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25/08/2018

Preto e Branco

O tempo passa e fica inerte
eu olho,
tu olhas,
ele olha
mas não vimos com a mesma lente.





“A fotografia é uma lição de amor e ódio ao mesmo tempo. É uma metralhadora, mas também é o divã do analista. Uma interrogação e uma afirmação, um sim e um não ao mesmo tempo. Mas é sobretudo um beijo muito cálido.”

11/05/2016

"sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres"


 



Que a nossa alma seja invadida por uma sagrada ambição de não nos contentarmos com as coisas medíocres, mas de anelarmos às mais altas, de nos esforçarmos por atingi-las, com todas as nossas energias, desde o momento em que, querendo-o, isso é possível.

Giovanni Pico Della Mirandola, Discurso sobre a dignidade do homem. Tradução e introdução de Maria de Lurdes Sirgado Ganho. Lisboa: Edições 70, 2001, p. 55.

[da dignidade do homem, às vezes esperamos mais, resta a desilusão.]


06/11/2015

A Ponte

Bridge Over Troubled Water


A Ponte

Vidraças que me separam 
Do vento fresco da tarde 
Num casulo de silêncio 
Onde os segredos e o ar 
São as traves duma ponte 
Que não paro de lançar 

Fica-se a ponte no espaço 
À espera de quem lá passe 
Que o motivo de ser ponte 
Se não pára a construção 
Vai muito mais a vontade 
De estarem onde não estão 

Vem a noite e o seu recado 
Sua negra natureza 
talvez a lua não falte 
Ou venha a chuva de estrelas 
Basta que o sono consinta 
A confiança de vê-las 

Amanhã o novo dia 
Se o merecer e me for dado 
Um outro pilar da ponte 
Cravado no fundo do mar 
Torna mais breve a distância 
Do que falta caminhar 

Há sempre um ponto de mira 
O mais comum horizonte 
Nunca as pontes lá chegaram 
Porque acaba o construtor 
Antes que a ponte se entronque 
Onde se acaba o transpor 

Sobre o vazio do mar 
Desfere o traço da ponte 
Vá na frente a construção 
Não perguntem de que serve 
Esta humana teimosia 
Que sobre a ponte se atreve 

Abro as vidraças por fim 
E todo o vento se esquece 
Nenhuma estrela caiu 
Nem a lua me ajudou 
Mas a ruiva madrugada 
Por trás da ponte aparece. 

José Saramago, Provavelmente Alegria. Alfragide: Caminho, 1985, p. 83.


Cada tempo tem a sua interpretação



25/10/2013

quadrados de luz

SILÊNCIO                                                                                                         quadrados de luz

Não interrogues. E não digas
também
segredos ao ouvido.
O próprio silêncio
é às vezes indiscreto.

Albano Martins, Assim são as Algas, poesia 1950-2000.Porto: Campo das Letras, 2000, p. 405. 
Museum Amstelkring (Igreja Nosso Senhor no Sótão)
 Oudezijds Voorburgwal 40, Amesterdão


23/02/2012

Box

Desde pequena que convivo com máquinas fotográficas. O meu pai andava sempre com uma fosse para onde fosse.

A película era a forma de reter as histórias de família. Em casa dos meus pais há várias câmaras antigas e modernas.

O meu pai não assistiu à era digital. Provalemente iria achar que é bom para quem não sabe tirar fotografias.
Teria razão, não sei, mas a verdade é que me deixou o gosto pela fotografia e, apesar de não saber nada do assunto, ele transmitiu-me a vontade de apanhar pequenas histórias.
Recebi este livro recentemente e não consegui deixar na pilha de livros que tenho para ler.
Günter Grass escreveu a(s) sua(s) história(s) de família através da Box uma Agfa. Não obstante ter outro livro dele para ler este ganhou novo significado.
O trecho escolhido foi a pensar no meu pai que adorava tocar piano. Nunca teve um piano de cauda mas vertical ou de parede (não sei se é assim que se diz) era onde ele extravasava as suas alegrias e tristezas.
Ao meu pai. xxxxxxxxxxxO desenho é do escritor.




Günter Grass, A Caixa, Histórias da câmara escura, Lisboa: Casa das Letras, 2008, página 45. (trad. Paulo Rêgo)

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