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24/04/2020

Para um amigo

Parabéns Manuel Poppe!
Desejo que passe um dia muito feliz, apesar deste confinamento.

Um postal de Veneza, a sua Veneza
Sem turistas, águas nos canais de Veneza voltam a ser cristalinas ...

Talvez porque estou assoberbada de trabalho e confinada a este isolamento obrigatório, não tenho muitas palavras para lhe dizer, a não ser que nunca me vou esquecer dos olhos de alguns miúdos interessados na sua história de vida. E que vida!
Um brinde à vida!


Cortesia do youtube

24/04/2018

Balada para um amigo

Para o Manuel Poppe, com o desejo que este dia seja um dia muito claro e feliz.

Parabéns!

Uma janela aberta, embore ande escondida.


Traz Outro Amigo Também

Amigo

Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também


24/04/2016

Parabéns Manuel Poppe!

Parabéns Manuel, um dia muito feliz!



A citação do Manuel acompanha-me todos os dias, apesar disso ainda não a apreendi.
É duma lucidez cortante. Obrigada, Manuel.

Acredita, ainda que digas que não: nós nunca aceitamos os outros, como eles são na realidade. Muitas vezes (para não dizer a maior parte das vezes) os outros são, para nós, aquilo que nós imaginamos que eles são e, às vezes, obrigamo-los mesmo a sê-lo. Tu pões-te a inventar-me e eu ponho-me a inventar-te: já viste o perigo que isso é?

Manuel Poppe, O Pássaro de Vidro, Lisboa: Caminho, 2007



24/04/2015

Diálogo com Manuel Poppe no seu aniversário


 António Roberto Caetano Santos, Veneza ao entardecer














Pede-me a amiga Ana que lhe diga se acho que Veneza é decadente. Ou triste.

Não posso achar Veneza nem decadente nem triste.
É uma cidade que conheço como nenhuma, que amo especialmente.

Em nenhum outro lugar vivi tão intensamente.

Num certo plano do meu ser, do meu espírito, alma. Sim, num certo recanto de mim próprio.
A minha primeira viagem a Veneza data de Setembro de 1973, durou uma semana e, de Veneza, ficou-me a Piazza de San Marco, o Rialto e... o Café Florian, onde passei horas a escrever o que me ia dentro –o meu sobressalto, a minha emoção.
Nunca imaginei que voltaria a Itália um ano depois e que por lá ficaria quinze anos. E que tantos dias, meses, anos, iria andar por Veneza.

Pio Semeghini, Burano - Mazzorbo, 1947*1
Nem o que o destino me reservava: encontros extraordinários dos quais deixo, mais ou menos veladamente, testemunho em O Pássaro de Vidro, Os Amantes Voluntários, A Mulher Nua e nos dois volumes de Crónicas Italianas.

Deu-me o destino um amigo como Aldo Zari, que me revelou a face mais escondida de Veneza, a tal venezia povera, as osterie, a gente à qual o turista não tem acesso, porque o veneziano é reservado e está farto de turistas até à ponta dos cabelos.
E facultou-me as pistas que eu segui sozinho.
Veneza é uma cidade viva. Em Veneza, quando o incauto a julga a dormir, acontecem histórias das mil e uma noites.
Umberto Moggioli Sera a Mazzorbo 1913 *2
Na outra Veneza.
E, aí, há o que há em todos os sítios vivos: alegrias, melancolias, tristezas, paixões e ódios.
Juntaria a Aldo Zari, Luciana Piai, Patrizia Bonato, Mirella, Giorgio Trentin, Veludo...
Juntaria as meninas que almoçaram comigo no Harry’s Bar, Paola e Monica, e que levaram um americano a virar-se para mim e a perguntar-me, sinceramente entusiasmado:
-“Onde foi desencantar essas duas figuras de Renoir?!”
Muito simples: no mundo maravilhosa de Veneza.                      Gino Rosso, Canale con vela  a Burano *3
Na fantástica laguna, onde, mais que a clássica ilha de Torcello, se destaca Burano das casas coloridas.
Os pintores de Burano!
Moggioli, Gino Rosso, Pio Semeghini, Luigi Scopinich... alguns nomes aqui ficam, para quem quiser saber deles.
Pintores da alegria! Tal qual Aldo Zari o é, quase sempre...

Veneza é um estado de alma.
Criador.



Luigi Scopinich, Natiura morta con vaso di margherite *4


A decadência existirá nos incapazes de reinventar o milagre veneziano.
Os mesmos que dirão –pobrezinhos!-: “Cheira mal”.
Quando saí de Itália, trazia comigo, a roer-me, a sangrar-me, a destruir-me... e a amparar-me, a música de Alessandro Marcello (ou de Benedetto Marcello), Anónimo Veneziano.
Aqui a deixo.

Acompanhou-me e há-de acompanhar por onde quer que eu ande.

Manuel Poppe daqui

Ao Manuel, parabéns. Muito obrigada pela viagem a Veneza e por me ter dado a conhecer estes pintores.

*1 link ; *2 link; *3link; *4 link

Papoilas amarelas - luz. :))


Pintura do vídeo de Pompeo Batoni, O Triunfo de Veneza, 1737. (Cortesia do youtube)

24/02/2015

Mariana e o Outro..., Manuel Poppe

Li num ápice a peça que Manuel Poppe escreveu sobre o amor de Mariana Alcoforado e o Marquês de Chamilly. Um presente magnífico que me levou a procurar Soror Mariana Alcoforado.
Henri Matisse, litografia da quinta carta de Mariana Alcoforado
A janela do Convento (franciscano) de Nossa Senhora da Conceição
de Beja, na capa do livro.
                     

Frontispício da 1ª edição das cartas portuguesas, 1669,
Daqui                                                                                                               Museu Regional de Beja 
Henri Matisse, litografia da segunda carta de Mariana Alcoforado
           


Paris, Versalles, 1668
De noite. Uma sala e, ao meio, uma grande mesa, papéis, jóias, medalhões, espalhados em cima da mesa, um candelabro de prata, com velas acesas, um cadeirão senhorial, de espaldar alto, com as armas de família. A parede de fundo deverá ser exageradamente alta e de um branco frio. Uma janela rasgada, que dá para o horizonte e prolonga a sala no exterior. Uma luz ao fundo da paisagem, acende, às vezes, as vezes que o encenador entender apropriadas mostrará a figura de Mariana Alcoforado.
p. 7
[Assim, se revela a cena que desvendará o amor de Mariana e de Noel Bouton, conde de Saint-Léger, futuro Marquês de Chamilly]

Mariana, irónica - Quando me deixavas, lembras-te?, dizias que já ias com saudades minhas... que eu te limpara a alma do lixo que trazias...do lixo da corte, de Versalhes..., e que a corte era um mundo de hipocrisia e que só aqui...

Noel, despeitado, furioso, como se a interrompesse - Pelintra! Aí na tua terra, em Beja, nesse país desgraçado, o que é que há?! O sol mata! O frio gela! À noite, na janela de Mértola, a que me chamavas...
p.13.

Manuel Poppe, Mariana e o Outro História do amor de uma freira portuguesa. Edição de Autor, 2013. Edição fora do mercado, assinado pelo autor e numerada de 1 a 40.
Exemplar nº 33. 

Obrigada, Manuel Poppe. Disse-me muito este presente e, talvez, por acaso, ou não, o nº que me calhou é o 33 o que simbolicamente me aqueceu o coração. Pois, 33 é o número que está intrinsecamente ligado à vida de Cristo.

17/07/2014

Aprazíveis Diálogos - VII

Na zona de grande Lisboa, o amigo Manuel Poppe (Estoril) do blogue Sobre o Risco, foi uma das pessoas que por aqui passou. O que nos uniu foi a paixão pelo Panteão de Agrippa e a bela cidade de Roma. Atendendo ao meu pedido, o que muito agradeço, o Manuel enviou-me [nas suas palavras] o seguinte "contarelo":

A mão de Deus

 À memória de Luciana Piai, bela veneziana, jovem mulher pura, amiga fiel, morta antes do tempo, com a saudade e a ternura que me ficaram para sempre
Manuel Poppe, Telavive, Foto Dizza
 - A vida custa! – desabafou Alfredo.
 Sempre que saía de casa e ia respirar ar puro ao cafezinho da Malveira, a espreitar a serra de Sintra, encontrava o Alfredo. É um homem bom, vindo de Chaves, que estudou e se reformou professor universitário.  
 Tem o hábito de tirar e pôr os óculos de falsa tartaruga, olhar o infinito, e dizer coisas profundas. Depois, suspira e goza a própria lucidez.  
 Conhecemo-nos há muitos anos: desde a Faculdade.  
Era pobre, mas casou rico. Hoje, além dos óculos, arranjou um modo de viver com os outros: a condescendência. Porquê? Porque há no fundo dele, na barriguinha dele, no umbigo dele, o sonho de poder ser condescendente, generoso, paternal.  
 Dos bancos da Faculdade, ficou-me vê-lo saltar para o palco do anfiteatro maior e gritar uns versos épicos, entusiásticos, lusitanos; do dia-a-dia, lembro, com meiga ironia, o seu improvisado francês e a obsessão de uma senhora, que nunca conheci, a quem chamava “a minha marrraine”, com os três erres.
 - É verdade, Alfredo, a vida custa.
 Foi quando ele tirou os óculos e me fitou, incisivo:
 - Não tenhas dúvidas! Isto é uma pouca-vergonha! Ainda agora…
 E falou-me do que já lhe roubara o governo, a ele, Alfredo, catedrático jubilado, latinista conhecido e admirado.
 -E citado! -sublinhou.
Graças a Deus o sogro, senhor de uma rede hoteleira, ainda era vivo e o negócio prosperava. Se não…
- Vivo e rico! -sublinhava Alfredo.
E a mulher aplaudia, na casa que o sogro lhes oferecera e onde viviam os dois com os dois filhos.
- Se não fosse isso!
Não lhe perguntei o que seria se não fosse isso. 
Na mesa ao lado, estava uma senhora, com o neto.
- Quantos anos tem o seu neto? -perguntei-lhe.
- Oito. E já é um maroto.
Criança como as outras, feliz e a tirar do bolso da avó o que ela desse.
- Ó avó, custa só cinquenta cêntimos! Dá lá…. Anda…
- Não dou, pago depois.
E ele foi e voltou com três tabletes de chocolate.
-Três?! –exclamou a avó.
 O dono do café, embaraçado, justificou o garoto:
 - Ele quis, eu deixei… Crianças. E, depois, três euros…
 A avó fingiu que se zangava.
- Ó meu malandro!
O miúdo riu-se e fugiu: sentou-se fora, a olhar para a Serra.
- A vida custa! – repetiu o Alfredo.
E eu comentei, para que não ficasse sozinho:
- Ai custa, custa!
Agarrou logo:
- Achas que isto vai piorar?
- Com certeza!
- E vão tirar-nos mais dinheiro?!
- Cada dia mais.
O Alfredo levantou-se e sentou-se, tirou e pôs os óculos:
- Estou indignado!
O miúdo continuava nas escadas, a morder as tabletes.
-Graças a Deus, graças a Deus, o meu sogro ajuda-nos! E com mil demónios, também sou gente! Professor Universitário! Jubilado! E roubam-me! Depois de uma vida de trabalho!
Espreitou-me, desconfiado.
- A ti não te roubam?
Alfredo tinha estudado em Lisboa e alugara um quarto para os lados da Amadora. Subira na vida, realmente, a pulso e olho esperto.
-A vida custa! Sai-nos do corpo! -insistiu.
O miúdo voltara para dentro e fiz-lhe uma festa na cabeça.  
Tenho um metro e oitenta e a criaturinha, metro e meio.
Senti, no meu braço, uma carícia: era a criança a retribuir-me o gesto.
Pensei em Deus, no menino Jesus, naqueles que ainda não morreram vivos e não queimam todos os dias a alma. Sim: marejaram-se-me os olhos.
- Isto é indecente! Indecente!
A lengalenga do Alfredo.
E pensei, também, que o Alfredo era, apenas, um velho e aquele breve afago me aquecia. Acreditei que isto é mais do que isto, enquanto aquela criança não crescer, porque o andar dos anos destrói a pureza e multiplica os Alfredos.

Manuel Poppe, Natal de 2013

19/12/2013

Em torno de Gaspar Simões

Tive uma boa surpresa quando recebi o catálogo da Livraria Lumière. A escolha da Cláudia Ribeiro para a capa recaiu em João Gaspar Simões, um escritor ligado à Revista Presença criada em 1927, segundo momento do Modernismo em Portugal.

No catálogo saliento as palavras de Manuel Poppe sobre o autor:
«A independência e a capacidade para separar trigo e joio - creio que nenhum dos autores da nossa Literatura desses anos, escapou ao juízo certo de Gaspar Simões - criaram-lhe um exército de inimigos. E tão acérrimo foi ataque ao grande escritor que as suas vítimas quase conseguiram apagar o seu nome e quase o enterraram vivo. 
De facto, quem fala, hoje do exímio ensaísta e ficcionista?»
Manuel Poppe

Deixo aqui o agradecimento a Manuel Poppe que me levou a ler o escritor e do qual li os seguintes títulos: Elói (1932); Pântano (1940) e o Internato (1946).
Agradeço à Cláudia que me arranjou os livros e que me enviou o catálogo que vale a pena consultar pois o elenco de livros é atrativo.

Sobre Fernando Pessoa Gaspar Simões escreveu os seguintes títulos: 
- Vida e Obra de Fernando Pessoa — História duma Geração, Vol. I: Infância e adolescência; Vol. II: Maturidade e morte, 1950
- Fernando Pessoa — Escorço interpretativo da sua vida e obra, 1962, reeditado como Fernando Pessoa, Breve Escorço da sua Vida e Obra, 1983 e segs. 
- Estudos sobre Fernando Pessoa no Brasil (textos de JGS et al.), São Paulo, 1986. 
- Fernando Pessoa — Heteropisicografia, 1973. 
- Fernando Pessoa na Perspectiva da Presença, 1978. 
- Obras Completas de Fernando Pessoa, 4 vols. (com Luís de Montalvor, para a ed. Ática), 1942-1945
(Wikipedia)

João Gaspar Simões em diálogo com Pessoa: 
Apartado 147. 

Lisboa, 18 de Novembro de 1930. 

Meu querido Gaspar Simões: 

Desculpe não ter respondido ainda à sua carta de 7: não queria responder sem lhe enviar os meus folhetos de versos em inglês, e só hoje é que consegui desencan­tar o embrulho onde estavam. Envio-lhos por este correio, sob invólucro separado. 
(...)
Estou com muito interesse em ver o seu estudo na Presença. Basta que o veja aí; não é preciso, como numa outra carta me disse, mandar-mo antes de o publi­car. O título não me alarma nada, sendo certo, porém, que, de per si, não o compreendo definidamente. O es­tudo, contudo, mo explicará. Noto, aliás, que não dá o título como definitivo, mas como provável. Se ele define bem as conclusões do estudo, deve mantê-lo. Tem, com certeza, o dom de interessar. Outra coisa muito diferente. Recebi, no dia 13, na minha caixa postal, uma carta sua (pelo envelope e letra nele) para o António Botto. Contra todos os precedentes, extraviei essa carta. Peço-lhe desculpa disso, e aviso-o, para que possa ter a maçada de escrever de novo. Não expliquei o caso ao António porque há uns quinze dias que o não vejo; a correspondência que vem para ele, para a minha caixa postal – e que pode sempre para ali ir, pois não costumo extraviar as cartas –, deixo-‑lha logo no Café Arcada, onde ele vai frequente­mente, mas a horas a que eu raras vezes posso ir. 

Um grande abraço do seu amigo certo, admirador e obrigado, 
 Fernando Pessoa

 Cartas de Fernando Pessoa a João Gaspar Simões. (Introdução, apêndice e notas do destinatário.) Lisboa: Europa-América, 1957 (2.ª ed. Lisboa: Imprensa Nacional - ‑Casa da Moeda, 1982), p. 53. Do Arquivo Pessoa

A amizade 

16/06/2013

Histórias de Telavive, histórias de amizade

Porquê esta tela?
Porque o pintor não teve oportunidade de ir para Telavive...

Félix Nussbaum, Dreierporträt, (1944)
Daqui

Félix Nussbaum nasceu em Osnabrück em 1904 e morreu em Auschwitz em 1944.


Ao Manuel Poppe agradeço a ternura com que o ouvi falar para um conjunto de jovens. 


"...a fazer o que nunca fizera: a coleccionar pintura e antiguidades. De início, porque abriu uma pequena loja em Verona, da qual se ocupava a mulher do filho mais velho, Rosalinda, estudante de Belas-Artes, e dessa maneira ajudava o marido, Gustavo o menos ambicioso. "Um sonhador...", desculpava-o Glória ... E explicava: " Era o meu velho sonho! O Roberto é que nunca me deixou gastar dinheiro em coisas destas... Só havia dinheiro para o que ele queria... A arte não era o seu género, como sabes...". 
Manuel Poppe, página 39 do livro identificado.

Histórias de Mulheres de Maria João Falcão são contos que narram o que o título sugere: histórias de mulheres que partilham afectos, vivências e  amizade.



"Em Telavive, tudo é muito rápido. O efémero ronda por ali e a efemeridade das coisas, dos lugares e das pessoas sente-se mais. E também os cafés abrem e fecham, mudam, renovam-se enquanto as pessoas vão e vêm.
Ao contrário de Jerusalém, que tem o peso de várias culturas e religiões, o ritmo é outro, lento, e, por vezes meditativo." 
Maria João Falcão, Histórias de Mulheres (s/nº página)

Ao Manuel e à Maria João,
Grata pela partilha sobre Israel, mais propriamente Telavive, pois preencheram as muitas lacunas que tenho sobre aquela cultura. 

12/03/2013

Um Inverno em Marraquexe

Winston Churchill Marrocos


Manuel Poppe. 
Não sei de quem é a fotografia mas gosto dela.
Com o escritor comungo a paixão por Itália, em particular, Roma e o Panteão.


O livro que ando a ler ...
(Grata à Cláudia, Livraria Lumière)


Sabe que o Atlas se cobre de neve, no Inverno? O crepúsculo doura a crista da montanha, por detrás do minarete, que se ilumina. Fica uma luzinha, a cintilar. Mouna sorria e eu nunca percebi o sorriso. Nem esse, nem outros.

Manuel Poppe, Um Inverno em Marraquexe. Lisboa: Edições Teorema, 2004, p.36.

Um episódio que me marcou em Marrocos foi quando, de mochila às costas, dentro de um carro, subimos um bocadinho o Atlas e fomos apanhados numa tempestade de areia. Perdidos no meio do deserto, eis que apareceu uma caravana de tuaregs que, montados em cavalos, transportavam mercadoria. Nos pulsos traziam relógios digitais e nas albardas coca-colas, o mundo americano numa terra sem o tio Sam.
De Marrocos só tenho slides ainda da era do celuloide (1985). Encontrei no Google uma fotografia da Medina de Marraquexe, de Bouchot, que me encantou. Visitei a Medina com amigos, sem guia e, apesar de labiríntica, não nos perdemos. Encontrámos um mundo estranho, acolhedor e a comprová-lo estavam as sardinhas albardadas que comemos num souk, sentados com marroquinos, numa refeição sem talheres e onde se partilhava a mesma água (tal proeza não foi para mim) ao som do muezzin que chamava para as orações.

Obrigada Manuel Poppe por esta viagem de regresso a um país hoje de certeza diferente.

De uma forma sumária: Manuel Poppe (escritor e jornalista) nasceu em Lisboa, viveu a adolescência na Guarda, regressou à capital para se licenciar. Foi Conselheiro Cultural na embaixada portuguesa em Roma, cidade onde obteve o título académico de "Dottore in Lingue e Leterature Straniere pela Universidade La Sapienza"com uma tese sobre José Régio. De Roma partiu para S.Tomé com a mesma missão que mais tarde o levaria a Telavive e finalmente a Marrocos.  

Medina de Marraquexe, fotografia de Emmanuel Bouchot


31/03/2012

Pedro I




Com o coro grego (personificado pelo povo) a peça Pedro I, de Manuel Poppe, solta-se do papel e transmuta-se, como o amor a Inês, em três dimensões.


Túmulos de Pedro e Inês, Mosteiro de Alcobaça


Cena X


1361 Passa o cortejo, mar de círios, que acompanha o cadáver de Inês, em esquife aberto. Exumado da sepultura original no Mosteiro Velho de Santa Clara, de Coimbra, vai a caminho do novo túmulo, mandado construir por Pedro I, no Mosteiro de Alcobaça. Pedro e o pajem assistem. Ouvem-se cantos religiosos, música, lamentos, rezas...etc.


Pedro - Vês, João? É a Rainha! Coroada depois de morta! Os que a perseguiram curvam-se, os que a amaram ajoelham e rezam!

Manuel Poppe, Pedro I, Lisboa: teorema, 2007, p. 67.


Andreas Scholl singing a 'Liebeslied' by the medieval composer Oswald von Wolkenstein (1376 or 1377 - 1445)

08/10/2011

"profetas menores"

profetas menores é um belo livro de uma colecção sobre figuras bíblicas, apresentado por Manuel Poppe e com ilustrações de Luís Miguel Castro.



Nessa terra, Israel, sem nada senão a Promessa, espaço mínimo crestado pelo sol, lugar que o sonho e a esperança dos homens fizeram e fazem vibrar - com Deus ou o silêncio -, emblematicamente ali, teria de se viver a aventura da Sua busca, o combate decisivo e sempre repetido: «ficou sozinho e um homem lutou com ele até de madrugada» (Génesis, XXXII, 25)

Manuel Poppe (p. 11)
A palavra hebraica aliab tem, pelo menos, quatro significados: imigração para a terra de Israel; peregrinação a Jerusalém; a honra de ser chamado, na sinagoga, à leitura do Pentateuco e a assunção miraculosa, que a Bíblia refere a propósito de Henoc (Génesis, V, 23, 24) e de Elias Segundo Livro dos Reis, II, 11) e na qual a tradição rabinica abraça Moisés e Baruc.
Um carro de fogo recolhe Elias e eleva-o ao céu e é esse turbilhão que o Profeta ascende, sobe a Deus, tal qual subimos a Jerusalém.

Em Salmos CXXXVII,5,6,
«Junto aos rios da Babilónia, Canto do Exilado, o poeta:

Se me esquecer de ti, Jerusalém,
fique inutilizada a minha direita!
Se me esquecer de ti, Jerusalém
se tu não fores a minha suprema alegria,
que a minha língua se cole ao meu palato.»

profetas menores
Apresentação de Manuel Poppe, Lisboa: Três Sinais Editores, 2001, p. 6



Do elenco desta publicação fazem parte os seguintes textos e autores:


Génesis: um código ético e moral da vida, Joshua Ruah;
São João: o evangelho místico, João Bénard da Costa.
Eclesiastes: da vida e da morte, Jorge Sampaio;
Job: o jogo da fé, Manoel de Oliveira;
Samuel e a voz dos profetas, Vasco Graça Moura;
Ester: uma história estéril, Clara Ferreira Alves;
Profetas menores: a viagem com Deus, Manuel Poppe;
Lamentações: Senhor, terá acabado a história?, José Pacheco Pereira;
Cântico dos cânticos: um tijolo quente na cama, Agustina Bessa-Luis;
Isaías, Adriano Moreira;
Salmos: o canto de Deus, Eduardo Lourenço;
Coríntios: o desafio de Deus, Maria José Nogueira Pinto;
São Mateus: a doutrina de Jesus, Joaquim Carreira das Neves, O.F.M.

01/04/2011

"... no ponto onde não há presente (...)"

Panteão, pormenor da entrada, capitéis coríntios, Roma


Os telhados de Roma




Acerca de uma vendedeira de Roma

As mil e uma noites? Entre a noite e o dia, vive a senhora Olga; no ponto onde não há presente: há o passado e o futuro abraçados no instante breve. Ou, na noite e no dia, que se misturam na eternidade do seu sonho, que existe à margem dos calendários. A eternidade é o oposto do tempo, e é isso que busca a senhora Olga.


S. João Estoril, 29 Maio de 1990


Manuel Poppe, Novas Crónicas Italianas, Lisboa: Teorema, 1994, p. 88.

23/03/2011

"...entre as minhas ideias e as ideias correntes..."

Do meu país que amo uma tristeza imensa me afecta: a crise profunda em que estamos a cair, uma crise de valores, uma crise política e económica. À volta deste marasmo, uma oligarquia imponente procura a vontade de poder e não a vontade de cuidar de um povo.

Não pude deixar de me lembrar das palavras de Umberto Saba que um amigo me fez conhecer.

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Carlo Levi, ritratto di Umberto Saba olio su tela




Vou fazer minhas as palavras de Umberto Saba:


«...entre as minhas ideias e as ideias correntes existe um abismo sem pontes.»




Manuel Poope, Novas Crónicas Italianas, Lisboa:Teorema, 1994, p.103




Umberto Saba nasceu em Trieste, em 1883, e morreu em Gorizia, em 1957. Sobre a poesia de Saba:
"Herdeira de uma tradição poética classicista com origem em Dante, na qual se podem incluir autores como Petrarca, Parini, Manzoni, Leopardi e o Foscolo dos sonetos, das odes e de Dei sepolcri, a poesia de Saba é a procura persistente de uma perfeição e coerência formais com que cobrir a aspereza do vivido e do sentido, com as suas contradições, a sua incompletude, as suas consequências".
No site da Nova Almedina

ULISSES

Na minha juventude naveguei
ao longo das costas da Dalmácia. Ilhéus
à flor das ondas emergiam, onde raro
uma ave buscava a sua presa,
cobertos de algas, escorregadios, ao sol
belos como esmeraldas. Quando a noite
e a maré alta os ocultavam, as velas
sob o vento o largo demandavam,
para fugir da cilada. Hoje o meu reino
é essa terra de ninguém. No porto
acendem-se as luzes para outros; a mim para o alto mar
me leva ainda o não domado espírito,
e da vida o doloroso amor.

Umberto Saba, in Poesia, selecção, tradução, introdução e notas de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010. Apanhado aqui.


xCarlo Levi, Carlo Levi, Autoritratto, 1945


Olio su tela, cm 42 x 34, Roma, Fondazione Carlo Levi

Carlo Levi foi um pintor, escritor, anti-fascista activista e médico judeu que nasceu em Turim em 1902.

10/03/2011

Se isto é um homem

Ando a ler As Novas Crónicas Italianas de Manuel Poppe, um escritor e muito mais, que conheci há pouco tempo. Roma foi o ponto de contacto. Aprecio a sua sensibilidade e a sua maneira de ver e narrar a beleza. Mas não foi só ele que conheci, há outra voz com a mesma sensibilidade e beleza que também foi o ponto de contacto!
Estamos no século XXI, já com uma década passada, e é impressionante como esta viagem pelas Crónicas ao século XX é intemporal, nada evoluímos no que respeita à humanidade, à verdade do "ser".
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Albert Durer Lucas (1828-1918), Butterfly in the Heather
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Primo Levi: Se isto é um homem
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(...) Quando me bate nas costas Primo Levi, que não quer que eu esqueça, não penso só nos judeus que acabaram em Auschwitz, em Dachau: lembro-me de Pasolini, perseguido e assassinado; do emigrante turco; do negro; do árabe; e do homem que não aguenta mais e se suicida, porque a sociedade não está à sua altura, nem do seu sonho, nem da sua honestidade, nem do seu desejo de harmonia, de fraternidade. O que lhes apresentam é frio, calculado, desarmónico: é, para eles todos, turcos, negros, árabes, judeus, brancos e amarelos, a selva onde se apunhalam os sentimentos e as vontades simples de viver, as borboletas. É um sítio onde se deitou nitroglicerina. É um mundo morto, organizado, em que nada que seja rebelde - original, pessoal, novo - cabe.
Pode ser isso um homem? (...)
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Manuel Poppe,Novas Crónicas Italianas, Lisboa: Teorema, 1994, p.23-24.

Obrigada, Manuel Poppe!

23/02/2011

"O Pássaro ..." porque me sinto numa gaiola!

Quando queremos conhecer uma, duas, pessoa(s) e fazemos planos mas tudo sai ao contrário, é uma tristeza, uma prisão.
Hoje, senti-me presa porque, por circunstâncias alheias à minha vontade, não pude ir até ao Teatro Municipal da Guarda.

Hong Chun Zhang, My Mother's Cage, (1999),

in "The Three Generations Series". *

Chinese fine-style painting (gongbihua) on rice paper.

Deixo um excerto de O Pássaro de Vidro de Manuel Poppe, um livro que ainda não li mas que vou arranjar embora, saiba à partida que é inquietante e me vai inquietar.

"(...) cada homem vê a realidade à sua maneira singular e única e, sempre, pela primeira vez".
Manuel Poppe

O Pássaro de Vidro
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«[...] Isto é por fases: ou ando muito contente ou, então, desisto de tudo. Lembro-me, muitas vezes, de ti e, às vezes, tenho ataques e ponho-me a pensar o que estarão a fazer as pessoas que eu conheço.»

«Acredita, ainda que digas que não: nós nunca aceitamos os outros, como eles são na realidade. Muitas vezes (para não dizer a maior parte das vezes) os outros são, para nós, aquilo que nós imaginamos que eles são e, às vezes, obrigamo-los mesmo a sê-lo. Tu pões-te a inventar-me e eu ponho-me a inventar-te: já viste o perigo que isso é?»
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Manuel Poppe, O Pássaro de Vidro, Lisboa: Caminho, 2007
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Para os meus dois amigos recentes Manuel Poppe e MJ que conheci na blogosfera.
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*Aconselho a ver, é interessante a história desta pintura apesar da ingenuidade do desenho!

Pianista Claudio Arrau
Primeros nocturnos publicado por Chopin en 1833 en Paris, mas no el primer compuesto (los nocturnos postumos ocupan ese puesto).
Inspirados es las obras de John Field, el aprenderia y tomaria un estilo de composicion como suyo dandoles alma a los "preciosos pero vacios marcos de Field" (Alfred Cortot).
El nocturno N° 1, aunque hermoso, es apenas el susurro de lo que vendria despues. Segun Bernard Gavoty "un tema de arpegio monotono y tristeza distinguida".
(do Youtube)

10/12/2010

Suportar a vida de outra maneira, sem a inventar?

Não iria suportar a vida sem sonhar, embora saiba que essa é a principal fonte de tristeza!
Obrigada Manuel Poppe pela mensagem do seu livro.
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Zvi Mairovich, Portrait of a Woman*



«- (...) E achas que éramos capazes de suportar a vida de outra maneira, sem a inventar?
- Sem a sonhar, dizes bem... Então foi o que aconteceu, sonhaste-a, idealizaste-a...
- Sei lá se a sonhei! Só sei que me desiludiu...
- Imaginaste-a. Se ela se entregasse, perdias a tua liberdade. A maravilhosa liberdade de sonhar. Ficavas preso a ela. Só aquilo, só ela. Assim, podes continuar à espera que chegue a perfeição.»

Manuel Poppe, Sombras em Telavive, Lisboa: Teorema, 2001, p.84

Acrescentei o texto depois do comentário belo de Margarida Elias.

* Zvi Mairovich é um pintor israelita que nasceu numa aldeia da Polónia em 1911 e faleceu em 1974. Só conheci este pintor com a leitura deste livro.

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