Escuto-me sonhar. Embalo-me com o som das minhas imagens… Soletra-me em recônditas melodias (…)
O som duma frase imageada vale tantos gestos! Uma metáfora consola de tantas coisas!
Escuto-me… São cerimoniais em mim…
Cortejos… Lantejoulas no meu tédio… Baile de máscaras…Assisto à minha alma com deslumbramento…
Caleidoscópio de fragmentadas sequências, de (…)
Pompa das sensações demasiado vividas…
Leitos régios em castelos desertos, jóias de princesas mortas, por seteiras de castelos, enseadas avistadas; virão sem dúvida as honras e o poderio, para os mais felizes, haverá cortejos nos exílios… […] adormecidas, fios de (…) bordando sedas…
s.d.
Bernardo Soares
Livro do Desassossego. Vol.I. Fernando Pessoa. (Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990, p 159.
"You think you can just steal a man's life and expect there to be no price to pay?
... We all make difficult choices in life. The hard thing is to live with them."
A citação é de Rory Jansen personagem do filme The Words, de Brian Klugman. Daqui
Na idade maior, Jeremy Irons protagoniza um antigo escritor assumindo um papel de relevo que marca o final do filme.
Gilson do blogue Imaginário ofereceu-me o Prémio Dardos 2012 juntei ao outro que as minhas amigas ofereceram (visível do lado esquerdo do blogue). Agradeço a gentil oferta e partilho com todos os que têm vindo trazer os seus pensamentos.
A mim este sol, estes campos, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontento,
O que quero é um sol mais sol que o sol,
O que quero é campos mais campos que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
Aquela coisa que está ali estava mais ali que ali está!
Sim, choro às vezes o corpo perfeito que não existe.
Mas o corpo perfeito é o corpo mais corpo que pode haver,
E o resto são os sonhos dos homens,
A miopia de quem vê pouco,
E o desejo de estar sentado de quem não sabe estar de pé.
Todo o cristianismo é um sonho de cadeiras.
E como a alma é aquilo que não aparece,
A alma mais perfeita é aquela que não apareça nunca —
A alma que está feita com o corpo
O absoluto corpo das coisas,
A existência absolutamente real sem sombras nem erros
A coincidência exacta (e inteira) de uma coisa consigo mesma.
12-4-1919
“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994. p.- 145. [Arquivo Pessoa]
Febre do Feno é um filme de Laura Luchetti que tive oportunidade de ver no fim de semana passado. Roma serviu de cenário para a narração da história, uma história em que as diferentes personagens estão presas a um destino.
«Febbre da Fieno è una Commedia [?] Sentimentale dove si intrecciano amore e destino.»
Destino é uma palavra cujo significado não é consensual.
Dependerá de nós?
Será o fator sorte preponderante no destino?
Estará o destino ligado aos nossos progenitores?
?
?
Destino de Salvador Dalí serviu para animação de Walt Disney.
Com a cortesia do Youtube:
Silêncio numa noite onde nem a luz aquece é como descrevo o final belíssimo do filme:
M Butterfly
Toledo, 2011
M. Butterfly foi realizado por David Cronenberg (1993) e conta com as sublimes interpretações de Jeremy Irons no papel de René Galimard e de John Lone no de Song Liling.
René Galimard - There is no destiny, except the one we make for ourselves.
Sim. Porque todos temos uma flor, umas vezes mais escondida, outra anunciada e atrevida
e ainda outra resguardada do Sol para não perecer com a sua luz.
Para uma amiga.:)
A fotografia é do livro: Platero e Eu, de Juan Ramón Jimenez, edição dos Livros do Brasil, sem data, p. 22 e 23. Desenhos de Bernardo Marques e tradução de José Bento.
O livro veio via Livraria Lumière pela mão da Cláudia. Obrigada por mo ter feito chegar.:)
Cortesia do youtube: Amos Lee - Flower. Dirigido por kneeon (P) (C) 2011 Blue Note Records.
1 Não voltes a tocar-lhe, pois assim é a rosa!
2 pela raiz arranco o arbusto cheio ainda do orvalho da alvorada. Oh que jorro de terra olorosa e molhada, que chuva - que cegueira! - de astros em minha fronte, em meus olhos!
3 Canção minha, canta, antes de cantar; dá a quem te olhar antes de ler-te, tua emoção e tua graça; evola-te de ti, fresca e fragrante!
Juan Jamón Jimenez, Antologia Poética. Lisboa: Relógio D' Água,1992, (tradução de José Bento), pp. 97-98.
Perplexa e em estado choque, confesso, foi como recebi a notícia da morte de Manuel António Pina.
Uma morte que saiu à rua precocemente.
A minha homenagem:
Luz
Talvez que noutro mundo, noutro livro, tu não tenhas morrido e talvez nesse livro não escrito nem tu nem eu tenhamos existido e tenham sido outros dois aqueles que a morte separou e um deles escreva agora isto como se acordasse de um sonho que um outro sonhasse (talvez eu), e talvez então tu, eu, esta impressão de estranhidão, de que tudo perdeu de súbito existência e dimensão, e peso, e se ausentou, seja um sonho suspenso que sonhou alguém que despertou e paira agora como uma luz algures do lado de fora.
Manuel António Pina, Livros. Lisboa: Assírio & Alvim, 2003, p. 32.
Para a minha amiga Maria João, do Falcão de Jade, desejo um dia muito feliz.
Parabéns! :)
A inteligência, a generosidade e a alegria com que nos acolhe e pontua a sua vida levou-me a focar as Três Graças de Lucas Cranach, o Velho, que também são do seu agrado.
Lucas Cranach, o Velho, As Três Graças, 1535
Nelson-Atkins Museum of Art, Kansas City, Missouri, USA.
Aglaia[segundo Hesíodo «Esplendorosa»*] simboliza o esplendor, a glória, a inteligência e o poder criativo.
Eufrosine [«Alegre»*] prefigura o prazer (alegria) e a beleza.
Tália, [«Florida»*] representa a comédia e a poesia bucólica (pastoral).
As três Graças eram filhas de Zeus e Hera (ou Eurínome). Os seus encantos eram oferecidos a deuses e a mortais e consistiam, segundo o arquétipo referido, na alegria, na eloquência, na generosidade e na sabedoria que a minha amiga Maria João possui.
As deusas são representadas a viver no Olimpo e prestam assistência a Vénus (deusa do amor) e a seu filho, Cúpido. Não desempenham um papel central em qualquer dos mitos, mas estão presentes em algumas pinturas, nomeadamente, em cerimónias de casamento e em outras festividades. Neste sentido eram vistas como acompanhantes de Apolo no seu papel de patrono das Artes.
Aparecem referenciadas nas obras dos poetas clássicos: Homero, Ilíada XIV, 263-276; Hesíodo, Teogonia 64-65, 907-911 e Séneca, Sobre os Benefícios I,3.2.
Dados recolhidos no Guia do Apreciador de Pintura, de Marcus Lodwick, Lisboa: Editorial Estampa, 2003, (tradução Marisa Costa) p. 55 e na Wikipédia inglesa.
Eufrosine
Tália
Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caiadas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga, Diário I. Lisboa: D. Quixote, p. 30. (5 ª edição conjunta)
Aglaia
Gatinhos romanos para a acompanharem na viagem a Roma. Postal adquirido naquela cidade
Há uns tempos confundi o filme Chocolate (realizado por Lasse Hallström) com A Fantástica Fábrica de Chocolate (realizado por Tim Burton). Tive a oportunidade de rever "Chocolate" e lembrei-me bem da diferença.
Os dois filmes têm em comum:
- O protagonista Johnny Depp, um ator que muito aprecio pela personalidade que incute aos personagens;
- O chocolate, daí a confusão ser legítima.
Todavia, do segundo filme citado não guardo especial memória mas do primeiro, guardo: a tolerância, o respeito pela diferença, o vento do Norte que tiveram o condão de me encantar.
Porque adoro chocolate, principalmente, o negro, registo uma viagem ao mundo dos chocolates.
Audrey Hupburn uma das minhas atrizes favoritas afirmou:
Let's face it, a nice creamy chocolate cake does a lot for a lot of people; it does for me.
(Imagem daqui)
O narrador do filme Chocolate inicia assim a história:
Once upon a time, there was a quiet little village in the French countryside, whose people believed in Tranquilité - Tranquility. If you lived in this village, you understood what was expected of you. You knew your place in the scheme of things. And if you happened to forget, someone would help remind you. In this village, if you saw something you weren't supposed to see, you learned to look the other way. If perchance your hopes had been disappointed, you learned never to ask for more. So through good times and bad, famine and feast, the villagers held fast to their traditions. til, one winter day, a sly wind blew in from theNorth...
Quando nos sentimos no deserto o chocolate é terapia!:))
Depois do chocolate vem sempre a culpa...
Detalhe da mesa dos Sete Pecados Capiatais, A Gula, de Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid.
A imagem foi retirada do site do museu e o detalhe feito por mim.
Andas pela casa com passos leves,
pousas as mãos no colo, sorris. E eu
acredito que o mundo te acompanha.
Como eco do que fazes, formam-se
nuvens sobre o mar e cantam pássaros
em países distantes. Sei que é assim. O teu olhar sustenta o céu imenso, a luz dos astros, todas as galáxias.»
José Mário Silva
José Mário Silva in A Alma não é pequena, 100 poemas portugueses para SMS. Vila Nova Famalicão: Centro Atlântico, 2009, p. 123.
Verdi, La Traviata, prelúdio. Homenagem a Verdi que faria hoje anos.
de Marcello Simoni, O Mercador de Livros Malditos. Lisboa: Clube do Autor, 2012, p. 217.
Estou a terminar a leitura de um livro de mistério e ficção que me está a aliciar sobremaneira. Foca a viagem à procura de um livro de sabedoria divina, na Idade Média: Uter Ventorum, uma cópia de manuscritos persas, um livro que traz imensos problemas, perseguição e morte.
O protagonista é o mercador Ignazio de Toledo, o enigma para encontrar o livro é o palco da história.
O livro nas mãos erradas pode ser malicioso, nas mãos certas revela o poder dos anjos.
Sobre o escritor:
Não sei porque relacionei o livro com umas amigas mas aconteceu, talvez pela interpelação delas. Quiçá a chave esteja na sua luta?
A sua luta resume-se a mover montanhas para encontrar um mundo melhor onde a sabedoria elimina a intolerância e a diferença.
As amigas a que me refiro têm o condão de juntar pessoas na sua Cozinha (dos Vurdóns). Para elas deixo uma informação que tive ao ler o Jornal de Letras, um conto de Sophia de Mello Breyner Andresen.
Não conheço o conto mas a partir do JL (onde tomei conhecimento)
Para a minha amiga da Livraria Lumière desejo um dia muito feliz. Parabéns Cláudia!:)
O girassol está ligado ao símbolo solar por causa da sua configuração.
Segundo a mitologia grega a jovem Clytia apaixonou-se por Apolo, deus do sol. O seu amor manifestava-se na observação persistente que cruzava o céu à procura do astro-rei. Após nove dias de expectação foi transformada num girassol.
A semelhança com o sol liga a flor à glória, felicidade, respeito e dignidade. O seu brilho radiante provoca deslumbramento.
(Dados retirados do Dicionário de Simbologia das Flores).
Vincent Van Gogh, detalhe de uma das telas: "doze girassóis numa jarra", 1889,
No último feriado da Implantação da República: FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA
Aqui, na Terra, a fome continua, A miséria, o luto, e outra vez a fome.
José Saramago, Poemas Possíveis. Lisboa: Caminho, 1998.
O poema todo aqui.
Com agradecimento a Gilson que me lembrou esta dupla um pouco esquecida.
01/10/2012
Caravaggio, uma retrospetiva
DESPERTAR
É um pássaro, é uma rosa, é o mar que me acorda? Pássaro ou rosa ou mar, tudo é ardor, tudo é amor. Acordar é ser rosa na rosa, canto na ave, água no mar
Eugénio de Andrade, Poemas (1945-1965). Lisboa: Portugália, 1966, p. 171
E para louvar o dia da música, Elbow uma banda britânica de rock alternativo.
Post dedicado a Piet de Mondrian que usou excelentemente as cores primárias.
Azul, vermelho e amarelo.
" La composition à la façon de l'apparition naturelle (approche mimétique) devait être quittée pour qu'elle soit une peinture vraiment nouvelle. Un travail continu amenait le groupement à une composition exclusivement basée sur l'équilibre de rapports purs sortant de l'intuition pure par l'union de la sensibilité approfondie et de l'intelligence supérieure. Bien que des rapports se forment dans la nature et dans notre esprit suivant les mêmes lois principales et universelles, de nos jours, l'oeuvre d'art se manifeste d'une autre façon que la nature. Parce que de nos jours, dans l'oeuvre d'art, il faut tâcher d'exprimer seulement ce qui est essentiel de la nature, et, de l'homme, ce qui est universel. "
A sensação que resultou do filme de Woody Allen: Para Roma Com Amor é que tomei um gelato di cioccolato gostoso.
Saboreei toda a película como se estivesse lá a calcorrear as ruas plenas de flores.
Não posso ter a percepção profunda que tem o Manuel Poppe, do blogue Sobre o Risco. Todavia, para além de um passeio que fizera há uns anos a Roma, retornei para viver e conviver com os romanos durante uma temporada breve. Manuel Poppe descreve muito bem a essência do filme, intitulando-o um "Intermezzo". Pelo que me foi dado viver e pelas histórias que recolhi em Roma a sua visão é das melhores que já li.
A cor ocre da cidade, os cheiros por vezes pouco agradáveis, a noite alegre, plena de vida; o Transtevere tímido e as ruas repletas de pontos de água: fonte da vida marcam sem dúvida uma pessoa. A luz e as sombras são poesia, teatro e encenação constante.
A primeira ópera que conheci, na minha adolescência, foi os Palhaços de Ruggiero Leoncavallo. Apaixonei-me de imediato pela ária Vesti la ggiuba. Depois conheci outras óperas e a eleita passou a ser A Flauta Mágica. No presente há outras tantas que aprecio e me encantam.
Woody Allen não podia deixar de homenagear a ópera que, no filme, ganhou um lugar de destaque através de uma personagem suis generis, um tanto ou quanto felliniana, e mais não digo... Sugiro que vão ver o filme.
Da ópera deixo as duas interpretações que me arrepiam.
A canção Volare é o fio condutor entre as personagens e a cidade e toma um lugar proeminente no final, assumindo forma teatral na Piazza di Spagna.
(...)
Penso che un sogno cosi` non ritorni mai piu`,
mi dipingevo le mani e la faccia di blu.
Poi d'improvviso venivo dal vento rapito,
e incominciavo a volare nel cielo infinito.
Volare, oh oh
cantare, oh oh oh oh.
Nel blu degli occhi tuoi blu
felice di stare quaggiu`.
E continuo a volare felice
piu` in alto del sole
ed ancora piu` su
mentre il mondo
pian piano scompare
negli occhi tuoi blu
La tua voce e` una musica dolce che suona per me...
(...)
Mais uma canção que se ouvia em casa dos meus pais: UnaLacrima sul viso.
Bobby Solo (Roberto Satti) estreou-se no Festival de Sanremo com a canção UnaLacrima sul viso. Era conhecido como o Elvis italiano. Roberto Satti nasceu em Roma em 1945.
Nunca vi o filme em que a canção é protagonista (1964), apenas sei que foi realizado por Ettore Maria Fizarrote, o mesmo realizador de "Non son degno de ti" (1965).