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28/12/2013

Venturas

Este Natal tive a ventura de substituir o velho portátil por um novo. Um presente inesperado. O meu velho companheiro tinha como fundo o tríptico Jardim das Delícias, de Hieronymus Bosch, com os dois volantes fechados, como se pode ver na primeira imagem. O novo portátil foi-me oferecido com A Paisagem de Inverno com Patinadores (2) de Hendrick Avercamp, segunda imagem.

O velho amigo

O novo amigo

Estou indecisa quanto ao fundo a escolher. Se por um lado, A Paisagem de Inverno com Patinadores (2) me encanta, por outro, O Jardim das Delícias de Bosch tem-me acompanhado diariamente e passou por algumas provas...

A juntar a esta ventura há uma história feminina muito prosaica, ligada às compras de Natal. Reconheço que a infantilidade é um traço que, por vezes, salta apagando a racionalidade desejável. Quando andava a arranjar os presentes de Natal vi um adereço pelo qual me apaixonei, era baratinho, pode até ser de menos bom gosto, mas para mim não foi; comprei uma ostra que trazia uma pérola, simplesmente abri-la e ver a surpresa do tesouro encontrado resultava na delícia das delícias. [Gostei sempre de histórias de tesouros ...].
A pequena ostra trouxe a pérola do sucesso. Ligo a esta pérola o sucesso de ter ganho este novo portátil.


23/06/2013

Viagens...

Hieronymus Bosch, detalhe de O Jardim das Delícias,(1480-1505) painel central, Museu do Prado
(Wikipedia)*
File:Hieronymus Bosch - The Garden of Earthly Delights - Prado in Google Earth-x2-y1.jpg


Formou Deus o homem, e pôs num paraíso de delícias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs num inferno de tolices.
O homem - não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, apertando e forçando, em seus moldes de ferro, aquela pasta de limo que no paraíso terreal se afeiçoara  à imagem da divindade-, o homem, assim, aleijado como nós o conhecemos, é o animal mais absurdo, mais disparatado e incongruente que habita na Terra.

Almeida Garret, Viagens na Minha Terra. Circulo de Leitores, 1987, p. 123.

Detalhe do volante direito do Jardim das Delícias*
File:Hieronymus Bosch - The Garden of Earthly Delights - Prado in Google Earth-x4-y1.jpg

No blogue de Lídia Borges, Searas de Versos, li um trecho do livro de Saramago, A Viagem a Portugal.  A leitura levou-me a procurar o livro na Biblioteca Municipal. 
Eis que ao folheá-lo, na primeira página que antecede o índice, li a dedicatória:
A quem me abriu as portas e mostrou caminhos
- e também em lembrança de Almeida Garret,
mestre de viajantes.

Estando na biblioteca, logo procurei o livro de Garret que li há alguns anos. Numa leitura transversal deparei-me com o trecho que transcrevi. Olhei para o horizonte, para todos os que se deixam corromper quer na política, quer numa outra atividade, e faça-se jus a Garret que magistralmente descreve a natureza humana.
Não pude deixar de sorrir, ao olhar para trás, e aperceber-me que não dei a importância que as Viagens na Minha Terra merecem. O brilhantismo académico, o humanismo e a eloquência são apanágio do grande escritor.

Quanto a Saramago, a sua Viagem a Portugal prende a nossa atenção. Pegamos na mochila, na máquina fotográfica e cada momento retratado na escrita transforma-se em realidade. Não supera Garret, nem é essa a intenção, a singularidade de cada escritor marca a sua genialidade.

Pátio das Escolas, Universidade de Coimbra

Fotografia retirada da Wikipedia
File:Universitat de Coïmbra - Sala d'actes.JPG

Enfim, esta é a Universidade de Coimbra, donde muito terá vindo de Portugal, mas onde algum mal se preparou. O viajante não vai entrar, focará sem saber que jeito tem a Sala dos Actos Grandes e como é por dentro a Capela de São Miguel. O viajante às vezes é tímido. Vê-se ali, no Pátio das Escolas, rodeado de ciência por todos os lados, e não ousou ir bater às portas, pedir esmola de um silogismo ou um livre-transito para os Gerais. Junte-se  a esta cobardia a convicção profunda eem que está o viajante de que a universidade não é Coimbra, e perceber-se-á por que a este Pátio das Escolas se limita a dar a volta, sem gosto pelas estátuas da Justiça e  daFortaleza que o Laprade armou na Via Latina, mas de gosto rendido diante do portal manuelino da Capela de São Miguel, e tendo entrado pela Porta Férrea por ela tornou a sair.

José Saramago, Viagem a Portugal. Lisboa: Caminho, 1995 (11ª edição), p. 137.

A Universidade de Coimbra foi consagrada pela UNESCO Património Mundial [para nossa alegria].

12/10/2012

Chocolate

Pastelaria de Budapeste.
O pecado

Há uns tempos confundi o filme Chocolate (realizado por Lasse Hallström) com A Fantástica Fábrica de Chocolate (realizado por Tim Burton). Tive a oportunidade de rever "Chocolate" e lembrei-me bem da diferença.
Os dois filmes têm em comum:
- O protagonista Johnny Depp, um ator que muito aprecio pela personalidade que incute aos personagens;
- O chocolate, daí a confusão ser legítima. 
Todavia,  do segundo filme citado não guardo especial memória mas do primeiro, guardo: a tolerância, o respeito pela diferença, o vento do Norte que tiveram o condão de me encantar.
Porque adoro chocolate, principalmente, o negro, registo uma viagem ao mundo dos chocolates.



Audrey Hupburn uma das minhas atrizes favoritas afirmou:


Let's face it, a nice creamy chocolate cake does a lot for a lot of people; it does for me. 
(Imagem daqui)

Juliette Binoche no filme

O narrador do filme Chocolate inicia assim a história:

Once upon a time, there was a quiet little village in the French countryside, whose people believed in Tranquilité - Tranquility. If you lived in this village, you understood what was expected of you. You knew your place in the scheme of things. And if you happened to forget, someone would help remind you. In this village, if you saw something you weren't supposed to see, you learned to look the other way. If perchance your hopes had been disappointed, you learned never to ask for more. So through good times and bad, famine and feast, the villagers held fast to their traditions. til, one winter day, a sly wind blew in from theNorth...
Retirei daqui

Quando nos sentimos no deserto o chocolate é terapia!:))



Depois do chocolate vem sempre a culpa...

Detalhe da mesa dos Sete Pecados Capiatais, A Gula, de Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid.
A imagem foi retirada do site do museu e o detalhe feito por mim.

18/05/2012

Dia dos Museus - Máximas pessoais

No dia dos Museus escolho um que já não visito há muito tempo: o Museu do Prado.
E porque os museus servem para educar o gosto, beber a beleza, fazer pensar e provocar - objectivos quanto a mim essenciais - aqui fica uma peça bastante irreverente.

Máximas pessoais:
- Foge:     

1. Do fel;
2. Da sobranceria;
3. Da fraternidade casual.



Hieronymus Bosch, Mesa dos Pecados Capitais , Museu do Prado, Madrid, daqui 

 Tenho alguns dos pecados que estão pintados nesta bela mesa* . Gostava de me focar no centro do universo dela:
"Cuidado, cuidado, Deus vê"!

*[avareza, soberba, gula, ira, inveja, preguiça e luxúria]

05/04/2012

Em torno das "Tentações"

Ando a ler o livro de Tabucchi, Requiem. Perguntei-me porque será que o autor escolheu este quadro para a capa?

Ao abrir na página 67, comecei a ler a história e estava tudo explicado. A tela de Bosch: Tentações de Santo Antão era a história que se ia contar.

Com grande desapontamento meu vi que não estava só, em frente das "Tentações" havia um copiador, com cavalete e tela, que estava a trabalhar. Não sei porquê, mas desagradava-me estar em companhia, teria gostado de ver o quadro sozinho. sem outros olhos que olhassem ao mesmo tempo que os meus, sem a presença ligeiramente incomodativa de um desconhecido. (...)

O pintor copiador só pintava detalhes e há dez anos que pintava "detalhes da Tentação". A solidão que o narrador pretendia não a teve mas aprendeu mais sobre o quadro do que todas as vezes que o revisitava sozinho.

Só aprendemos porque vivemos com os outros?
Ou nem sempre a solidão é a melhor forma de vermos o que pensamos que queremos ver?

Há sempre mestres mesmo quando pensamos que eles não estão presentes...

Agradeço à Cláudia, da Livraria Lumière, que me arranjou a 1ª edição deste livro. :)


Hyeronimus Bosch, Tentações de Santo Antão, 1505-1506 (MNAA)


Volante esquerdo

Radiografia de um detalhe da tela Outro detalhe radiografado

e mais outro.

Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



26/02/2011

"La raison..."

Duas visões sobre as Tentações de Santo Antão distantes no tempo. Onde é que mora a beleza? O que os une e os afasta?
Estas são as questões que me surgiram ao ler a citação de Victor Hugo que hoje faria anos. Nasceu em Besançon a 26 de Fevereiro de 1802 e faleceu em Paris em 1885.


Hieronymus Bosch, detalhe de As Tentações de Santo Antão,
painel esquerdo do tríptico: Ascensão e Queda de Santo Antão (c.1510)



Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
x
Max Ernst As Tentações de Santo Antão (António), 1945
x
Óleo sobre tela. 108 x 128 cm. 108 x 128 cm, Wilhelm-Lehmbruck Museu, Duisburg, na Alemanha


La raison, c'est l'intelligence en exercice ; l'imagination c'est l'intelligence en érection.

Victor Hugo Faits et croyances

Rameau -〈Platée〉"Soleil, fuis de ces lieux" (Acte 1, Scène 6) / Marc Minkowski

16/01/2011

A ração do céu

Será que todos temos direito a um céu?
x
Hieronymus Bosch, detalhe do Jardim das Delícias Terrenas, 1504

Óleo sobre madeira, 220 × 195 cm, Museu do Prado, Madrid

Uma fábula poética e satírica onde o escritor "vem dizer que a guerra é o prolongamento da fome por outros meios, designadamente o da abundância". (Nota dos editores).

A ração do céu
3
Tinham-lhe dito que todas as terras tinham de ter um céu, senão não seriam terras, porque as terras sem céu sempre o vento as levou em busca do que lhes faltava e sem o qual caíam num desfiladeiro sem fim, nem fundo. (...)
Tinham lhe dito que esse céu se distinguia do céu porque, quando queria era verde, e que, se o quisessem prender numa rede, se transformava em peixe, que era como uma ave, mas com asas muito pequenas, debaixo dos olhos, junto do bico e toda coberta de unhas sobrepostas e brilhantes.

Artur Portela (filho), A ração do céu, Lisboa: Editorial Notícias, 2001, p.14.

Lisa Markley sings and J. Paul Slavens plays piano

21/12/2010

Aceita o Universo

Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias (com os dois volantes fechados), 1500 a 1504, segundo algumas citações.
Museu do Prado, Madrid

Aceita o universo
Como to deram os deuses.
Se os deuses te quisessem dar outro
Ter-to-iam dado.


Se há outras matérias e outros mundos —
Haja.

Alberto Caeiro, In Poemas Inconjuntos, In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

12/12/2010

Mas tu falas-me de países tão distantes

Onde podem existir unicórnios...
(Contrastes).
x
Hieronymus Bosch, O Jardim das Delícias, detalhe.

Óleo sobre madeira, 220 x 389 cm, Museu do Prado, Madrid

Mas tu falas-me de países tão distantes.
E a minha força com as suas fontes
procura com o olhar os contornos dos montes.

Primeiro Livro, O Livro da Vida Monástica

Rainer Maria Rilke, O Livro de Horas, Lisboa: Assírio & Alvim, 2009, p.109
(trad. Maria Teresa Dias Furtado)

29/06/2010

Hieronymus Bosch.

Bosch e o realismo das personagens. Nesta cena da paixão, Bosch tem uma atitude crítica revelada no contraste entre a apresentação de um Cristo sereno com as personagens grotescas que ladeiam a cena. No centro do quadro está Cristo que carrega a cruz, acompanhado de Santa Verónica, os dois únicos personagens que aparentam distância e calma. Este desequilíbrio tem como objectivo mostar a acumulação do mal, os vícios, a luxúria e as paixões dos homens que condenaram Cristo.
x
Detail, Christ Carrying the Cross

Hieronymus Bosch, Christ Carrying the Cross c. 1490

Oil on panel 76.7 x 83.5 cm - Musee des Beaux-Arts, Ghent

Hieronymus Bosch (Jeroen Anthoniszoon van Aken, c. 1450-1516) é um pintor complexo tal como Pieter Bruegel, o Velho que postei um dia destes. A profusão de personagens, as expressões simbólicas de cada uma tornam os seus quadros enigmáticos e requerem muitas horas de estudo.

Bosch viveu e trabalhou em 'sHertogenbosch, (Bois-le Duc), Holanda, local de onde retirou o seu nome. A cidade onde viveu era uma das quatro maiores cidades do ducado de Brabante que pertencia aos duques de Borgonha.

Notas retiradas de Walter Bosing, Hieronymus Bosch Entre o Céu e o Inferno, Taschen, 2001, p.76-78.

10/06/2010

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas!

Bom dia de Portugal ... escolhi uma écloga de Camões para homenagear o poeta, todos os heróis e não heróis deste pequeno país grande sonho português.
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xHieronymus Bosch, O Campo Tem Olhos, A Floresta Tem Orelhas

Pena e bistre, 20,2 x 12,7 cm, Staatliche Museen Preubischer Kulturbesitz, Kupferstichkabinett, Berlim

Ecloga V

Pastor Solo

XXXX

Já sobre hum seco ramo estava posto
o moucho com funesto, & triste canto:
Ao som delle o Pastor ergueo o rosto,
E vio a terra envolta em negro manto.
Quebrando entam o fio de seu gosto,
E o fio nam quebrando de seu pranto,
Por nam se descuidar de seu cuidado,
Levou para os curraes o manso gado.

Rimas Várias de Camões, (comentadas por Manuel Faria de Sousa), Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, [Edição Comemorativa], 1972, p. 277.

29/04/2010

Hieronymus Bosch

Continuando com o agradecimento a todos os que me seguem e, hoje, em especial para Contador Antropomórfico, CA, uma imagem de Hieronymus Bosch: Cristo Menino, no reverso da pintura de Cristo Homem carregando a cruz. A inocência dos puros e a dor que transporta a culpa dos homens.

Christ Child with a Walking-Frame. Reverse of Christ Carrying the Cross. 1485-1490.




Oil on panel, 57 cm x 32 cm, Kunsthistorisches Museum, Vienna, Austria.

"This rather unusual painting on the reverse of the Christ Carrying the Cross depicts a naked child pushing a walking-frame. This is the Christ Child, whose first halting steps clearly parallel Christ struggling with his Cross on the obverse, while the toy windmill or whirligig clutched in his hand probably alludes to the Cross itself. Thus Bosch gives us a touching picture of Christ in all his human frailty as he begins the road to his Passion."
Nota retirada daqui

17/04/2010

A Nave dos Loucos...

Ao ler umas crónicas de João Bénard da Costa surgiu-me esta associação com a Nave dos Loucos de Brant e de Bosch, uma sátira de 1494 que bem pode aplicar-se, nos nossos dias, à política portugesa...
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Sebastian Brant, Ship of Fools
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Hieronymus Bosch, La Nef des Fous, c. 1510-15

Huille sur bois, 58 x 33 cm, Musée du Louvre, Paris

Fragment du volet gauche d'un triptyque au centre perdu. Volet droit à Washington (La Mort de l'avare). Faces extérieures, en grisaille, à Rotterdam (Le Colporteur). Le tableau du Louvre, coupé en bas, se raccorde exactement à un autre fragment conservé à Yale (Allégorie de la gloutonnerie). Se répondent ainsi avarice et excès, deux aspects de la même folie pêcheresse qui éloigne de Dieu, l'excès étant incarné par une assemblée de gloutons et d'ivrognes voguant à leur perte comme des insensés.
Une promenade insolite

"Un groupe de dix personnages sont réunis dans une barque. Le groupe principal se compose d’un franciscain et d’une religieuse jouant du luth, assis face à face. Ils ont la bouche grande ouverte comme pour chanter mais semblent aussi essayer de mordre, comme leurs compagnons, une crêpe pendue au centre de la petite embarcation, allusion à une coutume folklorique qui consiste à manger une galette suspendue sans les mains. Derrière eux sont assis les deux nautoniers. L’un d’entre eux a, en guise de rame, une louche géante. L’autre tient en équilibre sur la tête un verre et brandit au bout de sa rame une cruche cassée. Aux extrémités, une femme, d’un côté, s’apprête à frapper avec une cruche un jeune homme retenant une gourde qui trempe dans l’eau. De l’autre, sur un gouvernail de fortune, un petit homme en habit de fou boit dans une coupe. A côté de ce dernier, un autre se penche pour vomir. L’assemblée est dominée par le mât surmonté d’un bouquet de fleurs au centre duquel est représentée une chouette ou une tête de mort. Au-dessus flotte une oriflamme avec le croissant de lune musulman. Une oie rôtie est suspendue au mât. La joyeuse compagnie semble à la dérive, un vaste paysage, au fond, s’étend à l’infini".

05/04/2010

À procura de um céu negro encontrei a luz de Hieronymus Bosch!

No quadro de Bosch: Ascesa dei Beati all'Empireo, os anjos são conduzidos à luz divina através de uma passagem cilindríca.
Ascesa dei Beati all'Empireo, Ca. 1490

Olio su tavola, 86.5 × 39.5 cm, Palazzo Grimani di Santa Maria Formosa, Venice.

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