20/02/2013

Nevoeiro

Chove, chove, chove... 
A acompanhar a natureza andam os nossos governantes que se vestem de um cinzentismo negro. A desumanidade trajada por este governo levou a ouvir-se no Parlamento a canção: Grândola Vila Morena que interrompeu o discurso do Primeiro Ministro, Passos Coelho. 
José Gil (filósofo) interpretou esse ato da seguinte forma:
Manifesta «o desejo de uma utopia prometida e nunca concretizada» (TSF). Será?

Simbolicamente o nevoeiro é associado a «um estado entre o real e o irreal»*.
Prefiro o nevoeiro à chuva porque após este vem a luz prometida do Sol, nosso astro maior.

 Hiroshi Senju, Floresta (2001), pintura japonesa com 79 metros de comprimento.

Hiroshi Senju, perspetiva de uma parte da Floresta.

Embora as águas límpidas abranjam o vasto
céu azul de Outono,
Como se podem elas comparar com a lua
enevoada numa noite de Primavera!
A maioria das pessoas quer a limpidez pura,
Mas por mais que se varra, não se consegue
esvaziar a mente.
Maezumi, iii

Hakuyu Taizan Maezumi, "The Hasy Moon of Enlightement: On Zen Practice III", L.A. ,1977, in Livro dos Símbolos, Reflexões sobre Imagens Arquetípicas, da Taschen, editor Katthleen Martin, 2012, p. 76.

*Hans Biedermann in, Dictionary of Symbolism, NY, 1994. Citação retirada do livro acima referido.


Hiroshi Senju nasceu em 1958, em Tóquio, no Japão. É professor da Universidade de Arte e Design de  Kioto, onde se doutorou no programa Fine Arts, em 1987. Em 1995 recebeu uma menção honrosa na quadragésima sexta Bienal de Veneza e outros prémios noutras cidades italianas, nos Estados Unidos e no Japão. Sobre Hiroshi Senju consulte-se o link assinalado.

18/02/2013

Camélias

Camélias
[Uma camélia nua...]

Hoje, que a noite, em húmida toalha,
Comprime a vossa fronte, cegamente,
Aquela chuva fina que vos anavalha
Chega, até mim, numa canção dolente!

Encontro, nela, a música do amor
Com que se esquece, quase, a morte e o medo.
Miséria alheia? Seja como for,
Paira os lábios um sorriso lêlo...

Tudo é melhor do que a monotonia.
As lágrimas dão cor, têm movimento.
Que doce a chuva! A chuva só é fria
Nos ombros dos mendigos em que há vento.

Mas eu que sou feliz e vivo farto
Quando outros, por favor, dormem na rua
Respiro, ao ver, na jarra do meu quarto
(Que é de cristal!) uma camélia nua...

Pedro Homem de Mello (cortesia do Google)


Isabelle Ciaravola e Alexandre Riabko em A Dama das Camélias (do clássico de Alexandre Dumas Filho), Ópera de Paris,
coreografia de John Neumeier,
Chopin (Ballade n.1 in G minor Op.23

16/02/2013

Rosas


A idade da inocência é a melhor das idades. Picasso expressou bem a inocência no rapaz com cachimbo (1905), tela encantadora que não me importaria de ter. :)

Vinham Rosas na Bruma Florescidas

Vinham rosas na bruma florescidas
rodear no teu nome a sua ausência 
E a si se coroavam, e tingiam 
a apenas sombra de sua transparência. 

Coroavam-se a si. Ou no teu nome 
a mágoa que vestiam madrugava 
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa. 

Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente. 

E ausente só porque, se não repousa, 
é nome rodopio que, na mente, 
em bruma a brisa em que se aviva a rosa. 

Fernando Echevarría, in “Poesia 1956-1979”
Picasso, rapaz com cachimbo, 1905


14/02/2013

14 de Fevereiro, da política ou do amor?

Lisboa, Rua do Século

Num país cujos governantes são "uma máquina de destruir emprego", 
em que o estado social está a morrer, talvez seja o amor que nos faz erguer a cabeça.
Os portugueses são solidários e a comprová-lo esteve o sucesso do Banco Alimentar
 em dezembro passado. O que nos resta?

A-M-A-R

Recebi por e-mail um conjunto de cartões do M. Moleiro Editor e deles escolhi o fólio 28r.
É um cartão de amor para o dia dos Namorados, dia de S. Valentim. Embora, não seja uma tradição no nosso país este dia  já entrou na cultura portuguesa via comercial. Como é um louvor ao amor. Louvemos pois o dito.

«Splendor Solis ("The Splendour of the Sun") is a well-known colorful alchemical manuscript. The earliest version, written in Central German, is dated 1532–1535 and is housed at the Kupferstichkabinett Berlin at State Museums in Berlin. It is illuminated on vellum, with decorative borders like a book of hours, beautifully painted and heightened with gold. The later copies in London, Kassel, Paris and Nuremberg are equally fine. 
In all twenty copies exist worldwide.» 
Retirado da Wikipedia do link abaixo assinalado

  Splendor Solis, folio 28r


Feliz Só Será

Feliz só será 
A alma que amar. 
'Star alegre 
E triste, 
Perder-se a pensar, 
Desejar 
E recear 
Suspensa em penar, 
Saltar de prazer, 
De aflição morrer — 
Feliz só será 
A alma que amar. 

 Johann Wolfgang von Goethe, in "Canções" Tradução de Paulo Quintela (Citador)

 

13/02/2013

Auto-retrato

Auto-retrato

Ingredientes:

1 máquina fotográfica;
1 espelho ou mais;
1 colher de luz;
2 de sombra;
1 mente;
1 sem número de pixels.

Envolva tudo e já está.
Uma sombra sem rosto,
um sorriso sem face.




Toledo, edifício do antigo Tribunal do Santo Ofício


11/02/2013

Pierrot e mimosas

O Carnaval deste ano teve para mim o encontro com estas flores magníficas a que popularmente se chamam mimosas.
Mimosas da Serra da Lousã, as primeiras que vi este ano,




James Ensor, O desepero de Pierrot, também conhecido como Pierrot Ciumento, c.1910
Kroller Muller Museum

Ciumes

Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle passam sêde, não n'o acordem ao beber. Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha, fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes, mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle. Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo. 
De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos, seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos montes. 
De repente viu-se cego - os dedos finissimos da Colombina brincavam com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham juntas... 
- Sabes? Uma andorinha... 
E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. Pierrot contava enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha, e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos. 
Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina! 

Almada Negreiros, "Frisos", Revista Orpheu nº1. Lisboa: Edições Ática, 1971, p.71.


Frank Xavier Leyendecker (1876 - 1924),Arlecchino and Columbina,   
New York  em especial para Manuel Poppe [veja o primeiro link]


A eterna ópera, uma das primeiras que ouvi.

08/02/2013

Iluminuras no tempo de Santo António

Ando a ler um belo livro que me ofereceu MR. Trata-se de A Iluminura  de Santa Cruz no Tempo de Santo António, de Maria Adelaide Miranda. Lisboa: Editora Inapa, 1996.*

Imagem da esquerda: Tábuas da Concordância Evangélica. Estrutura arquitectónica. Colunas suportam arcos ultrapassados, com símbolos dos evangelistas. No friso superior combate entre animais apocalípticos. Bíblia, século XII, (Sta Cruz I, fl. 362v).
Imagem da capa  
É ao exemplo de Santo Agostinho que os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho vão buscar o arquétipo da vida em comum e ausência de bens. (p.5)*

Santo Agostinho é um dos doutores da Igreja que admiro. Nas minhas investigações ele tem um papel crucial. 

22. Mas eis que eu tiro da memória a afirmação de que são quatro as perturbações da alma, o desejo, a alegria, o medo, a tristeza, e o que quer que acerca delas puder dissertar, dividindo e definindo cada uma segundo as espécies dos respectivos géneros; na memória encontro, e aí vou buscar, o que digo, sem, no entanto, me perturbar com nenhuma dessas perturbações, quando as evoco, trazendo-as à memória; e estavam lá antes que eu as recordasse e voltasse ao contacto com elas; por isso, puderam de lá ser tiradas, mediante a recordação.
Santo Agostinho, Confissões X

06/02/2013

"...A beleza na forma"


I - BUSCO A BELEZA NA FORMA

— Busco a beleza na forma;
E jamais
Na beleza da intenção
A beleza que perdura.

Só porque o bronze é de boa qualidade
Não se deve
Consagrar uma escultura.

 in Canções de António Botto - Primeiro volume das obras completa (1941).


03/02/2013

«Alexander Dumas is black»

Eugène Delacroix, Alexandre Dumas(pai)

Django de Quentin Tarantino é um filme peculiar. Apesar da violência que o realizador utiliza para expressar as suas ideias, os diálogos são de uma profundidade e crítica que se fica rendido. 

As três personagens da fotografia são: em primeiro plano Django interpretado por Jamie Foxx; em segundo plano, Leonardo Di Caprio que interpreta Calvin Candie, um proprietário sulista e, em terceiro plano, Christoph Waltz que encarna o Dr. King Schultz, caçador de prémios e anti-esclavagista, quanto a mim é a personagem mais rica do triller. 

«Calvin Candie: White cake?
Dr. King Schultz: I don't go in for sweets, thank you. 
Calvin Candie: Are you brooding 'bout me getting the best of ya, huh?
Dr. King Schultz: Actually, I was thinking of that poor devil you fed to the dogs today, D'Artagnan. And I was wondering what Dumas would make of all this. 
Calvin Candie: Come again? 
Dr. King Schultz: Alexander Dumas. He wrote "The Three Musketeers." I figured you must be an admirer. You named your slave after his novel's lead character. If Alexander Dumas had been there today, I wonder what he would have made of it? Calvin Candie: You doubt he'd approve?
Dr. King Schultz: Yes. His approval would be a dubious proposition at best.
Calvin Candie: Soft hearted Frenchy?
Dr. King Schultz: Alexander Dumas is black.». [link]

Na biblioteca da família Candie passa-se um dos  momentos de maior tensão do filme e nela figura a imagem de Alexandre Dumas (pai). Dele li, há muitos anos, O Conde de Monte Cristo, um livro da biblioteca da minha avó.
Alexandre Dumas, pai, foi o mote para esta postagem. Acabei por procurar alguns dados biográficos que desconhecia pois não li nenhuma biografia do autor. No seu encalço encontrei três retratos - três idades - três pintores que apresento.

Marie Elisabeth Ernestine Philippain, Alexandre Dumas pai (1850-55)


Charles-Alphonse-Paul Bellay (1826-1900), Alexandre Dumas pai, palácio de Versailles, França


A fotografia é retirada do Google imagens e tratada por mim.

01/02/2013

É hora do chá

É hora do chá

– Que fazes, Ritinha,

 assim tão brejeira?

– Eu sirvo um bom chá,

 que fiz na chaleira,

 às minhas bonecas,

 pois é brincadeira.

Helena Pinto Vieira, O mundo da criança, vol. I, Rio de Janeiro, Delta: 1975. [Cortesia do Google]

(TEA) TIME

31/01/2013

"Futuro"

A todos agradeço a partilha e a presença no desafio.
Lucas Cranach, Melancolia, 1532
Statens Museum for Kunst, Copenhaga

FUTURO
Isto vai meus amigos isto vai 
 um passo atrás são sempre dois em frente 
e um povo verdadeiro não se trai 
 não quer gente mais gente que outra gente. 

 Isto vai meus amigos isto vai 
 o que é preciso é ter sempre presente 
 que o presente é um tempo que se vai 
 e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança 
que é verde como a cor que tem a esperança 
quando a água de Abril sobre nós cai. 

O que é preciso é termos confiança 
se fizermos de Maio a nossa lança 
 isto vai meus amigos isto vai.

Ary dos Santos, in Obra Poética (Casa Fernando Pessoa)

29/01/2013

Portugueses a falar sobre portugueses. Um desafio?

Os portugueses andam tristes e insatisfeitos com a crise e as políticas traçadas pelos nossos governantes.
A Sandra, do blog Presépio com Vista para o Canal, acerca da imutável tristeza do povo português - já confirmada num pensamento do historiador A.H.Oliveira Marques sobre os portugueses de quinhentos -  escreveu:


A insatisfação desceu à rua. Lisboa, 2013

«Não sei se concordo que somos um povo triste; direi antes, que estamos muito tristes e desalentados devido as dificuldades económicas do momento e as preocupações associadas. Quando cheguei aos Países Baixos, e nos primeiros anos, senti falta dos barulhos das conversas nos nossos cafés/restaurantes, dos risos nas esplanadas, do toque mais solto dos portugueses. Mas eu saí de Portugal em 2007, altura que os meus amigos e conhecidos não acreditavam quando lhes dizia que Portugal estava a mergulhar numa crise económica profunda que vinha para ficar um tempo considerável. Lembro-me de dizer ao meu marido: "Ou saímos agora, ou já será muito difícil". Este ano, quando aí fui, encontrei um ambiente muito carregado e deprimido e já não o ambiente solto que me recordava. Mas concordo que temos mais propensão para pensarmos que somos piores que os outros, que a nossa situação é sempre pior que a do vizinho, que o que é de fora é sempre melhor - visão na qual não me incluo, pois temos um património (seja arquitectónico, musical, natural,...) e cultura invejáveis. Irrita-me também quando oiço o discurso que somos um país pequeno e periférico e por isso, somos pobres e coitadinhos e uns desgraçados e mais não sei o que. Até onde sei, a Bélgica, os Países Baixos, o Luxemburgo, o Lienchtestein são países mais pequenos que Portugal e... mais ricos. Nós temos muitos e variados recursos, cuidamos mal, isso sim(veja-se o caso das florestas, por exemplo, e os incêndios que ocorrem todos os anos). E não somos periféricos; estamos sim, no centro do mundo, entre a Europa, a África e a América - saibamos pois, tirar partido desta localização geográfica formidável. O comentário já vai longo, mas vou contar-te uma pequena história que se passou aqui, comigo, logo no início. Estava numa consulta de ginecologia, com uma médica holandesa, já perto dos sessenta anos, que me perguntou com ar irónico e a gozar se Portugal já pertencia a Europa. Não gostei do tom, nem da pergunta. Respondi que sim, há muito tempo, que éramos a nação mais antiga da Europa e aquela com fronteiras definidas há mais tempo, que tínhamos feito a primeira globalização, que démos novos mundos ao mundo e que estávamos na UE desde meados dos anos 80. E na sequencia de outros comentários menos abonatórios e injustos a Portugal, acrescentei que temos cientistas brilhantes, escritores e músicos de renome mundial e que recebemos prémios internacionais com muita frequência, incluíndo nas áreas da Saúde e da Biologia. Bom, isto para dizer, que, apesar dos pesares, não temos de baixar a cabeça a ninguém e não valemos menos que ninguém. Tomara muitos países, incluíndo este onde vivo, terem as taxas de sucesso que temos em determinadas áreas. Agora se me perguntares o que faz, na minha opiniao, atrasar Portugal, direi: a impunidade face a corrupção, o xico-espertismo, o compadrio, a má gestão de dinheiros públicos e o consequente desperdício (anos e anos nisto...), o facto de, a troco de uns dinheiros, termos deixado cair a agricultura, a pesca e a indústria e o termos deixado, ao longo de muitos anos, de valorizar o que é nosso e bom (...). »

A Sandra vive na Holanda.

A todos os meus amigos e visitantes deste blog lanço o desafio de escreverem algo sobre este tema, uma frase, um poema, uma música, uma foto, uma tela, algo que personifique a inalterável (ou alterável) tristeza de "ser português". O vosso contributo e partilha  ficará registado com o meu agradecimento.


27/01/2013

El Jardín - lembrando o Holocausto

Sinagoga de Budapeste, em
Memória dos que pereceram


Pranta Bass  viveu no gueto de Theresienstadt e com 12 anos escreveu:

El jardín

Pequeño, pero lleno 
de rosas, el jardín 
va por el camino 
niño pequeño 
niño precioso
lindo como un pimpollo 
cuando se abra el pimpollo 
muerto estará 
el niño pequeño.

Bess P., Aquí no hay mariposas. Dibujos y poemas de los niños del gueto Theresienstadt, legado y biblioteca obrera, a través del Museo Nacional Judío de Praga, 1990. 

Pranta Bass foi assassinado dois anos depois em Auschwitz. Em sua memória e na de todos que pereceram no Holocausto.

25/01/2013

"Os Amigos" - Da Amizade um cesto cheio de flores

Aos amigos que, noutro lugar e aqui, partilharam o afeto: 
Agradeço.

Hans Memling, Musician Angels, (c.1480)
Koninklijk Museum voor Schone Kunsten, Antwerp, Belgium

Num livro que me foi oferecido sobre música


Para todos 
Os Amigos

Os amigos amei 
despido de ternura 
fatigada; 
uns iam, outros vinham, 
a nenhum perguntava 
porque partia, 
porque ficava; 
era pouco o que tinha,
pouco o que dava, 
mas também só queria 
partilhar 
a sede de alegria—
por mais amarga. 

 Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia" (retirado do Citador)

Junto os poemas de duas amigas:

***
Da Isabel do Palvaras de Aqui e Dali

Poema

A vida é feita de instantes
Em constante oposição.
Nenhum é como foi dantes.
Foram-se uns, outros virão.
Só o homem é igual
Em desigual sempre ser.
Quem sabe o que o mundo vale
Melhor sabe não saber.
A cada esperança perdida,
Logo outra esperança é primeira.
O que mais espanta na vida
É a própria vida inteira.

Armindo Rodrigues
(1904-1993)
***

Da Cláudia,  da Livraria Lumière

Bons amigos
 Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!

Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!

Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!

Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!

Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade!

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinho,
Há outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas!

Machado de Assis

***

Da Maria João do Falcão de Jade
O delicioso Snoopy

***

Da Margarida Elias, entre as jóias que enviou escolhi esta que me fez lembrar a minha infância.

A birthday is just the first day of another 365-day journey around the sun. Enjoy the trip. ~Author Unknown


Do João Menéres
UM DIA MUITO FELIZ.


23/01/2013

A. H. Oliveira Marques - sobre os portugueses

Gárgula, Sé Velha, Coimbra
A. H.Oliveira Marques em torno da sua memória. 
O historiador nasceu a 23 de Agosto de 1933 e faleceu a 23 de Janeiro de 2007.

Sobre os portugueses na centúria de quinhentos.

«Os homens são de mediana estatura, mais sobre o pequeno do que sobre o alto, mais sobre o moreno do que sobre o louro, de aspecto triste.» 

 A. H. Oliveira Marques, Portugal Quinhentista, Ensaios. Quetzal Editores, Referências, Lisboa, 1987.

Os portugueses continuam com a sua tristeza, uma caraterística que é imutável.

 

22/01/2013

O frio imponente da Natureza

As árvores nem sempre morrem de pé.
O temporal que assolou o nosso país teve destas coisas: derrubar árvores centenárias que embelezavam os caminhos.
Os dois últimos dias e as duas últimas noites passaram mais lentamente, os candelabros substituíram a luz dando um ambiente diáfano e contrapondo o acelerado tempo dos media. 
Se por um lado houve mais diálogo por outro distanciamo-nos do mundo. A frase de Ovídio: 

"Nada é mais forte que o hábito",

torna-se peremptória.

O cinema tornou-se uma redoma perfeita,  foi a fuga possível da falta de luz.e do frio que só a lareira dirimia.

Les Misérables de Tom Hooper, baseado na obra com o mesmo nome de Victor Hugo, foi o filme que fui ver mas ao fugir do frio encontrei o frio dos miseráveis, a frieza do tempo em que a justiça social era inexistente. Será  que caminharemos para esta frieza?
Compreendo o frio imponente da Natureza, mas não compreendo a frieza humana a que o liberalismo político e económico nos está a enredar.


Emile-Antoine Bayard (1837-1991), Jean Valjean a minha personagem preferida.
Rodin, Monumento ao Victor Hugo, primeiro projeto

Gostei do filme e o facto de ser um musical ameniza o ambiente social.

19/01/2013

Hera diluída na chuva

Hera diluída na chuva


“If there's only one nation in the sky, shouldn't all passports be valid for it?” 
 Yann Martel, Life of Pi 

 Vi a Vida de Pi, um filme de Ang Lee. A beleza das imagens, a força da natureza, o tigre que todos encontramos no caminho são personagens numa história de sobrevivência.
O filme é uma brilhante metáfora da viagem que percorremos, que traçamos, que escolhemos, dos acasos que tocamos, da perseverança que perfilhamos e da razão interiorizada num mundo religioso onde Deus pode ter vários nomes. 
Choveu imenso e à chuva misturou-se o sal e as heras do meu jardim.

16/01/2013

Horas


Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

Miguel Torga, O Outro Livro de Job [cortesia do Google]

 

14/01/2013

"les fleurs c'est périssable"

Após a Maria João, do Falcão de Jade, relembrar Brel.

[Se todos os vazios fossem repletos de flores o mundo seria  mais delicado.]


Albrecht Dürer, Aquilegia Vulgaris L.., 1526, daqui




Je vous ai apporté des bonbons

Parce que les fleurs c'est périssable
Puis les bonbons c'est tellement bon
Bien que les fleurs soient plus présentables...

Versos do refrão da música Les Bonbons,
Jacques Brel










La valse à mille temps
 

12/01/2013

Luz

À procura da luz numa noite chuvosa.

Como Diógenes a Alexandre, só pedi à vida que me não tirasse o sol. Tive desejos, mas foi-me negada a razão de tê-los. O que achei mais valeria tê-lo realmente achado. O sonho (...) 
s.d. 

Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Lisboa: Ática, 1982. vol- I, p 196.
(Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.)
Em especial para a Sandra do blog Presépio Com Vista para o Canal. :)

George Tooker, Na Casa de Verão, 1958.

Lanterna 1977


Lanternas, 1986

10/01/2013

A liberdade

Jardim Botânico da Universidade de Coimbra

«A liberdade desenvolve-se onde é possível escolher, dia após dia, entre a solidão, a família, o grupo, a associação, a comunidade e a classe.»

António Barreto, "A liberdade é urbana", XXI Ter Opinião 2013. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, pp. 64-69. 

08/01/2013

"não se olha a vida nos olhos". Paradoxo?

Sobre a citação de Zafón: "não se olha a vida nos olhos", o olhar penetrante e indecifrável de Dürer está associado ao  trabalho produzido. Será um paradoxo?

Detalhe, Albrecht Dürer, Auto-retrato, 1498,  daqui
 Museu Nacional do Prado, Madrid 


- Enquanto se trabalha, não se olha a vida nos olhos.

Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento. Lisboa: D Quixote, 2004, p.379.

Do mesmo livro não resisto em colocar outra citação que me encanta:

«...os acasos são as cicatrizes do destino.», p.456.



06/01/2013

"o mar de uma rosa de espuma"

Sabendo o meu gosto oriental a Myra partilhou uma tela sua com colagens que fez quando regressou da viagem à China. Obrigada Myra. :)

Como na China os direitos humanos ainda não são respeitados escolhi a citação de Cesariny:  

«queria de ti um país de bondade e de bruma 
 queria de ti o mar de uma rosa de espuma.» 

 Mário Cesariny, Manual de Prestidigitação, (Antologia Poética)

Myra Landau, Beijing - 北京, Pequim, China


Espero Myra que goste da associação com o texto.

Beijing - 北京, Pequim, China (wikipedia)

Não conheço a música popular chinesa mas gostei deste vídeo com a apresentação de Beijing (Pequim)

03/01/2013

Ruído

Jonathan Wolstenholme, Cross References , 2003

Começa a faina.
Amanhece e o relógio interroga-nos. É uma pena não sermos donos do tempo.
As viagens ficam adiadas. Os livros amontoam-se para serem abertos com mais lentidão. Nas gavetas aglomeram-se pedaços de memórias soltas.
A rotina impõe-se clara e sem tréguas. Somos escravos do tempo e do lugar.
Abro a janela sobre as árvores despidas, o frio entra e bate na cara mas nem ele me tira da letargia em que me encontro.
O manto branco desejado, quiçá o retardador de relógios, não cobre a paisagem. Nem o silêncio harmonioso habita esta casa. Rompe-o o estrepitante ruído da cidade acordada que não se compadece de sonhos.




Dream a Little Dreamer

01/01/2013

O último minuto recordado


A água chia no púcaro que elevo à boca. 

A água chia no púcaro que elevo à boca. 
«É um som fresco» diz-me quem me dá a bebê-la. 
Sorrio. O som é só um som de chiar. 
Bebo a água sem ouvir nada com a minha garganta. 

29-5-1918  in “Poemas Inconjuntos”.

Fernando Pessoa, Poemas Completos de Alberto Caeiro. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p. 144.

2013
Ainda tão novo vive de memórias.

Ontem no início do ano ouvi a versão de Bridge Over Troubled Water na voz de  Elvis

Bom ano e que a ponte seja mais forte que aguente as águas turbulentas!:)

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