Não sei se o homem tem o destino traçado, mas o berço em que se nasce é facilitador do seu destino. Será a audácia, a ventura, ou o acaso, o determinante?
Pensamento que me ocorreu ao ler o trecho de Rachel Joyce.
O livro teve o condão de me transportar à infância/adolescência. O bizarro que envolve o tempo roubado prende-nos à leitura.
Rachel Joyce escreveu argumentos para a rádio, televisão e teatro. Recebeu o National Book Award com o livro A improvável viagem de Harold Fry, em 2012. É o primeiro livro que leio da autora e escolhi-o por causa do título fabuloso: O Bizarro Incidente do Tempo Roubado. A capa do livro também é muito bonita.
«Um romance empolgante sobre as restrições esmagadoras que uma classe social pode impor, o fardo das expectativas dos pais e o estigma ligado às doenças mentais.»
The Independent.
James Lowe e Byron Hemmings frequentavam a Winston House School porque era privada. Havia outra escola mais perto, mas não era privada; era para toda a gente. Os miúdos que frequentavam essa escola vinham do bairro social de Digby Road. Das janelas de cima do autocarro, atiravam cascas de laranja e beatas de cigarro aos rapazes da Winston House. Os rapazes de Winston House não iam de autocarro. As mães é que os levavam de carro porque a distância ainda era grande.
O futuro dos rapazes da Winston House estava traçado. A história deles tinha um princípio, um meio e um fim. No ano seguinte, fariam o exame de admissão à escola secundária. Os rapazes mais inteligentes ganhavam bolsas de estudo e, aos treze anos, iriam para escolas internas. Falariam com a pronúncia certa e aprenderiam as coisas certas e conheceriam as pessoas certas. Depois viria Oxford ou Cambridge. Os pais de James estavam a pensar em St. Peter's; os de Byron em Oriel. Seguiriam carreira em Direito ou na City, na Igreja ou nas Forças Armadas, exatamente como os pais. Um dia teriam um apartamento em Londres e espaçosas casas de campo onde passariam fins de semanas com as mulheres e os filhos.
Rachel Joyce, O Bizarro Incidente do tempo Roubado. Porto: Porto Editora, 2015, p. 15.