14/03/2010

Um poema sem verbo!

Gustav Klimt,The Sunflower, detail, 1907.
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Oil on canvas. 110 x 110 cm. Private collection.

um gueto, uma imagem
um quadro, uma ideia
uma descrença, tristeza
um écran, uma janela

três dimensões, três virtudes:
xxxxSabedoria
xxxxxxxxxxAmor
xxxxxxxxxxxxxxVerdade

pensamentos soltos
desconexos
ao sabor do sol
e sem verbo.

13/03/2010

O Silêncio

J M W Turner, Norham Castle Sunrise, 1835-40
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Oil on canvas, 78 x 122 cm; Clore Gallery for the Turner Collection, London

O Silêncio

Ouço a maresia distante,
a ondulação agitada e enraivecida.
As areias queimam
e as dunas tornam-se intransponíveis.

Na paleta de Turner
os ocres contracenam
com o azul do mar revolto.
Não há Terra só existe o mar

São cinco da tarde:
esperei por ti, contando
os segundos e os minutos...
Mas não apareceste...

Só apareceu o silêncio
que o relógio conta
e o vazio das areias .

Vi uma sombra
mas ela era
o silêncio vestido de névoa.

09/03/2010

Onde os tons de sépia imperam!

Pierre Puvis de Chavenne, O Balão, 1870

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Museu D'Orsay, Paris

"O balão parece estar parado no ar enquanto a terra voa lá em baixo."

08/03/2010

Estrelas Cadentes

A chuva caía batendo
de leve no charco
como as cordas dedilhadas
de uma guitarra.
Os acordes são melódicos
é uma canção de amor
trova de um cavaleiro
que chega a sua casa.

A chuva bate devagarinho
na minha janela,
faz estradas de luz
como se fossem estrelas cadentes

07/03/2010

Beijos

Há palavras que nos beijam
Diz o poeta,
caídas do céu,
sem mais nem menos

Olho para o céu,
a nuvem branca passa de leve,
e leva com ela
os meus beijos

Olho mais uma vez
para ver o meu pássaro,
mas ele hoje não vem
nem deixa os meus beijos!

Há palavras que nos beijam, Alexandre O'Neill

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

Se duvidas que teu corpo - António Botto

Se duvidas que teu corpo

Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha
–Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

António Botto

Paul Delvaux!

Paul Delvaux é um pintor belga ligado ao surrealismo.
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Paul Delvaux, Le Robe de Mariée



28/02/2010

A Taça de Chá, Almada Negreiros

Auto-retrato, 1927
Óleo s/tela, Colecção particular, Lisboa
A Taça de Chá

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.
Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ella.
Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.
A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in 'Frisos ", Revista Orpheu nº1, Ano I - 1915.

Brinquedos de papel III.

Um dos brinquedos de papel que achava graça era o papagaio de papel. Na Figueira da Foz, que é uma praia ventosa, lançava o papagaio para ele voar. Não era muito eficiente e a criada andava sempre atrás de nós. Na escola aprendi a fazer um papagaio verde mas ele nunca voou.

Brinquedos de papel II.

Outro brinquedo de papel que recebi quando era pequena foi uma caixa de Origami para aprender a fazer várias figuras.


Brinquedos de papel I.

Théodore Géricault, Étude de pieds e de mains, 1818-19

Óleo sobre tela 52 x 64 cm, Musée Fabre de Montpelier, Montpelier, France

Eu ontem vi-te..., Ângelo de Lima

Eu ontem vi-te
Andava a luz
do teu olhar, que me seduz
a divagar
em torno de mim.
E então pedi-te,
não que me olhasses,
mas que afastasses,
um poucochinho,
do meu caminho,
um tal fulgor.
De medo, amor,
que me cegasse,
me deslumbrasse
fulgor assim.

Ângelo de Lima, retirado da net.

Quiet and Solitude

skies as they are
and mountains they change
and wilow and creepers
and anonymous trees
that converse with one another;
the gentle wandering wild
and migrant birds;
colours as they come
and a quiet home and solitude and peace;
clear air
and space round oneself where time and events abide at rest-
ah, these are ample for one

Raj Arumugam

Lacrimosa...

Jeong Sheon (1676-1759), Quietude e Solidão,
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«... a beleza da arte é geralmente incomunicável».
---
George Kubler (1990).


25/02/2010

O ser ou uma flor...

Thomas Cooper Gotch, (1854 - 1931) Death the Bride, 1895
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Oil on canvas
"O ser ou uma flor nascem em muitas direcções"


Fernando Guimarães in Algumas Palavras - Poesia Reunida, Lisboa: Quasi, 2008, p. 303.

23/02/2010

Um Colar para dois pescoços.- Dino Valls!

Ao passar pela Casa Improvável encontrei um pintor que desconhecia. Fiz então, uma viagem virtual e fiquei com uma ideia mais definida do pintor Dino Valls. Nasceu em Zaragoza, em 1959. Tirou a licenciatura em Medicina e dedicou-se à pintura. Vive em Madrid. Escolhi um quadro dele cuja influência radica na escola italiana e flamenga. Dino Valls estudou a técnica do ovo e tempera utilizada pelos pintores dos séculos XVI e XVII.

Dino Valls, Rorschach, 1991
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Temple de goma arábiga y óleo/ tabla 30 x 40 cm, Colección particular, Madrid

Um colar para dois pescoços é assim que eu intitulo esta tela que adorei.

17/02/2010

Claire de Lune - Paul Verlaine!


Claire de Lune

Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.
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Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,
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Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.
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Ao piano Mária Kovalszki

Message Personnel!

Au bout du téléphone, il y a votre voix
Et il y a des mots que je ne dirai pas
Tous ces mots qui font peur quand ils ne font pas rire
Qui sont dans trop de films, de chansons et de livres
Je voudrais vous les dire
Et je voudrais les vivre
Je ne le ferai pas,
Je veux, je ne peux pas
Je suis seule à crever, et je sais où vous êtes
J'arrive, attendez-moi, nous allons nous connaître
Préparez votre temps, pour vous j'ai tout le mien
Je voudrais arriver, je reste, je me déteste
Je n'arriverai pas,
Je veux, je ne peux pas
Je devrais vous parler,
Je devrais arriver
Ou je devrais dormir
J'ai peur que tu sois sourd
J'ai peur que tu sois lâche
J'ai peur d'être indiscrète
Je ne peux pas vous dire que je t'aime peut-être


Mais si tu crois un jour que tu m'aimes
Ne crois pas que tes souvenirs me gênent
Et cours, cours jusqu'à perdre haleine
Viens me retrouver
Si tu crois un jour que tu m'aimes
Et si ce jour-là tu as de la peine
A trouver où tous ces chemins te mènent
Viens me retrouver
Si le dégoût de la vie vient en toi
Si la paresse de la vie
S'installe en toi
Pense à moi
Pense à moi

Mais si tu crois un jour que tu m'aimes
Ne le considère pas comme un problème
Et cours, cours jusqu'à perdre haleine
Viens me retrouver
Si tu crois un jour que tu m'aimes
N'attends pas un jour, pas une semaine
Car tu ne sais pas où la vie t'emmène
Viens me retrouver
Si le dégoût de la vie vient en toi
Si la paresse de la vie
S'installe en toi
Pense à moi
Pense à moi.

Mais si tu...


Melancolia...sonhos...

Georges Moustaki-Il y'avait un jardin

La Solitude - Moustaki

Georges Moustaki Ma Solitude 1966

16/02/2010

Flor para Alberto Caeiro - Menino Jesus



Para celebrar o centésimo post: o Menino Jesus de Alberto Caeiro


Poema do Menino Jesus


Num meio-dia de fim de Primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu tudo era falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas -
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque nem era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter.
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E que nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!

Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o Sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar para o chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou -
"Se é que ele as criou, do que duvido." -
"Ele diz por exemplo, que os seres cantam a sua glória,
Mas os seres não cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres."
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braços
E eu levo-o ao colo para casa.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
E por isso é que eu sei com toda a certeza
Que ele é o Menino Jesus verdadeiro.

E a criança tão humana que é divina
É esta minha quotidiana vida de poeta,
E é por que ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre.
E que o meu mínimo olhar
Me enche de sensação,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.

A Criança Nova que habita onde vivo
Dá-me uma mão a mim
E outra a tudo que existe
E assim vamos os três pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que é saber por toda a parte
Que não há mistério no mundo
E que tudo vale a pena.

A Criança Eterna acompanha-me sempre.
A direcção do meu olhar é o seu dedo apontado.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
São as cócegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tão bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo íntimo
Como a mão direita e a esquerda.

Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convém a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo o universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deixá-la cair no chão.

Depois eu conto-lhe histórias das coisas só dos homens
E ele sorri porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do Sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos dos muros caiados.

Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno até ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar
Até que nasça qualquer dia
Que tu sabes qual é.

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam ?

Alberto Caeiro

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