De Chirico, Nostalgia of the Infinite, 1913
Oil on canvas. The Museum of Modern Arts, New York, USA
(…) a Primavera vestia-se de verde, a neve era branca, o céu azul; as flores das árvores frutíferas pareciam nuvens e ele continuava com sede. Depois, a neve deixou de brilhar; as flores das árvores frutíferas perderam o seu aspecto de nuvens; eram mosquitos. Os Himalaias escondiam-se sob um manto de pó, e ele cada vez mais sentia mais sede. Depois, o lago desaparecia também; a neve derretia-se; as flores das árvores frutíferas tombaram; as estações sumiram-se na distância, e ele próprio ia desaparecendo, levado num remoinho de flores, provocado pela tempestade, até às montanhas, onde, agora, a chuva ia tombando. Mas aquela chuva, que só caía sobre as montanhas, não lhe saciava a sede. Nem ele, afinal, se encontrava nas montanhas (…) Contudo, a sua sede continuava por saciar. Talvez porque ele estivesse a beber, não água, mas claridade e promessas de claridade – como é q ele poderia estar a beber uma promessa de claridade? Talvez porque não estivesse a beber água, mas uma certeza de luminosidade – mas como é que seria possível estar ele a beber luminosidade? Certeza de luminosidade, promessa de claridade, de luz, de luz, de luz, sempre luz, luz, luz, luz!
Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, Lisboa: Relógio de Água, 2007, p.127-128
Obrigada Manuel Poppe!