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29/01/2016

O Gesto

O gesto e a sombra


Só nos Pertence o Gesto que Fizemos

Só nos pertence o gesto que fizemos
não o fazê-lo como, iludida,
a divindade que em nós já trouxemos
supõe errada (e não) por convencida.

Porque o traçado nosso em breve cessa,
para que outro o recomece e não progrida;
que um gesto em ser gesto real se meça,
não está em nós fazê-lo, mas na Vida.

Assim o nada a sagra quando finda
porque o que é, só é o não ainda.


Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

26/01/2016

A estrela

Celebram-se os 100 anos do nascimento de Virgílio Ferreira no próximo dia 28 de Janeiro.
Antecipo-me na homenagem porque comecei a ler um conto do escritor para crianças, comprado na Bertrand neste Domingo de eleições.

Detalhe da ilustração de Júlio Resende 
(fotografia minha)


O conto intitula-se A Estrela e é ilustrado por Júlio Resende. É uma publicação bonita em tons de
azul. Do conto, disseram-me que era triste. Não sei, pois apenas li o princípio enquanto esperava pelo transporte, e começa assim...

Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que não a tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse dar à mãe para enfeitar o cabelo.Devia-lhe ficar bem no cabelo.

Vergílio Ferreira, A Estrela. Lisboa: Quetzal, 2009, p. 9.



25/08/2012

E que é afinal um rosto "belo"?

Audrey Hepburn em terras vizinhas de nuestros hermanos


E que é afinal um rosto "belo"? Que organização dos seus elementos se implica aí, para a beleza oscilar, passada uma raça diferente? A beleza de um rosto é a nossa criação, fundada no contacto ou participação dos elementos que o constituem.

Vergílio Ferreira, Arte Tempo,  edições rolim, sd.,  p. 12, (direção da coleção Eduardo Prado Coelho)

O meu agradecimento especial à Cláudia, da Livraria Lumière, que fez chegar este livro ao meu conhecimento!

09/08/2012

4 anos e Vergílio Ferreira

Na praia

Nos quatro anos de vida do blogue é a primeira vez que celebro o aniversário.
Tomei contacto com a blogosfera em 2008, depois de vir de Roma. A atitude com que principiei foi fugaz.
No início, o (In)Cultura funcionou como uma espécie de registo que possibilitava a gravação sem ocupar a memória do meu disco rígido.
A primeira visitante assídua foi a Margarida de Memórias e Imagens. Obrigada pelo estímulo e convivência! :)
Cabe-me agradecer a todos a passagem e as mais-valias que deixam.
Estou muitoooooo grataaaaa! :)))
ana

Nestas férias li um livro que me tocou imensamente: "cartas a Sandra" de Vergílio Ferreira. São cartas como o próprio título indica mas não são mera prosa, são, acima de tudo, um poema e hino ao amor.
O que é o amor?
Deixo esta imagem:

Tenho algumas fotografias tuas, mas o que procuro nelas não está lá. E é decerto por isso que raramente volto a vê-las. Porque tu  nunca foste real para eu te poder amar. E é essa irrealidade amada que estremece na minha comoção e no êxtase leve de te imaginar.

Vergílio Ferreira, Cartas a Sandra, Lisboa: Bertrand, 1999, p. 36


A partir de agora este blogue segue o novo acordo ortográfico. :(

23/07/2012

"É preciso"

Porto


É preciso atravessar o medo o deslumbramento o impossível. 

 Vergílio Ferreira, em nome da terra, Lisboa: Bertrand, 2004, p.117

19/07/2012

A fragrância das rosas

Há alturas em que precisamos de cheirar as rosas porque o perfume que nos rodeia não tem qualquer fragrância. 

John William Waterhouse, The Soul of the Rose or My Sweet Rose, 1908


Colhe à passagem uma flor sem se deter, no ondeado da aragem que a leva. E na outra mão segura contra o peito um açafate de mais flores. Mas tudo nela é aéreo e dócil.

 Vergílio Ferreira, em nome da terra, Lisboa: Bertrand, 2004, p. 127

17/07/2012

Colo de pedra


Detalhe, Escultura do edifício do Museu do Louvre, Palácio do Louvre




Como é extraordinário que o sentir mais intenso não se saiba dizer.

 Vergílio Ferreira, em nome da terra, Lisboa: Bertrand, 2004, p.160.


16/06/2012

"Deslumbramento"

Sandro Botticelli, Detalhe de Vénus e Marte,  c. 1485, The National Gallery, Londres



Sorri um pouco, sorri. Na perene juventude do teu imaginar. Flor aérea que para sempre te ficou. Lembra devagar o teu sorriso de outrora no teu deslumbramento. E sê feliz. 


 Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa: Bertrand, (7ª edição), 2004, p. 152
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Alguém se lembra?


Um cover  dos Placebo

06/06/2012

"Sim, a arte..."

Leonora Carrington (b.1917),  Ulu's pants, 1952


«Sim, a arte esclarece-nos sobre o significado de uma época, é o ponto terminal da sua expressão. Mas neste jogo do ovo e da galinha, como saber quem começou? A arte apura a água que a vida lhe forneceu e depois há-de beber - escrevi um dia».

Vergílio Ferreira, Pensar, Lisboa: Bertrand (7ª edição), 2004, p.151.

06/03/2011

Carnaval imaginário


Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram.
No Carnaval desmascaram-se.

Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente 5" in citador


09/02/2011

"Os limites da condição humana"

William Blake, Christ in the Sepulchre, guarded by Angels, about 1805.
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Pen and ink and watercolour on paper.

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Os limites da nossa condição... Como é espantosa a sua descoberta! Ela é paralela da morte daquilo que descobrimos: só depois da falência das nossas invenções nos descobrimos a nós, os inventores.
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Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, Lisboa: Quetzal, 2010, p. 63

12/11/2010

Vergílio Ferreira versus William Blake!

William Blake, Jacob's Ladder to Heaven, c. 1800

Watercolour, Bristish Museum, London

"Sabemos que o céu estava vazio ao terminarmos a sua escalada. Sabemo-lo porque vimos não da luz que vem das coisas, mas da força iluminadora que irrompe de nós próprios e da nossa presença".

Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, Lisboa: Quetzal, 2010, p.52

William Blake retrata o sonho de Jacob, do Livro do Genesis, 28,12

05/09/2010

"O sentimento estético".

«O "sentimento estético" da vida não é uma "distracção" ou "um prazer" nem afirma bem uma qualidade do mundo que nos foi dado habitar: é a qualidade do que nesse mundo é vida, é a sua exaltação, e portanto invenção plena da beleza. O sentimento estético da vida não é um museu de estátuas e de telas e de ficções literárias: é a dimensão de uma vivência profunda, o reconhecimento do que supera o imediato, lhe descobre a harmonia obscura, nos permite uma íntima comunhão».
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Évora, Dezembro de 1957.
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Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, Lisboa: Quetzal, 2010, p. 92-93.

29/08/2010

Vergílio Ferreira...

Melo, 7 de Setembro

Inteira
no sabor
de uma dor.
Verdadeira
na cor
de uma flor
Exacta em cada momento,
e no instante do movimento
mentida
-Vida

Vergílio Ferreira, Diário Inédito, Lisboa: Quetzal, 2010 p.117

28/08/2010

Pensamentos...

Já há uns anos que não lia Vergílio Ferreira e dele só conhecia os romances e contos. Gostei bastante deste regresso e irei beber dos seus ensaios. O escritor foi ao encontro do meu pensamento sobre Sartre.
Agradeço a c.a. que me colocou este livro no caminho!
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"Sartre é inteligente. Distrai-me a finura com que abre veredas insuspeitadas na alma humana. E esta esperteza basta-me para encher os ocos das minhas ocupações. Mas tal como Kant, Sartre esquece a vida real e histórica. É espantoso como homens deste tamanho são assim distraídos. (…) A doutrina da liberdade de Sartre creio que pode resumir-se nisto. Nós somos o que somos porque somos assim. E somos assim porque nos escolhemos deste modo".

Vergílio Ferreira, Diário Inédito, Lisboa: Quetzal, 2010 p.128

10/04/2010

Nudez... Vergílio Ferreira

Vergílio Ferreira nasceu em Melo, Gouveia. Revisitei este livro após ter lido na Casa Improvável uns trechos de outro livro do mesmo autor.

"Mas a vida está cheia do seu dom original e só espera de nós um pouco de atenção, - ou não bem de atenção, não bem de atenção: um pouco de humildade, de uma íntima nudez. Eu o reconheço de novo, a esse dom, nesta hora de chuva em que escrevo".

Vergílio Ferreira, Carta ao Futuro, Lisboa: Bertrand, 1981, p. 14

Para APS.

06/04/2010

Vergílio Ferreira - Carta ao Futuro!

Depois de passar pela Casa Improvável, lembrei-me de colocar este trecho, uma das facetas de Vergílio Ferreira.
Auguste Toulmouche, The Letter.
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Colecção privada

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"Meu amigo:
Escrevo-te para daqui a um século, cinco séculos, para daqui a mil anos... É quase certo que esta carta te não chegará às mãos ou que, chegando, a não lerás. Pouco importa. Escrevo pelo prazer de comunicar. Mas se sempre estimei a epistolografia, é porque é ela a forma de comunicação mais directa que suporta uma larga margem de silêncio; porque ela é a forma mais concreta de diálogo que não anula inteiramente o monólogo. Além disso, seduz-me o halo de aventura que rodeia uma carta: papel de acaso, redigido numa hora intervalar, um vento de acaso o leva pelos caminhos, o perde ou não aí, o atira ao cesto dos papéis e do olvido, ou o guarda entre os sinais da memória. Por sobre tudo, porém, agrada-me falar desde o centro deste Inverno e desta cidade mortal que me cercam. Ouço as vozes subterrâneas à alegria mecânica, aos passos cronometrados, à azafama de nervo e esquecimento que adivinho ao longe, numa metrópole-síntese construída em arame e cimento, e é bom que essas vozes ressoem na minha boca".
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Vergílio Ferreira, Carta ao Futruro, Lisboa: Bertrand, 2003, p.98 (1ª edição 1958)

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