Se tivesse asas agora voava!
x
Albrecht Dürer (1471-1528). "A Asa de uma Rola", 1512
Norbert Wolf, Dürer, Taschen, 2006, p.40.36
Chegou, branca, quase só asas, a partir de pertomuito mais rápida, a primeira ave.
Sombreou-o.
Caiu, pousou, asa aqui, asa ali, um pouco desamparada.
Restolhadamente, ansiosa e veemente.
Depois, mais duas.
Sucessivamente, mais quatro, seis, sete, nove.
Pareciam grandes saias de mulher.
Mais todas.
Batucando na terra.
Raspando, vasculhando, desarrumando a terra.
A última atingiu-o com o peso inesperado, mas
mole, seco, surdo, e depois totalmente o cobriu com
a sua larga asa.
Desenrodilhou-se, libertou-se.
Artur Portela, A ração do céu, Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p. 62