Detalhe de O Desterrado, Soares dos Reis, 1872
Tenho que retomar o peso e a medida da palavra humana, quanto mais não seja para dizer com clareza que estamos a matar as almas à custa de pôr o homem a falar em voz alta e a fazê-lo viver desse discurso estéril. Que estamos a cair numa astenia geral, numa sociedade de fantasmas que, à custa de dizer palavras perderam a linguagem do ser. Gostaria de tentar redescobrir as ribeiras subterrâneas e as orações secretas que se diziam baixinho, as meias palavras que evocavam o estofo misterioso do tempo, as palavras segregadas dos amantes que comunicavam talvez a pulsação do cosmos, talvez a linguagem e o silêncio de Deus.
António Alçada Baptista, Os Nós e os Laços, Lisboa: Editorial Presença, 1985, p. 127.
António Alçada Baptista, Os Nós e os Laços, Lisboa: Editorial Presença, 1985, p. 127.