O livro de Maria Teresa Horta, A Dama do Unicórnio foca numa abordagem poética as seis tapeçarias quatrocentistas do Museu de Cluny, actual Museu da Idade Média, em Paris. As tapeçarias localizadas pelo arqueólogo Prosper Marimée no castelo de Boussac seduziram vários escritores e poetas, tais como: George Sand; Balzac; Jean Cocteau, Rilke, Marina Tsvétaïeva e Hilda Doolittle.
A beleza da poesia e da arte representada são verdadeiro alimento.
A Dama do Unicórnio é composta por seis tapeçarias que representam os cinco sentidos:
«Paladar», «Audição», «Olfacto», «Visão» e «Tacto»
A Coroa de Flores e o odor.
Deslaçam-se os perfumes
no cume dos sentidos
Desacertando tudo
deixando tudo inteiro
voltam depois diluindo o ar
Para logo tornarem
aguçando os cheiros
Primeiro são as fragrâncias
das treliças dos cravos
Depois vêm as rosas
na cesta de flores
Nos odores da água
mas também nas do corpo
a desencadear desejo no topo
Desenredadas que estão
as essências do êxtase
Do orgasmo
e do grito
do pudor já desfeito
No pecado e no vício
no ardor satisfeito.
MTH, na obra assinalada, in Olfacto, s/nº de página.
Não nos aproximamos, sem dar por isso, mais silenciosamente da tapeçaria seguinte logo que notamos que a figura feminina está como que absorta? Ela está a fazer uma grinalda, uma pequena coroa redonda de flores. Pensativa escolhe a cor do cravo seguinte na salva que a aia lhe estende, enquanto vai prendendo o anterior. Ao fundo sobre um banco, está um cesto de rosas intactas, que um macaco descobriu.
Rainer Maria Rilke,As Anotações de Malte Laurids Brigge, Lisboa: Relógio de D’ Água, 2003 (tradução e prefácio de Maria Teresa Dias Furtado), pp. 130-131.
The Lady and the Unicorn (John Renbourn) performed by Anton Pinna