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25/02/2017

"A cada qual..."


A cada qual dá Deus o frio conforme anda vestido.

Carlos Pittella e Jerónimo Pizarro, "Como coleccionar Provérbios" in Como Fernando Pessoa pode mudar sua vida, primeiras lições.  Lisboa: Tnta da China, 2017, p.61.



15/07/2016

"Rir de tudo"

Seguindo o mote de Cesariny, o que "importa" é "rir de tudo", porque não começar a rir com o pequeno -almoço, a primeira  refeição do dia?

Ingredientes:
2 fatias de pão
manteiga q.b.

Olha-se para a torradeira maravilhado como quem espera uma iguaria do outro mundo. Espera-se uns minutos, salta o pão, barra-se a manteiga e acompanha-se com chá, café ou café com leite. Bom proveito!



Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra


Mário Cesariny, Nobilíssima Visão, Assírio & Alvim, 1991


11/01/2014

Em memória de Al Berto

Al Berto nasceu em Coimbra em 1948 e faleceu em Lisboa em 1997.

A Escrita

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

Al Berto, O Medo. Lisboa: Círculo dos Leitores 1991.

Para ouvir o silêncio...
 

05/01/2014

Livros, deleite da alma - III, Júlio - Saúl Dias

Mais um livro natalício que me deleitou a alma:  Júlio - Saúl Dias o universo da invenção.
Júlio Maria Reis Pereira, na pintura, Júlio, na poesia Saúl Dias, transpôs para a escrita e a pintura o seu gosto pela beleza do amor e pela harmonia da música. Assim o afirmou, o seu irmão, José Régio: "os trabalhos de Júlio aproximam-se da poesia e da música (...) por aquilo em que poesia e música são Arte e são das mais puras realizações da Arte". (p.13*.)

Júlio, Velho Poeta Pintor, 1977 - Aguarela
Colecção de Humberto de Castro, Lisboa (fotografada a partir do livro)

As tardes inventei-as.

Fulgurantes umas, 
sonolentas outras,
quentes ou arrepiantes
e todas
geradoras de instantes
impossíveis...

Atiro o braço ao ar
e quero que ele prenda
uma estrela, um cometa,
o floco da renda
de mil Cassiopeias...

É dia e há luar...

As tardes inventei-as.

Saúl Dias, «Tardes Inventadas», in Obra poética, p. 243*.
(*Retirado do livro de Maria João Fernandes,  Júlio - Saúl Dias o universo da invenção. Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 1984, p. 58)

Para explicar as diferentes vertentes da sua arte Júlio usou uma expressão de Nietzsche: 
"Quando se ama o abismo é preciso ter asas". Tal afirmação levou-me a procurar a poesia do filósofo. Escolhi um poema que sem dúvida está ligado a Júlio e que eu vejo nas suas aguarelas e desenhos.

Declaração de Amor
(e o poeta cai na armadilha)

Ó maravilha! Voará ainda? 
Sobe e as suas asas não se mexem? 
Quem é então que o leva e faz subir? 
Que fim tem ele, caminho ou rédea, agora? 

Como a estrela e a eternidade 
Vive nas alturas de que se afasta a vida, 
Compassivo, mesmo para com a inveja... 
E quem o vê subir sobe também alto. 

Ó albatroz! Ó minha ave! 
Um desejo eterno me empurra para os cimos 
Pensei em ti e chorei. 
Chorei mais e mais... Sim, eu amo-te! 

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência" (citador)

Também não foi por acaso que escolhi a aguarela apresentada. Nela vejo o pintor, que carrega às costas um violino, a música, e a paixão com que pinta, e, embora não se veja na tela, o que vai resultar dessa pintura é o amor entre dois jovens, possivelmente, o amor que motivou toda a sua vida de artista e escritor.



Uma curta metragem de Manoel de Oliveira

03/01/2014

Livros, o deleite da alma - II, Recordações da Ilha

Outro livro que enriqueceu a minha biblioteca, este Natal, foi Recordações da Ilha, de Maria João Falcão, do blogue Falcão de Jade.

Infância


A minha ilha perdida

Sentada no jardim, imaginava os pássaros de todas as cores que esvoaçavam pela ilha, volteando, fazendo barulho e se calavam, misteriosamente, quando a chuva caía.
Os pássaros amarelos-e-verdes, que eu via construir os ninhos, entrelaçando fitas de andala, como pequenos cestos que depois baloiçavam nos ramos arqueados da buganvília, ou nos braços doces da goiabeira. Que num instante desfazem o trabalho meticuloso de tantas horas para irem buscar outro poiso, deixando o ramo de onde pendiam despido e sem vida. Os que saltitam, de arbusto em arbusto, fazendo estalar a comprida cauda negra, fina e móvel: os truqui sum deçu, os passarinhos de Deus que, segundo a lenda são-tomense, vão de manhã acordar o Senhor nos céus. Longe na floresta, estão ôssobô e o seu canto mavioso que anuncia as chuvas. Perto, na praia Gamboa, na pobreza e no cinzento  de tantas vidas fechadas, a poesia das garças brancas, o leve bater de asa suspenso sobre o verde-vivo do capim. E os pássaros azuis. E os vermelho-e-negros. Os infinitos pássaros sem nome que alegram a ilha.

Maria João Falcão, Recordações da Ilha. Print Culture, p.3.


29/11/2012

Segunda de cinco ideias...

Segunda de cinco ideias para pensar com os olhos.

2 - Nem sempre as coisas são aquilo que parecem. Nem sempre uma coisa sabe parecer aquilo que é. Materializar uma ideia reforça a própria ideia.

Somente o texto é de Paulo Condessa,  do catálogo Image Night - Exposição de Fotografia 2000. A imagem é escolhida por mim segundo as palavras que li.





Blaze 1, Emulsion on Hardboard, obra criada em 1962, pela pintora inglesa Bridget Riley Retirada daqui

26/10/2012

"Quand la porte est ouverte"

Toledo, Espanha
Quand la porte est ouverte 

Quand la porte est ouverte
Pour que tu puisse rentrer
Voire tes yeux dans le vert
Ne reste pas en retrait

Avance et puis espère
L'inconnu sans mystère
Peut-être prospère
Ce n'est pas une chimère

Quand ton esprit ouvert
Regarde ton avenir
Tes sens sont à l'envers
Ton bonheur à venir

Tend cette main pour vivre
L'inattendu prospère
Tu ressens bien la fibre
Du charme qui opère

Quand la porte est ouverte
Il faut bien la franchir
Pour prendre cette main offerte
Et puis un jour s'affranchir

Découvre ce nouveau lieu
L'espace que tu partage
Le coeur bien au miieu
Des yeux qui n'ont plus d'âge

Tu apporte une lumière
En rentrant par la porte
Qui éblouie à ta manière
Cet espace qui m'emporte

Quand la porte est ouverte
Il faut savoir un jour
Ouvrir toutes les fenêtres
Pour laisser rentrer l'amour

Tu feras bien de tes rêves
Une histoire pour ta vie
Quand tu feras une trève
Laisse aller tes envies

L'espace que tu occupe
Est suffisant pour deux
Pour voir à quatre yeux
Ton avenir qui se décuple

Quand la porte est ouverte
Ne plus la refermer
Dans tes pensées offertes
Pour un tendre baiser

Michel PRIVAT" ©
Copyright Septembre 2012

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