09/07/2015

"O futuro"

De cabelos ao vento

Não sei se o homem tem o destino traçado, mas o berço em que se nasce é facilitador do seu destino. Será a audácia, a ventura, ou o acaso, o determinante? 
Pensamento que me ocorreu ao ler o trecho de Rachel Joyce.
O livro teve o condão de me transportar à infância/adolescência. O bizarro que envolve o tempo roubado prende-nos à leitura.

Rachel Joyce escreveu argumentos para a rádio, televisão e teatro. Recebeu o National Book Award com o livro A improvável viagem de Harold Fry, em 2012. É o primeiro livro que leio da autora e escolhi-o por causa do título fabuloso: O Bizarro Incidente do Tempo Roubado. A capa do livro também é muito bonita.
Imagem da capa.

«Um romance empolgante sobre as restrições esmagadoras que uma classe social pode impor, o fardo das expectativas dos pais e o estigma ligado às doenças mentais.»
The Independent.

James Lowe e Byron Hemmings frequentavam a Winston House School porque era privada. Havia outra escola mais perto, mas não era privada; era para toda a gente. Os miúdos que frequentavam essa escola vinham do bairro social de Digby Road. Das janelas de cima do autocarro, atiravam cascas de laranja e beatas de cigarro aos rapazes da Winston House.  Os rapazes de Winston House não iam de autocarro. As mães é que os levavam de carro porque a distância ainda era grande.
        O futuro dos rapazes da Winston House estava traçado. A história deles tinha um princípio, um meio e um fim. No ano seguinte, fariam o exame de admissão à escola secundária. Os rapazes mais inteligentes ganhavam bolsas de estudo e, aos treze anos, iriam para escolas internas. Falariam com a pronúncia certa e aprenderiam as coisas certas e conheceriam as pessoas certas. Depois viria Oxford ou Cambridge. Os pais de James estavam a pensar em St. Peter's; os de Byron em Oriel. Seguiriam carreira em Direito ou na City, na Igreja ou nas Forças Armadas, exatamente como os pais. Um dia teriam um apartamento em Londres e espaçosas casas de campo onde passariam fins de semanas com as mulheres e os filhos.

Rachel Joyce, O Bizarro Incidente do tempo Roubado. Porto: Porto Editora, 2015, p. 15.

16 comentários:

  1. Registo a sugestão literária enquanto me vou deliciando a ouvir um Dylan na flor da juventude.
    Beijinhos

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    1. Boa noite, Pedro.
      Há uns anos ouvia tantas vezes Dylan.
      Beijinho. :))

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    2. Até Agosto, ana.
      Vou de férias.
      Beijinhos

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    3. Boas férias, Pedro.
      Beijinhos. :))

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  2. Aguçado apetite resta procurar por aí.
    "O futuro a Deus pertence" diz o povo, mas fica nas mãos dos homens tudo o que há a fazer; uns com todas as oportunidades e outros com quase nenhumas.
    Boa tarde, Ana. Voltemos ao Dylan.

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    1. Agostinho,
      É verdade fica nas mãos dos homens, mas julgo que não só.
      Boa noite. :))

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  3. Sabe que este fatalismo a que as classes sociais estão destinadas foi sempre algo que me interessou. Não tenho qualquer formação no campo, razão pela qual nunca quis, nem conseguiria, fazer um estudo digno e sério sobre o assunto (já muita gente se debruçou sobre ele, mas nunca é demais verificá-lo por nós mesmos).
    É algo que também serve de base para estabelecer os parâmetros de desenvolvimento, hierarquização e separação das classes sociais, e, é interessante, há pessoas que, beneficiando do sistema, não se dão conta dele ... fico sempre a pensar se essas pessoas estão as esconder a cabeça na areia ou se serão mesmo inconscientes.

    Trouxe-nos um Bob Dylan ainda imberbe (eu ouvi-o ao vivo muito mais tarde, assim como à sua antiga companheira, Joan Baez), e recordou-me que um dia, numa noite de veludo negro, coberto de minúsculas estrelas, algumas cadentes, frente a um mar de breu, apaixonei-me ao som deste "Blowin'in the wind" (não, não era tocado por Dylan) - e eu era ainda muito jovem (só pode!).
    Quero agradecer-lhe o ter-me servido o passado em bandeja de nostalgia
    Manel

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    1. Manuel,
      Achei graça à sua afirmação sobre a inconsciência da própria sorte. Talvez tenha que ver com querer-se sempre mais e mais logo, não se dá valor ao que se tem.

      Há uns anos ouvia muito Bob Dylan e Joan Baez, depois fui deixando de ouvir. É bom regressar ao passado, pelo menos às vezes.
      As memórias são sempre aprazíveis quando sabemos guardar o que vale a pena.
      Esta música é bela para uma noite com estrelas mesmo sem ser tocada por Dylan.
      Fico contente por ter provocado uma boa viagem ao passado.
      Boa noite. :))

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  4. Ana,
    Será que, à nascença, todos temos as mesmas possibilidades? Nem pensar. A maioria das pessoas, por condicionalismos vários, tem o destino traçado, e isto desde sempre, mas há sempre alguém que o consegue driblar. E é esta possibilidade, embora diminuta, que dá alguma vida ao marasmo das sociedades. Será esta a origem dos milagres? :)
    Este é um daqueles temas em que dá para escrever, escrever, que o marasmo tudo abarca, seja em euros ou em dracmas, devido à falência dos oráculos. :)

    Um beijinho :)

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    1. AC,
      Tem razão, alguns conseguem driblar o seu destino. Não sei se são milagres mas os que conseguem mover as águas e parar o marasmo são afortunados, não acha?
      Hoje, ouvi o ministro das Finanças alemão a afirmar que o novo ministro das Finanças grego era convencional, depois deve ter reparado no que disse que completou apesar do anterior ser um bom economista.
      Fez-me muita impressão pois gosto de pessoas diferentes.
      Um beijinho. :))

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  5. ~~~
    ~ Fiquei completamente seduzida, não vou deixar de o ler...

    ~ Interessantíssimo, ouvir Bob Dylan aos 22 anos!

    ~~~~ Beijinho grato, Ana. ~~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Todos os destinos estão nas nossas mãos

      a transformar pedras em sonhos
      mais livres que os pássaros
      Bj

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    2. Majo,
      Estou a gostar do livro mas há uma personagem que ainda não consigo ver bem ligada com as outras. Por isso, neste momento, acho que há um problema na ligação das personagens. Talvez mude de opinião.
      Beijinho. :))

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    3. Mar Arável,
      Nem sempre as nossas mãos podem mudar as contrariedades.
      Beijinho. :))

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