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24/02/2014

Um chá com Júlio Isidro...

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Pela mão amiga de Maria Emília Matos e Silva [a quem agradeço] chegou-me o texto que apresento e que é digno de ser lido e relido.  Enquanto bebia o meu chá, na presença de Wenceslau de Moraes, retive-me no texto de Júlio Isidro, nele revi as minhas ideias...

«NÃO, NÃO ESTOU VELHO!!!!!! 
 NÃO SOU É SUFICIENTEMENTE NOVO PARA JÁ SABER TUDO! 


Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril. E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade. Passaram quatro décadas e de súbito os
portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar. Sou dos que acreditam na invenção desta crise. Um “directório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia. Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz. Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final. Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência. Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho.Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se. Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida. E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível. A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o miagre da multiplicação dos pães. Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados. Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho. Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores. Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros. Há carros topo de gama para sortear e auto-estradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade. Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados. Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem...estar para ambas as partes. Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho… Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem? E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa. Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora. E aprendemos neologismos como “inconseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exactamente o contrário do que está escrito no dicionário. Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos. E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista… Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço. E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos. É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.»

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Júlio Isidro link

* Wenceslau de Moraes, O Culto do Chá. KOBE, Typographia do "Kobe Herald", gravuras de Gotô Seikôdô, 1905 (Illustrações de Yoshiaki), p. 21.
Edição Fac-simile Comemoração dos 500 anos da Biblioteca da Universidade de Coimbra, 2014.

Tenho umas três edições diferentes deste livrinho. Apesar disso adquiri este fac-simile.

** O Chá da avó, um dos serviços mais utilizados. Fábrica de Sacavém, Assinado Gilman [ou Gilman & Companhia] :)

01/02/2013

É hora do chá

É hora do chá

– Que fazes, Ritinha,

 assim tão brejeira?

– Eu sirvo um bom chá,

 que fiz na chaleira,

 às minhas bonecas,

 pois é brincadeira.

Helena Pinto Vieira, O mundo da criança, vol. I, Rio de Janeiro, Delta: 1975. [Cortesia do Google]

(TEA) TIME

10/04/2012

"O poder do chá"

O chá é uma das minhas bebidas preferidas. Tudo o que rodeia o seu ritual me atrai, sejam as chávenas, o chá propriamente dito, ou o que o pode acompanhar, por exemplo scones com doce de amora ou manteiga.
Uma mão amiga, sabe deste meu amor, fez chegar até mim uma caixinha cheia de chá. Obrigada!

A caixinha trazia este poema sobre o poder do chá.

O poder do chá
É tão bom e suave
Que a nossa mente relaxa

Ficamos medicados...
É tão calmo o seu sabor
Como o seu aroma,
que inalamos enquanto ferve!

São ervas de tantos paladares
Que se cruzam por este Mundo fora,
e se misturam em sitiações diversas
capazes de muita coisa alterar.

Bebemos e saboreamos...
Dá-nos tranquilidade
com todo o seu poder mágico
na sua infusão que se alimenta em nós!

Vence-nos e convence-nos com a sua alma!

É uma bebida espiritual
E de fins terapêuticos
Que nos ajuda a livrar do mal!

Blossom Dearie - Tea for Two


21/03/2011

Do Jardim Japonês e ainda o chá

O Jardim Japonês da Quinta das Lágrimas, foi, como já disse, criado pela arquitecta paisagista Doutora Cristina Castel Branco que esteve em Tóquio a fazer uma especialização. Não é de grandes dimensões mas foi criado para receber o povo nipónico que visita Coimbra. As cores das paredes representam as cores de Kyoto. Para ultrapassar alguns problemas que a arquitectura do palácio colocava, a arquitecta utilizou a madeira, pintou as paredes, criou a assimetria que os jardins japoneses requerem fechando uma das janelas com um estore. As colunas foram tapadas e os tubos que transportam a água da chuva foram pintados como se de bambu se tratassem. A Quinta das Lágrimas tem um local no jardim onde foram plantados bambus no século XIX.



Uma sakura ainda sem flor.






Cada pedra e respectiva posição contam uma história e um significado que não sei explicar.




Acer e uma lanterna



O Jardim Japonês requer muito tempo para ser elaborado e muita atenção na sua manutenção. Os elementos que o caracterizam são: a vegetação, as árvores, as flores, a água e as pedras. A distribuição destas não é arbitrária, todas têm um significado, uma simbologia. O jardim retrata a representação do Universo. No entanto há um pormenor que me retém: as ondas do mar imenso que faz parte do quotidiano japonês, o mar que dá e tira, como se pôde ver com a tragédia provocada com o sismo. As ondas são desenhadas no chão e todos os dias podem mudar. A distribuição da água, do musgo, das árvores e das flores é calculada e orientada para que a beleza da natureza seja exaltada. Porém há jardins que são apenas desenhados com pedra, utilizados essencialmente nos templos.



No jardim da Quinta das Lágrimas, onde se respira paz e tranquilidade, qualquer pessoa pode beber um chá japonês. A descrição que se segue da "Arte do Chá" foi realizada excepcionalmente pela Professora Ayano Shinzato.

Sentados no chão, antes de beber o chá, a anfitriã oferece um papel de arroz com o desenho de uma sakura a cada um e coloca o bolo Castella, pão de ló, levado pelos portugueses para o Japão, no século XVI. O bolo deve ser cortado em quatro quadradinhos e comido. Habitualmente, antes de beber o chá come-se um doce ou bolo.

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Pão de Ló do Japão, Castella, feito em Portugal por Paulo Duarte.







Após a degustação do bolo é que a taça do chá é entregue.




O chá foi cuidadosamente preparado com pó de chá verde, matcha, e elaborado com um conjunto de gestos e de regras que atribuem àquele momento um acto simbólico de meditação. Depois de deitar o pó, é cuidadosamente mexido, com um determinado número de voltas.





A Professora Ayano deu a taça do chá aos convidados, rodando a taça três vezes de modo ao desenho mais importante ficar voltado para o convidado. Este recebe a taça e tem que executar os mesmos movimentos e beber o chá com o desenho virado para o anfitrião tudo seguido com um conjunto de códigos e acenos de cabeça. Na pequena taça vem o chá verde, cor mesmo verde, sem açúcar e deve beber-se em três goladas, uma, duas e a terceira deve-se absorver (com ruído) todo o chá. O ritual deve ser feito em silêncio, seguindo-se depois uma palestra ou conversa e meditação a olhar o jardim pleno de simbologia.



Sobre o chá ver em Homeopatas descalços uma excelente explicação.

20/03/2011

Um chá a pensar nos 50 japoneses que morrem para salvar o seu povo.

Na Quinta das Lágrimas, no Jardim Japonês, criado pela arquitecta paisagista Doutora Cristina Castel-Branco, assisti à arte do chá: rito efectuado pela Professora Ayano Shinzato, do curso de Japonês da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Um convite que a professora fez aos seus alunos para vivenciar a arte do chá e a harmonia do jardim japonês, à procura do simbolismo, da estética, da busca do silêncio e da meditação. Enfim, demonstrar como esta arte liberta as coisas de somenos importância, à procura do que é verdadeiramente importante - a Verdade.

Neste momento de beleza foi recordada a tragédia que o Japão vivencia e foram homenageados os 50 japoneses que estiveram e estão expostos a taxas de radioactividade letal. Quero também registar que mais 50 voluntários se apresentaram para a mesma tarefa sendo designados os novos Kamikases.

O meu agradecimento à professora e à arquitecta paisagista que nos deram uma bela lição sobre os jardins japoneses, a sua simbologia e estética.

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A Arte do Chá no jardim Japonês da Quinta das Lágrimas, Coimbra

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«Segundo a tradição da gente japonesa, Darumá, o grande apóstolo indiano do budismo, veio à China aí pelo começo do século VI da nossa era cristã, e em terras chinesas pregou em honra da verdade, iluminando o espírito dos povos [...] certa noite, as pálpebras se lhe cerraram de fadiga, e o bom Darumá deixou-se adormecer, para só acordar pela manhã. Então, pedindo a alguém uma tesoura ou instrumento parecido, cortou a si próprio as pálpebras indignas e arremessou-as ao solo, num gesto de despeito... As pálpebras, por milagre, enraizaram, dando nascença a um gracioso arbusto nunca visto, que medrou muito de pronto e cujas folhas, tratadas de infusão pela água quente, foram um remédio precioso contra o sono e contra o cansaço das vigílias. Estava conhecido o chá; tem pois na China a sua origem, e é coisa santa, como se acaba de provar.. »

Venceslau de Morais – O culto do chá. 2.ª ed. Lisboa: Vega, 1996, p. 17-18. Com desenhos de Yoshiaki




Dedico este post a todos os Japoneses e, em particular, a Luís Afonso e à sua família directa que vivem Hakata/Fukuoka, Kyushu, Japão.

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