Mostrar mensagens com a etiqueta Artur Portela (Filho). Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artur Portela (Filho). Mostrar todas as mensagens

08/02/2011

... a primeira ave

Se tivesse asas agora voava!
x
Albrecht Dürer (1471-1528). "A Asa de uma Rola", 1512

Norbert Wolf, Dürer, Taschen, 2006, p.40.

36

Chegou, branca, quase só asas, a partir de perto
muito mais rápida, a primeira ave.
Sombreou-o.
Caiu, pousou, asa aqui, asa ali, um pouco desamparada.
Restolhadamente, ansiosa e veemente.
Depois, mais duas.
Sucessivamente, mais quatro, seis, sete, nove.
Pareciam grandes saias de mulher.
Mais todas.
Batucando na terra.
Raspando, vasculhando, desarrumando a terra.
A última atingiu-o com o peso inesperado, mas
mole, seco, surdo, e depois totalmente o cobriu com
a sua larga asa.
Desenrodilhou-se, libertou-se.

Artur Portela, A ração do céu, Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 62

16/01/2011

A ração do céu

Será que todos temos direito a um céu?
x
Hieronymus Bosch, detalhe do Jardim das Delícias Terrenas, 1504

Óleo sobre madeira, 220 × 195 cm, Museu do Prado, Madrid

Uma fábula poética e satírica onde o escritor "vem dizer que a guerra é o prolongamento da fome por outros meios, designadamente o da abundância". (Nota dos editores).

A ração do céu
3
Tinham-lhe dito que todas as terras tinham de ter um céu, senão não seriam terras, porque as terras sem céu sempre o vento as levou em busca do que lhes faltava e sem o qual caíam num desfiladeiro sem fim, nem fundo. (...)
Tinham lhe dito que esse céu se distinguia do céu porque, quando queria era verde, e que, se o quisessem prender numa rede, se transformava em peixe, que era como uma ave, mas com asas muito pequenas, debaixo dos olhos, junto do bico e toda coberta de unhas sobrepostas e brilhantes.

Artur Portela (filho), A ração do céu, Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p.14.

Lisa Markley sings and J. Paul Slavens plays piano

Arquivo