
A destruição é evidente em tudo o que nos rodeia, é um processo fácil. A construção é que é muito difícil. À nossa volta, o que há é ódio, morte:o universo é um predador. Uma das únicas coisas que combate esta entropia é a vida. Junta células, junta organismos, cria cidades, aglomerados. O resto desfaz-se. Lutamos nós, seres vivos, com todas as nossas forças, contra o ódio à nossa volta, mas o que prevalece é aquela Dresden de 1945. Bastou um momento de ódio para ela cair desfeita em cinzas. Um momento de amor não a fará reerguer-se, para isso é necessário um esforço imenso. Lutamos então contra a maior força do cosmos, contra aquilo que o caracteriza, contra aquilo que ele faz: expandir-se. O universo expande-se, mesmo nos momentos de ócio. Isso quer dizer que separa tudo, faz com que todas as coisas se afastem, se dissolvam. O amor vai juntando as peças que pode - como um velho reformado a jogar dominó - e o universo está aqui para baralhar outra vez.
Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka, Lisboa: Quetzal, 2010, p. 173.
Afonso Cruz, A Boneca de Kokoschka, Lisboa: Quetzal, 2010, p. 173.
Kaouru Wada