04/01/2017

Diálogo improvável

   
     VII
Saber? Que sei eu?                           Nada sei.
Pensar é descrer.                              Quanto mais penso, menos sei.
- Leve e azul é o céu -                       Neste céu de chumbo
Tudo é tão difícil                               Que me cerca.
De compreender!...                           O que entender?

A ciência, uma fada                           Viver, é caminhar
Num conto de louco...                        estranhamente 
- A luz é lavada -                               numa bruma sem fim.
Como o que nós vemos                     O perceptível
É nítido e pouco!                               é mínimo e claro.

Que sei eu que abrande                      O que aprendi eu
Meu anseio fundo?                             Que alimenta o meu desespero?
Ó céu real e grande,                           A realidade nua e crua,
Não saber o modo                              Os outros com que me cruzo
De pensar o mundo!                            De quem nada sei, nem ouço!

4-XI-1914                                            4-I-2017

Fernando Pessoa *                                 ana

*Fernando Pessoa, Cartas a Armando Côrtes- Rodrigues. (Introdução de Joel Serrão) Lisboa: Editorial Inquérito Lda, 1984 (2ª Edição) p.  88.


14 comentários:

  1. Gostei sobremaneira da paráfrase.
    A vida por vezes exige forças dolorosas,
    mas há que vencer, porque dos fracos não reza a história...
    Os noturnos de Chopin são um bálsamo e lenitivo para a alma.
    Grande abraço, Ana.
    ~~~~~~~~~~~~~

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  2. Gostei do teu diálogo com o Fernando Pessoa.
    E gostei da foto:)
    Um beijinho e continuação de boa semana:)

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    1. Obrigada, Isabel.
      Boa semana.
      Beijinhos:))

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  3. Aposto que Fernando Pessoa adorou o diálogo.
    E eu também.
    Beijinhos

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  4. Permito-me oferecer-lhe este Chopin. Tem assim um ar de garotinhas alegres que correm na relva aos pulinhos. E depois há uma chuvinha de Primavera que não interrompe nem molha, e cheira a terra e plantas orvalhadas e é como um sorriso da natureza.
    https://www.youtube.com/watch?v=KmzFDEu2RoA

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    1. Bea,
      Muito obrigada. Adorei esta valsa de Chopin.:))
      Uma boa semana.

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  5. Diálogos paralelos... Um beijinho e bom ano para ti! Gostei do teu poema!

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    1. Muito obrigada, MJ. :))
      Um bom ano e uma excelente semana com alguma tristeza pela História dos últimos dias.
      Beijinho.

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  6. No confronto de palavras se controi o diálogo possível entre dois tempos diferentes, entre duas almas inquietas, á procura do caminho, Comum?
    Tu
    Gostei muito,# e do som que OS liga,,,

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    1. Muito obrigada, Agostinho.
      Achei graça à pertinente questão do tempo. Comum não é mas é um poeta que muito me espanta e maravilha.
      Beijinho.:))

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  7. Não é um diálogo improvável, são as incertezas e as interrogações comuns a nós todos.
    O teu poema é lindo!
    Beijinho grande, Ana!

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    1. Obrigada, Gracinha.
      Só hoje é que vi o comentário.
      Beijinhos. :))

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