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07/08/2013

Manuel Cintra - "Arrancas-me aos olhos"

Para GL, do blogue Olhares que se querem lúcidos, recuperar do cansaço.

Anyon Dieffenbach, Window in Sunlight, 1856, link


Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuído pela etc.
Com capa e desenho de Mário Botas, 1985, p. 6

Manuel Cintra é «poeta, tradutor, jornalista, actor, Manuel Cintra tem vindo a dedicar-se à encenação de espectáculos teatrais desde 1984, ano em que se dirige em o "Diário de um Louco" a partir de Gogol. Além de textos próprios, Manuel Cintra encenou textos de Lagervist, Cendrars, Cocteau, Satie, Novarina, Rimbaud e Wesker. A sua mais recente interpretação ocorreu em 1998 na peça «Marsal, Marsal» de José Sinisterra, no Teatro Taborda, com encenação de Amadeu Neves.» daqui
Acrescentado às 17:46 horas.

05/08/2013

Leituras de Verão - Manuel Cintra

Nas férias, junto ao mar, os dias são maravilhosamente mais lentos...
Na praia... contemplando o mar e concentrando-me nas letras, palavras, poesia de escrita portuguesa. 

Em terra, longe do mar, após tarefas quotidianas: limpezas e afins, a lembrança de como a poesia nos pode deslumbrar.

Desenho de Mário Botas para o livro de poesia de Manuel Cintra, Dentada de Pássaro.



CAI-ME com estrondo na pele a solidão dos astros.
Estrondo completo, inteiro, sem entrelinhas.

Fico de corpo rebentado, recebendo o silêncio após colocar
pés sobre minas de guerra, minas de vida, esquecidas
por estes caminhos cerzidos no caminho abrupto do céu.
estão todas as veias escancaradas, feitas nascentes, e borbota
o sangue dirigindo-se em jorro ao traço que o céu
come na terra. Onde me encontro com o vazio redondo,
cheio de lágrimas, vento e mim.

Neste peito lento és uma gruta quente, perfurando-me do
coração ao sexo em marés regulares. Reconheço-te na
palma antiga da mesma mão, a tua agora atirada em fantasma
para esta praia de tempo onde vim saudar grãos,
um por um. Bebo, como um adolescente, o ar agonizante
do verão, carregando-me o peito de outono e de carne.

E espalmo-te com minúcia no rebordo dos meus lábios.
De todos os meus lábios.

Até me tornar boca.

Manuel Cintra, Dentada de Pássaro. Lisboa: edição do autor, distribuição etc, com vinheta da capa e "hors-texte" de Mário Botas (700 exemplares), p. 5.

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