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22/03/2026

Sol!

 Sol, finalmente, sol! 

František Dvořák   Lady With Book In Garden, 1892

Detalhe


Margaridas...F.Foz




Para comemorar o dia da poesia e da Primavera, com atraso. 

Quando o sol encoberto vai mostrando
Ao mundo a luz quieta e duvidosa,
Ao longo de huma praia deleitosa
Vou na minha inimiga imaginando.

Aqui a vi os cabellos concertando;
Alli co'a mão na face, tão formosa;
Aqui fallando alegre, alli cuidosa;
Agora estando quêda, agora andando.

Aqui esteve sentada, alli me vio,
Erguendo aquelles olhos, tão isentos;
Commovida aqui hum pouco, alli segura.

Aqui se entristeceo, alli se rio:
E, em fim, nestes cansados pensamentos
Passo esta vida vãa, que sempre dura.

Obras completas de Luis de Camões (1843, v. II) 

04/08/2017

O tempo e os homens

O tempo, os homens e o mar...
O mar é sempre o mesmo, 
                                    o da nossa "infância",
livre das mudanças e dos tempos,
bate nas rochas, traz a sua espuma e o seu cheiro a maresia.

Passado, Grande Hotel da Figueira, arquitecto Inácio Peres Fernandes (inaugurado em 1953)

Passado, João de Barros, poeta, nasceu na Figueira da Foz

Presente, Eurostars Hotels, inaugurado em 2014, (passado?)
 arquitectos António Monteiro,  Pedro Santos

Presente


26/07/2016

Soneto despojado


Soneto despojado

o mar rasgou este silêncio descomunal
que se sente no interior da terra...
ausência das palavras
escritas numa pauta em espiral.

as linhas convergem como se Escher
as desenhasse a preto e branco
onde as promessas não cabem,
dançando translúcidas ao acaso.

frases helicoidais pairam no ar
sem destino
como se em espuma se tornassem.

na secretária está o porta cartas vazio,
adormecido,
soneto despojado.

25-07-16
ana






15/11/2015

A voz do mar

Nem o mar ao longe, nem as árvores serenas,
acalmaram a tarde de Outono, quebrada pela notícias francesas do atentado islâmico.



Foto de Thibault Camus/AP
Em honra das vítimas do atentado, Cafetaria Carillon, Paris

Homem se emociona diante de objetos de tributo deixados em frente à cafeteria Carillon, em Paris, onde um dos ataques terroristas ocorreu (Foto: Thibault Camus/AP)

O lançamento do livro de poesia : Não sei se o Vento de Rui Miguel Fragas, um amigo, na Biblioteca Municipal da Figueira da Foz.



A voz do mar 

pertence ao mar. E o  canto dos pássaros não te
pertence. Ouve os pássaros e ouve o mar e o vento
que sopra ao longe. Escuta os sinos da tua voz, lá
dentro do teu peito: há em tudo o que escutas

o mesmo rumor.

Mesmo que seja só uma promessa de sílaba uma
vogal apenas ou o rasto de uma vogal. Mesmo que
não chegue para dizer o teu nome, mesmo

que não chegue para me chamar.

O que está dentro do teu peito é mais do que tu: e o
que ouves é sempre mais

do que és capaz de dizer. A demora da luz e os
rituais da distância têm voz

mas não têm nome.

Só o rosário do silêncio me chama e ainda sou
capaz de ouvir as baleias do outro lado do mundo.
Só sei responder ao vento: por isso se me chamares

não te responderei.

Não queiras mais nada para além dessa sílaba
adiada, dessa vogal ou eco e do eco dessa vogal.

O teu nome é um nebuloso sussurro: vem de longe
e vai para longe, para lá de todas as luas de 
saturno. És uma invocação sem apelo.

não tens nome quando te chamo.

 Rui Miguel Fragas, Não sei se o Vento.Óbidos: Poética Edições, 2015, p. 61.

Na apresentação do livro, o Rui disse que o mundo é em si poesia.
Respondo só o é para quem a vê. Poucos são os que a vêem, perdoem-me a arrogância.
A escolha do poema inscreve-se no nome anónimo dos que morreram no atentado  em França. O mar é agora a sua liberdade, mas pagaram-na bem cara.

A minha homenagem às vítimas do atentado de sexta-feira 13 em Paris: que a vida não seja apenas as folhas mortas que caem...,
na voz de Yves Montant



12/11/2013

Faróis distantes


Faróis distantes,
Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite, no convés, que consequências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar...
Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
A vida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande.
Faróis distantes...

30-4-1926
Álvaro de Campos,  Poesias. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 26.

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