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15/07/2012

A arte do Retrato para a Margarida!

Columbano Bordalo Pinheiro, Retrato de Ida Bordalo Pinheiro e Virgínia Lopes de Mendonça (1910) 



[Columbano] Mostra-nos uma sobrinha sentada, virada de frente, concentrada sobre a leitura de um livro, enquanto atrás de si, espreita a outra sobrinha, encarando furtivamente o espectador. A que está a ler é provavelmente Virgínia (1881-1969), que foi escritora de contos infantis. As duas estão elegantemente vestidas, em traje de passeio, denotando a efemeridade do momento captado, o que é comum a muitos retratos de mulheres na obra de Columbano (...).
O quadro foi pintado de uma forma larga, sem detalhe, num estilo vaporoso que recorda os retratos de Besnard ou de Sargent, que Columbano admirava. (...) Na obra de Columbano não havia a mesma leveza mundana que existia nas obras de outros artistas (Sargent ou Boldini, por exemplo), e os seus retratos são geralmente ensombrados pelo peso da realidade. 

Margarida Elias, Columbano no seu Tempo (1857-1929), Tese de doutoramento apresentada na Universidade Nova, Lisboa,.  p.319-20


Margarida Elias, na sua tese, defendeu brilhantemente as influências internacionais e a especificidade da pintura de Columbano Bordalo Pinheiro.
Sendo apenas uma apaixonada pela arte deixo, à Margarida, uma visão sobre pintores do crítico de arte Fernando Flórez que julgo se pode aplicar a Columbano.
Gosto muito deste retrato de Ida e de Virgínia pois tem uma atmosfera tão interessante!
Obrigada Margarida pelo barco de Papel. :)


István Orasz, Horror vacui (horror ao vazio), 2006*

El artista avanza, retrocede, se inclina, entorna los ojos, se comporta con todo su cuerpo como um accesorio de su ojo, se convierte entero en órgano de visión, enfoque, regulación e puesta a punto.

Fernando Castro Flórez (crítico de arte), El dibujo como forma de pensamiento,Catálogo da exposição nulla dies sine, Dibujo Español Contemporáneo, Madrid:Ministerio da Cultura, 2010, p.17. 





* Juntei a ilustração de István porque joga com as palavras de Flórez.

09/07/2012

"Vivemos num paradigma errado"

No Jornal de Letras li uma entrevista interessante sobre Cultura e Crise. Dela retirei este trecho:

"JL: Numa época de grande crise, porque é que a cultura é importante?


Jorge Barreto Xavier: Vivemos num paradigma errado sobre a presença da cultura na vida das diferentes sociedades. Pensamos e agimos como se a cultura fosse algo que só se pudesse cumprir quando outras coisas estão alcançadas. Hoje a coesão social exige e necessita como prioridade a construção de identidades e perspetivas societárias comuns. E isso só pode ser conseguido através da cultura. Esta não pode ser vista como algo que se dá quando tudo está resolvido. Aliás, se pensarmos assim, nem resolvemos as outras coisas. A questão da cultura, independentemente de ser política e pública, deve ser vista como preponderante no debate público- A cultura gera emprego, visibilidade, competitividade económica e riqueza. "

Ler mais: http://visao.sapo.pt/jorge-barreto-xavier-a-cultura-e-a-crise=f673519#ixzz2017Trka


28/06/2012

Manual da Pintura e da Caligrafia

István Orosz

O Manual da Pintura e da Caligrafia de José Saramago é uma interessante abordagem ao jogo de espelhos barroco. A duplicidade entre o "eu" retratado e o "eu" real, ou como o pintor o vê, espanta o leitor. É um belo exercício entre a escrita e a pintura. É uma metáfora entre a realidade intrínseca do eu e o eu como deseja ser visto. A personagem principal chama-se S. O livro é uma viagem ao interior de nós mesmos, usando a linguagem comparativa entre a escrita e a pintura. Está a ser uma boa surpresa ler este livro.


O ilustrador húngaro, István Orosz, na mesma linha de Escher, aborda a realidade ilusória que liga tão bem, a meu ver, com o Manual de Saramago. Ou seja, é a simbiose perfeita entre o "eu interior e o "eu" retratado que se vê da janela.

Tenho dois retratos em dois cavaletes diferentes, cada um em sua sala, aberto o primeiro à naturalidade de quem entra, fechado o segundo no segredo da minha tentativa frustrada, e estas folhas de papel que são outra tentativa, para que vou de mãos nuas, sem tintas, nem pincéis, apenas com esta caligrafia, este fio negro que se enrola e desenrola, que se detém em pontos e vírgulas, que respira dentro de pequenas clareiras brancas e logo avança sinuosa, como se percorresse o labirinto de Creta ou os intestinos de S. (interessante: esta última comparação veio sem que eu a esperasse ou provocasse. Enquanto a primeira não passou de uma banal reminiscência clássica, a segunda, pelo insólito, dá-me algumas esperanças: na verdade, pouco significaria se eu dissesse que tento devassar o espírito, a alma, o coração, o cérebro de S. : as tripas são outra espécie de segredo.) E tal como já disse logo na primeira página, andarei de sala em sala, de cavalete em cavalete, mas sempre virei dar a esta pequena mesa, a esta luz, a esta caligrafia, a este fio que constantemente se parte e ato debaixo da caneta e que, não obstante, é a minha única possibilidade de salvação e de conhecimento.

José Saramago, Manual de Pintura e Caligrafia, Lisboa: Caminho, 2006 (6ª edição), p. 45-46.


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