O último dia de Agosto No último dia resta sempre um vazio, do que não se fez..., do tempo que passou, do relógio com horas vagarosas; da lentidão morna do Verão quente.
O último dia de Agosto
pesa sobre os nossos olhos, sobre a nossa cabeça livre... de obrigações, de acordar todos os dias à mesma hora, de percorrer os mesmos caminhos; solta o grito desesperado de que não termine.
O último dia de Agosto
é como o café vazio, com encontros por realizar, promessas por cumprir, bebidas por tomar, tertúlias por concretizar, lembranças por gravar.
O último dia de Agosto
é apenas o último dia de féria(s), nostalgia.
UNHA E CARNE
Cavaquear sobre nós laboriosamente atados,
sendo que a unha, em certos casos,
se parte a rir;
à corda contudo pesam
sonhadas situações de rutura.
Günter Grass, Sobre a Finitude.(Tradução João Bouza da Costa).Lisboa: D. Quixote, 2016, p. 152
Agradeço a todos a presença simpática, logo que possa retribuirei os comentários.
«Primeiro bati a algumas portas, rodei maçanetas, depois perdi-me nos corredores, passando por ateliers fechados, subi e desci escadas.
Ainda ouço a minha passada, vejo o vapor da minha respiração no edifício gelado, transformado em frigorífico de vários andares. Não quero esmorecer e devo ter travado um diálogo comigo mesmo, para dar coragem: Não desistas, aguenta! Pensa no teu camarada Joseph, que disse: "A Graça divina não nos cai do colo...", quando de repente, ia eu já a caminho de regresso, dou de caras com a arte na figura de um velho homem que igualava a imagem de um pintor que passava nos tempos do cinema mudo. (...)
Um momento só para lembrar-me, para agarrar na cebola. Afinal, naquele minuto do destino tratava-se de fazer ou não fazer, mais decisivo ainda: de ser ou não ser. O que é que ela diz na camada que transpira?
(...) Ainda hoje ouço na íntegra o aviso decepcionante do professor de arte: "Estamos fechados por falta de carvão."»
Günter Grass, Descascando a cebola. Autobiografia 1939-1959. Cruz-Quebrada: Casa das Letras, 2007,p. 228-229.
Maçanetas com estilo
Estadio de noche
Lentamente ascendió el balón en el cielo. Entonces se vio que estaba lleno el graderío. En la portería estaba el poeta solitario, pero el árbitro pitió fuera de juego
Günter Grass,
Textos traducidos por Miguel Sáenz, Poemas seleccionados de lo libro "Las ventajas de las gallinas de viento" de 1956. Daqui.
Descascando a cebola, com a arte de interpretar o que vai no íntimo da alma humana, o elo solitário e comum de uma nação e de circunstâncias únicas e inequívocas. Uma curva na estrada, uma viagem constante ao passado, um ajuste de contas...
Descascando lentamente,
a casca fina, veios que se fragmentam,
na história trágica e humana:
lágrimas... pérolas perdidas.
A verdade, nua e crua, confessa
a dignidade consumada.
Assim vejo e sinto o livro de Günter Grass, a quem vi algumas vezes no Centro Cultural de S. Lourenço, em Almancil, no Algarve.
Jacob Collins, Green Onions, Still life, 2004 daqui
A cebola tem muitas camadas. Existem em maioria. Mal é descascada, renova-se. Cortada, provoca lágrimas.Só ao descascá-la fala verdade. (...)
Uma palavra puxa a outra, Sculden e Schuld, dívidas e culpa. Duas palavras tão próximas uma da outra, tão firmemente enraizadas no solo féril da língua alemã, apesar de se conseguir resolver a primeira, atenuando-a, através de pagamento - nem que seja em prestações, como fazia a clientela da minha mãe que comprava a fiado -, a culpa, porém, tanto a comprovável como a escondida, ou aquela que apenas se suspeita, essa fica. Faz tiquetaque sem parar, e mesmo nas viagens a nenhures lá está ela no seu lugar, à espera. Recita a sua pequena sentença, não teme repetições, faz-se esquecer, por longos períodos, magnânima, e hiberna em sonhos. Permanece como sedimento, não pode ser removida como uma mancha, sorvida como uma poça. Aprendeu desde cedo a procurat refúgio, confessada na concha de um ouvido, a tornar-se mais pequena do que pequena, num nada, fazendo-se passar por prescrita ou há muito perdoada, mas está afinal, assim que a cebola desaparece camada, após camada, inscrita nas camadas mais novas: às vezes com letras maiúsculas, outras como frase subordinada ou nota de rodapé, às vezes é claramente legível, outras ainda aparece em hieróglifos que, quando muito, podem ser decifradas a custo.
Günter Grass, Descascando a cebola. Autobiografia 1939-1959. Cruz-Quebrada: Casa das Letras, 2007,p. 11 e 33.
"Pagliacci" de Leoncavallo, Placido Domingo, versão do filme de Franco Zeffirelli, 1981.
Desde pequena que convivo com máquinas fotográficas. O meu pai andava sempre com uma fosse para onde fosse. A película era a forma de reter as histórias de família. Em casa dos meus pais há várias câmaras antigas e modernas.
O meu pai não assistiu à era digital. Provalemente iria achar que é bom para quem não sabe tirar fotografias. Teria razão, não sei, mas a verdade é que me deixou o gosto pela fotografia e, apesar de não saber nada do assunto, ele transmitiu-me a vontade de apanhar pequenas histórias. Recebi este livro recentemente e não consegui deixar na pilha de livros que tenho para ler. Günter Grass escreveu a(s) sua(s) história(s) de família através da Box uma Agfa. Não obstante ter outro livro dele para ler este ganhou novo significado. O trecho escolhido foi a pensar no meu pai que adorava tocar piano. Nunca teve um piano de cauda mas vertical ou de parede (não sei se é assim que se diz) era onde ele extravasava as suas alegrias e tristezas. Ao meu pai. xxxxxxxxxxxO desenho é do escritor.
Günter Grass, A Caixa, Histórias da câmara escura, Lisboa: Casa das Letras, 2008, página 45. (trad. Paulo Rêgo)