Recebi este cartão de Natal da Galeria 111 que me tocou profundamente.
A beleza dos opostos!
O mundo cinzento em que vivemos, com governantes desumanos e de certa maneira loucos, representados pelas árvores cinzentas.
As árvores vermelhas, simbolizando o Natal e a alegria, crescendo de forma invertida, grito de alerta? Dor? Talvez misto de alegria e dor. E assim, passa mais um ano onde é difícil encontrar harmonia.
Obrigada Galeria 111 pela beleza que entrou pela minha janela.
Um dia muito, muito, feliz na companhia de livros, pois está claro! :))
Pó
Nas estantes os livros ficam (até se dispersarem ou desfazerem) enquanto tudo passa. O pó acumula-se e depois de limpo torna a acumular-se no cimo das lombadas. Quando a cidade está suja (obras, carros, poeiras) o pó é mais negro e por vezes espesso. Os livros ficam, valem mais que tudo, mas apesar do amor (amor das coisas mudas que sussurram) e do cuidado doméstico fica sempre, em baixo, do lado oposto à lombada, uma pequena marca negra do pó nas páginas. A marca faz parte dos livros. Estão marcados. Nós também.
Adquiri o livro: O Pensamento Esotérico de Fernando Pessoa, ensaio de Yvette Centeno, da Coleção &etc na Livraria Lumière. Admiro a inteligência de Yvette Centeno e sempre me atraiu e fascinou o esoterismo de Fernando Pessoa. Não é um assunto que domine, no entanto, desperta a minha curiosidade.
Capa e ilustração de Carlos Ferreiro.
Adoro a capa do livro. Para mim, ela leva-me até ao Cais das Colunas. (foto minha)
Assim a Lei é (1) descobrir o que somos, para que saibamos o que é que intima e verdadeiramente queremos, independentemente do que suppomos que queremos ou do que julgamos que devemos querer; (2) confornar todos os nossos pensamentos, emoções e impulsos com essa nossa intima e verdadeira vontade, por agradáveis que nos sejam,ou úteis que nos parecem, por isso que não são nossos, mas somente agradáveis e talvez úteis; (3), feito isso, recusar systematicamente toda a acção externa que não sirva os fins d'essa nossa verdadeira vontade, recusando-nos a ceder ás solicitações do chamado dever, ás chamadas da humanidade e aos receios do ridiculo e do maguante".
Yvette Centeno,O Pensamento Esotérico de Fernando Pessoa, Lisboa: &etc, 1990, p. 31
O livro foi editado em 1990 e teve uma tiragem de 500 exemplares. Congratulo-me por ter um deles.
Yvette Centeno faz uma leitura profunda e simbólica da obra de Pessoa, colocando em diálogo a poesia com tradições herméticas e iniciáticas. Desvenda a dimensão mística e transformadora na escrita pessoana. O poema Do Vale à Montanha está referenciado na página 30 do livro em epígrafe.
Do vale à montanha,
Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por casas, por prados, Por quinta e por fonte, Caminhais aliados.
Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por penhascos pretos, Atrás e defronte, Caminhais secretos.
Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por plainos desertos Sem ter horizontes, Caminhais libertos.
Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por ínvios caminhos, Por rios sem ponte, Caminhais sozinhos.
Do vale à montanha, Da montanha ao monte Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por quanto é sem fim, Sem ninguém que o conte, Caminhais em mim.
24-10-1932
Fernando Pessoa, Poesias. (Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1942 (15ª ed. 1995). p.146. (Arquivo Pessoa)
Obra Poética e em Prosa. Vol. I. Fernando Pessoa. (Introdução, organização, biobibliografia e notas de António Quadros e Dalila Pereira da Costa.) Porto: Lello, 1986. p. 157.
Enid Blyton foi uma das minhas escritoras preferidas. Encontrei A Aventura na Ilha, da Editora Meridiano, s.d., na Feira de Velharias pela módica quantia de um euro e cinquenta cêntimos.
Finalmente, consigo ter este título e vou relê-lo com prazer! Li-o através da biblioteca fixa da Biblioteca Calouste Gulbenkian.
A coleção é composta por oito títulos. Este foi o primeiro que li e recordo que gostei muito. (https://www.enidblyton.net/adventure-series/)
O ambiente de mistério, os lanches, os famosos scones constituem ainda uma memória viva!
Quando visitava a minha avó e havia um tempo de espaço para a leitura, lembro-me dos lanches que, aliados à leitura, superavam sempre as expectativas.
Nas histórias havia sempre uma descrição gastronómica que acompanhava as aventuras.
Hoje em dia, os livreiros têm um árduo trabalho, pois o mercado tem enfrentado uma concorrência cada vez mais acentuada, marcada por profundas transformações nos hábitos de leitura.
A tradicional livraria de bairro teve que se adaptar a um cenário onde dominam as grandes superfícies, as cadeias multinacionais e as plataformas digitais. A comodidade das compras digitais, associada a campanhas promocionais agressivas e prazos de entrega rápidos, tem levado muitos leitores a preferir esta forma de aquisição de livros, em detrimento do atendimento personalizado das livrarias físicas, o que é pena!
Os livros da minha infância foram todos comprados nas livrarias tradicionais. Onde vivi só havia, na época (anos 60), duas livrarias e uma delas ainda acumulava a função de papelaria.
Agradeço a todos os livreiros tradicionais que ainda resistem, tendo em especial atenção as poucas livrarias que fazem parte do meu coração.
“You might forget many things in your life, but you never forget kindness."
Sara (Grandmere) https://www.goodreads.com/work/quotes/66683700-white-bird
O filme Pássaro Branco é um drama histórico passado durante a ocupação nazi, em França. Utiliza uma linguagem fantástica e imagens poéticas para comunicar a importância da empatia, generosidade e imaginação como meios de resistência moral.
O tema é profundamente relevante se extrapolarmos para os conflitos contemporâneos, como o atual conflito Israelo-Palestiniano.
Como é possível que o genocídio se perpétue? Como é possível que quem sofreu desse mal o perpétue?
Como é que podemos transformar a diferença numa força para o bem comum?
Enfim, o filme expõe a urgência de combater o antissemitismo, o discurso de ódio, o negacionismo e a intolerância, que ressoam hoje nos conflitos globais.
Ficha técnica simplificada:
Realizador: Marc Forster.
Roteiro: Mark Bomback
Elenco: Helen Mirren (avó Sara e narradora), Ariella Glaser (adolescente, Sara Blum), Orlando Schwerdt (Julien Beaumier), Bryce Gheisar (neto de Sara, Julien Albans), Gillian Anderson (Vivienne Beaumier, mãe de Julien).
Baseado numa história real, o filme: A Virgem Vermelha ocorre em 1931, durante a Segunda República Espanhola (1931-39) e narra a vida da escritora Hildegart Rodríguez.
Não há palavras para descrever a intensidade, a maldade, a frieza, o calculismo do amor (?) maternal perpassado na película.
A actriz Alba Planas Hildegart L. G. H. María del Pilar Rodríguez Carballeira
«Aurora educou a sua filha como uma mulher perfeita, sem falhas e capaz de mudar o mundo com a sua visão através de uma educação espartana, segundo os princípios da filosofia Eugenista. Aurora fez tudo para melhorar a competitividade, a resistência e a educação da filha. Aos oito anos a criança falava quatro línguas e aos 17 anos Hildegart era a advogada mais jovem de Espanha. A mãe estava obcecada no aperfeiçoamento da espécie humana e da sociedade.» https://cinemametropolis.com/a-virgem-vermelha/
A Virgem Vermelha, realizadopor Paula Ortiz,foi apresentado no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, em 2024, onde arrecadou o "Prémio Goya" para o Melhor Figurino.
Elenco: mãe, Najwa Nimri, Aurora Rodriguez, filha, Alba Planas, Hildegart Rodriguez, criada ,Aixa Villagrán, Macarena e Patrick Criado, namorado e político, Abel Velilla.
Flores Perdidas de Alice Hart é uma minissérie dramática que acompanha a vida de Alice, uma jovem marcada por uma infância traumática. Após a morte trágica dos pais, é acolhida pela avó, June, interpretada por Sigourney Weaver, numa quinta isolada onde vivem apenas mulheres. A série explora os segredos familiares, o impacto da violência doméstica e a jornada emocional de cura e descoberta pessoal.
Sigourney Weaver dá vida a June Hart, uma figura enigmática, forte e complexa, que esconde os seus próprios segredos enquanto tenta proteger a neta de um passado que insiste em regressar. A sua interpretação poderosa confere profundidade emocional à personagem e contribui decisivamente para o impacto dramático da série.
Com uma realização cuidada, paisagens arrebatadoras e uma banda sonora emotiva, a série convida o espectador a mergulhar numa história de dor, crescimento e libertação.
Mais do que um drama familiar, esta produção é um retrato poético sobre como as feridas do passado moldam o nosso presente — e sobre a possibilidade de florescer.
Gostei de ver Flores Perdidas de Alice Hart. A série tem 4,5 em 5 no Prime vídeo.
A pungência da sua interrogação ainda me causa mais admiração. Obrigada!
São Lucas, representação do século XVI.
Trata-se de um dos baixos-relevos maneiristas da igreja do Santíssimo Milagre de Santarém: representa São Lucas no seu gabinete de trabalho e foi lavrado, cerca de 1545-1548, por Diogo de Çarça (ou melhor, Diego de la Zarza), um famoso escultor de Ávila que se veio a destacar depois em Portugal, onde morreu em 1559 (...) , Vitor Serrão
Para saber mais leia aqui: https://www.facebook.com/vitor.serrao.58/?locale=pt_PT
Um dos livros que li e me marcaram foi Coração Pensante, Ensaios sobre Israel e a Palestina,
de David Grossman
Olho para o resto das pessoas e vejo choque. Estupor. Um peso constante oprime os nossos corações. Dizemos e voltamos a dizer uns aos outros: é um pesadelo. Um pesadelo incomparável. Não há palavras para o descrever. Não há palavras para o conter. Vejo também um profundo sentimento de traição. A traição dos cidadãos pelo seu governo. [...] O que vimos foi o abandono deste país em benefício de interesses mesquinhos...
David Grossman, Coração Pensante, Ensaios sobre Israel e a Palestina, (tradução de Lúcia Liba Mucznik). Lisboa, D. Quixote, 2024,p. 15 e 16
Obrigada, MR!
Evaristo Baschenis, still life with musical instruments, books and sculpture, c. 1650,
Sei agora o que nunca soube – que o amor encontra o seu estado mais puro quando julgamos que o fim chegou finalmente entendo que o amor pode ser precisamente essa ausência, o deixar de estar, ser capaz de apreciar cada minuto da nossa memória como se segurássemos, entre as mãos, um punhado de brasas num deserto de gelo.
Contracapa do livro, O luto de Elias Gro, de João Tordo
Há muito tempo que não lia um livro tão triste!
Já nem me lembro... de há quanto tempo um livro me fazia chorar. Encontrei-o na biblioteca. Um acaso levou-me a escolhê-lo. É um livro que liga bem com a liturgia pascal, encontramos Cristo e Deus,sem se saber se são sombras ou luz. O que mais me admirou no escritor foi a sua idade jovem, tinha 40 anos quando publicou este título.
É mais fácil desistir do que resistir, mas o destino leva a personagem principal a renascer.
É talvez o último dia da minha vida. Saudei o sol, levantando a mão direita, Mas não o saudei, para lhe dizer adeus. Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada. 1920?
“Poemas Inconjuntos”. Poemas Completos de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Recolha, transcrição e notas de Teresa Sobral Cunha.) Lisboa: Presença, 1994, p.152.
O filme A família Bélier, realizado por Eric Lartigau é de 2014. Contudo é intemporal! A história é muito interessante e simples, passada numa família peculiar, pois os pais e o irmão são surdos-mudos e só a filha é que ouve. Mais não digo, aconselho vivamente a ver. Tem um actor que aprecio muito, Éric Elmosino.
Je Vole, Louane Emera, canção de Michel Sardou (cortesia youtube)
Je Vole
Mes chers parents, je pars Je vous aime mais je pars Vous n'aurez plus d'enfant Ce soir
Je n'm'enfuis pas, je vole Comprenez bien, je vole Sans fumée, sans alcool Je vole, je vole
Elle m'observait hier Soucieuse troublée, ma mère Comme si elle le sentait, en fait elle se doutait Entendait
J'ai dit que j'étais bien, tout à fait l'air serein Elle a fait comme de rien, et mon père dèmuni A souri Ne pas se retourner, s'éloigner un peu plus Il y à la Gard, une autre gare et enfim, l'Atlantique
Mes chers parents, je pars Je vous aime mais je pars Vous n'aurez plus d'enfant Ce soir
Je n'm'enfuis pas, je vole Comprenez bien, je vole Sans fumée, sans alcool Je vole, je vole
J'me demande sur ma route Si mes parents se doutent Que mes larmes ont coulé Mes promesses et l'envie D'avancer
Seulement croire en ma vie Tout ce qui m'est promis Pourquoi, où et comment Dans ce train que s'éloigne Chaque instant
C'est bizarre, cette cage Qui me bloque la poitrine Je ne peux plus respirer Ça m'empêche de chanter
Mes chers parents, je pars Je vous aime mais je pars Vous n'aurez plus d'enfant Ce soirJe n'm'enfuis pas, je vole
Comprenez bien, je vole Sans fumée, sans alcool Je vole, je vole Je vole, je vole
À minha frente tenho uma linda Inês de Castro que pintou. Todos os dias agradeço a sua generosiadade.
***
A guerra é sempre entre jovens, quase crianças, que não se conhecem nem se odeiam, mas que, por causa das ordens de uns velhos que o fazem, devem matar e morrer.
Mário Escobar,A Bibliotecária de Saint -Malot. Madrid: Harper Collins, 2021 p.201, (Trad. Fátima Tomás da Silva)
É tão verdade este trecho que nos faz pensar nas guerras que hoje sofremos.
Mario Escobar Golderos é formado em História e especializado em História Moderna.
Sinopse da contracapa do livro:
Jocelyn é a guardiã da Biblioteca de Saint-Malo, uma mulher órfã que se agarra à literatura e ao seu marido, Antoine. Mas ambos correm perigo: A chegada das tropas alemãs à cidade, em especial a do comandante Adolf Bauman que, empenhado em roubar alguns dos incunábulos que a bibliotecária guarda tão zelosamente, quer acabar com a sua felicidade.
O capitão Hermann von Choltiz, amante dos livros, é enviado pelas autoridades alemãs para expurgar as bibliotecas da região, mas resiste a destruí-los. Jocelyn e Hermann começarão uma amizade impossível: Os livros unem-nos, mas a violência e a guerra separam-nos. Destinados a ser inimigos e obrigados a viver num mundo em que a loucura prevalece, os protagonistas inesquecíveis deste lindo romance transformar-se-ão em heróis cujo amor será capaz de vencer a guerra.
Nunca fui à cidade de Saint- Malot, (Bretanha)mas gostaria de a visitar. Depois de ler este livro que foca a ocupação alemã da França, durante a 2ª Guerra Mundial, o desejo cresceu.
O livro tem todos os ingredientes para nos apaixonar pela leitura: a guerra, a sobrevivência, a cumplicidade entre almas gémeas, mesmo sendo inimigos, a tentativa de salvar livros antigos do roubo e da fogueira e o quotidiano dos franceses que restaram na cidade ocupada.