Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor que se despeja no copo da vida, até meio, como se o pudéssemos beber de um trago. No fundo, como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na boca. Pergunto onde está a transparência do vidro, a pureza do líquido inicial, a energia de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa da alma suja de restos, palavras espalhadas num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez, esperando que o tempo encha o copo até cima, para que o possa erguer à luz do teu corpo e veja, através dele, o teu rosto inteiro.
Para atravessar contigo o deserto do mundo Para enfrentarmos juntos o terror da morte Para ver a verdade para perder o medo Ao lado dos teus passos caminhei
Por ti deixei meu reino meu segredo Minha rápida noite meu silêncio Minha pérola redonda e seu oriente Meu espelho minha vida minha imagem E abandonei os jardins do paraíso
Cá fora à luz sem véu do dia duro Sem os espelhos vi que estava nua E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste E aprendi a viver em pleno vento
Sophia de Mello Breyner Andresen, in 'Livro Sexto' (citador)
7-11-1915
“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993). p. 83.
Larghetto & Andante Molto
Ah, ch'infelice sempre
Me vuol Dorilla ingrata,
Ah sempre piú spietata,
Mi stringe à lagrimar.
Per me non v'è ristoro
Per me non v'è speme.
E il fier martoro e le mie pene
Solo la morte può consolar.
Counter-tenor: Andreas Scholl
Ensemble 415
dir.: Chiara Banchini
http://www.harmoniamundi.com/home?vie...
Painting: Portrait of a Young Girl by Pietro Antonio Rotari
Um por um para o mar passam os barcos Passam em frente de promontórios e terraços Cortando as águas lisas como um chão
E todos os deuses são de novo nomeados Para além das ruínas dos seus templos
In «Mar», antologia com poemas de Sophia de Mello Breyner Andresen (com “Nota” de Maria Andresen de Sousa Tavares e “Posfácio” – reedição da primeira recensão feita ao primeiro livro de Sofia, «Poesia», publicado em 1944 – da autoria de Francisco de Sousa Tavares), Editorial Caminho, Lisboa, Fevereiro de 2002 (4.ª edição).
Anderson & Roe's "A Rain of Tears" for two pianos, based on Antonio Vivaldi's "Sento in seno ch'in pioggia di lagrime" ("I feel within a rain of tears")
A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos, sonhando, intacto eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver.
s.d.
Bernardo Soares, Livro do Desassossego. Vol.I,(Organização e fixação de inéditos de Teresa Sobral Cunha.) Coimbra: Presença, 1990. p.221.
Um presente da minha amiga Graça, "pastinhas" da Casa de Infância Doutor Elísio de Moura com poemas que são vendidos na altura da queima das fitas. O dinheiro reverte para a casa que acolhe meninas desde a infância até aos 20 anos. O poema é da Graça.
Flores do campo
da minha janela vejo o vento
que tu não vês
gosto de navegar
no baloiço dos teus olhos
na liquidez das suas palavras
e rio-me
como uma criança inocente
à descoberta do mundo por abrir
sinto o aroma das searas
a entrar-me pelos poros
e escrevo a beleza dos dias tristes
recuso a calmaria das marés
sem gritos e sem pressas
a solidão disfarçada
esse andar devagar
o meu corpo é uma chama ardente
a clamar desesperos poéticos
a poesia é coração
o amor são rosas
Graça Alves
*Ainda lhe quis colocar um título mas achei que era um abuso.
80 Anos da morte de Fernando Pessoa, dia 30 de Novembro de 2015
A escultura “Hommage a Pessoa”, de Jean-Michel Folon, foi inaugurada no 120º aniversário de nascimento do poeta, Largo Teatro S. Carlos
É possível que todos os livros sejam inúteis, se lemos para nos esquecermos de nós, para debelarmos a ferida de existir. Se formos previdentes, os livros também nunca nos magoam. Salvem-se de ler Kafka de madrugada, ou Virgínia Woolf se estiverem internados com uma prancreatite. As pesssoas, sim, essas magoam-nos: são uma dádiva mas também agravam a nossa ferida, escarafuncham nela e fazem-na sangrar.
[sublinhado por mim].
João Tordo, O Paraíso Segundo Lars D. Lisboa: Companhia das Letras, 2015, p. 15
Comecei a ler o Paraíso Segundo Lars D. de João Tordo sem ler duas obras que a antecedem: Biografia involuntária dos amantes e O Luto de Elias Gro.
Talvez fosse importante ter lido os outros livros mas estou a ter um imenso prazer e deleite na leitura deste Paraíso.
Como primeiro livro que leio não sinto a falta dos outros. A narrativa prende, as palavras tocam-me profundamente porque são cheias de conteúdo. As ideias não são novas mas estão escritas pela primeira vez como súmula categórica.
João Tordo é filho do cantor Fernando Tordo, é licenciado em Filosofia e estudou escrita criativa em Londres e Nova Iorque. Venceu o Prémio Literário José Saramago (2008) com a obra: "Três Vidas".
Vou ler mais livros deste escritor pois estou a gostar da amostra.
1º de Dezembro - outrora era feriado em nome dos 40 conjurados que restauraram a independência nos idos de 1640.
Anthony van Dyck, Self Portrait With a Sunflower (after 1633)
Trinity College, Cambridge
II - O meu olhar é nítido como um girassol.
II
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no Mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem o que é amar...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar...
8-3-1914
“O Guardador de Rebanhos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa. (Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor.) Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993), p. 24.
Comprei um livro para a minha colecção intitulada Principezinho. Não é de Saint-Exupéry mas foca-se na sua história. Perguntei-me se o discurso seria lamechas... A consideração é já a imperfeição da minha mente.
O que é um problema? (...) - Um problema é como uma porta para a qual não temos chave. - E o que se faz quando se encontra um problema? - perguntou o jovem, cada vez mais interessado na conversa. - Bem - refleti -, a primeira coisa a fazer é ver se o problema é mesmo nosso, ou seja, se está a bloquear o nosso caminho. (...) - E se o problema for mesmo nosso? - continuou, virando-se para mim. - Então temos que encontrar a chave adequada e introduzi-la corretamente na fechadura. - Parece simples - observou o jovem, acenando mais uma vez. - Nem por sombras - respondi. - Há pessoas que não conseguem encontrar a chave, não por falta de imaginação mas porque não querem experimentar duas ou três vezes as chaves que têm ao se dispor, às vezes nem uma só.
Alejandro Guillermo D. Roemmers, O Regresso do Jovem Príncipe. (Tradução de Elsa Vieira). Alfragide: Leya, (Ilustração da capa de Laurie Hastings), 2011, p. 22-23.
A Chave com que a Rainha Beatriz da Holanda "abriu" o Rijksmuseum após as obras de restauro
Material polished bronze, rosewood dimension 70 x 175 x 50 cm, edition unique piece collection Rijksmuseum, Amsterdam.
Alejandro Guillermo Roemmers nasceu em Buenos Aires em 1958. Tem várias obras publicadas.
D. Alejandro Guillermo Roemmers (Buenos Aires, 1958), autor de las obras ‘El regreso del Joven Príncipe’ o ‘España en mí’ entre otras, acude mañana a la Universidad Pontificia de Salamanca para ofrecer una ponencia sobre ‘El nacimiento de una nueva consciencia universal: éxito, felicidad y espiritualidad’.
Roemmers (íntimo amigo de Jorge Mario Bergoglio) visitó al Papa Francisco en el Vaticano en 2013 y le entregó un poema dedicado especialmente a él titulado ‘Un regalo para Francisco’, que forma parte de su libro ‘La memoria impar’.
Mecenas de las artes, Roemmers se confiesa como absoluto defensor de valores como el amor y la fraternidad e intenta ayudar a mejorar la realidad que nos rodea a través de la educación y la cultura porque, según defiende “no hay nada que cambie más la vida de las personas que los libros”.
Un regalo para Francisco Quise encontrar un obsequio, el más sencillo, el más humilde, el que en su pequeñez pudieras aceptar sin ofenderte. Pensé que podría comprarlo y fui a la tienda pero ningún objeto me conformaba. Entonces escuché una voz santa que me dijo: “…a quien tiene a Dios, nada le falta, sólo Dios, basta.” Creí ser poeta para ofrecerte palabras: pero las hallé superfluas, pomposas, gastadas… Hui de mí y perseverante busqué en la tierra pero hasta una semilla me pareció excesiva pues podría albergar un árbol. Cuando divisé la pradera mi corazón vibró alegre, pero intuí al momento que tú no aprobarías que le restara una sola de sus flores silvestres. Busqué entonces en el mar y no hallé un confín que tu nombre no hubiera alcanzado y en toda su inmensidad sólo tenías amigos. Desafiante, me atreví hasta el abismo y como un cielo vuelto al revés lo encontré poblado de estrellas marinas. Pero cuando tuve una en mis manos creí que no podrías ser feliz sabiendo que cada noche al cielo marino le faltaría esa estrella… Busqué entonces en el aire respetando las abejas, luciérnagas, mariposas y todas las criaturas vivientes, pues tú no querrías detener sus alas ni perturbar su vuelo. Procuré traerte el aroma sosegado y puro de las hierbas, del hogar encendido y los jazmines… pero no pude conservarlos. Quise igualar el canto de la alondra, el murmullo del río, el silbido del viento cuando exhala en los campos profundos… pero mi voz fue demasiado torpe. Por un largo instante logré retener, resbalando por mis dedos, unas gotas del rocío temprano… pero frescas y transparentes retornaron al aire. Quedé entonces en silencio, desconsolado, bajo el azul infinito que mis ojos no podrían reflejar… ¿Francisco, pensé, en tu amorosa humildad, es que no hallaría nada que pudiera agradarte…? De pronto un árbol dejó caer una de sus hojas que se depositó frente a mí en el suelo. Luego otra, que llegó meciéndose en la brisa hasta mis manos que la recibieron sin querer. Luego otra, otra, y otra más, hasta que sentí que el árbol, compasivo, estaba dispuesto a entregarse por entero y desnudar sus ramas con tal de consolarme. Tanto era su amor que brotaron mis lágrimas como un manantial redentor y agradecido. Las hojas del árbol continuaron descendiendo generosas en una bendición inacabable… Entonces pude comprender… y sonreí. Y sonrieron conmigo los campos, las aves y los arroyos. La brisa se detuvo y ya no volvieron a caer más hojas… El regalo que produjo la sensibilidad de aquél árbol es el que ahora quiero ofrecerte: el amor de una sonrisa. Un obsequio humilde y efímero que puedes multiplicar y compartir sin miedo como los panes y los peces, hasta que todos unidos a Jesús habitemos finalmente el Reino de Dios.
Alejandro Guillermo Roemmers, Ciudad del Vaticano, 18/09/13
A perfeição não é alcançada quando não há mais nada a ser incluído, mas sim quando não há mais nada a ser retirado.
Anatole Bisk, também conhecido por Alain Bosquet , nasceu em Odessa (Ucrânia ), a 28 de Março de 1919 e morreu em Paris a 8 de Março de 1998. Viveu em Bruxelas e obteve a cidadania francesa em 1980 (Wikipedia)
Todo el estudio de los políticos se emplea en cubrirle el rostro a la mentira para que parezca verdad, disimulando el engaño y disfrazando los designios.