19/05/2013

"A Gaveta de Baixo"

Pela primeira vez o meu cacto teve flores, rosas de cacto, como lhe chamo.


Encontrei o livro de Rosa Lobato de Faria, A Noite Inteira Já Não Chega, no blogue
  Palavras Daqui e Dali . Uma amiga emprestou-mo.


Rosa Lobato de Faria,  in "A Gaveta de Baixo /1", A Noite Inteira Já Não Chega Poesia (1983-2010), Guimarães (Babel), p. 183.

Gostei do título do livro em que este poema está guardado - Gaveta de Baixo. À mente vieram todos os contadores, peça de mobiliário extraordinária e bela que faz parte de tesouros de muitos museus. Não tenho um contador senão imaginário e também no meu a gaveta de baixo permanece vazia.

Contador 1651-1700, Museu-Casa Dr. Anastácio Gonçalves, Matriz Net
No Dia Internacional dos Museus [18 de Maio], uma homenagem a esta Casa-Museu situada em Lisboa.




17/05/2013

"A vida, afinal, talvez seja uma encenação do desespero"

Ao passar os olhos pelos media encontrei uma notícia que me pesou no coração e abriu uma ferida na mente: 
- Uma mãe chorou que o filho trouxera da escola comida para uma casa vazia. São estes os dias de Portugal.



A vida, afinal, talvez seja uma encenação do desespero.

Al Berto, O Anjo Mudo. Lisboa. Assírio e Alvim. 2001, p. 108.

[Sem tecto mas junto ao teatro S. Carlos, Lisboa, porque:]
Quero morrer
com uma overdose de beleza.

Al Berto, "Vigílias" in O Medo. Lisboa: Assírio e Alvim, 2000, p. 259. 

16/05/2013

"César deve morrer"

«Arte é a Melhor Expressão da Liberdade»

Desde que conheci a arte a cela tornou-se uma prisão.
Expressão utilizada por Cosimo Rega  (Cassio) um condenado a prisão perpétua.

"César deve morrer" foi o grande vencedor do festival de Berlim no ano de 2012 . É um filme  dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. Recebeu o Urso de Ouro e trata-se de uma adaptação da obra "Júlio César", de Shakespeare. A interpretação foi levada a cabo por prisioneiros e os cenários passam-se   na prisão de Rebibbia, uma prisão de alta segurança.
Um filme que me deixou em silêncio. Prémios.

Associei a morte peremptória de César à pintura de Arnold Böcklin, Medusa, (c. 1878)  por causa da intriga,

File:Medusa.jpg
Acerca do filme os irmãos Taviani disseram que era:
"o relato da descoberta do poder da arte por homens que vivem uma tragédia, não apenas pelos delitos que cometeram, como pela vida dura na prisão".

Fotografias cortesia do Google
Cesare deve morire (Foto: Divulgação)




14/05/2013

Serenidade

A serenidade é um estádio difícil de alcançar. 

Piero di Cosimo, Maria Maddalena,Galleria Nazionale d'Arte Antica

cosimo maria detail



12/05/2013

Carta

(Pierpont Morgan Library, New York(Museum of Fine Arts, Boston)



Carta a Deus 

Deus, Bem avisaste que eras um Deus invejoso e vingativo. 
Também sei que Job era um caso-limite: uma ameaça do que eras capaz.  Nem eu nem a Maria João temos um milésimo da obediência e da resignação de Job. E castigaste-nos menos. Mas foi de mais. 
De certeza absoluta que nos amamos mais um ao outro do que te amamos a Ti. Sabemos que isto não está certo. Mas foste Tu que nos fizeste assim. Admite: deste-nos liberdade de mais. Foste presunçoso: pensaste que Te escolheríamos sempre primeiro. Enganaste-Te. 
Quando inventaste o amor, esqueceste-te de que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e Tu. Por uma questão de tangibilidade. E, desculpa lá, de feitio. 
Tu, Deus, tens o pior das arrogâncias feminina e masculina. Achas que só existes Tu. Como Deus, até é capaz de ser verdade. Mas, para quereres ser um Deus real e humanamente amado, tens de aprender a ser um amor secundário. 
Sabemos que és Tu que mandas e acreditamos que há uma razão para tudo o que fazes, mesmo quando toda a gente se lixa, porque não nos deste cabeça para Te compreender. Esta deficiência foi uma decisão tua: não quiseste dar-nos a inteligência necessária. Mas deste-nos cabeça suficiente para Te dizer, cara a cara, que nos preocupamos mais com os entes amados do que contigo. 
Ajuda a Maria João, se puderes. Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar. Faz o que só um Deus pode fazer: reduz-te à tua significância. Que é tão grande. 

Miguel Esteves Cardoso, in jornal "Público" de 3 de Maio de 2012.

Miguel Esteves Cardoso, Como é Linda a Puta da Vida.  Porto Editora, 2013, p. 13.

10/05/2013

Jardim

No meu jardim ainda não há hortênsias.

Pieter Brueghel the Younger, Preparação dos canteiros,1617(?), Museu de Arte Nacional, Bucareste, Roménia

Preparation of the Flower Beds by Pieter Brueghel the Younger


Jardim

É a hora das rosas e hortênsias
alguém anda a colhê-las para mim.

Na minha casa em Águeda as ausências
passeiam ao fim da tarde no jardim.

20-3-2006

Manuel Alegre, Doze Naus. Lisboa: D. Quixote, 2007, p. 41.


07/05/2013

Desassossego

Vivemos apenas do sonho que é a ilusão 
de quem não pode ter ilusões.

Bernardo Soares, no filme de João Botelho: O filme do Desassossego.

Andrew Wyeth (1917-2009),Wind from the sea, 1947



O filme,  como o vento, esvazia-nos de tanta beleza.

«A minha pátria é a língua portuguesa.», 
citação redutora de todo o monólogo de Bernardo Soares.

[Um filme bem urdido e notavelmente transposto para o século em que vivemos. 
Não é fácil.]



Uma música que associo a este filme por causa do sonho e da ilusão.

05/05/2013

Mãe

Mãe - nos dia de hoje com toda a tristeza que possamos ter - representada 
por Rogier van der Weyden, no século XIV:

Rogier Van Der Weyden, Detalhe de Maria, mulher de Cléofas, uma das mulheres que se supõe ter presenciado a crucificação de Jesus, A Descida da Cruz, (1435-1438) Museu do Prado, Madrid


Roger Van der Weyden, Madonna e Filho (wkipainting)

Madonna and Child - Rogier van der Weyden

Leonardo da Vinci, Os Apontamentos de Leonardo, Nova Iorque: Parragon Books Ltd, 2007, p.149 (trad. Manuel Cordeiro; org. por H. Anna Sue)


No nosso país nos anos 40, fotografia retirada da revista Sábado (nº especial de aniversário)

No século XXI, em Portugal, cerca de 1/3 das crianças passa fome e é só graças à boa vontade de alguns que têm refeições nas escolas.

Fotografia de Alfred Eisenstaedt, Children at Puppet Theater, Paris, 1963, retirado da artenet.com.

Alfred Eisenstaedt, Children at Puppet Theater

É Noite, Mãe 

As folhas já começam a cobrir o bosque, 
mãe, do teu outono puro... 
São tantas as palavras deste amor 
que presas os meus lábios retiveram 
pra colocar na tua face, mãe!... 

Continuamente o bosque se define 
em lividez de pântanos agora, 
e aviva sempre mais as desprendidas 
folhas que tornam minha dor maior. 
No chão do sangue que me deste, humilde
e triste, as beijo. Um dia pra contigo 
terei sido cruel: a minha boca, 
em cada latejar do vento pelos ramos, 
procura, seca, o teu perdão imenso... 

É noite, mãe: aguardo, olhos fechados, 
que uma qualquer manhã me ressuscite!... 

António Salvado, in "Difícil Passagem" (retirado do Citador)

04/05/2013

Lírio


A Rosa e Lírio 

A rosa
É formosa
Bem sei.
Porque lhe chamam – flor D'amor,
Não sei.
A flor, Bem de amor
É o lírio;
Tem mel no aroma, – dor
Na cor
O lírio.

Se o cheiro
É fagueiro
Na rosa;
Se é de beleza – mor
Primor
A rosa:

No lírio
O martírio
Que é meu
Pintado vejo: – cor
E ardor
É o meu.

A rosa
É formosa,
Bem sei...
E será de outros flor
D'amor...
Não sei.

Almeida Garret,  Folhas Caídas - Livro primeiro, capítulo XVII. Porto: Porto Editora, 2003


The Tiger Lillies, trio formado em 1989 pelo cantor Martyn Jacques. 

01/05/2013

Bailado

Com o meu agradecimento a Myra (Parole)e a MR  (Prosimetron).

No passado dia 29 de Abril festejou-se o Dia Mundial da Dança. 
Festejo-o hoje juntamente com o 1º de Maio, Dia do Trabalhador, em memória dos que lutaram e lutam pelos seus direitos presentemente tão esquecidos pelos governantes.

A vida é um bailado...

Myra Landau, Bailado [título meu]


Myra Landau, "Rodado"

Tamara Rojo  nasceu em Montreal, em 1974,  e é a  atual diretora 
artística do English National Ballet em Londres.
" O BAILADO DAS FOLHAS "

Foi numa pálida manhã de Outono
Soturna como a cela dum convento
Que num vetusto parque ao abandono
Dei largas ao meu louco pensamento

Cortava o espaço a lamina de frio
Que impunemente as nossas carnes corta
E o vento num constante desvario
Despia as árvores da folhagem morta

Folhas mirradas como pergaminhos
Soltas ao vento como os versos meus
Bailavam loucamente p´los caminhos
Como farrapos a dizer adeus

Das débeis folhas lamentei a sorte
Mas reflecti depois de estar sereno
Que bailar á mercê de quem é forte
É sempre a sina de quem é pequeno

Desde então, o meu pobre pensamento
Fugiu para não bailar ao abandono
Como a folhagem que bailava ao vento
Naquela pálida manhã de Outono                       [Leia-se o outono da nossa política]

Letra de: Henrique Rêgo Música de: Alfredo Marceneiro (Daqui)

Poema dito por Alfredo Marceneiro


O Lago dos Cisnes

29/04/2013

Clarice

Escolhi a tela de Lorenzo di Credi para a associar a Clarice Lispector.
A exposição na Fundação Calouste Gulbenkian leva-nos a ver Clarice através de um espelho de palavras. Ela surge nas fotografias que tirei e há uma palavra que resume o que encontrei - melancolia.

Lorenzo di Credi (Lorenzo d'Andrea d'Oderigo) Retrato de uma Jovem (viúva do irmão do pintor), 
c. 1490–1500

Museu Metropolitano de Arte, Nova Iorque

EXPOSIÇÃO CLARICE LISPECTOR - A HORA DA ESTRELA
Ressalto a afirmação da escritora: E um dos indiretos modos de entender é achar bonito
in a Maçã no Escuro

27/04/2013

A abstração da música ou a Casa da Música

A Casa da Música no Porto rasga a paisagem, torna-se um grito que emerge do solo ao relacionar-se com o casario que o envolve. Bela na sua magnificência, extravagante nos seus gastos, ali se ergue imponente. Não ensurdece, na sua árida pedra ouve-se a límpida melodia.

Casa da Música, Porto

Relacionando esta Casa com uma poetisa "portuense"** , dela registo as palavras que li recentemente:
«A água desempenharia um papel musical, como o acompanhamento duma sinfonia de verdura.»

Porto, 14 de Julho de 2004,
Agustina Bessa-Luís*,  no livro: revelação da água, texto de Agustina Bessa-Luís, fotografia de João Menéres. Porto: Edição, João Menéres, 2005.

Este edifício não tem um ponto que dê um enfoque à água mas a música assemelha-se a essa preciosidade que «sempre foi relacionada com a fonte da vida»*.


[Um livro belíssimo em imagem e em palavras, voltarei a ele, se os autores não se importarem].



**Agustina Bessa-Luís nasceu em Vila Meã-Amarante.

25/04/2013

Máscara

Trinta e nove anos depois do 25 de Abril, com os cravos sedentos, celebro este dia com um poema de Jane Gatti: Máscara.

Lorenzo Lippi, detalhe de Mulher com Máscara 

Máscara

Chega um dia em que podemos enfim tirar a máscara, 
deixar cair a fantasia 
e ser quem sempre fomos 
sem que ninguém houvesse percebido. 
Chega um dia em que podemos dizer “Basta!” 
e virar as costas, 
e bater a porta. 
Chega um dia em que tudo acaba. 
Ou será que tudo se inicia?

Lorenzo Lippi, Mulher com Máscara ou a Alegoria da Simulação
(c. 1640)

"Ombra fedele anch'io", música composta por Riccardo Broschi para seu irmão Farinelli.

23/04/2013

Na Biblioteca Nacional - (III) Verdi & Wagner

Intróito em detrimento do Dia do Livro



A Biblioteca Nacional é guardiã de livros portugueses e estrangeiros e de documentos de várias tipologias. 
Ao visitá-la, para nos recolhermos na leitura ou no estudo, encontramos exposições que, para além do livro, nos relatam contextos tornando o espécime visível.

Verdi e Wagner: 200 anos.
Uma mostra interessante.
«No ano em que se celebra o bicentenário do nascimento de dois dos maiores nomes da história da música dramática, Giuseppe Verdi (1813-1901) e Richard Wagner (1813-1883), a Biblioteca Nacional de Portugal associa-se ao Centro Histórico do Teatro Nacional de São Carlos para assinalar a dupla efeméride. Nesta mostra evocativa dos dois compositores, são apresentados documentos manuscritos e impressos e materiais utilizados nas produções de algumas das suas óperas, pertencentes às coleções da BNP e ao Arquivo do TNSC.» 
BNP
Projetos do Cenário

Verdi, Aida


Wagner

Parsifal, projeto de cenário de Peter Busseger, 1973

Parsifal, Prelude, I Acto

Verdi, La Traviata

La Traviata, Ouverture

Cartão perfurado da ópera Aida para ser ouvida mecanicamente

Perspetiva geral de uma parte da exposição

Traje de Cena, La Traviata (Verdi), 2002

Trajes de Cena Tannhäuser (Wagner), figurinista Toni Businger,1993

Maqueta usada no TNSC para a Trilogia o Anel do Nibelungo

À entrada da exposição somos recebidos com cenografia da Aida

21/04/2013

Na Biblioteca Nacional - II

Literatura de Cordel no Brasil. Outra exposição na Biblioteca Nacional de Portugal que merece uma visita.
Reparem nos títulos, são deliciosos. 
Desconheço este tipo de literatura e tenho pena de não poder pegar num livrinho, folhear e ler.



«Os folhetos que em Portugal, na Espanha e na América latina são ditos de cordel, porque outrora eram suspensos - para exposição e venda - de cordéis, apareceram em Portugal, como noutros países da Europa, poucas décadas depois da descoberta da imprensa, e foram até meados do século XX um poderoso meio de comunicação popular. Levados por emigrantes para o Brasil, aqui começaram alguns a ser reeditados pouco depois de D. João VI ter criado a primeira tipografia, em 1808; imitados ou recriados, permitiram que antes do final do século Leandro Gomes de Barros, Silvino Pirauá de Lima e outros poetas populares, sobretudo da Paraíba e de Pernambuco, fixassem os modelos do folheto de cordel brasileiro, que como regra ainda se mantêm, apesar das transformações sociais e tipográficas: papel mais ou menos ordinário, formato raramente afastado dos 15x12 ou 16x11 centímetros, simplicidade gráfica, capa ilustrada, com privilégio da xilogravura, impressão rudimentar, enunciação oralizante e narrativa, linguagem concreta, popular e coloquial, fixação quase exclusiva na expressão poética, com preferência pelo verso setissílabo e pela sextilha, gosto do cómico e da crítica social, abertura temática mas com atracção por certos “ciclos”…»
Arnaldo Saraiva


Cordel: Feira de São Cristóvão

São Cristóvão é nos domingos
O ponto mais brasileiro
Encontro dos nordestinos
Que estão no Rio de Janeiro
Lá passam horas saudosas
Comendo coisas gostosas
E ouvindo um bom violeiro.

O nordestino que fez
O grande Rio crescer
Construindo arranha-céus
Se arriscando a morrer
Comandado pelos gringos
Tem direito aos domingos
Ter seu lugar de lazer.

O Campo de São Cristóvão
É palco de tradição
Dos primeiros nordestinos
Que deixaram seu torrão
Sua família querida
Vieram tentar a vida
Viajando em caminhão.


João José dos Santos
Cadernos do CNLF, Vol. XVI, Nº 04, t. 2, pág. 1717.

18/04/2013

Seis azulejos para o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios

No Dia Internacional dos Monumentos e Sítios a minha escolha recai num
detalhe de um Painel de Azulejos, Lição de Música, atribuído ao monogramista PMP, 1700-1730
Museu Nacional do Azulejo, Lisboa


Fuga
O músico procura 
Fixar em cada verso 
O cântico disperso 
Na luz, na água e no vento. 

Porém, luz, vento e água 
Variam riso e mágoa, 
De momento a momento. 

E em vão a área dos dedos 
Se eleva! Não traduz 
Os súbitos segredos 
Escondidos no vento, 
Nas águas e na luz... 

Pedro Homem de Mello, in "Segredo" (Retirado do citador)

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