor de Mariana Alcoforado e o Marquês de Chamilly. Um presente magnífico que me levou a procurar Soror Mariana Alcoforado.
Henri Matisse, litografia da quinta carta de Mariana Alcoforado
Henri Matisse, litografia da segunda carta de Mariana Alcoforado
Paris, Versalles, 1668
De noite. Uma sala e, ao meio, uma grande mesa, papéis, jóias, medalhões, espalhados em cima da mesa, um candelabro de prata, com velas acesas, um cadeirão senhorial, de espaldar alto, com as armas de família. A parede de fundo deverá ser exageradamente alta e de um branco frio. Uma janela rasgada, que dá para o horizonte e prolonga a sala no exterior. Uma luz ao fundo da paisagem, acende, às vezes, as vezes que o encenador entender apropriadas mostrará a figura de Mariana Alcoforado.
p. 7
[Assim, se revela a cena que desvendará o amor de Mariana e de Noel Bouton, conde de Saint-Léger, futuro Marquês de Chamilly]
Mariana, irónica - Quando me deixavas, lembras-te?, dizias que já ias com saudades minhas... que eu te limpara a alma do lixo que trazias...do lixo da corte, de Versalhes..., e que a corte era um mundo de hipocrisia e que só aqui...
Noel, despeitado, furioso, como se a interrompesse - Pelintra! Aí na tua terra, em Beja, nesse país desgraçado, o que é que há?! O sol mata! O frio gela! À noite, na janela de Mértola, a que me chamavas...
p.13.
Manuel Poppe, Mariana e o Outro História do amor de uma freira portuguesa. Edição de Autor, 2013. Edição fora do mercado, assinado pelo autor e numerada de 1 a 40.
Exemplar nº 33.
Obrigada, Manuel Poppe. Disse-me muito este presente e, talvez, por acaso, ou não, o nº que me calhou é o 33 o que simbolicamente me aqueceu o coração. Pois, 33 é o número que está intrinsecamente ligado à vida de Cristo.
Em louvor do robot Philae: Debaxo deste grande Firmamento, Vês o céu de Saturno, Deus antigo; Júpiter logo faz o movimento, E Marte abaxo, bélico inimigo; O claro Olho do céu, no quarto assento, E Vénus, que os amores traz consigo; Mercúrio, de eloquência soberana; Com três rostos, debaxo vai Diana. Os Lusíadas, Canto X, 89
A rosa dos ventos posicionou-me no centro. De Castelo Branco o vento trouxe-me uma história da lavra da Isabel do Palavras Daqui e Dali.
Obrigada, Isabel.
Jean Edouard Vuillard, Jeanne Lanvin, c. 1933
"Blogues e amizades em
diálogos
aprazíveis!
Ao longo da vida vamos mudando e connosco muda o nosso
pequeno mundo (ou vice-versa). Mas mudamos!
Mudamos de sonhos,
de amigos,
às vezes de
profissão,
de casa,
de cidade e até de país…
Não mudei tudo isso, porque mantive alguns sonhos (outros
não),
a profissão…
mudei de casa, mas
não mudei de cidade.
Passaram por mim muitas pessoas: alunos, pais de alunos,
colegas de profissão, funcionários das escolas onde trabalhei…tanta gente, que
seria impossível lembrar-me de todos.
Alguns (poucos) tornaram-se amigos. Amigos de longa data…
…ou menos,
mas amigos para
sempre.
Um dia, há poucos anos descobri os blogues e com eles também
fui mudando.
Cheguei ontem à noite a Lisboa, depois de nove dias passados em Espanha. Segundo o meu hábito, vivi tão totalmente a paisagem, a língua e a cultura do país em que estive, que me sinto um estranho no regresso. Tenho de fazer novamente um esforço para reencontrar o eu Portugal.
Mircea Eliade, Diário Português [1941-1945]. Lisboa: Guerra e Paz Editores, 2008, p. 83.
Visto e revisto [5 vezes] Os Despojos do Dia é um filme de James Ivory (1993) com Anthony Hopkins e Emma Thompson nos principais papéis. A beleza da paisagem associa-se à beleza das palavras e à sensibilidade dos sentimentos escondidos. Julgo que já foi focado no blog mas a fuga no seio da beleza nunca peca por ser repetida.
A beleza torna-se imperativa quando vivemos num mundo de desigualdades.
Do áureo albergue com a aurora à entrada
o sol tão lesto em seus raios cingido
vinha, e diríeis:«Vénia adiantada»
Estrofe 3 do Triunfo do Tempo (Petrarca)
Vasco Graça Moura Os Triunfos de Petrarca. Lisboa: Bertrand, 2004, p.193.
Dyrham Park, Chippenham, near Bath, Somerset
The English landscape at its finest - such as I saw this morning - possesses a quality that the landscapes of other nations, however more superficially dramatic, inevitably fail to possess. It is, I believe, a quality that will mark out the English landscape to any objective observer as the most deeply satisfying in the world, and this quality is probably best summed up by the term 'greatness.' ... And yet what precisely is this greatness? … I would say that it is the very lack of obvious drama or spectacle that sets the beauty of our land apart. What is pertinent is the calmness of that beauty, its sense of restraint. It is as though the land knows of its own beauty, of its own greatness, and feels no need to shout it.
Stevens, in The remains of the day. (link) [argumento baseado no romance de Kazuo Ishiguro].
Uma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o diálogo com os crentes das religiões não-cristãs, apesar dos vários obstáculos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este diálogo inter-religioso é uma condição necessária para a paz no mundo e, por conseguinte, é um dever para os cristãos e também para outras comunidades religiosas.
Papa Francisco, "A Alegria do Evangelho, Exortação Apostólica Evagelii Gaudium". Prior Velho: Edições Paulinas, 2013, p. 157 [cap. IV - O diálogo Social como contribuição para a paz], p. 164.
Sandro Botticelli, Lamentação sobre o Cristo morto, 1490-1492, (detalhe Maria Madalena e o Cristo). Alemanha, Alte Pinakotheck, Munique. Daqui
Vidas partidas... laços desfeitos... uma visita em memória...
«(...) Eu visitei Auschwitz-Birkenau em Novembro passado. Um vento frio soprava naquele dia, o chão sob os meus pés era rochoso. Mas eu tinha um sobretudo e sapatos resistentes; os meus pensamentos foram para aqueles que não tinham nem uma coisa, nem outra: os judeus e outros prisioneiros que outrora povoaram o campo. Eu pensei naqueles prisioneiros a passar horas em pé, nus, num clima gelado, arrancados às suas famílias, os seus cabelos rapados enquanto os preparavam para as câmaras de gás. Pensei naqueles que foram mantidos vivos apenas para trabalhar até a morte. Acima de tudo, reflecti sobre quão insondável o Holocausto permanece até hoje. A crueldade foi tão profunda, a escala tão grande, a visão de mundo nazi tão deformada e extrema, a mortandade conduzida de uma forma tão organizada e calculada. (...)
Marian Turski, um judeu polaco que sobreviveu a Auschwitz e é hoje o vice-presidente do Comité Internacional de Auschwitz, guiou-me através do infame portão com o lema "Arbeit Macht Frei" (O trabalho liberta) – desta vez em liberdade. O Rabino Yisrael Meir Lau, um sobrevivente de Buchenwald e agora o rabino-chefe de Telavive, esteve ao meu lado na rampa onde os comboios de transporte descarregavam a sua carga humana, e contou o momento traumático quando o rápido movimento do dedo indicador de um comandante das SS significava a diferença entre a vida e a morte. Sinto pesar por aqueles que morreram nos campos, e estou impressionado com aqueles que viveram – que carregam memórias tristes, mas também mostraram a força do espírito humano. (...)
Ao longo de quase uma década, o Programa de Informação “Nações Unidas e o Holocausto” tem vindo a trabalhar com professores e alunos de todos os continentes para promover a tolerância e os valores universais. O mais recente pacote educacional do programa, produzido em parceria com o Museu Memorial do Holocausto nos Estados Unidos, vai ajudar a introduzir estudos sobre o Holocausto nas salas de aula de países como o Brasil, a Nigéria, a Rússia e o Japão. Na cerimónia de comemoração deste ano na sede da ONU, o orador principal será Steven Spielberg, cujo Instituto Shoah para a História Visual e a Educação foi um marco na preservação dos testemunhos de sobreviventes.»
Secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, no Público, 26-01-2014, link.
Anne Frank é mais um registo das vítimas do holocausto. Casa de Anne Frank (fotografia minha), Amesterdão
O encantamento dos livros iluminados levou-me à exposição Livros de Horas: o imagnário da devoção privada, patente na Biblioteca Nacional de Portugal. Uma sugestão que aqui deixo e que poderá visitar até ao dia 16 de Fevereiro.
Livro de Horas: Virgem do Leite
Os Livros de Horas são livros de devoção cristã para leigos com orações indicadas para diferentes momentos do dia. Estes livros foram criados para facilitar a comunhão com Deus e os santos sem a intervenção direta do clero (devoção privada). Contêm uma coleção de textos, orações e salmos, acompanhado de ilustrações apropriadas. Junto com as seleções dos salmos, eles normalmente incluem um calendário de grandes festas e dias santos, seleções dos Evangelhos e orações para os mortos. Deste modo, o Livro de Horas servia como conteúdo de leitura litúrgica para determinados horários do dia. Encontram-se entre os manuscritos medievais mais belos e ricamente ilustrados. Enquanto alguns famosos são bastante grandes, a maioria é relativamente pequena para permitir que o proprietário os transportasse facilmente.
O imaginário dos Livros de Horas combina imagens sagradas,
com evocações do quotidiano medieval e do mundo natural.
Flores, frutos e animais reais e imaginários ocupam as iniciais
ou deslizam pelas margens em explosões de cor e criatividade.
Como um espelho, o Livro de Horas é um reflexo do seu encomendador
e uma extraordinária fonte de conhecimento e arte.
Autor Frei Carlos, Oficina do Espinheiro, 1518 a 1525 *
Reprodução do MNAA. Pintura a óleo e tempera sobre madeira de carvalho, 30 x 22 cm. Proveniência Mosteiro do Espinheiro (Évora). Mosteiro de Santa Maria de Belém (Lisboa).
Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuído pela etc.
Com capa e desenho de Mário Botas, 1985, p. 6
Manuel Cintra é «poeta, tradutor, jornalista, actor, Manuel Cintra tem vindo a dedicar-se à encenação de espectáculos teatrais desde 1984, ano em que se dirige em o "Diário de um Louco" a partir de Gogol. Além de textos próprios, Manuel Cintra encenou textos de Lagervist, Cendrars, Cocteau, Satie, Novarina, Rimbaud e Wesker. A sua mais recente interpretação ocorreu em 1998 na peça «Marsal, Marsal» de José Sinisterra, no Teatro Taborda, com encenação de Amadeu Neves.» daqui
Félix Nussbaum nasceu em Osnabrück em 1904 e morreu em Auschwitz em 1944.
Ao Manuel Poppe agradeço a ternura com que o ouvi falar para um conjunto de jovens.
"...a fazer o que nunca fizera: a coleccionar pintura e antiguidades. De início, porque abriu uma pequena loja em Verona, da qual se ocupava a mulher do filho mais velho, Rosalinda, estudante de Belas-Artes, e dessa maneira ajudava o marido, Gustavo o menos ambicioso. "Um sonhador...", desculpava-o Glória ... E explicava: " Era o meu velho sonho! O Roberto é que nunca me deixou gastar dinheiro em coisas destas... Só havia dinheiro para o que ele queria... A arte não era o seu género, como sabes...".
Manuel Poppe, página 39 do livro identificado.
Histórias de Mulheres de Maria João Falcão são contos que narram o que o título sugere: histórias de mulheres que partilham afectos, vivências e amizade.
"Em Telavive, tudo é muito rápido. O efémero ronda por ali e a efemeridade das coisas, dos lugares e das pessoas sente-se mais. E também os cafés abrem e fecham, mudam, renovam-se enquanto as pessoas vão e vêm.
Ao contrário de Jerusalém, que tem o peso de várias culturas e religiões, o ritmo é outro, lento, e, por vezes meditativo."
Maria João Falcão, Histórias de Mulheres (s/nº página)
Ao Manuel e à Maria João,
Grata pela partilha sobre Israel, mais propriamente Telavive, pois preencheram as muitas lacunas que tenho sobre aquela cultura.
Como Diógenes a Alexandre, só pedi à vida que me não tirasse o sol. Tive desejos, mas foi-me negada a razão de tê-los. O que achei mais valeria tê-lo realmente achado. O sonho (...)
s.d.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Lisboa: Ática, 1982. vol- I, p 196. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.)
Em especial para a Sandra do blog Presépio Com Vista para o Canal. :)