Tecnologia versus Humanidade, é um velho debate, um debate intemporal, chegou-me através de um marcador. Porém, é a realidade que nos cerca, a inteligência que nos toca, mas nada chega para apagar a beleza da rosa.
Tecnologia versus Humanidade, o Robot e a Rosa
Estou cansado da inteligência.
Estou cansado da inteligência. Pensar faz mal às emoções. Uma grande reacção aparece. Chora-se de repente, e todas as tias mortas fazem chá de novo Na casa antiga da quinta velha. Pára. meu coração! Sossega, minha esperança factícia! Quem me dera nunca ter sido senão o menino que fui... Meu sono bom porque tinha simplesmente sono e não ideias que esquecer! Meu horizonte de quintal e praia! Meu fim antes do princípio! Estou cansado da inteligência. Se ao menos com ela se percebesse qualquer coisa! Mas só percebo um cansaço no fundo, como baixam internas Aquelas coisas que o vinho tem e amodorram o vinho.
18-6-1930
Álvaro de Campos, Livro de Versos (Edição crítica. Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993, p. 125.
“Beije-me ele com os beijos da sua boca: Porque teu amor é melhor do que o vinho”
Cântico dos Cânticos, Bíblia
Há muito, muito tempo, beijar era um acto que se dividia em várias dimensões. Tudo podemos sistematizar e organizar julgando que assim criamos conhecimento. Os romanos tinham 3 tipos de beijos: o basium, trocado entre conhecidos; o osculum, dado apenas em amigos íntimos; e o suavium, que era o beijo dos amantes.
No beijo ao anel dos bispos ainda temos uma herança do mundo romano. Contudo, é o suavium que aqui nos interessa, a mesma raiz linguística que nos remete para o belo texto religioso musicado para coros por muitos dos mais magistrais mestres em composição.
Ao contrário da mundivivência latina, hierarquizada e quase por castas, o beijo nos lábios, na boca, remete-nos para o campo da partilha, e não da hierarquia. No beijo todos são iguais. No beijar, as duas bocas são a imagem da igualdade na dádiva.
E o que são dois amantes? Recordo um amigo que há uns meses dizia numa conferencia que a base da palavra francesa para conhecimento era exactamente a ideia de «nascer com...». "Connaître" = "con"+"naître". No fundo, só conhecemos aqueles com quem nos damos de tal forma que tornamos a nascer. Se o êxtase sexual pode ser solitário, o beijo dificilmente é masturbatório. Há sempre um outro no beijar. É sempre com...
Há beijos que ficam na memória. A intensidade, a doçura, tudo neles nos deixa recordações inesquecíveis. Os lábios, a pele, os jeitos de entrega e de partilha. Sim, recordo a imagem do texto gnóstico em que o beijo de Jesus a Maria Madalena era... de amante ou de transmissão de sabedoria?...
Mais que igualdade, o beijo é, de facto, conhecimento – e agora não o cartesiano, não hierarquisador, mas interior, do ser irrepetível que cada um expressa no beijo. É do campo da Verdade, o in vino veritas, ou inebriamento desse mesmo néctar como o Cântico dos Cânticos nos indica.
O beijo possibilita, numa catadupa de sentimentos, aceso ao íntimo, ao recôndito e tantas vezes escondido ou esquecido. O beijo marca. Um beijo deixa marca como a que ficara no ombro – “toquei-te no ombro e a marca ficou lá”, dizia Sérgio Godinho; se esse toque tivesse sido um beijo, desejo eu, Estrela!
No limite, na troca de um beijo intenso, nas humidades e fluídos variados, há um renascer com a parceira, há um baptismo vivido, uma imersão, na intensidade do Eu e do Tu que se misturam.
Sim, o Beijo é um conhecimento que é entrega, porque partilha. É o «Com» que dá sentido. Um sentido recíproco que torna todos os momentos verdadeiramente únicos, irrepetíveis e de constante re-nascimento.
Renascer, crescer, viver. Tudo se conjuga com beijar.»
Antes de mais, porém, como distinguiremos amizade e amor? A distinção que mais espontâneamente nos ocorre - é que o amor exige relações sexuais ou sempre tende para elas. Portanto implica uma poderosa acção dos sentidos. A amizade, não. Também espontâneamente nos ocorre que o amor é uma afeição mais intensa, mais apaixonada, mais exclusivista. Consequentemente, porventura mais efémera. Ao passo que a amizade é mais serena e persistente, - porventura menos egoísta por isso mesmo mais da ordem intelectual e do moral. Perfeitamente se concebe (e a realidade no-lo faz admitir) que um indivíduo tenha simultâneamente várias amizades. Muito mais difícil nos é aceitarmos que tenha simultâneamente vários amores. (...)
José Régio, Confissão de Um Homem Religioso. Porto: Brasília Editora, 1971, (volume póstumo) p. 159-160.
Uma partilha após o comentário de Bea ao poema Câmara Clara.
Leituras junto ao pelourinho (datado de 1620), Ourém
Pietro Rotari, detalhe, Jovem com livro, (pinterest)
Nos quatro anos de vida do blogue é a primeira vez que celebro o aniversário.
Tomei contacto com a blogosfera em 2008, depois de vir de Roma. A atitude com que principiei foi fugaz.
No início, o (In)Cultura funcionou como uma espécie de registo que possibilitava a gravação sem ocupar a memória do meu disco rígido.
A primeira visitante assídua foi a Margarida de Memórias e Imagens. Obrigada pelo estímulo e convivência! :)
Cabe-me agradecer a todos a passagem e as mais-valias que deixam.
Estou muitoooooo grataaaaa! :)))
ana
Nestas férias li um livro que me tocou imensamente: "cartas a Sandra" de Vergílio Ferreira. São cartas como o próprio título indica mas não são mera prosa, são, acima de tudo, um poema e hino ao amor.
O que é o amor?
Deixo esta imagem:
Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar. Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, Lisboa: Bertrand, 1999, p. 36
A partir de agora este blogue segue o novo acordo ortográfico. :(
A simple rose / in a test tub, falling down / like a star.
Aproxima-te; fiquemos por momentos em silêncio. Olha para esta rosa sobre a minha mesa; não é a luz que a rodeia tão tímida como a que brilha sobre ti? Também ela não devia estar aqui. No jardim lá fora, não misturada comigo, devia ter ficado ou partir, - agora dura assim: o que é para ela a minha consciência?
Versos de Rainer Maria Rilke retirados do Requiem por uma Amiga, in As Elegias de Duíno, Lisboa: Assírio & Alvim, 2002, p. 123.(Tradução de Maria Teresa Dias Furtado)
Origada JJ do blogue Substante.
E porque me deu saudades de ouvir Bjork e a sua voz envolvente.